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Gabinete de Guerra na Rádio Observador, o programa em que vamos analisar alguns dos principais focos de tensão um pouco por todo o mundo. Contamos hoje com a análise da Helena Ferro Gouveia. Muito boa noite, Helena. Seja muito bem-vinda a este Gabinete de Guerra.
Olá, muito boa noite.
Boa noite. Obrigada por ter aceitado o nosso convite. A União Europeia não chegou a acordo sobre a suspensão do acordo de associação com Israel, mas é uma discussão que, de acordo com Kaja Kallas, vai continuar. É que a suspensão do acordo requer unanimidade e apesar de haver vários países a pedir essa medida, nem todos apoiaram. Helena, está na hora da Europa se distanciar de Estados com várias frentes de conflito como Estados Unidos e Israel, ou esta é uma má proposta, na sua opinião? Que análise é que faz?
Esta questão é uma questão bastante complexa. O acordo de associação com Israel é um acordo que a União Europeia tem também com um conjunto de outros países que estão longe de cumprir direitos humanos. Portanto, se o critério fosse apenas violação de direitos humanos, haveria também que pensar acordos que a União Europeia tem com países como, por exemplo, o Egito ou a Tunísia, que estes acordos são para que estes países controlem o fluxo de refugiados para a União Europeia. Naturalmente que há críticas legítimas a ser feitas ao governo israelita e à forma como conduz uma operação militar, embora as guerras sejam sempre bastante complexas e impliquem sempre vítimas civis, vítimas não militares. Nós na Europa, que não estamos habituados a pensar a questão das guerras. Esta suspensão deste acordo tem também aqui, e isso importa dizê-lo, uma agenda política pessoal do primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, que tem feito do combate a Israel, que vai para além daquilo que ele possa pensar acerca do governo Netanyahu e acerca dos excessos na Cisjordânia e acerca de uma série de questões, que é o facto de Pedro Sánchez estar numa situação política interna muito complexa, muito delicada, rodeado de corrupção por todo lado e tem feito aqui do inimigo externo uma espécie de cavalo de batalha para se projetar, quer internamente, quer externamente. A suspensão deste tipo de acordo não exige uma unanimidade, como dizia a Flor Gabiana, mas exige uma maioria qualificada, ou seja, um conjunto de países que representem a maioria dos cidadãos da União Europeia. Isso não foi possível e era expectável que não fosse possível, porque países como a Alemanha, e Friedrich Merz aí foi muito singular ao travar as intenções de Sánchez, se opôs, mas não apenas a Alemanha, também a própria Itália, e apesar de nós termos assistido nos últimos dias a um maior criticismo, e uma vez mais reitero, legítimo, de Meloni em relação ao governo Netanyahu, mas percebe que há aqui muita hipocrisia neste jogo. Porque se a União Europeia quiser, e deve tê-lo, crítica de regimes que violam os direitos humanos, então tem que rever uma série de acordos, sejam eles de associação, sejam eles comerciais, que tem sobre a mesa e fica numa situação diplomática muito complexa.
Sim. Simultaneamente a esta discussão que houve, foi também dia de falar muito das negociações entre Estados Unidos e Irão, numa altura em que estamos em vésperas de terminar o cessar-fogo. J. D. Vance ainda não partiu em direção a Islamabad e Teerão também ainda não confirmou que vá marcar presença. O presidente norte-americano já disse que não vai prolongar o cessar-fogo, mas o Irão diz que está totalmente preparado para o reinício da guerra. Helena, vemos aqui um Irão mais destemido do que Donald Trump estava à espera?
Vemos aqui claramente um Irão a desafiar os Estados Unidos e a desafiar o presidente norte-americano. Aliás, há uma palavra grega que define a situação em que nós estamos neste momento, que é a palavra caos, que em português é caos. E nós temos aqui uma quantidade de declarações contraditórias, de fog of war, de nevoeiro de guerra, de um lado e do outro. Por um lado, sinais de que poderia haver negociações, depois esses sinais são contraditados. Nós também vemos o Irão mergulhado em dissidências internos e há uma competição pelo poder entre aqueles que estão a negociar com os Estados Unidos, nomeadamente o muito pouco recomendável presidente do Parlamento iraniano, que está aqui a fazer o papel de negociador, que está numa competição direta com um dos generais da IRC, da Guarda Revolucionária Iraniana, que é o único que mantém contatos diretamente com o aiatolá Khamenei, com o filho do aiatolá e seu sucessor também, e que defende a linha que não deve haver negociações com os Estados Unidos. Portanto, se não houver uma surpresa de última hora, tudo parece indiciar, se até ainda temos o dia de amanhã, que se não houver aqui uma surpresa, que haverá novamente hostilidades e a guerra se vai reacender e vai retomar. Mas nós vemos aqui, sobretudo, uma escalada retórica, um braço de ferro retórico entre os Estados Unidos e o Irão, sendo que o Irão tem plena consciência que não tem capacidade para vencer militarmente os Estados Unidos, tem a capacidade de fazer aquilo que tem vindo a fazer, que é usar o Estreito de Ormuz e eventualmente, através dos Houthis, Bab-el-Mandeb, eParalisar, dar mais um golpe naquela que é a economia mundial. Portanto, os próximos dias, nós, neste momento, não sabemos, de facto, em que direção vamos. Aliás, o que é muito novo nesta guerra é não conseguirmos aferir a fiabilidade das declarações, nem sequer de um lado, tínhamos um regime terrorista, um regime não confiável, e normalmente o que vem do Irão não é para confiar, mas estávamos habituados a ter confiança ou a dar alguma credibilidade às declarações que eram feitas pelo presidente dos Estados Unidos. E neste momento, devido à discursividade, se quisermos, caótica e errática de Donald Trump, torna-se muito difícil perceber o que é verdade, o que não é, o que não é verdade, onde é que nós estamos neste momento.
E agora que fala precisamente nas declarações de Donald Trump, o presidente disse hoje que espera bombardear o Irão, também na senda daquilo que a Helena estava a dizer. Diz também que o exército norte-americano está pronto para avançar. Acredita, Helena, que o presidente dos Estados Unidos possa mesmo dar este passo, quando até os seus apoiantes já se manifestam contra esta estratégia da administração norte-americana?
Acredito que Donald Trump pensará pela sua cabeça e tomará a decisão de forma isolada, como tem feito já noutras ocasiões, não ouvindo aqueles que são os seus conselheiros. E portanto, se ele considerar que é o momento de retomar o conflito, embora me pareça que ele não o quer fazer neste momento, eu hoje de manhã, quando fazia a análise, fiz uma analogia e há algo em comum entre os Estados Unidos e o Irão, que é: são dois países onde se faz bom cinema, com a diferença de que Donald Trump quer ver a palavra "the end", fim, muito rapidamente e de preferível com um happy end à maneira de Hollywood, enquanto que o Irão, na velha tradição, se quisermos, Manuel de Oliveira, tem o tempo do seu lado, porque sabe que está a desgastar os Estados Unidos por via da dor económica que está a infligir ao Ocidente, menos aos Estados Unidos, mas mais ao Ocidente, e por via das opiniões públicas. Aliás, tem investido milhares de milhões naquilo que é a manipulação, as operações de domínio das percepções públicas a nível internacional. Mas se o Donald Trump tomar essa decisão, irá fazê-lo sem olhar para as midterms, porque ele sabe que não vai voltar a ser candidato. Portanto, as midterms prejudicarão o seu partido e, eventualmente, o putativo candidato a presidente, chame-se ele Marco Rubio ou chame-se ele J.D. Vance, mas não a ele. Portanto, ele poderá estar preparado para reiniciar a guerra. Agora, se me pergunta se está preparado para uma operação terrestre, aí eu já tenho mais resistências ou mais dúvidas.
Porquê, Helena?
Poderá estar preparado para intervenções pontuais terrestres, seja na ilha de Kharq, que já se falou muito, seja nas outras duas ilhas, por onde passa o tráfego naval no estreito de Ormuz, ou eventualmente em locais onde está o programa nuclear. Agora, face à dimensão do Irão, que é um país gigantesco, face também aos 92 milhões de habitantes e à quantidade de combatentes que ainda existem no Irão, uma operação terrestre dos Estados Unidos seria algo de uma monta enorme e com perdas pesadíssimas em termos de vidas humanas também para aquilo que seriam as forças armadas norte-americanas e não me parece, pelo menos neste momento, que Donald Trump fosse arriscar isto. Agora uma operação pontual de forças especiais no Irão parece-me um cenário, e estou a falar em termos de cenarização, bastante plausível.
Na sua opinião, é correto dizermos que Donald Trump, de alguma forma, falhou ao não antecipar devidamente as potenciais armas não bélicas que o Irão tinha à sua disposição?
Poderá ter tido aqui um excesso de confiança. Atendendo às características de personalidade e de liderança de Donald Trump e ao seu narcisismo característico, poderá ter havido aqui, se quisermos, uma sobrevaliação daquilo que é o poder de influência norte-americano, porque é um fato que as forças armadas norte-americanas continuam a ser as número um em termos mundiais, são esmagadoras, em combinação com Israel, são imbatíveis do ponto de vista militar, mas o Irão fez aqui o uso da inteligência estratégica, fechando ou causando dor na economia. E todos nós sabemos que as populações e as opiniões públicas internacionais reagem onde lhes dói mais, que é na carteira. E nós todos estamos a assistir ao impacto que este encerramento de Ormuz está a ter na economia mundial e fala-se mesmo da mais grave crise energética, desde o choque petrolífero dos anos 70. O Irão, em termos de inteligência estratégica, este regime, esta ditadura teocrática, terrorista, apoiante do terrorismo, nós não podemos subestimar. E Donald Trump poderá ter sobrestimado o seu poder de influência e o seu "art of the deal". E colocou-se aqui numa situação que é de difícil resolução e também é difícil sair deste conflito, mesmo que haja negociações, sem que os Estados Unidos percam a cara. E isso é muito perigoso quando nós pensamos a longo prazo. Eu sei que há aqui a tentação de estancar a ferida pondo-lhe um penso por cima, mas sem dar pontos na sutura e sem permitir que ela se cure. O que eu quero dizer com isto? O Irão, que imaginemos que havia aqui negociações e que se permitiria ao Irão não entregar o seu urânio enriquecido ou continuar a desenvolver o programa nuclear, iríamos ter um problema como temos agoraCom a Coreia do Norte. E mesmo o programa de mísseis balísticos, importa também dizer que o Irão mentiu à comunidade internacional, que tinha mais mísseis do que aqueles que eram conhecidos, que tinha mísseis com maior alcance do que aquele que era conhecido e que estava a preparar mísseis intercontinentais. Nós temos aqui uma ameaça real e estas negociações são vitais para que esta ameaça não seja adiada para o futuro e se torne uma ameaça ainda maior do que aquela que já era, e não apenas para a estabilidade regional no Médio Oriente, porque eu recordo, que às vezes é algo que é esquecido, o Irão tem patrocinado o terrorismo desde 69 e patrocinou o terrorismo, por exemplo, na Argentina, patrocinou o terrorismo no Líbano, e se o Líbano está na situação desesperada, caótica, desestruturada que está, ao Irão se deve e ao seu movimento, ao seu proxy, Hezbollah, que aliás, deve fidelidade e lealdade ao aiatola do Irão e não ao Líbano. Nós temos que perceber o contexto macro e perceber a dimensão do que está aqui em jogo. Além do Irão, isso todos nós sabemos, que temos acompanhado aqui os já vai em cinco anos de conflito na Ucrânia, ter sido um dos grandes fornecedores de drones e mísseis também à federação russa. Há aqui um eixo. Nós estamos num momento de reajustamento, realinhamento da ordem mundial, mas cada vez mais se torna claro este eixo que já existia entre o Irão, a Coreia do Norte, a Federação Russa e a própria China, no sentido de desafiar a hegemonia ou o poder norte-americano e também de desafiar o eixo das democracias liberais. Este ataque não é um ataque apenas contra Israel, não é apenas um ataque contra os Estados Unidos, é preciso não esquecer que no Irão se dizia, no Parlamento e muito recentemente: "Morte aos Estados Unidos, morte a Israel", mas é um ataque ao nosso modo de vida e às nossas sociedades liberais. Este eixo do caos está a usar todos os seus meios para dividir, para causar dissensão dentro de democracias liberais como a nossa. E todas essas discussões que estamos a ter agora sobre a União Europeia, sobre a NATO, é preciso perceber também o nível de propaganda, de desinformação, de manipulação das percepções que foi patrocinado, quer pela Federação Russa, quer pela China, quer pelo Irão. E é esta a situação que nós nos encontramos, que tendemos agora, face à rapidez dos acontecimentos e seguimos a guerra ao segundo e temos redes sociais, a achar que isto é tudo muito rápido, mas há aqui toda uma timeline, uma linha histórica, que temos que compreender e que temos que conhecer para percebermos o momento onde estamos e para onde poderemos ir.
Helena, agradeço a sua análise neste "Gabinete de Guerra". Muito boa noite.
Muito obrigada, Diana, e obrigada pelo convite.