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Gabinete de Guerra na Rádio Observador. Dois conflitos em curso em diferentes partes do mundo, um na Ucrânia, outro no Médio Oriente. Nos próximos minutos, vamos falar sobre estes dois conflitos com o investigador de história militar, Pedro Nascimento. Boa tarde, Pedro Nascimento, obrigado por ter aceitado o nosso convite. Começamos na Ucrânia e com a alegada contraofensiva ucraniana em Kursk. A minha questão é: Kursk é decisiva para a balança de possíveis negociações de paz do lado ucraniano?

Boa tarde, José Rafael, e boa tarde a todos os ouvintes. Eu diria que não estamos aqui perante uma situação em que há uma incursão para depois conseguir negociar. Esta questão, a meu ver, toma uma especial relevância, porque todos vamos ouvindo vários argumentos, como por exemplo, ouvi hoje que foi o desespero de Zelensky que provocou essa incursão em território russo. Sempre com o devido respeito pela opinião contrária, que é algo que não é apanágio, nós devemos ter bem presente que a questão é muito mais complexa do que isso. A ofensiva ucraniana em Kursk é mais do que um ataque militar. Não é uma manobra estratégica apenas com implicações militares e políticas, diria mesmo significativas. Ela tem um cunho histórico associado. Esta região de Kursk é emblemática, não apenas pela proximidade geográfica com este conflito, mas também pelo seu papel crucial durante a Segunda Guerra Mundial, particularmente na Batalha de Kursk, em 1943, ou seja, a maior batalha de tanques da história, os Torres de Prokhorovka, e que marcou definitivamente o declínio estratégico das forças de Hitler. Mas vamos ao significado estratégico atual, porque nos últimos dias a Ucrânia voltou a contra-atacar e intensificar as suas operações nesta região de Kursk, dentro do território russo, e numa manobra que nós podemos descrever que é uma contraofensiva dentro da própria contraofensiva. Embora esta contraofensiva ucraniana tenha tido um foco principal nos territórios ocupados no leste e no sul da Ucrânia, estes recentes ataques a Kursk novamente representam mais uma escalada estratégica, a meu ver. Qual é o contexto? Nós temos aqui alvos militares específicos. Desde logo, bases de munições, porque temos relatórios do dia de ontem que indicam que depósitos de munições e de combustível foram atingidos, o que prejudica claramente a logística russa. Temos o ataque a infraestruturas críticas, ou seja, linhas de abastecimento ferroviário e instalações energéticas que em Kursk acabaram por sofrer danos consideráveis, o que dificulta, obviamente, o transporte das tropas e dos equipamentos russos. E depois temos também que a Ucrânia está a neutralizar sistemas de defesa aérea, o que enfraquece a capacidade da Rússia de proteger estas instalações. Há aqui, obviamente, uma estratégia por trás desses ataques. Não são apenas ações isoladas. Isto faz parte de uma estratégia de guerra assimétrica, que tem vários objetivos claros. A meu ver, desde logo, desestabilizar a retaguarda russa. Ao atacar estes alvos e a continuar a atacar estes alvos dentro da Rússia, a Ucrânia tenta interromper uma capacidade do Kremlin de abastecer as suas tropas na linha da frente.

Um foco muito logístico.

Exatamente. Os ataques em Kursk são particularmente eficazes porque esta região serve como um hub logístico para as operações russas no leste. Também serve para aumentar esta pressão psicológica sobre Moscovo, que ao intensificar a guerra no seu próprio território, a Ucrânia está a demonstrar que a Rússia não é invulnerável e envia uma mensagem clara ao Kremlin e ao público russo, sobretudo, de que o conflito continua sólido dentro do seu próprio território. E isto também serve para preparar terreno para novas operações no leste e no sul, porque enfraquecendo posições russas em Kursk, a Ucrânia poderá dificultar o reforço dessas tropas russas em frentes mais ativas, como temos hoje, por exemplo, Donetsk e Zaporizhzhia. Isto sim, é que inelutavelmente, e procurando algum sucesso, cria melhores condições para negociações, mas isso é um resultado de tudo aquilo que eu referi, é sua consequência. Ou seja, não é apenas uma incursão para depois negociar, porque não é uma ocupação de uma ínfima parte do território russo que vai criar melhores condições. Mas tudo aquilo que eu referi, isso sim, e respondendo à sua pergunta, pode criar condições diferentes.

E Pedro Nascimento, vamos também olhar para a atual situação da Ucrânia após o corte da passagem do gás russo. Já se começa a sentir efeitos?

Nós aqui temos este ponto, já não versando propriamente sobre o terreno, levanta aqui questões muito importantes, porque esse corte, desde logo, nós não podemos encarar isso como uma surpresa, porque Zelensky já vinha tendo esse discurso, afirmando que a partir de 1 de janeiro de 2025, isso iria acontecer. Foi exatamente isso que se verificou. Só que qual é o problema que traz aqui? A Ucrânia perde duas coisas. Desde logo, perde dinheiro com isto, porque a Ucrânia recebia dinheiro para deixar passar o gás. Por outro lado, a Ucrânia, se já tinha alguns anticorpos dentro da União Europeia, isto obviamente vai criar ainda mais, principalmente por parte da Hungria e da Eslováquia. A Hungria, como sabemos, sob a égide de Viktor Orbán, podemos dizer que é aquele que tem a porta mais aberta para Putin, e é evidente que esta situação vai criar ainda mais condições para essa situação ser reforçada. O que a Ucrânia vai ganhar com isso? Eu creio que a Ucrânia prepara-se para tentar aproximar-se cada vez mais dos Estados Unidos. Aliás, a Europa vê-se reforçada inevitavelmente a procurar outras fontes.

E Volodymyr Zelensky, Pedro Nascimento, começa já a fazer isto, pelo menos é uma das ideias que se tira da entrevista a um podcast norte-americano.

Sim, exatamente. Não podemos esconder que Zelensky está a passar uma situação difícil, não está no seu momento de maior popularidade, mas a verdade é que tem trabalhado para tentar alterar o panorama político. E este é mais um exemplo de que Zelensky está a trabalhar para tentar cativar outros países, nomeadamente mais a Ocidente, mais os Estados Unidos, para aquilo que aí vem na Rússia. Agora, esta questão do gás, falta saber que implicações é que terá, mas poderemos ter aqui questões interessantes, como nomeadamente Donald Trump poderá perceber se poderá lucrar alguma coisa com isto. E podendo, obviamente, vai pender para o lado da Ucrânia. O problema é que se não têm interesse económico nesta questão, porque aí não tendo, vai ser um problema para a Ucrânia nos próximos meses, dirão.

Antes de avançarmos para o Médio Oriente, vamos olhar também aqui para o Donbass. Forças russas afirmam que controlam a totalidade da cidade de Kurakhove. Isto é um sinal, Pedro Nascimento, de que a Ucrânia está incapaz de suster a linha da frente?

Nós sabemos que naquela zona a situação não é propriamente fácil para a Ucrânia. Aliás, nunca foi. Nunca foi porque a região do Donbass, a partir do momento em que foi ocupada pelos russos, sempre criou muitas dificuldades à Ucrânia. Mas estes avanços russos em Kurakhove, se confirmados, são claramente um sinal de que a Rússia tem uma capacidade ofensiva, mesmo após meses ou anos de guerra de atrito, que também não é propriamente uma surpresa, tendo em conta a disponibilidade russa para sacrificar a vida dos seus próprios soldados. Mas é importante notar que esta cidade é um ponto estratégico no Donbass e serve como porta de entrada para outras áreas-chave na região. Aqui, como eu estava dizendo, a Ucrânia enfrenta desafios crescentes, em grande parte devido à falta de munições e às condições climáticas do inverno. Mas quero realçar que não é apenas uma questão de incapacidade. Parece-me que a Ucrânia tem optado por concentrar esforços também noutras zonas estratégicas e que, segundo os relatos que vamos ouvindo e que lemos todos os dias, essencialmente em blogs militares e mesmo blogs militares russos, os ucranianos não têm estabelecido as suas forças de forma estática, como por exemplo, aconteceu na Primeira Guerra Mundial. É verdade que aqui estamos num cenário algo parecido com uma linha da frente que em dois anos não teve grandes oscilações, mas no que diz respeito à total estaticidade das forças, isso não se verifica. A Ucrânia não concentra toda a sua força numa só região, até porque isso seria um suicídio. Agora, é irrefutável que a Ucrânia no Donbass passa por dificuldades.

Vamos avançar então para o conflito no Médio Oriente e começar com a lista de reféns que foi apresentada. O gabinete de Benjamin Netanyahu diz que esta lista de reféns é de julho do ano passado, ou seja, julho de 2024, e foi feita por Israel, foi entregue pelo Hamas. Isto é sinais de que a organização está, de certa forma, a ceder a Israel?

Não creio, senhor Rafael. Esta questão reflete as dinâmicas complexas destas negociações entre Israel e o Hamas. A entrega da lista pode ser vista como um sinal de flexibilidade do Hamas, possivelmente em resposta à pressão internacional que exige ou como parte de uma estratégia para ganhar tempo. Mas, no entanto, o fato de Netanyahu destacar a origem da lista como sendo de Israel, podemos dizer que isto sugere uma tentativa, talvez, de Israel mostrar que tem um maior controle sobre as negociações do que o Hamas gostaria de admitir. Aqui a principal questão, a meu ver, prende-se com o fato de estarmos perante mais uma suposta tentativa de alcançar um entendimento, mas que será tão só mais uma estratégia do Hamas para aumentar uma pressão internacional sobre Israel nesse sentido, porque apela ou coloca o foco na questão humana da coisa, trazendo reféns e ainda por cima uma lista específica de reféns. Mas a questão que se coloca aqui é muito simples: um acordo é uma convergência de vontades. O que vai exigir o Hamas a Israel? Só depois de percebermos isso é que vamos perceber verdadeiramente se o Hamas estará a ceder a Israel ou não.

E consegue avançar com uma lista do que é que poderá pedir o Hamas?

Sinceramente, eu acho que poderá ser muita coisa, mas a libertação de vários prisioneiros penso que está em causa, e depois falta saber quem é que será libertado. Mais do que a quantidade, digamos que é a qualidade dos prisioneiros que serão libertados, porque isso é que vai possibilitar ou não o ressurgimento do Hamas. Porque estas organizações terroristas funcionam um pouco como as acácias no mato, no pinhal. Aqui perto da minha terra, na serra do Gerês, temos frutas muito bonitas. E mesmo com os fogos, elas desaparecem, mas brotam a partir da raiz. Ou seja, é muito difícil nos vermos livres delas. Portanto, acho que vai ter uma relevância extrema, não apenas o número de prisioneiros que estão nas mãos dos israelitas, mas também que tipo de pessoas e a importância que elas têm no seio desta organização terrorista.

E olhamos também aqui para um possível acordo de paz. Anthony Blinken, pelo menos, disse estar confiante que esse acordo será atingido, mas não ainda com Joe Biden na presidência dos Estados Unidos. A minha questão é: que papel é que terá Donald Trump então neste conflito e na possibilidade de chegar a um acordo de paz?

Neste ponto, eu diria que o Blinken está claramente a preparar o terreno para esta mudança de administração e entre linhas, acho que vai acabar por reconhecer que o estilo de Trump até pode ser mais eficaz em certos cenários O papel de Trump neste conflito do Médio Oriente pode ser significativo. Repare, durante o seu mandato anterior, ele foi responsável pela assinatura dos Acordos de Abraham, que contribuíram para a normalização das relações entre Israel e vários países árabes, o que por sua vez também pode ter contribuído para a estratégia do Irão brocar e ter desembarcado onde desembarcou. Mas, no entanto, também foi Trump que fez com que as relações entre israelitas e palestinianos ficassem marcadas por crescentes tensões, geralmente após o reconhecimento de Jerusalém como capital de Israel. Mas ao encontro daquilo que me perguntou, creio que Donald Trump pode tentar usar a sua abordagem, que é tipicamente direta e pragmática, para resolver a situação, mas isso dependerá do seu posicionamento entre Israel e os países árabes. Eu creio que isso terá uma grande relevância. A administração Biden, não obstante alguns méritos, pouco se diga, no conjunto geral falhou. Se pergunta se Trump poderá resolver a situação, eu acredito profundamente que não será Donald Trump a resolver um problema secular ou milenar. Arrisco mesmo a dizer que aquele problema não ficará resolvido na nossa era, mas pode encerrar um capítulo. Falta saber a que custo.

Pedro Nascimento, estamos a chegar ao final deste "Gabinete de Guerra". Temos sensivelmente dois minutos. Gostaria ainda de olhar para declarações de Emmanuel Macron, que diz que o programa nuclear do Irão está a atingir o ponto de não retorno. Há motivos para preocupação em Tel Aviv?

Eu diria que há claramente motivos para preocupação, aliás, já há muito tempo. Esta é daquelas coisas que nós vamos ouvindo falar repetidamente e que vai passando um pouco entre os pingos da chuva. Um pouco como no início da década de 30 se falava do rearmamento da Alemanha e os apaziguadores acabavam sempre por prevalecer e isso depois nunca acabou. Mas vamos ver isto. Se o Irão alcançar esse tal ponto de não retorno no desenvolvimento de uma arma nuclear, isso poderá alterar dramaticamente o equilíbrio de poder no Médio Oriente. Tel Aviv, historicamente, tem tratado o programa nuclear iraniano como uma ameaça existencial. Esta declaração de Macron pode levar mesmo Israel a intensificar as suas ações preventivas, incluindo ataques direcionados a infraestruturas nucleares iranianas. Mas vai de encontro àquilo que nós estávamos a falar anteriormente, que é precisamente qual será o papel de Donald Trump aqui. Tudo nos leva a crer que Donald Trump vai apoiar ainda mais Israel do que aquilo que os Estados Unidos tinham vindo a fazer. Mas isso acaba sempre por ser um mistério, porque nós nunca sabemos aquilo que Donald Trump fará. Permita-me só fechar aqui esta parte para tentar consolidar a minha resposta relativamente a Donald Trump. Donald Trump sempre mostrou ou deu a entender a toda a gente, incluindo a mim, que no dia em que fosse eleito ia fechar a torneira à Ucrânia. Mas reparemos que a Ucrânia passou a utilizar armas dentro do território russo fabricadas pelos americanos com autorização dos Estados Unidos, com Biden a dar autorização já depois de Donald Trump ter vencido as eleições. Ora, nós não ouvimos uma palavra de Donald Trump contra essa situação. Portanto, podemos estar aqui a divagar e a nadar em águas sobre quais foram os verdadeiros motivos que levaram Donald Trump a não se pronunciar sobre esse assunto. Só o futuro nos dirá, mas que é um grande mistério, é.

E é com essa nota que terminamos o "Gabinete de Guerra". Obrigado Pedro Nascimento, investigador de História Militar. O "Gabinete de Guerra" regressa já amanhã aqui na Rádio Observador. Fica disponível, como sempre, em podcast.