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Gabinete de Guerra na Rádio Observador, o espaço onde analisamos os principais focos de tensão na geopolítica mundial e hoje contamos com a análise do ex-professor de história na Academia Militar, António José Telo. Seja muito bem-vindo à Rádio Observador. Obrigado por aceitar o nosso convite.
Muito obrigado. Muito boa tarde.
Vamos começar, inevitavelmente, pelo Médio Oriente e vamos falar de uma reportagem do Financial Times que indica que o Irão pode estar a ponderar atacar a Europa caso a administração Trump tenha iniciativas que sejam vistas por Teerão como ameaças. A NATO já respondeu a esta ponderação por parte do Irão, diz que não está preocupada e que consegue interceptar os mísseis lançados pelo Irão, se esse for o caso. Aliás, já o fez quando houve mísseis que foram interceptados na Turquia cerca de quatro vezes. Pergunto-lhe por que esta ameaça iraniana, para que escalar esta guerra para a Europa? O Irão não sairia prejudicado com o ataque em solo europeu, tendo em conta que poderia levar, por exemplo, à ativação do artigo quinto da NATO?
O Irão já atacou a Europa, não só na Turquia, mas atacou Chipre. Portanto, atacou uma base da RAF, do Reino Unido em Chipre, e como tal, Chipre é um território europeu e é da União Europeia. Portanto, já atacou a Europa. O Irão tem seguido, desde o começo desta guerra, uma política que até não tem corrido mal em termos diplomáticos, que é atacar tudo que de alguma maneira sirva de base aos Estados Unidos. O objetivo é simples, é fazer com a esperança que esses países façam pressão sobre os Estados Unidos para não continuarem as operações e, para além disso, para tentar aumentar o eco internacional da sua guerra. Portanto, não me admira nada que sim, que tensionem para a Europa caso tenham meios para isso. Ter, tem, não sei a quantidade, mas por exemplo, o Irão também lançou um míssil para Diego Garcia. Diego Garcia são 4 mil km, portanto, dá para chegar praticamente aos Pirenéus. Grande parte da Europa, dos Pirenéus para leste, está dentro do alcance. Também se diz que o míssil que o Irão lançou para Diego Garcia era um míssil praticamente só com combustível, sem mais nada, e foi feito justamente para dar uma ideia falsa, que é a ideia que teriam mísseis com alcance de 4 mil km. Ou seja, poderão ter, mas o seu efeito prático será muito reduzido. Em relação à NATO dizer que não está preocupada e que tem meios de intercepção, tenho também sérias dúvidas. Estamos a falar da Europa, não acredito que aconteça, mas imaginemos que o Irão tem, de facto, em quantidade, mísseis com alcance de 4 mil km. Estamos a falar de qualquer alvo na Europa, por exemplo, as bases americanas na Alemanha ou as bases americanas em Itália, que são mais próximas, ou as bases do Reino Unido em Chipre, etc. Portanto, tenho dúvidas sobre essa real capacidade da NATO europeia de fazer a defesa desses alvos. Até as informações que temos é que, por exemplo, essas defesas serão inferiores à que são as defesas das bases americanas no Médio Oriente. Portanto, tenho dúvidas. Agora, o que também é de acreditar, e isso acredito, é que o Irão não tem mísseis com alcance de 4 mil km que possam levar uma carga explosiva significativa. Há também uma lição a tirar disto: é que agora não tem, mas daqui a uns tempos pode ter. E nós não sabemos qual será esse tempo. Pode ser daqui a um ano, pode ser daqui a dois, a três, a quatro. Ora, quando o Irão tiver mísseis com alcance de 4 mil km e uma carga explosiva que lhe dá para alcançar praticamente toda a Europa, a Europa deve perguntar-se como é que nós deixamos que isto acontecesse. Como é que deixamos que esta situação se criasse, que um regime como o do Irão, que já provou que ataca tudo e todos sem querer saber, como é que deixamos que esse regime adquirisse este tipo de armas, que agora nos podem ameaçar efetivamente? Portanto, essa é a pergunta que a Europa deve fazer ao quanto pensa na sua política para o Médio Oriente e, nomeadamente, na sua política em relação a esta guerra do Irão. Já agora, a Europa e em particular a NATO europeia, que há pouco tempo provou que há duas coisas que para ela, NATO europeia, são inaceitáveis, que é o armamento nuclear do Irão e que é o estreito de Hormuz não estar aberto. Portanto, ela aprovou isso. Foi uma das coisas aprovadas na última cimeira da NATO por unanimidade e como sabe, a esmagadora maioria dos países da NATO são europeus, com exceção dos Estados Unidos e do Canadá.
Este ataque suposto do Irão que pode vir a acontecer, o Irão obviamente não confirmou estes planos, mas esta reportagem do Financial Times indica, e estava aqui agora a ler, que os alvos podem ser alvos no sul da Europa. Portanto, estamos a falar de países como Portugal, Itália, Grécia, Espanha. Estes países não têm os meios suficientes para poder responder ao Irão. Caso um desses países fosse atacado, abriria a ativação deste artigo quinto da NATO.
O que o Irão tem atacado, ou pelo menos o que o Irão diz atacar nos países do Golfo, nos seus vizinhos, fundamentalmente são bases americanas, mas a verdade é que já tem atacado instalações petrolíferas, tem atacado centrais de tratamento de água, portanto, não tem nada a ver com bases americanas.
Sim, pontos focais de energia.
Focais de energia, portanto, são coisas que não têm nada a ver com bases americanas. Ora bem, obviamente, uma coisa é o que o Irão gostaria de atacar, outra coisa é o que ele pode atacar.
Certo.
Os mísseis que neste momento o Irão tem, em muita pequena quantidade, poderão no máximo chegar a Chipre, ou seja, nem sequer à Grécia, mas a Chipre. Mas dentro de pouco tempo, se não for feito nada, e nomeadamente se esta escalada do Irão continuar, é relativamente fácil obter mísseis com, por exemplo, 3000 km. Com 3000 km já chegam à Grécia e já chegam à Sicília ou ao sul da Itália, onde estão bases americanas também. E se forem 4000 km, abarcam toda a França e abarcam uma parte do Reino Unido. A Portugal ainda não, Portugal era preciso mais que 4000 km. Portanto, quanto a isso, é de fato preocupante, tanto mais que aparentemente é o Irão que ameaça diretamente. E já vimos que ele não hesita em atacar países neutros, desde que ache que isto corresponde à sua política de expandir a guerra e envolver os outros países nesta guerra, na esperança que quer seja um envolvimento no sentido de condicionar os Estados Unidos, como se isso pudesse acontecer por parte dos países do Médio Oriente que são atacados. Pelo contrário.
Ou seja, este possível ataque, não diria para não ser levado de forma séria, mas tendo em conta, como dizia, o facto do estoque de mísseis iranianos para atingir estes alvos serem poucos, ou pelo menos não existirem muitos neste momento, é uma ameaça para não ser levada a sério?
Eu não disse que era uma ameaça para não ser levada a sério, eu disse exatamente o contrário. Em primeiro lugar, têm alguns mísseis que podem atingir Chipre. Chipre é Europa e está ligado à União Europeia diretamente, portanto, tem mísseis que podem atingir a Europa, para já não falar na Turquia.
E isso ativa um artigo quinto da NATO, se existir um ataque aí?
A ativação do artigo quinto depende do Estado que for atacado. Imagine que a Turquia é atacada pelo Irão. Ela pode ativar o artigo quinto. E devo dizer que se isso acontecesse, estou convencido que os Estados Unidos ficariam muito contentes. Os Estados Unidos imediatamente provariam, com certeza, justifica-se o artigo quinto, a NATO inteira vai se envolver.
Mas e se a NATO inteira se envolvesse, não quero estar aqui a exagerar, mas imaginando que a NATO se envolvesse e a Turquia é um alvo que é possível para o Irão, sabemos disso. Caso a NATO se envolvesse, o Irão teria outros aliados, por exemplo, Rússia, China?
Vamos por partes. A Turquia é um alvo possível para o Irão de um ponto de vista físico, ou seja, os mísseis do Irão atingem a Turquia. Tenho sérias dúvidas que até o Irão, que tenho muitas vezes dúvidas de perceber a sua lógica, mas que até o Irão se lembrasse de fazer um ataque a sério à Turquia, porque era transformar um Estado que se tem mantido relativamente neutro neste conflito num inimigo direto. A Turquia iria sem dúvida responder. E mais, sendo um país da NATO, era até provável que invocasse o artigo quinto. Se invocasse o artigo quinto, toda a NATO se poderia envolver, embora diga-se, cada um dos Estados da NATO podia tomar uma decisão. Ou seja, por exemplo, a Espanha podia tomar uma decisão: não, achamos que não se justifica o artigo quinto e a França tomar a decisão justamente contrária. Portanto, isto na NATO é perfeitamente possível caso o artigo quinto seja invocado. Embora se isso acontecesse, imagine que a Espanha dizia que não, aí iria contra o espírito da NATO, porque o espírito da NATO é um por todos e todos por um, ou seja, se um for atacado, é como se todos fossem atacados. Mas isso, de qualquer modo, são especulações em relação ao futuro. Agora, é preciso compreender uma coisa: é que esta ameaça é muito séria, porque o Irão tem, de fato, mísseis capazes de atingir à volta dos 2000 km. Os alvos de Israel estão cerca de 1500 km, portanto, Chipre já está perto dos 2000 km, o que significa que num prazo relativamente curto, se continuar a desenvolver o seu armamento e a sua tecnologia, rapidamente pode ter mísseis que alcançam 3000 km, 4000 km e, portanto, abarca toda a Europa. E se vai atacar, se o Irão tem atacado países do Golfo, a pretexto de que tem lá bases americanas, há muitos países da Europa que têm bases americanas. A começar na Alemanha e no Reino Unido, por exemplo, a Itália, a Grécia, a própria Turquia, todos estes têm bases americanas. Portugal, mas embora Portugal esteja no extremo limite do alcance.
Sim, e está muito longe.
Sim, está longe, muito longe nestas coisas dos mísseis. O míssil é um bocado como o avião, o alcance, a autonomia de um avião depende da carga transportada. Se o avião leva a carga completa, imagine passageiros e bagagens, não pode levar gasolina, tem limites. Agora, se o avião for vazio, não leva passageiros, aí pode levar mais gasolina e logo a autonomia aumenta. No míssil acontece a mesma coisa. Se o míssil está para transportar 1000 quilos de explosivo, se levar só 500, o alcance aumenta. Pode levar mais combustível. Portanto, a questão é ter mísseis balísticos que tenham esse alcance de longa distância. Se o Irão tem mísseis com 2000 km, se não forem colocados nenhuns entraves ao seu desenvolvimento, a muito curto prazo pode ter mísseis com alcance de 4000 km. Por exemplo, a Coreia do Norte tem mísseis com alcance superior a 4000 km. Mísseis que, segundo ela diz, nunca foi comprovado, mas segundo ela diz que podem alcançar a Califórnia, portanto, podem atravessar o Pacífico inteiro e alcançar os Estados Unidos do outro lado do Pacífico. A Coreia do Norte está a desenvolver, a Coreia do Norte tem uma colaboração militar com o Irão de longa data, não é de agora. Diz-se inclusive que o programa de mísseis do Irão contou muito com tecnologia da Coreia do Norte e também do apoio russo, como é evidente. Como tal, isto é uma ameaça que a Europa devia levar muito a sério, mas muito a sério, porque o Irão, se tiver essa capacidade, é um regime de tal maneira ilógico que a poderá utilizar, independentemente das consequências.
Obrigado por essa clarificação relativamente à questão do Irão e falou da Coreia do Norte, falou da Coreia do Norte e desses mísseis que ultrapassam os 4000 km e também dessa cooperação, desse pacto com o Irão. Também sabemos que a Coreia do Norte chegou a enviar, por exemplo, soldados pra Rússia, portanto, existe também este eixo Rússia-China-Coreia do Norte que tem uma espécie de aliança ao Irão. A China, por exemplo, também forneceu, segundo relatórios e algumas reportagens, por exemplo, dos mídia norte-americanos, que a China forneceu serviços de inteligência mesmo ao Irão. E neste caso da Coreia do Norte, e é pra aí que eu queria ir agora, vou falar dos exercícios militares norte-americanos na Coreia do Sul. Donald Trump reduziu estes exercícios por serem dispendiosos, é o que diz o presidente norte-americano. E também diz que está em contacto com Kim Jong-un, algo que até foi confirmado pela irmã do líder norte-coreano. Trump diz agora que se vai reunir com Kim Jong-un ainda este ano. A minha pergunta é: acha que estes exercícios foram encurtados por realmente serem dispendiosos ou Trump percebeu também que a Coreia do Norte pode, por exemplo, dar estes mísseis de 4000 km ou ajudar o Irão a chegar a esses mísseis e então não quer chatear o líder norte-coreano?
Primeiro, deixe-me só fazer um parêntesis. Eu não incluiria a China nesse eixo Rússia-Coreia do Norte. Que existe um entendimento entre a Rússia e a Coreia do Norte, não há dúvida. Aliás, fala-se que é possível que 50 mil coreanos vão combater contra a Ucrânia ou mais, inclusive há quem diga 150 mil. Se for assim, é um envolvimento em larguíssima escala. Mas a China é um caso à parte. Aliás, quando diz que a China forneceu informações, eu devo confessar que as minhas informações, que são de fonte aberta, não vão nesse sentido. Vão no sentido que a Rússia forneceu ao Irão informações sobre a localização dos radares americanos para o lançamento dos mísseis do Irão. A Rússia. E sim, as fontes abertas que eu consulto, não há dúvidas, e são fontes de informação americanas.
O que eu estava a falar era de uma reportagem do New York Times que diz que a China deu informações de satélite e de reconhecimento para ajudar também posições militares no Irão. É uma reportagem do New York Times, era dessa que eu falava em concreto.
É possível. As minhas fontes abertas são abertas, não são secretas, como é evidente. As minhas fontes abertas que me merecem confiança mencionam somente a Rússia. Agora, em relação à Coreia do Norte e à questão que coloca. Vamos lá ver. Não há dúvida que os Estados Unidos, neste momento, é normal que estejam preocupados em reduzir as manobras e os treinos com outros países, pelo simples motivo de que têm uma necessidade de concentrar recursos no Médio Oriente. E não só agora, mas durante as próximas semanas e principalmente os próximos meses. É normal que façam uma redução. Agora, é também normal que haja contactos com a Coreia do Norte e com a China, justamente para limitar o envolvimento possível da Coreia do Norte em termos do Irão. Um fornecimento direto de mísseis de 4000 km de alcance ao Irão teria que ir por terra, nunca poderia ir por mar, mas esse fornecimento direto seria um ato hostil muito importante, não só em relação aos Estados Unidos, mas também em relação à Europa. Aliás, sobretudo em relação à Europa, porque o Irão com mísseis de 4000 km não atinge os Estados Unidos, mas atinge a Europa ou pode atingir a Europa. Seria um ato hostil muito forte. Tenho dúvidas que a Coreia do Norte faça isso. E é normal que os Estados Unidos, em conjunto com a China, estejam a fazer diligências, certamente não públicas, mas estejam a fazer diligências para convencer a Coreia do Norte que seria uma péssima opção. É normal que isso aconteça. Agora, aí o trunfo fundamental é a China.
Mas então este cancelamento ou essa diminuição destes exercícios conjuntos com a Coreia do Sul por parte de Trump, acha que foi realmente por serem dispendiosos? Não tem a ver com uma possível relação com Kim Jong-un pra não chatear o líder?
Não é a questão de dispendiosos. Por exemplo, os Estados Unidos há pouco tempo, publicamente, tiveram que retirar um dos seus porta-aviões do Médio Oriente e foram buscar outro. Qual é que foram buscar? Estava no Japão. Portanto, um dos porta-aviões do Japão, fora do tempo previsto, foi transferido para o Médio Oriente. Ora, o porta-aviões do Japão, escusado será dizer que é o porta-aviões que tem como principal missão dissuadir a Coreia do Norte. E tinha também como principal missão, é fácil de entender, participar em manobras conjuntas com a Marinha da Coreia do Sul. Portanto, se os Estados Unidos precisaram de retirar esse porta-aviões para o Médio Oriente, é normal que estejam, neste momento, não muito interessados em ter manobras conjuntas com a Formosa, com Taiwan, ou com a Coreia do Sul, ou com o Japão, porque neste momento há outras prioridades. Têm outras prioridades, nomeadamente em termos de poder naval. Agora, como lhe digo, a questão fundamental aí é a maneira de conter a Coreia do Norte em termos do apoio que poderá dar ao Irão. E nisso é normal que os Estados Unidos estejam a utilizar principalmente Pequim para poder pressionar a Coreia. Agora, há aqui, de facto, também alguma preocupação. Quando se faz isto, talvez não seja a altura mais conveniente para fazer grandes manobras nas águas sul-coreanas.
Claro. Muito obrigado. Chegamos ao final do nosso tempo. Fica por aqui o Gabinete de Guerra, hoje com a análise do ex-professor de História na Academia Militar, António José Telmo. Agradeço-lhe imenso pela sua análise.
Boa tarde e bom trabalho.
O Gabinete de Guerra está de regresso amanhã, fica sempre disponível em podcast.