Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Gabinete de Guerra na Rádio Observador. Já sabe que é aqui que todos os dias analisamos os dois principais conflitos pelo mundo, a guerra na Ucrânia e na Rússia, mas também o conflito entre Israel e Palestina, agora com o Irão também à mistura. Hoje, para nos ajudar a perceber aquilo que se passa no terreno, temos conosco a Daniela Nunes. Daniela, bem-vinda. Vamos começar com a guerra na Ucrânia, sendo que temos uma notícia hoje do autarca de Kharkiv, que diz que há o risco da região se tornar uma segunda Alepo, falamos da cidade da Síria, se não houver ajuda dos Estados Unidos da América. Isto numa altura em que o novo pacote de ajuda militar a Kiev, de 60 mil milhões de dólares, está congelado no Congresso norte-americano. Daniela Nunes, concordas com esta comparação? Isto pode também ser visto como uma pressão que está a ser feita aos Estados Unidos da América.

Viva, boa tarde. Em primeiro lugar, eu acho que é preciso dizer que Kharkiv tem realmente sido muito fustigada pelas forças russas, que neste momento, pelo menos esse é o entendimento no Ocidente, a Rússia parece não estar em condições de fazer uma grande investida nesta região, mas quer pelo menos torná-la inabitável para a população civil, que já agora, só que um dado estatístico, em 2021 era qualquer coisa como 1,4 milhões de pessoas. E como é que a Rússia pretende tornar a cidade inabitável? Destruindo-lhe todas as fontes de energia elétrica, no fundo, para dizimar qualquer possibilidade de fornecimento desta energia às pessoas. Depois, em segundo lugar, há um elemento no discurso ucraniano, que é o da aproximação a uma outra realidade, que é a Síria, onde a Rússia e o governo de Bashar al-Assad também cometeram atrocidades não muito distintas do que temos visto em algumas zonas da Ucrânia, e fê-lo com o intuito, obviamente, de chamar a atenção para a gravidade da situação. Portanto, aqui refiro-me à chamada de atenção do presidente da Câmara.

Sim, o autarca.

O autarca de Kharkiv. O objetivo era chamar a atenção para a gravidade da situação, sobretudo porque esta é uma zona tão próxima da fronteira com a Rússia e que facilita, digamos assim, a hipótese de um avanço mais eficaz por parte das tropas russas, caso elas sejam bem-sucedidas. Portanto, existe uma clara tentativa de alertar os Estados Unidos para estas consequências geográficas do avanço russo, caso os Estados Unidos não apoiem ou não continuem a apoiar o esforço de guerra ucraniano, por causa das suas guerras internas e por causa deste bloqueio em sede de Congresso ao novo pacote de ajuda norte-americana à Ucrânia. Só aqui um aparte, temo que este presidente, o senhor Biden, e sem desprimor nenhum, quer por ele, quer pelo cargo que ele ocupa, temo que ele não seja a personagem política e o homem com, como é que eu hei de dizer, talvez a garra necessária para fazer acelerar este processo de desbloqueio no Congresso. E isso ainda se torna mais preocupante quando sabemos que a alternativa a este homem é um outro com outro tipo de garra, sem dúvida, mas que canaliza essa garra, a meu ver, pro lado errado da história, a saber, a redução do apoio à Ucrânia e a cobrança, quer a cobrança financeira, quer a cobrança moral desse apoio. Portanto, neste momento, creio que estamos aqui num impasse, que quer de um lado, quer do outro, não beneficia exatamente a Ucrânia. Não vejo um cenário muito feliz, nem pendendo pra um lado, nem pendendo pro outro.

Sendo que na semana passada tivemos Donald Trump a apresentar o plano de paz, o suposto plano de paz que vai ter se for reeleito, se voltar a ser presidente dos Estados Unidos. Vamos ter de esperar pelas eleições norte-americanas. Por enquanto, na Ucrânia, Daniela Nunes, há pelo menos 11 mortos e 50 feridos na sequência de um ataque a Chernihiv. Temos visto esta região várias vezes noticiada. Pergunto também qual é a importância de Chernihiv nesta guerra entre Rússia e Ucrânia.

Novamente, o Oblast de Chernihiv está especialmente próximo da fronteira com a Rússia. Portanto, do ponto de vista de uma certa contiguidade geográfica, e aqui contiguidade com G, faz todo sentido para a Rússia que Chernihiv se tenha tornado, e como também confirmam as notícias do teatro de guerra no leste da Ucrânia, e essas que estavas a mencionar, faz sentido que este seja o novo grande investimento das tropas russas. É aqui, de facto, que a intensificação das investidas aéreas da Rússia tem vindo a ser mais notória. E é também nesse sentido que Zelensky já veio apelar aos aliados, pedindo o fornecimento de ajuda militar à Ucrânia o mais rapidamente possível, já que o país está praticamente desfalcado em matéria de defesa aérea. Para termos noção, os últimos ataques da Rússia nesta região, e um bocadinho à semelhança do que estávamos a avaliar em Kharkiv, estes ataques destruíram não só o que já é habitual, casas de pessoas e habitação civil, portanto, zonas residenciais, mas também um hospital, uma escola, dezenas, para não dizer centenas de carros. E isso acaba por confirmar também aqui um certo terrorismo na forma como a Rússia está a investir no seu avanço nesta zona muito concreta, que é Chernihiv, e que tem ganho, como dizias, André, uma importância acrescida, a meu ver, sobretudo porque conquistar este pedaço de terra é, para a Rússia, concluir uma espécie de um encaixe muito valioso, como se de uma peça fulcral do puzzle se tratasse. É um encaixe que vem mesmo a calhar nesta linha de conquistas paulatinas na zona leste da Ucrânia e que, por isso, para a Rússia, é importante fazer esta investida, julgo eu, por uma questão, sobretudo, de contiguidade geográfica.

Vamos passar ao Medio Oriente, vamos falar sobre Palestina, sobre Israel, mas agora também com o Irã à mistura. E começamos justamente por aí, Daniela Nunes. O presidente do Irã, Ebrahim Raisi, voltou hoje a dizer que a mais pequena ação contra o país vai provocar uma resposta violenta, aqui, obviamente, falando de uma resposta militar por parte de Israel Este sublinhado constante que temos visto do presidente do Irão pode significar que o Irão está preocupado e confiante de que Israel vai responder?

Eu acho que o Irão está tão confiante na resposta israelita como nós, tendo em conta que já todos sabemos que ela vai acontecer, só não sabemos quando, nem em que termos. E neste aspecto, há que sublinhar aqui o papel importante, a meu ver, a desempenhar pelos Estados Unidos e por toda a comunidade internacional. Desde 7 de outubro, não é novidade nenhuma, tem vindo a ser mais do que nítida a postura do governo israelita sobre fazer o que quer e ignorar boa parte dos apelos destes aliados, com especial foco no caso norte-americano, pelas razões óbvias. Deixa-me só fazer aqui um parêntesis, o que também só prejudica a própria imagem dos Estados Unidos, que parecem não ter mão neste executivo de Netanyahu. Por isso mesmo, e para que a guerra não se torne um problema que diga respeito ao mundo inteiro, porque um conflito a envolver o Irão é um salto gigante nas consequências trágicas que tudo isto pode ter, é importante que Washington e Biden consigam agora exercer outro tipo de influência, como de resto toda a comunidade internacional, sobre esta postura e estes que têm sido os comportamentos algo inflexíveis da parte do governo em Tel Aviv. Ninguém quer a regionalização deste conflito. Os únicos potencialmente interessados nisso são os linha-dura do governo israelita. E por quê? Porque isso os pode livrar, pelo menos parcialmente, do lugar onde eles têm estado aos olhos da comunidade internacional, que é o lugar, como eu dizia, da inflexibilidade, do desrespeito pelo direito internacional, da desproporcionalidade. Portanto, o que isto rendeu aos próprios israelitas é que o mundo já não está propriamente unido, como já esteve, por esta causa israelita. E só há um responsável por isso mesmo, que é o próprio Israel. Há agora uma intolerância global pela qual só Israel é responsável, e os Estados Unidos têm conseguido fazer pouco para que assim não seja. E além disso, só para terminar, com os avisos do Irão e com a demonstração da parte do Irão relativamente a uma disponibilidade para responder, caso haja uma nova iniciativa hostil da parte de Israel, eu creio que todo este raciocínio sai ainda mais enfatizado. Ou seja, Israel e os seus aliados devem tomar ainda mais consciência do perigo em que podem estar a meter-se, comprometendo a estabilidade global, comprometendo uma ordem mundial que já está hoje colocada em causa e altamente afetada pela guerra na Ucrânia e pelo conflito em Gaza, mas que tem agora a possibilidade de se transformar para pior ainda, caso Israel cometa a inconsciência e a responsabilidade de responder àquilo que foi uma resposta a uma atitude original israelita. Também convém recuar até o dia 1 de abril e perceber o que aconteceu no consulado em Damasco para que o Irão tivesse sentido a necessidade de também traçar as suas próprias linhas vermelhas.

Daniela Nunes, vamos fechar ainda no Médio Oriente e com o mesmo tema, isto porque um porta-voz do Kremlin avançou que a Rússia está em conversações com Israel e também com o Irão para mediar a relação entre ambos. Qual é o interesse da Rússia em ser parte ativa deste conflito, tendo em conta que também já está em outro conflito neste momento?

Sim, há aqui vários pontos de vista e vários elementos muito próprios das relações internacionais que podemos sublinhar. Em primeiro lugar, existe uma tendência, que não está necessariamente errada, para homogeneizar ou para associar os conflitos e as problemáticas internacionais umas às outras. Existe sempre uma leitura da política internacional que é, metaforicamente falando, um comboio com várias carruagens, todas elas unidas umas às outras. E cada uma delas representa um conflito, um problema, um projeto internacional, por aí fora. Às vezes, compreender este comboio é um exercício bastante intuitivo. Parece que o encaixe entre carruagens é muito lógico e fluido. Outras vezes é mais confuso. Mas neste caso muito concreto da Rússia, de Israel e do Irão, há algumas evidências que explicam por que o Kremlin quer ter uma palavra a dizer e, neste caso, por que quer deitar alguma água na fervura no Médio Oriente. Desde logo, por questões de interesses, e nomeadamente aqueles relacionados com dinheiro, compras, exportações. Na sequência do ataque iraniano da semana passada e da espera em que o mundo inteiro ficou para saber qual é que vai ser a resposta israelita, nós sabemos que, pelo menos em parte, o Irão começou a preparar-se e a investir no reforço das suas defesas militares através da compra de armamento russo. A Rússia, que, por seu turno, compra armas ao Irão para combater no teatro de guerra ucraniano. Portanto, estamos aqui a falar de um dos principais fornecedores de material de guerra, designadamente drones, que é uma coisa que ouvimos falar muito, da Rússia na guerra com a Ucrânia. Esse fornecedor é obviamente o Irão. Portanto, há aqui uma simbiose ou uma espécie de relação de conveniência que não convém ao Kremlin perder. E não seria positivo que o Irão se concentrasse agora num conflito às suas portas e que deixasse, por assim dizer, de guarnecer a despensa da Rússia. Depois também há um outro tipo de interesses, que são os interesses ligados à imagem e à adoção de uma postura comumente aceite como a mais correta, que é a de apelar ao não alastramento do conflito, à não escalada da tensão. Portanto, aqui vemos uma Rússia a tentar marcar pontos diplomáticos, sirvam eles para iludir quem quer que se deixe iludir. Que certamente não somos nós aqui em estúdio. Vemos um membro do Conselho de Segurança da ONU, a Rússia, claro, a fazer aqui o seu papel de jogador que tem uma palavra a dizer e cuja posição pode influenciar o rumo do conflito no Médio Oriente. Há aqui uma espécie de lógica de atribuir a si própria algum protagonismo fora da sua área de ação, que neste momento é a Ucrânia. Depois, só para terminar, em terceiro lugar, e isto de alguma forma deriva dos dois primeiros pontos, nós não nos podemos esquecer também que a Rússia está cada vez mais isolada do mundo e isto serve para questões políticas, econômicas, comerciais e sobretudo estas últimas, as econômicas e as comerciais, são muito importantes para percebermos por que a Rússia tem de fazer boa figura noutras regiões do mundo que não a Europa e o Ocidente. Porque a Europa e o Ocidente já lhe cortaram o patrocínio. Através das sanções, mas também da saída de dezenas de empresas e de marcas do mercado russo. Portanto, a Rússia precisa de mercado, e de amizades para não deixar secar a parte da fonte que ainda lhe resta. Pensemos, por exemplo, naquela história da exportação dos cereais e das ofertas muito amáveis, obviamente passa a ironia, as ofertas muito amáveis do Kremlin aos países desfavorecidos em África. Isto é a Rússia a fazer o seu jogo e a salvar a sua própria pele, naturalmente.

Daniela Nunes, obrigado. O Gabinete de Guerra está de volta amanhã, sempre à mesma hora e já sabe que pode também ouvir em podcast em observador.pt.