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Gabinete de Guerra na Rádio Observador, o programa em que destacamos as principais questões geopolíticas mundiais. Hoje conto com a análise de Azeredo Lopes, ex-ministro e coordenador do International Studies Program da Universidade Católica do Porto. Azeredo Lopes, muito obrigado por ter aceitado este nosso convite. Vamos começar por falar sobre o Médio Oriente, até porque o grupo rebelde dos Houthis está a tentar atingir aeroportos, instalações petrolíferas e portos na Arábia Saudita. Estamos perante uma guerra de atrito para tentar transformar o petróleo numa arma?

Eu diria que já não estamos perante uma guerra de atrito, estamos perante uma guerra declarada. A grande novidade não é propriamente o conflito no Iémen ou até a participação, desde há mais de 12 anos, da Arábia Saudita naquele conflito. E como se sabe, os Houthis sempre foram os inimigos figadais da Arábia Saudita. A grande novidade é a capacidade, que nós não considerávamos que fosse tão grande, de os Houthis atingirem alvos, e alvos muito relevantes, da Arábia Saudita. Portanto, há aqui claramente um esforço dos Houthis para pelo menos causar um tal dano e uma tal dor à Arábia Saudita que a induza a cessar o apoio que está a dar no Iémen às forças governamentais e que, aliás, se tem traduzido em ataques sistemáticos contra as posições controladas pelos Houthis. Nós temos aqui algo que tem um certo paralelo com o conflito que os Estados Unidos e Israel estão a ter com o Irão, mas que ganhou uma vida própria nesse sentido, ou seja, formalmente o Irão neste momento interrompeu as hostilidades diretas contra os Estados Unidos e vice-versa, mas os Houthis, de quem aliás se esperava muito e que demoraram muito tempo a ir a jogo, estão a mostrar uma capacidade que muitos não achavam possível, sobretudo depois dos bombardeamentos que foram feitos no ano passado também pelos Estados Unidos e que tinham levado a um acordo entre os Estados Unidos e os Houthis em meados do ano passado.

E como é que se explica esse reavivar dos Houthis conseguirem exceder as expectativas?

Eu penso que se deve a duas coisas fundamentais. Em primeiro lugar, os Houthis perceberam que com a divisão das forças governamentais, nós estamos a falar de uma aliança que está em permanente conflito, que não se entende sobre a gestão do país, e os Houthis ganharam capacidade operacional suficiente para, como se sabe, lançarem uma ofensiva fulgurante que atualmente lhes permite controlar, desde logo, o estreito Bab-el-Mandeb. Esse estreito Bab-el-Mandeb é uma espécie de reserva, neste caso, na aliança que têm com o Irão, para utilizar o comércio internacional ou a sua interrupção como uma arma que induza, mais tarde ou mais cedo, desde logo os Estados Unidos, mas também Israel, a cessarem os ataques contra os respectivos países. É essa a questão fundamental. O Irão mostrou, e nós não quisemos ver a mensagem, pelo menos os Estados Unidos não quiseram compreender imediatamente a mensagem, que se estava a preparar há muito tempo para um conflito mais alargado com os Estados Unidos. Os Estados Unidos não perceberam que aquilo que tinha acontecido o ano passado com bombardeamentos em que o Irão praticamente se limitou a defender-se e eventualmente a disparar contra Israel, o Irão mudou ou alterou completamente a sua estratégia e isso apanhou-nos muito de surpresa. Não me admirava nada que também, evidentemente, esta constelação de organizações que gravita não só em torno do Irão, mas que é também aliada do Irão. Nós pensamos que é tudo uma criação do Irão, mas eu, por exemplo, considero que os Houthis são algo de muito mais independente e autónomo do que nós imaginamos, mesmo em relação ao Irão, ganharam uma sofisticação logística, uma sofisticação territorial muito impressionante. Por exemplo, um grande e terrível ataque contra a Arábia Saudita que destruiu parcialmente o oleoduto pelo qual a Arábia Saudita contornava as limitações do estreito de Ormuz. Esse grande ataque, lançado pelos Houthis, foi feito a partir do Iraque. O tal Iraque onde nós interviemos em 2003, que nós considerávamos que estava mais ou menos sob controlo, vai mostrando que aquela é de facto uma região que nunca se pode subestimar do ponto de vista das capacidades dos adversários, mas também, aqui francamente entre nós, que não devia ser atacada como sistematicamente é, como se tratasse apenas de um alvo. O Irão, infelizmente para nós, e em particular para os Estados Unidos, mostrou que nesta altura, ainda e apesar de todas as sanções, apesar de todo o sofrimento que está a ser causado pelo colapso da economia iraniana causado pelo bloqueio do Estreito de Ormuz e das restantes sanções, apesar disso, o Irão, e repito, os aliados e amigos do Irão, têm uma capacidade operacional e uma inteligência logística que era bom nós não continuarmos a subestimar.

E vamos continuar a falar sobre este tema, Azeredo Lopes, e agora abordar aqui a questão da mãe de todas as bombas. Os Estados Unidos admitem utilizar este tipo de armamento no Irão. Donald Trump já utilizou esta bomba de grande capacidade no Afeganistão. Isto é sinal, Azeredo Lopes, de que as ofensivas do passado por parte dos Estados Unidos não funcionaram?

Eu acho que nem precisamos falar da bomba, da MOAB. MOAB, já agora, para quem nos está a ouvir, é o acrónimo--

Mother of all bombs.

Sim, aliás, é um bocadinho diferente, é Massive não sei o quê, mas eu acho que Mother of all bombs é mais engraçado e mais sexy, e vamos ficar-nos com essa designação que tem muito mais piada. Mas o que está aqui em causa é o seguinte: os Estados Unidos, estamos todos recordados, em junho do ano passado Consideraram que tinham acabado com a guerra, que tinham obliterado — a expressão, o verbo que foi utilizado por Donald Trump e que de uma vez por todas entrou no jargão político-militar — as capacidades do Irão, que tinham destruído a possibilidade do Irão nos tempos mais amplos alcançarem uma qualquer capacidade nuclear militar. Já na altura devíamos ter desconfiado de tantas boas notícias, uma vez que os próprios serviços de inteligência norte-americanos disseram claramente que não era assim. Depois tiveram, desculpem a expressão, que meter a viola no saco perante as ameaças lançadas pelo próprio Donald Trump, mas em off the record iam dizendo: "Não, não é verdade. Destruiu-se muito menos do que nós pensávamos". Depois, quando começamos a guerra, começamos não, começaram os Estados Unidos e Israel, que eu não me sinto parte desse coletivo, quando os Estados Unidos e Israel lançam uma guerra de agressão contra o Irão, lá tivemos nós outra vez as estruturas militares, neste caso, o responsável pelas operações militares, a invocar porcentagens absurdamente altas e fantásticas de destruição das capacidades do Irão. Foi o que se viu, infelizmente para os Estados Unidos e infelizmente para Israel, o Irão estava muito mais capaz de resiliência do que aquilo que o tinham feito. E, portanto, a verdade é que desde então, e apesar do memorando de entendimento, que a meu ver representa uma derrota tremenda para os Estados Unidos, desde então que os Estados Unidos mostraram muito claramente que não iam aplicar memorando coisa nenhuma. Aliás, se o aplicassem, isso significaria que estavam a cristalizar uma derrota que a meu ver poderia ser considerada uma derrota estratégica. Portanto, isto significa que: um, não só os Estados Unidos não conseguiram atingir os seus objetivos militares; dois, não tendo conseguido, estão a perder, por enquanto, este conflito; e três, também me parece óbvio que não podem permitir-se uma derrota nestas circunstâncias. Ora, este tipo de armas tem uma dimensão fálica. A maior bomba de sempre, a bomba mais explosiva. Não sei se se lembra das bombas que perfuravam o solo até 500 metros, foi o que se viu. Pelos vistos, o Irão estava mais fundo ainda e conseguiu resistir a elas. E mostra a história, desde logo, da utilização destas bombas no Afeganistão, que começou em abril de 2017, que o seu impacto é tremendo. Para quem nos está a ouvir, o alcance, o raio de destruição deste tipo de bombas é de perto de 1 km, que é uma coisa alucinante, até do ponto de vista de uma clara violação do princípio da distinção, se for lançada em meio que não seja desértico, porque onde quer que se lance isto é fazer um raio de 1 km para ver que evidentemente vai matar muitos civis, mas no Afeganistão não teve um grande impacto. Ou seja, foram utilizadas, as imagens da utilização são sempre terríveis pelo lado esmagador daquela destruição causada, mas eu permito-me recordar que logo a seguir Donald Trump estava a negociar com o Talibã para sair do Afeganistão e essa saída veio a concretizar-se em 2020 já com Joe Biden. E portanto, se têm sempre um impacto de causar medo muito significativo, este tipo de armamentos massivos, de grande capacidade de destruição, não têm por natureza a capacidade de acabarem conflitos. Ou seja, não são uma bomba de Hiroshima para fazer um paralelismo, que não será talvez dos mais felizes, mas não têm a capacidade de vergar o adversário apenas e devido apenas à sua utilização.

Vamos avançar. Azeredo Lopes falar também sobre a situação, o campo de batalha na Ucrânia, a guerra entre a Ucrânia e a Rússia, com uma novidade positiva para o lado ucraniano, após ter sido encerrado o sistema de internet Starlink, está totalmente reposto na Ucrânia. Que diferença, Azeredo Lopes, é que sentem os ucranianos no campo de batalha com o regresso deste serviço, muito utilizado pelas Forças Armadas Ucranianas?

Se me permite, eu falaria antes que diferença sentem depois de ele ter sido interrompido durante praticamente dois dias. Estamos a falar de um serviço de internet militar, uma espécie de Starlink qualificada para uso militar, e a sua interrupção causou um efeito devastador à Ucrânia por três motivos. Primeiro, pelo elemento de surpresa que isto representou para a Ucrânia. De repente, a Ucrânia deixou de saber quando e como estava a ser atacada e a Ucrânia deixou de ter uma clara definição dos alvos que lhe permitissem utilizar os seus drones. E este é o primeiro aspecto que eu queria destacar. Há aqui um elemento terrível de má fé e de deslealdade dos Estados Unidos. Por quê? Porque os Estados Unidos não estão obrigados juridicamente a apoiar a Ucrânia. É bom que isso fique claro. Estão obrigados a não apoiar um agressor, isso sim, que infelizmente é algo que é discutível, pelo menos. Mas não estão obrigados a fornecer armamento. Isto fica com cada um, mas a verdade é que aqui o elemento da novidade não é ter sido interrompido, é ter sido interrompido de surpresa à má fé, como diz o povo, e ter causado imediatamente um impacto tremendo na capacidade quer defensiva, que já não é muito grande, quer sobretudo ofensiva da Ucrânia. Qual é a grande diferença? Outros, porventura, teriam humildemente dito que veneravam Donald Trump, que o adoravam muito, etc. Zelensky, e não precisamos sentir simpatia por Zelensky, mas Zelensky é um bocadinho diferente. Ele reage de uma forma muito virulenta. Primeiro, ao acordo que os Estados Unidos anunciam com a Rússia para exportação do diesel russo e depois com muita virulência quando esta interrupção se verifica. Eu recordo Que o próprio presidente americano disse que isto se devia ao mau tempo. Para quem nos está a ouvir, não faz sentido nenhum. Era como se um satélite agora dependesse das chuvas que estão a acontecer cá embaixo na Terra. Isso não faz sentido nenhum. Aliás, tanto não faz que se comprovou, evidentemente, que era mentira o que ele estava a dizer e que tinha havido uma decisão política a este nível. O que é interessante? É que Elon Musk, para quem muitos de repente começaram a olhar e a tentar verificar que assim se confirmava que Elon Musk estava dependente e não havia uma distinção entre um privado e um executivo de um Estado, porque Elon Musk fazia e dispunha da mesma forma que os Estados Unidos o fazem como entidade pública. Mas Elon Musk veio dizer: "Não fui eu. Num post na rede X. Este tipo de internet de natureza militar é interrompido apenas por decisão política ao mais alto nível e podendo envolver o presidente dos Estados Unidos da América". Foi remédio santo. Imediatamente, esta estratégia de Zelensky muito agressiva em relação a Trump. Eu recordo que ele, numa entrevista com Piers Morgan, disse que se sentia traído pelos Estados Unidos. Isto são palavras muito pesadas e muito fortes que eu não vejo muitos líderes a poderem utilizar relativamente ao presidente dos Estados Unidos, mas Zelensky sentiu que não tinha nada a perder, ou seja, que ou reagia brutalmente segundo uma estratégia que os ingleses designam como naming and shaming, ou seja, dizer tudo cruamente para envergonhar o adversário, ou que então ia ficar sujeito para sempre a seguir as ordens, mesmo em termos militares, que lhe fossem dadas por Donald Trump, que, por exemplo, decidiu proibir que a Ucrânia fosse efetiva e eficiente a atingir alvos russos e especificamente a atingir as suas capacidades de refinação de petróleo e, num caso concreto, de diesel. Portanto, acho, por estranho que pareça, que a reação desbocada de Zelensky está a mostrar-se eficiente. Zelensky depende menos hoje dos Estados Unidos. É bom que também percebamos isso. E por quê? Porque os Estados Unidos não têm, por exemplo, meios defensivos para lhe vender. Soubemos hoje que, por exemplo, os Patriot acabaram. Não há mais Patriot para defender os alvos ucranianos dos ataques russos e, portanto, nesse sentido, estranhamente, Zelensky hoje tem um bocadinho menos medo das dependências em relação aos Estados Unidos.

E Azeredo Lopes, temos um minuto e meio para o fecho deste gabinete de guerra, mas não resisto em perguntar-lhe, o fato da Ucrânia retomar ataques contra instalações de energia russas depois de Donald Trump ter pedido para que a Ucrânia não o fizesse, é sinal disso mesmo, de que Zelensky está quase que emancipado do que dizem os Estados Unidos?

É quase uma questão pessoal. Infelizmente, estas coisas não deviam ser assim, mas é quase uma resposta pessoal. Eu acho que concordando-se ou não com Zelensky, que eu discordo dele em muitas coisas. Mas é primeiro indiferente que eu discordo ou concordo, não tem relevância na vida dele. Mas eu acho que por vezes ele exagera. E eu acho que desta vez ele escolheu uma tática de resposta muito interessante. Muito interessante porque foi, desculpe-me a expressão, baixou a cabeça e foi de frente. E isto também resulta, evidentemente, do desespero, de se sentir totalmente indefeso perante a agressão russa com este comportamento norte-americano, mas também de compreender que se sujeitasse, se vergasse, ia ficar para sempre nas mãos de Donald Trump. E eu acho que esta jogada foi interessante. Esta resposta que ele dá: "Vou retomar os ataques contra os alvos", significa duas coisas. Ele poderá sempre dizer que a Rússia está a fazer o mesmo em relação às infraestruturas energéticas da Ucrânia, e portanto, é um princípio quase de reciprocidade militar aquilo que está aqui em causa, mas eu concordo com o teor da sua pergunta. Acho que há aqui um elemento de resposta em que a Ucrânia mostra que tem um bocadinho menos medo do que no início das ameaças de Donald Trump e mesmo destas decisões lamentáveis que a administração tomou para impedir a Ucrânia de atacar os alvos russos.

E é com esta resposta que terminamos esta edição do Gabinete de Guerra. Muito obrigado, Azeredo Lopes, ex-ministro, coordenador do International Studies Program da Universidade Católica do Porto. O Gabinete de Guerra fica por aqui. Este e todos os episódios ficam, como sempre, disponíveis em podcast.