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Este é o Gabinete de Guerra, esta manhã com a análise do Francisco Pereira Coutinho, professor universitário e especialista em Direito Internacional. Olá, Francisco, bom dia, bem-vindo.
Bom dia.
Começamos pelo discurso do Rei Carlos III, que foi ao Congresso Norte-americano pedir para que não se desista do apoio à Ucrânia, mas no jantar de Estado, Donald Trump puxou-o pra narrativa da derrota militar do Irão. Disse até que o monarca concorda com ele, ainda mais do que eu, palavras de Donald Trump. Francisco, estamos perante uma sintonia pública ou é apenas cortesia diplomática para suavizar as tensões com o Reino Unido?
O monarca britânico está nos Estados Unidos, até porque Trump esteve também, creio eu, ano passado a visitá-lo e esteve no Palácio de Windsor num jantar. Ele disse que foi a maior honra da vida. E tudo isto para dizer o quê? Que tirando essa pequena boca de Donald Trump a propósito do Irão, em que no fundo procurou colocar em causa a neutralidade do rei, dizendo que ele concorda mais do que eu próprio nesta ideia de que o Irão não pode ter uma arma nuclear. Os relatos que chegam dos Estados Unidos é que tivemos um Donald Trump muito educado e que praticamente disse aquilo que lhe pediram para dizer, o que é uma novidade quase absoluta. Já se sabia e ainda por cima saíram notícias nos jornais britânicos que aparentemente será primo do próprio rei, portanto, está aqui um passado comum. Trump muito embevecido, muito feliz com a circunstância de estar a ter uma visita do rei britânico. Acabou por ser, tirando essa pequena saída daquilo que estava previsto, Trump muito educado.
Sobre o Irão, Trump disse no jantar da Casa Branca que tinham derrotado militarmente o oponente. No entanto, Francisco, Teerão acaba de anunciar a mobilização de 30 milhões de voluntários para defender a nação contra a ofensiva norte-americana e o Hezbollah planeia usar bombistas suicidas para expulsar Israel do Líbano. Como é que Washington deve lidar com esta resistência? E será mesmo assim ou é apenas propaganda para tentar demover a administração de Trump de uma escalada maior?
Eu acho que há sempre muita propaganda nesse tipo de propostas que me parecem exageradas. Agora, o Irão não se rendeu, não houve nenhuma rendição condicional, muito menos nenhuma capitulação. O Hezbollah também não. Aliás, não deixa de ser interessante verificar que neste momento há um cessar-fogo, certo, quebrado frequentemente por Israel, mas há um cessar-fogo declarado em resultado de uma exigência do Irão, que era uma condição para haver negociações para chegarmos a um acordo, no momento em que não há nenhum tipo de negociações e o cessar-fogo continua. O Irão conseguiu, pelo menos, que o seu proxy, o Hezbollah, neste momento não esteja a ser atacado em larga escala por Israel. Estamos numa situação que já conhecíamos de Gaza, que no fundo era um cessar-fogo que foi decretado há seis meses, que seria o prelúdio para um processo negocial para uma paz permanente. E aquilo que observamos é que estamos numa situação de completo impasse, porque temos um bloqueio do Irão ao Estreito de Ormuz, um bloqueio americano ao bloqueio iraniano, e não parece haver aqui uma saída muito clara negocial para este conflito, até porque já percebemos que os americanos estão, e todas as indicações assim o dizem, um pouco depenados. Isto é o Gabinete de Guerra, discutimos aqui muitas questões bélicas, mas não deixa de ser impressionante.
Também falamos de economia e do impacto.
É verdade, mas não deixa de ser impressionante que os Estados Unidos tenham gasto, aparentemente, em pouco mais de um mês, 30 mil milhões de dólares, tenham utilizado cerca de metade das suas principais munições. Estamos a falar dos chamados ATACMS, falamos muito no Irão, mísseis de longo alcance, JCMS, Tomahawks. Metade! Só têm metade, gastaram metade. Gastaram cerca de 10 anos de produção de Patriots. E as notícias que chegam do Irão dizem-nos que, afinal, o Irão não foi propriamente obliterado, porque ainda tem metade dos lançadores, 60% dos mísseis, dois terços da Força Aérea. Donald Trump disse que a Força Aérea iraniana, já disse isso várias vezes, que não era propriamente muito impressionante, tinha sido totalmente destruída. Mas não.
Mas o Irão diz que tem mais cartas para dar ainda.
Aparentemente, continuam com dois terços dos aviões e continuam com muitas lanchas. A maior parte dos navios, de facto, foi afundada, mas continuam com lanchas que são suficientes para bloquear o Estreito de Ormuz. Obviamente, o Irão nunca teve navios para conseguir contrariar as armadas americanas, que entretanto foram para ali, mas isto é um conflito profundamente assimétrico. E eu acho que Donald Trump percebe isso, até porque não temos ouvido nos últimos dias nenhumas ameaças bíblicas de que iria destruir a civilização iraniana e portanto, ele agora utiliza o bloqueio para tentar, pela via da coerção económica, tentar chegar ao resultado que pretende, que é um acordo nuclear mais favorável. E ontem, essa afirmação a propósito do jantar de Estado do Rei vai muito nesse sentido, tentar encontrar aqui um consenso para conseguir então um acordo nuclear que permita que o Irão não tenha uma arma nuclear. E estamos todos de acordo, o Irão não deve ter uma arma nuclear. Aliás, o próprio Irão sempre disse que nunca teria uma arma nuclear, embora isso não seja propriamente verdade.
Enquanto o Rei Carlos III pede em Washington para não se esquecer a Ucrânia, a atenção do mundo está presa no preço do combustível e na desintegração da OPEP com a saída dos Emirados Árabes Unidos. Francisco, esta fragmentação do bloco petrolífero é uma vitória indireta para a Rússia, que vê os rivais do Golfo divididos, enquanto o foco militar e financeiro do Ocidente se desvia de Kiev para o Golfo Pérsico.
Uma questão difícil.
E complexa, não é?
É, porque o cartel serve essencialmente para manter os preços do petróleo elevados. A Rússia, creio que não é membro da OPEP, mas é membro do OPEP+, ou seja, de um grupo mais alargado que procuravaLimitar a produção de petróleo ou pelo menos controlar a produção de petróleo para manter os preços artificialmente elevados. E isso é péssimo para os países que não produzem petróleo, que é o caso de Portugal, por exemplo. A circunstância dos Emirados saírem da OPEP, eu diria duas coisas: um, neste momento não adianta muito, porque o estreito está fechado e, portanto, há menos petróleo no mercado, então os preços vão estar sempre elevados. Em segundo lugar, os Emirados querem aumentar a produção, mas não têm maneira de escoar, justamente porque o estreito está fechado. Agora, a prazo, isso vai significar uma redução dos preços. É muito provável que resolvendo-se esta crise no Medio Oriente, e aqui uma condição que não sabemos muito bem quando é que isto se vai resolver, é muito provável que os preços baixem. E isto resulta essencialmente de um conflito entre países árabes, entre a Arábia Saudita, que era a líder do cartel, e os Emirados. Há quem diga que isto é uma espécie de declaração de independência dos Emirados em relação à Arábia Saudita. Eu creio que a Rússia sairá sempre prejudicada, porque está muito dependente da exportação de hidrocarbonetos. Portanto, se isto a prazo significar uma redução do preço do petróleo, isso acabam por ser más notícias para a Federação Russa. E os Emirados, no fundo, aproveitam esta situação atual, que sabem que esta decisão não terá consequências a curto prazo, para deixar já aqui um precedente para o futuro de saída deste cartel. Não é o primeiro país árabe a sair do cartel, o Qatar saiu também há uns anos, mas os Emirados representam cerca de 5% da produção de petróleo mundial. É de facto uma decisão significativa para eles.
Entretanto, depois de uma pausa de cerca de dois meses imposta pelo conflito no Irão, as ligações aéreas entre Teerão e Moscou foram retomadas. O anúncio foi feito 24 horas depois do ministro dos Negócios Estrangeiros iraniano se ter reunido com Vladimir Putin. Isto é apenas logística ou é um sinal claro de que o Irão já encontrou na Rússia o suporte econômico e político para ignorar a pressão do bloqueio naval de Donald Trump?
A Rússia é essencial para o Irão ignorar esse bloqueio, tal como o Irão foi muito importante para a Rússia ultrapassar as sanções internacionais que lhe foram decretadas por causa da guerra na Ucrânia. Até porque o Irão é um país enorme e tem o mar Cáspio, onde consegue exportar também uma série de bens que são absolutamente essenciais, havendo este bloqueio naval norte-americano no sul do Irão, no Golfo Pérsico e no estreito de Ormuz. Eu creio que mostra uma coisa, que é aquilo que o Donald Trump disse não é verdade, que houve uma mudança de regime no Irão. Não, o regime é exatamente o mesmo, foi apenas rejuvenescido e tudo indica, ainda mais radicalizado.
Como já aqui o Francisco disse noutras vezes.
Sim, e portanto aproxima-se do aliado histórico, pelo menos na história recente, que é a Federação Russa, e há aqui uma relação de dependência muito grande entre os dois.
Francisco Pereira Coutinho, muito obrigada pela análise no Gabinete de Guerra. Bom final de semana.
Obrigado.
Obrigada, Francisco.