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Este é o Gabinete de Guerra, um podcast da Rádio Observador, em que olhamos para as mais recentes notícias da guerra na Ucrânia. Major-General João Vieira Borges, as manifestações anti-Israel num aeroporto na região russa da Daguestão este fim de semana. Estamos a falar destas manifestações. A propósito disto, o Kremlin logo apontou a influência externa para o que aconteceu e o Daguestão veio, entretanto, acusar mesmo diretamente a Ucrânia de estar por detrás disto. Há aqui aproveitamento por parte da Rússia?

Claro que há aproveitamento. O próprio Dmitry Peskov, isso foi a declaração de há pouco, o porta-voz do Kremlin, acusou logo a Ucrânia e todos os aliados da Ucrânia. Não quer assumir que tem, obviamente, dentro do seu território, muçulmanos, como é o caso do Daguestão, e portanto extremistas, mas a Rússia assume que não tem nem extremistas, nem nazis, nem homossexuais. Nunca tem nada dessas coisas a Rússia. É um país de 144 milhões, mas não há sequer um muçulmano extremista na Rússia. Portanto, todas as situações que se passam, mesmo em Makhachkala, no Daguestão, são sempre alguém do exterior. Isso faz parte da narrativa russa já há muito tempo, em todas as situações, e esta é certamente mais uma. Mas é um desviar da atenção daquilo que são os benefícios da Rússia desde o dia 7 de outubro, em que tem desenvolvido uma série de operações e uma série de ações que não aparecem nos órgãos de comunicação social. Por outro lado, nós percebemos perfeitamente que a Ucrânia está preocupadíssima. Ainda ontem no discurso, Zelensky chamava a atenção que o mês de novembro e o mês de dezembro são muito críticos. Primeiro, por esta atenção do mundo relativamente à Palestina, ou Gaza, ou Israel. Segundo, relativamente aos apoios que, mais uma vez chamou a atenção ontem, que nunca mais chegam numa altura em que se preparava uma ofensiva da Rússia para novembro, dezembro. E, portanto, o teatro de operações mantém-se mais ou menos na mesma linha. Temos duas cidades que continuam a ser estandartes de destruição, Bakhmut e Avdiivka, em que tem havido novamente grandes investimentos, depois de algumas conquistas da Ucrânia. Agora grandes ataques, quer aéreos, quer de surface, eu vou vendo isto ao longo destes dias, tem aumentado nestas duas cidades a ofensiva da parte da Rússia, de maneira a ganhar mais algum espaço, para depois estabilizar, certamente, com o general inverno. Independentemente de haver ou não uma ofensiva, o que vamos depois assistir é combates em profundidade, com grande destruição das áreas da retaguarda, designadamente as áreas logísticas de comando e controle e comunicações.

Deixe-me perguntar-lhe sobre uma notícia que vem do Reino Unido. O Reino Unido diz que uma empresa militar russa está a recrutar mulheres para combate. Depois do aumento da idade para o recrutamento, até ir buscar prisioneiros, será um sinal de que para a Rússia vale tudo e de que existem muito mais perdas do que as oficiais reconhecidas pelo Kremlin?

É uma pergunta muito interessante para quem trabalha a demografia, como eu, relativamente a um país que tem 144 milhões e que estava um país envelhecido e que estava a ser invadido por imigrantes, designadamente até na fronteira com a China. Havemos de ouvir falar nisso nos próximos 10 anos. Tinha problemas já para o próprio mundo do trabalho, em termos demográficos, a própria Rússia, com uma guerra destas, com mais de 500 mil homens ali no teatro de operações, está a sentir dificuldades enormes. Nós vemos isso através, sobretudo, dos minibloggers, e portanto fazem uso de tudo o que é possibilidade de ir buscar gente, seja prisioneiros, como disse há pouco e muito bem, seja mulheres, mesmo pra linha da frente e não só nas áreas de retaguarda, seja mercenários de todo o tipo. Nós estamos a sentir isso e o número de baixas, quer da Ucrânia, quer da Rússia, são mais de 600 mil neste momento. É uma guerra fratricida, continuamos nisto há 20 meses. Mas também a comunidade internacional, fruto do fato de a Rússia ser uma potência nuclear e membro do Conselho de Segurança, não consegue, obviamente, resolver esta questão. Eu espero que na sequência da reunião de Malta, que também ninguém falou, que foi uma reunião preparatória de uma reunião para trabalhar a paz, num futuro próximo, a próxima reunião ainda não tenho indicação de como é que será, se comece a trabalhar efetivamente numa situação mais real, ou seja, afastar quer da parte da Ucrânia determinadas condições, quer da parte da Rússia, no sentido de encontrarmos pelo menos um período de cessar-fogo e da comunidade internacional repensar aquele conflito durante algum tempo.

E por falar nisso, o ministro russo da Defesa disse hoje que Moscovo está disponível para negociar o pós-conflito na Ucrânia, que o Ocidente terá de deixar de procurar a derrota russa para que isso aconteça. De vez em quando surge esta oferta do lado russo, esta disponibilidade. O que é que Moscovo quer mesmo, senão desviar atenções, uma vez que os olhos agora estão mais do que tudo postos em Israel?

Israel também temos que falar de Rússia. Quando falamos de Irão, quando falamos da Arábia Saudita, quando falamos de todos aqueles países, a própria Turquia e o seu posicionamento, é um puzzle complexo Nós sabemos que é uma zona de influência estratégica importantíssima dos Estados Unidos. Os Estados Unidos tentou se afastar com os vários Acordos de Abraão e agora com a questão da Arábia Saudita, que infelizmente o Hamas conseguiu pôr final, mas era para se afastar daquele teatro para se empenhar no teatro de operações fundamental para os Estados Unidos, que é obviamente a questão do Indo-Pacífico e em segundo lugar, por hierarquia, e isso está no conceito estratégico dos Estados Unidos, ali na Europa, para confronto da Rússia. Mas a Rússia também tem um papel a dizer, porque tem uma influência muito grande em todos aqueles países que circundam Israel. Israel também está cercado. Gaza está cercada por Israel, mas Israel está cercado por um mundo islâmico. As pessoas se olharem para o mapa vão perceber perfeitamente como está cercado e como estão a lutar pela sua sobrevivência também. E nessa ligação, a tentativa da Rússia de negociar, de ter maior influência naquela região, é algo que depois está relacionado com alguma legitimidade e autoridade que ganhará neste conflito, para depois negociar na questão da guerra com a Ucrânia. As duas coisas para a Rússia estão relacionadas diretamente. Nós é quando estamos a comentar uma guerra e outra, obviamente separamos as águas e em especial não falamos da Rússia, mas a Rússia tem também uma influência muito grande naquela região.

Obrigada pela análise que trouxe aqui, Major-General João Vieira Borges. Olhámos para a guerra na Ucrânia e também para os ecos do conflito em Israel neste conflito na Ucrânia e naturalmente também as últimas do conflito entre Israel e o Hamas. Muito obrigada mais uma vez, Major-General.

Muito boa tarde, muito obrigado.

O "Gabinete de Guerra" é um podcast da Rádio Observador, vai para o ar de segunda a sexta, depois do noticiário das 09:30, tem nova edição depois da síntese das 16:30 e está sempre disponível em podcast. Eu sou a Vanessa Cruz.