Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
"Gabinete de Guerra" na Rádio Observador. Estamos no programa em que falamos dos conflitos em curso, sendo que o destaque na atualidade vai para o conflito no Médio Oriente. Hoje também com várias novidades sobre este conflito. Eu sou o Miguel Cordeiro, comigo está Miguel Baumgartner, é especialista em Relações Internacionais. Miguel, bem-vindo à Rádio Observador. Vamos começar com uma posição do Irão desta tarde. Ontem, ao final do dia, na hora de Portugal, ficámos a saber que os Estados Unidos da América estavam a enviar um plano de paz para o Irão com 15 pontos, com várias exigências e algumas cedências. E hoje, a meio da tarde, ficou a saber-se que o Irão terá recusado, terá rejeitado essa proposta de paz dos Estados Unidos da América e que apresentava, sim, cinco condições para acabar com a guerra. Isto foi noticiado pela imprensa estatal iraniana. Olhando para esses cinco pontos, pode ler-se que o Irão quer que os Estados Unidos acabem com esta ofensiva e que deixem o Irão manter o controle do Estreito de Ormuz, entre outras medidas. O que lhe parece este volte face, se é que podemos dizer isso, nesta posição do Irão?
Acima de tudo, há algo que nós podemos dizer já com alguma certeza: que os Estados Unidos não estão a ganhar esta guerra. Se do ponto de vista militar, os Estados Unidos conseguiram ter efetivamente variadíssimas vitórias, supostamente algumas vitórias importantes, como a destruição de parte daquilo que é o programa nuclear e também parte daquilo que é o programa de produção de mísseis balísticos. Sabemos também que tiveram algum sucesso naquilo que foi a eliminação de pessoas importantes, nomeadamente o líder supremo e depois outras pessoas importantes dentro do regime. Mas do ponto de vista político, do ponto de vista de se dizer que esta ofensiva militar chegou a um propósito e que esse propósito era o objetivo político de A, B ou C, não aconteceu. E há aqui uma grande derrota dos Estados Unidos nesta situação, que é: não conseguiu ainda destruir completamente o programa nuclear, a questão dos mísseis balísticos, continua o Irão a disparar mísseis balísticos contra vários alvos no Médio Oriente, nomeadamente Israel, e não conseguiu decapitar de tal forma o regime que permitisse fazer aquilo que foi a grande bandeira, quer de Netanyahu, quer de Trump, que era o trazer a possibilidade para que o povo iraniano assumisse a chefia do poder nas suas mãos e pudesse efetivamente haver aqui um derrubar do regime e uma troca política no Irão. Portanto, isso não aconteceu. E o que me parece, esta tentativa, que é atirar um bocado de barro à parede, por parte do Trump e da administração dos Estados Unidos, na tentativa de que estas 15 exigências, que nada mais é do que aquilo a base, digamos assim, o caderno de encargos reciclado daquilo que eram as negociações que estavam a acontecer em 2024 e principalmente em 2025, nada mais é do que uma tentativa de criar a narrativa, principalmente para dentro de portas, principalmente para os Estados Unidos e para os seus parceiros da NATO, de que "bom, como vocês veem, eu estou a tentar negociar por todas as maneiras, estou a tentar negociar, inclusive dizendo que vou fazer aqui uma parada de hostilidades", como ele disse, que até sexta-feira não atacaria tudo o que fossem centrais elétricas e outras partes da infraestrutura civil iraniana, para que haja uma ideia de que Donald Trump tentou negociar até à última hora, que mais uma vez deu uma abertura ao Irão, mas que o Irão não quis e continuou nesta guerra e que por essa razão ele tem que intervir ainda mais, podendo então chegar-se à possibilidade de termos as chamadas boots on the ground, ou seja, as botas no terreno em uma intervenção militar terrestre, que eu não acredito que seja efetivamente uma intervenção de uma invasão, mas poderemos ter tropas americanas e israelitas a fazer operações especiais. Então há aqui uma conclusão que nós podemos tirar, Miguel, que é: os Estados Unidos, neste momento, estão a perder a guerra política, se conseguem ter um poderio maior na guerra militar, mas na guerra política são derrotados, porque neste momento quem tem a narrativa e quem tem o poder efetivo e capaz de causar o distúrbio econômico mundial que está a causar, é o Irão. Por isso é que o Irão vem, e agora terminando com a sua pergunta, vem dizer que não aceita aquilo que são os 15 pontos, até porque o Irão neste momento não vê vantagem nenhuma em negociar com os Estados Unidos, não só porque da última vez que estava a negociar com os Estados Unidos, os Estados Unidos bombardeou o Irão e atacou o Irão duas vezes, a guerra dos 12 dias do ano passado e este ano, e depois vem fazer aqui pedidos que são extremamente interessantes, quer dizer, o fim imediato das hostilidades, a cessação dos ataques diretos e o compromisso de uma não agressão durante o processo negocial. Veja este ponto, uma não agressão durante o processo negocial. Ou seja, aqui o Irão diz aos Estados Unidos: "Eu não confio na tua proposta, nem confio em ti, porque sempre que eu vou pra mesa das negociações, tu acabas por me atacar mesmo antes de nós termos chegado a um acordo ou não". E depois, o levantamento das sanções econômicas, extremamente importante. Só o facto Só o facto do aumento do preço do petróleo ter aumentado nos últimos dias rendeu já ao Irão cerca de 14 mil milhões de dólares. O presidente dos Estados Unidos disse que ia levantar algumas sanções à distribuição do petróleo iraniano, o que vai criar melhores condições econômicas, ou seja, uma vitória mais para o regime iraniano. E agora está a pedir que sejam levantadas essas sanções econômicas. Sanções econômicas dessas, Miguel, que muitas delas não são nem americanas, mas são europeias. Ou seja, mais uma vez poderá estar aqui a situação de termos o presidente dos Estados Unidos a pedir aos seus parceiros europeus que levantem sanções para ele fazer um acordo com este regime que ele dizia até há muito pouco tempo que era um regime que não poderia existir mais, porque matou 40 mil pessoas na rua entre janeiro e fevereiro, quando foram os manifestantes. Que era um regime que apoiava o terrorismo internacional, etc. Portanto, parece-me que neste momento o Irão tem, como se diz em português, a faca e o queijo na mão.
De facto, depois desta posição do Irão, algumas horas depois, o porta-voz da Casa Branca vem negar que o Irão tenha rejeitado qualquer acordo de paz e veio dizer que as negociações continuam. A porta-voz da Casa Branca, Karoline Leavitt, veio dizer isto. E isto levanta aqui uma dúvida que tem surgido, de facto, nos últimos dias. Donald Trump já falou sobre isto. Disse que é difícil encontrar os interlocutores no Irão, mas os Estados Unidos estão a falar com a pessoa certa. Isto acaba por ser um bocadinho contraditório, vindo até de Donald Trump, que também vai sendo habitual. Mas há esta posição de Donald Trump ontem de enviar um plano de paz pelo Paquistão para o Irão, e depois vêm autoridades iranianas dizer que isso foi recusado e praticamente ao mesmo tempo a porta-voz da Casa Branca a dizer que o Irão não rejeitou o acordo de paz. Afinal, os Estados Unidos estão a falar com quem? Sabe-se com quem é que estão a falar? Podem estar a falar com alguém que não seja as mesmas entidades que estão a dizer que o acordo de paz está a ser recusado? Isto não está aqui um pouco confuso?
Sim, parece um pouco confuso, mas eu vou tentar explicar. E a pergunta do Miguel faz todo sentido. Os Estados Unidos estão a falar com o general Asim Munir, que é, digamos assim, o general top. É o chefe das Forças Armadas do Paquistão, tem um poder muito forte dentro do regime do Paquistão e tem grandes ligações ao regime iraniano. Ele já no domingo teve uma conversa, supostamente uma conversa de mais de uma hora com Donald Trump. E curiosamente, na segunda-feira, o primeiro-ministro do Paquistão teria tido uma conversa com o presidente do Parlamento iraniano e com o ministro dos Negócios Estrangeiros iraniano também. E nessa altura, uma vez que não há canais diretos, mas sim canais indiretos entre o Paquistão, o Omã, o Qatar, a Turquia e o Egito, que andam aqui no leva e traz de recados, porque não há efetivamente uma negociação. Aliás, não é negociação, digamos que isto é uma pré-negociação, é mais ou menos para saber se há disponibilidade, em que pontos é que há disponibilidade para negociar. E nós sabemos que é o Paquistão que tem estado a forçar as duas partes a sentarem-se à mesa, até ultrapassando aqui uma posição que até há pouco tempo nós pensamos que poderia ser a Turquia, que podia ser Erdoğan a fazer esta tentativa de negociação, até pela difícil relação que a Turquia tem com os curdos, e porque a Turquia é extremamente um dos países mais interessados para que não haja uma escalada militar naquela região por esta questão. Agora, não há ainda um acordo direto de negociação, ou seja, não está formada uma base. Nós sabemos que Donald Trump queria ver Steve Witkoff e o Jared Kushner como negociadores, mas da outra parte, a informação que efetivamente saiu era que o Irão gostaria de ter na mesa das negociações, e o Paquistão também disse que gostaria de ter, não o Jared Kushner e o Steve Witkoff, que quer nas negociações do ano passado, depois dos 12 dias de guerra, quer nas negociações da Ucrânia, o resultado tem sido zero. Eles preferiam ter o vice-presidente dos Estados Unidos, o J.D. Vance, acima de tudo por J.D. Vance ser visto também como mais cético em relação à guerra. Ou seja, eles queriam ter do outro lado, para conversar, alguém que eles já sabem de antemão que tem um pensamento muito cético em relação a esta guerra e ligado àquela ala do movimento MAGA, que acha que esta guerra é uma guerra de Israel provocada e que Donald Trump foi, digamos assim, de alguma forma levado por Netanyahu a entrar nesta guerra. E esta é a única coisa que nós sabemos. E sabemos que entretanto, através do Paquistão, foram entregues estes 15 pontos, que foram recusados e voltaram cinco pontos com as exigências para o início de uma negociação por parte do Irão. Portanto, não há negociação. Há aqui uma troca de mensagens entre partes que são feitas por negociações indiretas. E veja-se, Miguel, é o mesmo tipo de negociações que nós vimos nos últimos quatro anos acontecerem com a Ucrânia. Nós nunca vimos a Rússia e a Ucrânia sentarem-se à mesma mesa. Sem termos lá outras pessoas, nós nunca vimos o líder da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, sentar-se diretamente com Vladimir Putin. Não, é sempre por intermédio de outras pessoas, há sempre um terceiro que leva umas mensagens. Parece-me que neste momento, se não ficar muito bem delineado A questão da proteção também do Irão, e veja-se que uma das obrigações que o Irão quer é a questão das garantias credíveis de que existe um apoio e uma proteção por parte dos Estados Unidos, ou seja, umas garantias de segurança, parecido com a ideia do princípio de garantias de segurança que os Estados Unidos têm que entregar ao Irão, porque o Irão sabe uma coisa, e com isto termino este ponto: os Estados Unidos têm interesse em negociar porque estão numa situação complicada, política, nomeadamente interna, em ano de eleições. Há também eleições este ano em Israel, mas em Israel, Netanyahu mais ou menos tem a coisa controlada. Mas Israel não quer este acordo nem quer estas negociações. E já veio dizer que vai continuar a sua ofensiva militar. E o que o Irão agora quer é que os Estados Unidos obriguem Israel a parar esta guerra.
Vamos ver como é que isso corre, até porque há na imprensa iraniana uma suposta nova ameaça por parte de Irão de abrir uma nova frente de guerra no estreito de Bab-el-Mandeb. Que estreito é este, que perigo é que isso teria também para toda a situação global e o que procuraria aqui o Irão?
O Irão tenta fazer uma coisa: controlar as rotas comerciais, o Irão tenta mais uma vez escalar esta guerra o mais possível do ponto de vista econômico. Se o estreito de Ormuz já é efetivamente um estreito super importante, este agora se fosse fechado, então todas as rotas comerciais que vêm da Ásia para o Médio Oriente e que passam naquele ponto ficariam efetivamente fechadas completamente, e nomeadamente aquilo que é a própria distribuição de petróleo ficaria completamente nas mãos do Irão. Ou seja, o Irão sabe que não pode ganhar esta guerra militarmente. Então decidiu desde o primeiro dia que vai transformar esta guerra numa guerra econômica e que o esforço desta guerra não será partilhado só pelo Irão, por Israel e pelos Estados Unidos, mas vai globalizar esta guerra economicamente. O que é que o Irão quer tirar daqui? Faz aqui um garrote econômico enorme, é verdade, mas acima de tudo, o Irão quer provocar uma reação das populações nos países ocidentais. E quer provocar isto sabendo que as pessoas não vão aguentar muito tempo a subida de preços do combustível, do gás, da alimentação, do transporte, da energia. E como não vão aguentar durante muito tempo e como as economias estão ainda fragilizadas desde o tempo da pandemia, e como o Irão sabe também que existe um aumento enorme da própria extrema-direita a crescer nos países, quer seja na Europa, nos Estados Unidos e agora também no sul global, o Irão tenta ganhar nas sociedades civis dos outros países os aliados que precisa. Ou seja, vai haver uma altura e essas populações vão exigir aos seus próprios eleitos que terminem com esta guerra.
Sim, vamos ver como é que corre também. Parece ser uma estratégia do Irão, principalmente de jogar no patamar econômico, que parece estar também a ter resultados por pressionar, de certa forma, os Estados Unidos da América. Para fechar, temos espaço ainda para mais um tema. Vamos falar de António Guterres, que hoje deixou fortes críticas a Estados Unidos da América, a Israel e ao Irão pela guerra que está em curso no Médio Oriente. Diz que isto já foi longe demais. Esta é a expressão de António Guterres. Diz que o impacto é cada vez mais devastador. Guterres que até nomeou um diplomata francês para liderar os esforços da ONU no Médio Oriente. Jean Arnoux é esse novo enviado pessoal de Guterres para liderar os esforços no Médio Oriente. Mas de fato, Guterres deixa aqui mensagens fortes contra esta guerra. Mas Guterres e estas mensagens que tem deixado ao longo dos últimos anos sobre estes conflitos de pouco têm servido. Que papel pode efetivamente ter Guterres ou a ONU em tudo isto e se de fato pode haver mais utilidade no papel de António Guterres perante conflitos destes?
Quer a minha opinião sincera em relação a António Guterres e às Nações Unidas, presumo, não é, Miguel?
Sim, naturalmente.
E, portanto, eu não faço aquele papel que às vezes algumas pessoas gostam, que é por António Guterres ser português, então que eu tinha que ter aqui uma opinião mais positiva. Não. O engenheiro António Guterres matou aquilo que era a função da ONU de ser este grande diplomata internacional que tinha na sua mão, na sua responsabilidade, ser o grande interlocutor neste mundo multilateral de negociações, em que havia efetivamente uma posição por parte das Nações Unidas, muitas vezes respeitada, muitas vezes o secretário-geral das Nações Unidas estava na linha da frente dos acontecimentos. Veja-se, por exemplo, o que aconteceu com a África do Sul, veja-se em Timor-Leste, por exemplo, e em tantos outros conflitos. Mas António Guterres não o fez, porque António Guterres decidiu ter uma agenda ideológica nas Nações Unidas. E essa agenda ideológica destruiu a credibilidade de António Guterres e destruiu a credibilidade das próprias Nações Unidas. E quando Donald Trump, que esvaziou completamente a posição das Nações Unidas ao criar esta nova comissão para a paz, esta comissão internacional que ele criou, em que ele é o grande presidente, com uma quantidade de países, inclusive Portugal também decidiu entrar como país não participante, mas como observador, para dar um pouco a ideia de que aquilo que nós conhecemos que era a função Das Nações Unidas, quer na questão da Ucrânia, quer na questão do Médio Oriente, esfumou-se. Tem pouco interesse. Até porque depois tem outra coisa: as Nações Unidas estão bloqueadas por razão daquela questão de que os cinco membros permanentes do Conselho de Segurança têm a questão do veto. E a partir disso nós sabemos que como o mundo está dividido mais ou menos agora em dois blocos, China e a Rússia de um lado, os Estados Unidos e todos os outros por trás do outro, cria-se esta situação que qualquer veto bloqueia qualquer resolução do Conselho de Segurança. E portanto, também aí, a posição do secretário-geral e das Nações Unidas é completamente nula. Não só os Estados Unidos não querem saber da posição de António Guterres. Eu lembro-me de uma frase muito interessante que eu ouvi outro dia de uma iraniana líder de uma organização não governamental pelos direitos das mulheres no Irão, que dizia onde é que estava o António Guterres em janeiro e em fevereiro, quando cerca de 40 mil pessoas foram assassinadas na rua, quando protestavam pelos direitos, pelas garantias, pela liberdade, pela possibilidade de viver numa sociedade com liberdade e numa sociedade democrática. E nessa altura não se ouviu uma palavra do secretário-geral das Nações Unidas. E portanto parece-me a mim que ele vem dizer isto. É uma verdade lá para ali, claro que sim. Claro que esta guerra tem que terminar. Claro que tem que haver a possibilidade destes países voltarem a sentar à mesa. Claro que nós não podemos continuar nesta escalada económica desastrosa para a economia mundial, mas certamente não são as palavras de António Guterres que vão fazer algum movimento ou que vão fazer com que estes líderes ponham a mão na consciência. Não, é mais, e se me permite terminar com esta frase, é mais uma vacuidade de António Guterres.
Miguel Baumgartner, muito obrigado por mais esta participação no Gabinete de Guerra. Voltamos a analisar os conflitos nesta quinta-feira em mais três edições do Gabinete de Guerra na Rádio Observador.