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Gabinete de Guerra da Rádio Observador, os conflitos no Médio Oriente e na Europa em análise nos próximos minutos. É nosso convidado o historiador Bruno Cardoso Reis. Eu sou o João Gama. Bruno, boa tarde, bem-vindo. É esperada uma nova negociação de paz amanhã entre o Irão e os Estados Unidos em Islamabad, capital do Paquistão, e será J.D. Vance, vice-presidente dos Estados Unidos da América, a conduzir estas negociações. Partiu em direção a Islamabad ainda esta tarde. O que te diz esta escolha de interlocutor por parte da Casa Branca? J.D. Vance tem sido relativamente desalinhado com a leitura de Donald Trump para com a guerra no Irão, um bocadinho mais America First que o próprio presidente dos Estados Unidos. Isto pode ser uma vantagem para o Irão? O que diz esta escolha de J.D. Vance?

Acho que é uma questão realmente interessante e relevante, porque importa recordar que, à partida, quem seria realmente normal que estivesse seria o chefe da diplomacia, ou seja, o equivalente ao nosso ministro de Negócios Estrangeiros, na terminologia política americana é o secretário de Estado, neste caso Marco Rubio. Mas realmente ele tem se concentrado sobretudo nas Américas. No resto, nestas questões de conflitos mais complicados, a figura que estava a ter essa função, isso também sempre existiu ou existe há muitas décadas no sistema americano, esta ideia de um enviado especial, mas que neste caso tinha aqui um protagonismo excepcional, porque geralmente quando um presidente nomeia um enviado especial é pra lidar com um problema específico, até pra não entrar em choque com o ministro dos Negócios Estrangeiros. Portanto, era Steve Witkoff que estava com essas funções em relação à Ucrânia, em relação a Gaza, em relação ao Irão.

Sim, também era enviado especial a todos os conflitos.

E mais alguma coisa. Ou seja, nenhum desses dois. Quem vai estar à partida a liderar é realmente o vice-presidente J.D. Vance. E realmente aí é interessante porque, como referias, ele é geralmente associado a esta ala mais isolacionista. Portanto, mais crítica de intervenções no exterior. Tanto quanto nós percebemos, ele de fato também não foi um entusiasta desta intervenção contra o Irão, mas tem este ponto que é crucial pra Donald Trump, que é publicamente aparece sempre a declarar o seu apoio ao presidente, que aliás é a regra neste segundo mandato de Donald Trump. Não há basicamente ministros que durem, que se atrevam a discordar de alguma coisa de relevante de Donald Trump. Mas J.D. Vance, à partida, a ideia que se tem é essa, e isso provavelmente significa que é uma figura mais aceitável pro Irão, que também quis aqui no fundo marcar um pouco uma rutura politicamente, isso é importante, com o processo anterior, porque o regime iraniano queixa-se, e nesse aspecto tem razão, de que de fato já houve dois processos negociais envolvendo Steve Witkoff que enquanto ainda estavam supostamente a decorrer, no fundo, não impediram que o Irão fosse atacado pelos Estados Unidos em pleno processo negocial. E portanto, era importante também pra liderança iraniana dizer que desta vez seria diferente e é um mediador diferente, não é o Omã, é o Paquistão e é um interlocutor, pelo menos um líder da delegação diferente, não é Steve Witkoff, é o vice-presidente J.D. Vance.

E essa conjunção de fatores, o interlocutor diferente também o Paquistão, esta reunião vai acontecer em Islamabad, pode influenciar o resultado deste papel que o Paquistão tem tentado desempenhar, conseguirá ser um mediador mais eficaz do que os restantes?

Conseguiu pra já algo que não é despiciente, que é conseguir que as duas partes aceitassem encontrar-se. Eu recordo, inclusive no formato anterior, enfim, também vamos perceber melhor depois como é que é desta vez, mas à partida, nas negociações anteriores, as negociações eram sempre indiretas, embora as delegações estivessem no mesmo local, não estavam a encontrar-se uma com a outra, era sempre através do Omã. Depois houve uma altura ou outra em que houve algum tipo de encontro, mas era um processo também em si pouco habitual, pouco prático e indicativo que sinalizava uma grande desconfiança entre as partes. Portanto, o Paquistão já conseguiu isso. À partida, tem esta questão que é formalmente é o país que representa o Irão junto dos Estados Unidos, porque os Estados Unidos e o Irão não têm relações diplomáticas desde 1979, desde que os revolucionários ligados ao Ayatollah Khomeini, o fundador do regime atual, ocuparam a embaixada americana, portanto violaram a imunidade diplomática da embaixada americana. É o Paquistão que tem essa função e à partida seria uma espécie de facilitador natural. Depois também tem esta questão, é um país vizinho do Irão, tem fronteira com o Irão, tem alguns interesses partilhados, por exemplo, há o movimento separatista Baluch, que é uma espécie de inimigo comum dos dois. O Paquistão, por outro lado, tem um tratado de segurança e defesa mútua com a Arábia Saudita, portanto à partida podia ser arrastado pra o conflito por essa via. E também o Paquistão tem outra questão, que construiu uma boa relação com o presidente Trump, depois de vários anos de relações muito más, sobretudo o líder militar máximo do Paquistão, que é na verdade quem nos bastidores controla o governo semipolítico, o marechal Munir Conseguiu criar uma boa relação com o Donald Trump, que o elogiou publicamente já várias vezes. Ao mesmo tempo, o Paquistão também tem outro ponto que é um parceiro muito próximo da China, e a China também tem um grande interesse em que o conflito se resolva, é uma grande cliente do petróleo do Golfo, não só do Irão, mas também da Arábia Saudita e portanto tudo isso cria talvez condições favoráveis a que o Paquistão consiga ser um facilitador relativamente mais eficaz. Agora é importante sublinhar que estamos num ponto em que temos um cessar-fogo extremamente frágil, não é evidente que esse cessar-fogo vá durar, não é impossível que à última hora as delegações acabem por não se encontrar, portanto acho que mesmo isso temos que ter algum cuidado. E sobretudo, mesmo que o encontro aconteça, em última análise, o problema será sempre os beligerantes. E eu diria em particular, não apenas os Estados Unidos e o Irão, mas convém não esquecer o terceiro beligerante, mas que não é menos importante.

Israel.

Israel, que não está diretamente envolvido sequer nestas negociações, e que já está a criar muitos problemas à viabilidade do cessar-fogo. Esse será também um problema de base a estas negociações, é que estão a negociar dois beligerantes, mas há três, e o terceiro, Israel, não está necessariamente muito interessado em que estas negociações corram bem. Mas em última análise dependerá sempre dos beligerantes e não do mediador ou do facilitador.

Precisamente como estavas a dizer, os ataques continuam entre o Hezbollah e Israel. O Líbano tem sido fortemente atingido nos últimos dias apesar deste cessar-fogo, e esse é um dos principais problemas que têm sido levantados, principalmente pelo Irão, para a manutenção deste cessar-fogo. O que eu te quero perguntar é se estes ataques podem colocar tudo em risco e na verdade não chegarmos a ter um cessar-fogo mediante estas aproximações e negociações que podem surgir entre o Irão e os Estados Unidos.

Sim, claramente, é aliás isso que está a acontecer. Realmente seria extraordinário, mas não me parece que seja impossível, porque o regime iraniano não tem mostrado propriamente uma grande lealdade para com os seus peões, estes grupos armados, estas milícias armadas muitas vezes ligadas a comunidades xiitas em várias partes do Médio Oriente.

Hezbollah, Hamas.

Desde os Houthis ao Hezbollah no Líbano, ao Hamas, que é um grupo sunita, esse é excecional desse ponto de vista, mas também milícias xiitas no Iraque. E a verdade é que o Irão esperou muito tempo antes de se envolver mais diretamente no conflito com Israel, apesar de ter sido um dos grandes promotores do ataque do 7 de outubro por parte do Hamas. Mas de facto seria extraordinário e acho que teria um impacto muito negativo no prestígio do Irão e também na sua influência sobre estes aliados, estes grupos armados aliados na região, se realmente deixasse cair o Hezbollah. Mas o Irão muitas vezes tem usado um pouco estes grupos como carne para canhão, evitando o envolvimento mais direto do Irão. Mas para já não parece ser essa a postura do regime iraniano, que está a insistir que o cessar-fogo tem de abranger também o Líbano e nisso há o apoio do mediador, do Paquistão, que tem a mesma posição, e de uma série de outros países, desde a China a vários países europeus, a começar pela França, que tem historicamente uma ligação com o Líbano, também a exigirem que haja esse alargamento do cessar-fogo ao Líbano. À partida há um sinal positivo, que é o facto do governo israelita ter indicado que iria começar a negociar com o governo libanês, que também tem todo o interesse em desarmar o Hezbollah. Há aí um interesse convergente. Agora obviamente o governo libanês ao mesmo tempo não pode ignorar se Israel continuar a fazer ataques massivos que acabam por atingir muitos outros libaneses que não têm nada a ver com o Hezbollah. Esse parece ser um problema crucial. Vamos ver se estas negociações realmente permitem, se não um cessar-fogo completo, porque Israel continua a recusar essa ideia, pelo menos um abrandar nos ataques contra o Hezbollah que torne viável pelo menos o avançar das negociações. Mas realmente é a questão mais complicada neste momento, a par obviamente da questão do Estreito de Ormuz, porque também a pretexto disto o Irão entretanto voltou a restringir a liberdade de navegação no estreito e continua a insistir que num novo acordo mais durável teria de estar este modelo completamente ilegal à luz da lei internacional e que criaria um precedente extremamente perigoso em termos da liberdade de navegação e dos custos económicos para a economia global, de que os estreitos internacionais de facto são livres para navegação civil e não pode haver a cobrança de portagens, mas o Irão continua a insistir também que quer cobrar portagens, ao que entretanto os norte-americanos já hão de dizer que também não seria aceitável. Vamos ver se mantêm essa posição.

Devemos também espreitar para o que se vai passar na Europa este fim de semana. A Hungria vai a votos no domingo, o Fidesz de Viktor Orbán está atrás nas sondagens do partido de centro-direita, o Tisza de Péter Magyar. Ora Viktor Orbán, como sabemos, está no poder na Hungria há 16 anos. O que é que a sua saída de cena poderia significar não só para a Hungria, mas também para a Europa, onde Orbán tem sido uma força de bloqueio em temas como o apoio à Ucrânia? Uma nova Hungria, uma nova liderança política da Hungria seria mais bem vista por Bruxelas, traria facilidades no apoio à Ucrânia?

Acho que realmente há uma fortíssima dimensão externa em tudo isto. Desde logo, há grandes interferências externas nas eleições. Desde manobras de manipulação, de sabotagem, inclusive com apoio russo, até esta interferência, este apoio declarado público da administração Trump com visitas sucessivas, inclusive agora o vice-presidente J.D. Vance, antes de ir para o Paquistão, esteve a fazer campanha durante mais de um dia na Hungria ao lado de Orbán. Claramente isto também mostra algo que vale a pena sublinhar, que é apesar da Europa ter sido declarada irrelevante com cada vez mais frequência, a verdade é que aparentemente as grandes potências continuam a ter grande interesse em influenciar a Europa. Infelizmente, os Estados Unidos e a Rússia, e mesmo a China, apostam sobretudo no dividir para reinar e estão claramente ao lado de Orbán, que eles veem como muito útil para, no fundo, bloquear todo o tipo de decisões mais ambiciosas no contexto da União Europeia. Portanto, sim, a saída de Orbán seria muito bem vista em Bruxelas e na generalidade das capitais europeias, porque além de tudo o resto, além do ponto de parte da questão ideológica, e aí a comparação que é relevante é com a primeira-ministra italiana Meloni. A questão não é tanto que Orbán seja mais à direita, não é que ele queira restringir a imigração, porque isso é a tendência dominante hoje em dia na Europa, inclusive países como a Dinamarca, que tinham governos de esquerda, já avançaram nesse sentido. A questão é que ele realmente não é um jogador de equipa, que sistematicamente utiliza de forma abusiva fundos europeus, criando conflitos aí, questões de fraude, de corrupção, etc. E na política externa, basta lembrar que quando a Hungria tinha a presidência rotativa da União Europeia, ele foi à China, por exemplo, e à Rússia, supostamente falar em nome da Europa sem ter consultado os seus colegas. Um líder que diz prezar tanto a soberania nacional, decidiu armar-se aqui em chefe da Europa e obviamente foi completamente desautorizado pelos demais. Independentemente até das questões ideológicas, realmente Orbán é cada vez mais visto como alguém que não é fiável e isso seria visto com bons olhos na generalidade do resto da Europa. Seria visto como uma perda por Moscovo, pela atual administração americana, provavelmente mesmo por Pequim. Agora é importante sublinhar que a vitória da oposição não está garantida. As sondagens dão uma vantagem de 10 pontos percentuais à oposição, ao Tiza, liderado por Péter Magyar, que é um partido de centro-direita, diga-se, também não é propriamente um partido de extrema-esquerda, portanto não seria uma mudança assim tão radical, mas é alguém, por exemplo, que é muito crítico desta postura em relação à União Europeia. Agora, a questão é que as sondagens são só sondagens, é declaração de intenção de voto, não é realmente o voto. E temos aprendido nos últimos anos exatamente isso, essa diferença é crucial, portanto vamos ver como é que o voto realmente corre. E além disso, também aproveitando esta supermaioria que Orbán tinha tido, ele alterou a lei eleitoral e a lei eleitoral favorece muito os círculos rurais e mesmo que Orbán perca nas urnas, não é seguro que perca em número de mandatos, porque o sistema está feito para favorecer muito as zonas mais rurais, mais conservadoras, mais favoráveis a Orbán, pelo menos até aqui. E pode haver aqui também esse paradoxo de o resultado final em termos de votos não corresponder ao resultado final em termos de mandatos no Parlamento.

É esperar para ver. No próximo domingo, os húngaros vão a votos escolher o próximo governo do país. Bruno Cardoso Reis, muito obrigado por ter estado conosco nesta edição do Gabinete de Guerra esta sexta-feira. Um bom fim de semana. O Gabinete de Guerra está de regresso mais logo, às 21h30.