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Essa agora é o Gabinete de Guerra das manhãs 360. Esta segunda-feira a análise é de Manuel Poes Torres, especialista em relações internacionais. Bem-vindo, muito obrigada por ter aceitado o nosso convite.

Olá, muito bom dia.

Olá, bom dia. Começamos por Zelensky, que acusa a Rússia de estar a usar a frota fantasma de petroleiros para lançar drones sobre a Europa. O último país a ver o seu espaço aéreo invadido foi a Dinamarca. Zelensky defende que o Mar Baltico devia ser fechado à navegação desta frota fantasma russa. Manuel, esta pode ser uma das soluções e quem tem autoridade e legitimidade para o fazer?

Esta é uma questão muito importante. E esta notícia que saiu ontem, durante a declaração da noite do presidente Zelensky, vem fazer aqui algumas revelações que não serão bombásticas, mas que vêm confirmar aquilo que já seria a percepção de muitos especialistas e de muitos analistas. É natural que, a confirmar-se estes dados, porque estes dados têm que vir a público e têm que ser confirmados por partes terceiras, especialmente pelos países que sofreram esse tipo de incursões, isto entra numa área de observação daquilo que foi declarado nas últimas cimeiras da NATO, de que ataques híbridos com atribuição podem ser suficiente para ativar o artigo quinto do Tratado de Washington da NATO. Ora, e isto é muito importante, porque desde 2014, em declaração, em cimeira após cimeira, tem a NATO vindo a aumentar aquilo que é a sua sensibilidade a ataques de guerra híbrida. E neste momento, nós temos a Dinamarca, temos a Holanda ou a Espanha, a Noruega, a Suécia e a Alemanha debaixo de uma campanha para tentar quebrar a normalidade do funcionamento de aeroportos, mas também sendo alvos de peritagem técnica e de recolha de informações e de intelligence persistente deste tipo de aeronaves. Aeronaves essas que não estão completamente identificadas, não se conhece a sua origem e não se sabe exatamente para onde vão depois da sua missão ser concluída. Portanto, existem aqui vários níveis de perguntas que não estão respondidas. Uma segunda pergunta será, e muitas pessoas fazem essa questão: por que então estes drones, se são uma ameaça ao funcionamento dos aeroportos, se são uma ameaça àquilo que são as informações classificadas de áreas militares, por que não são abatidos? Por que não são destruídos, por que não são neutralizados? Porque antes de se fazer essa neutralização, deve-se tentar compreender qual é a sua origem. Por isso é que a Dinamarca e a Aliança Atlântica empregam os seus meios aéreos para tentar localizar exatamente a origem deste tipo de aeronaves, que têm saído, crê-se, de porta-contentores e de petroleiros, navios petroleiros que navegam alguns no Mar Báltico. E, portanto, a confirmar-se tudo isto, certamente que haverá mais nações a ativar consultas do artigo quarto para poder discutir exatamente qual é o próximo passo. Claro que a ativação de um artigo quinto por influência de um ataque de guerra híbrida não pressupõe apenas recolha de inteligência e persistência. Poderíamos aqui discutir se haveria necessidade de haver perda de vida humana ou não, mas isso é uma calibração política que só os decisores políticos é que podem fazer. Nós, como analistas, temos que tentar compreender aquilo que é declarado publicamente durante as cimeiras e aquilo que é a pressão sociopolítica e socioeconômica que neste momento os Estados estão a sofrer. Portanto, parece-me que a pressão política sobre a Europa aumentou. Este tipo de incursões aéreas já aconteceram no ano passado, nomeadamente em Nova Jersey. Também os Estados Unidos não tiveram a capacidade técnica e política para resolver de forma esclarecedora para o público. E o que é interessante é que a Dinamarca sofre este tipo de incursões através de drones, não em setembro, mas desde abril. Portanto, estes são dados de uma campanha que está em vigor na Jutlândia já há alguns meses. E que agora é que começamos a montar o puzzle desde o início. Portanto, estas informações vêm enriquecer aquilo que é uma verdadeira campanha de guerra híbrida russa sobre o Ocidente, especialmente sobre Estados específicos. E Portugal não está a salvo, porque faz parte de um dos Estados charneira do flanco mais ocidental, mas que mais tarde ou mais cedo podemos sofrer também essas incursões de drones, para a qual, se a Alemanha, a França e a Dinamarca têm dificuldades em gerir, em Portugal certamente não será diferente.

Manuel, entretanto, o secretário de Defesa dos Estados Unidos convocou uma reunião inédita, invulgar, com centenas de generais e almirantes americanos destacados em todo o mundo. Além de causar aqui algum alarmismo, qual é o objetivo de Pete Hegseth?

Pete Hegseth, como secretário da Guerra, já não é secretário da Defesa, o secretário da Guerra tem como objetivo, sabendo que não existe uma condição muito favorável à sua pessoa dentro do Pentágono, tem que garantir que este comando militar e os 800 generais e almirantes que compõem todo o nível do comando das Forças Armadas americanas estão debaixo daquilo que é o seu ethos para a guerra, o seu ethos do guerreiro. E, portanto, nesse sentido, pode ter a oportunidade, para lá de ter uma oportunidade de ter uma fotografia com toda a chefia militar, terá a oportunidade de transmitir as suas ideias, o seu pensamento, a sua visão estratégica, se é que podemos chamar, isto não é verdade. No entanto, existem aqui outras condicionantes. A condicionante de que Pete Hegseth Muito à boleia daquilo que tinha sido as políticas do departamento de OG, tinha como objetivo reduzir 20% de todos os generais e almirantes com quatro estrelas e 10% de todos os oficiais superiores. Portanto, penso que não há necessidade de se convocar 800 generais para se fazer despedimentos, mas há necessidade de se convocar 800 generais para se passar uma mensagem. E essa mensagem a ser passada vai ter consequências a nível do equilíbrio de poder militar de muitas fias. Equilíbrio de poder militar que está diretamente associado à presença militar dos Estados Unidos em diferentes teatros. Não se remove simplesmente um general, um almirante, sem que isso tenha impacto direto sobre a estrutura de forças que está a ser alocada. Portanto, parece-me que vão existir aqui várias reformas militares, várias reformas estratégicas, e no seio disto tudo está a multiplicação de ameaças àquilo que é o poder e a contestação de poder à tentativa unipolaridade dos Estados Unidos da América, ou pelo menos da agenda de Donald Trump para os próximos quatro anos. E estamos a pensar, claro, naquilo que vai acontecer no Médio Oriente, que está cada vez maior-

Já lá vamos. Sim

No Ásia-Pacífico, na Ucrânia, mas também naquilo que são os interesses do presidente Trump na América do Sul. Portanto, parece-me a mim que tudo ficará mais claro a partir de hoje, assim que a reunião tiver lugar, para tentarmos compreender se existe mais qualquer coisa para lá disto ou não. Mas certamente que a visão estratégica será um dos focos principais desta reunião.

Sobre o Médio Oriente, Trump e Netanyahu reúnem hoje na Casa Branca, um dia depois do presidente norte-americano ter prometido surpresas nas negociações de paz. Disse mais que há uma oportunidade real de alcançar algo grande no Médio Oriente. Manuel Poes Torres, mais palavras e entusiasmo que depois não dão em nada ou desta vez há, de facto, algo em concreto?

Existe neste momento um plano em cima da mesa. Um plano que pressupõe a criação de um plano político, um horizonte político para a transição de poderes em Gaza. Um plano que pressupõe a paz em Gaza, queira o Hamas integrar este plano ou não. Portanto, é um plano que está consubstanciado em 21 pontos. São pontos que estão mais ou menos bem estruturados e que dizem respeito à desmilitarização e à segurança de Gaza, à devolução dos reféns e à libertação de prisioneiros palestinianos desde o início da guerra. À transição de governos, à desmilitarização e à eliminação da ordem do Hamas e a toda a criação ou recriação de uma coesão social que neste momento não existe, porque Gaza está destruída. E o objetivo aqui passa por permitir que os palestinianos de Gaza possam sair voluntariamente de Gaza, se assim o desejarem, mas que tenham a oportunidade de retornar a casa, retornar a Gaza, se um dia também o desejarem. E isto é uma modificação interessante daquilo que nós temos visto ao longo dos últimos meses, onde isto não se colocaria. O retorno pressupõe liberdade e essa liberdade deve ser assegurada. O reconhecimento dos Estados tem que acontecer depois do processo de transição, de acordo com este plano, processo de transição esse que vai necessitar de uma transição política de países terceiros, uma gestão política por parte dos países árabes, por parte de uma missão internacional que tem que servir como monitor da integração e do respeito pelos pontos que aqui estão determinados. Agora, neste momento, o que o Hamas diz é que ainda não recebeu qualquer proposta. No entanto, Donald Trump diz que todos aqueles envolvidos neste processo, inclusivamente o Hamas, estão de acordo e que estão a estudar estes documentos. O que é interessante aqui é que parece-me que querem dar uma porta de saída a todos aqueles que combatem pelo Hamas, ou através da sua saída voluntária para países que os querem receber, nomeadamente o Qatar, ou um perdão a todos aqueles que combatem pelo Hamas, mas que preferem viver em paz e que podem e que querem reconhecer o Estado de Israel. Portanto, é uma tentativa de encontrar um meio-termo no meio de uma situação amplamente delicada e que necessita garantidamente de concessões por parte de Israel. E nós sabemos que Netanyahu está encostado a uma parede, está entre a parede e a espada, face aquilo que são as tentativas da sua ala mais conservadora de garantir que esta guerra não termina sem a eliminação total do Hamas. O que o presidente Trump está a tentar propor é um meio-termo que pressupõe a saída do Hamas, desmilitarização do Hamas, o fim político do Hamas, sem que para isso seja necessário destruir o resto de Gaza numa missão que pode não ter fim. Missão essa, a não esquecer, que é uma missão que deixou de ser militar já há quase dois meses, tornou-se uma missão política de Netanyahu, porque o comandante das forças do IDF opôs publicamente a este plano que agora está em discussão.

Manuel Poes Torres. Sim, para concluir, por favor.

Para concluir, tudo isto para dizer que é muito provavelmente por via daquilo que foi um plano político de Netanyahu, que hoje o Hamas não tem a expressão de sobrevivência que lhe permitiria recusar um plano desta magnitude. Portanto, exporemos todos-

Vamos ver, sim

Gaza e Israel possam viver em paz e que este plano, de facto, se possa materializar em breve.

Vamos ver. Manuel Poes Torres, muito obrigada pela sua análise no Gabinete de Guerra. Boa semana.