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Rádio Observador, Gabinete de Guerra. Falamos de conflitos em curso, é sempre assim, depois das 16h, de segunda a sexta. Estamos em direto com o historiador Bruno Cardoso Reis e vamos falar bastante desta questão do cessar-fogo para a Faixa de Gaza, a discussão em torno deste cessar-fogo. Ontem, final da tarde, muito atribulado, o Qatar deu o acordo como fechado. Trump falou nas redes sociais, elogiou e destacou este acordo, elogiou também o papel que teve neste acordo. Diz que a eleição em novembro mostrou ao mundo que os Estados Unidos, na liderança de Trump, vão lutar por situações de paz e por final de conflitos. Isto foi o que disse Trump ontem ao final do dia. Joe Biden também quis recolher os louros, deu uma conferência de imprensa a detalhar este acordo e o papel que tiveram os Estados Unidos também para chegar a este entendimento. Acontece que Israel e o Hamas ainda não se comprometeram de forma oficial, 100%, com todo este entendimento. Nesta altura, Antony Blinken, secretário de Estado dos Estados Unidos, está a discursar sobre o cessar-fogo. São declarações que vamos detalhar mais à frente. Mas Bruno Cardoso Reis, boa tarde, em que ponto estamos nesta altura? Há condições ou não para o cessar-fogo avançar mesmo já no próximo domingo, a data que foi apontada?
Acho que temos que continuar a ter grande prudência e volta-se a confirmar aquilo que eu tenho dito, e infelizmente se tem provado acertado há muitos meses, pelo menos desde maio de 2024, que se fala num acordo, do ano passado, que se fala num acordo em termos muito semelhantes a este. E a questão é sempre, por um lado, esperar que haja, de facto, a assinatura do acordo e é verdade que houve sinais que isso estava iminente, ou seja, tivemos não só o presidente dos Estados Unidos, mas por exemplo, o próprio presidente de Israel. Mas é importante recordar que quem controla o governo em Israel não é o presidente, não é um sistema presidencial, aliás, tal como em Portugal, é o primeiro-ministro. Falta depois não só ainda a assinatura, mas falta depois a implementação e os problemas já começaram ou já recomeçaram, se quisermos. Em parte, isso reflete também esta questão, que é: há uma pressão internacional muito forte há muitos meses, e crescente, sobre Netanyahu para assinar um acordo. Há uma pressão muito forte da parte dos familiares dos reféns e sabemos, de acordo com as sondagens, a maior parte dos israelitas é favorável a um acordo, também já há muitos meses, sobretudo por causa dessa questão, da preocupação em salvar o máximo possível de vida de reféns que estão nas mãos do Hamas desde o ataque do 7 de outubro. Mas há aqui um custo também para a imagem de Israel, embora o atual governo pareça não valorizar muito a imagem internacional, por causa do enorme sofrimento da população civil em Gaza. Mas a verdade é que há aqui um fator que também tem pesado sempre e que continua a pesar contra o acordo, que é: esta é uma coligação, o Netanyahu não tem maioria absoluta no Parlamento, aliás, é essa a regra na política israelita há muitos anos, mas precisa de partidos de extrema-direita, a direita radical, que são contra qualquer tipo de acordo com qualquer ator palestiniano e que mais uma vez manifestaram de forma muito vocal contra este acordo, inclusive, por exemplo, o ministro Ben-Gvir ameaçando demitir-se e votar uma moção de censura contra o atual governo no Parlamento, levando a uma queda de Netanyahu. E de facto, Netanyahu é o grande sobrevivente na política israelita há muitas décadas, não por acaso, é porque em muitos casos quando está confrontado com uma crise que o pode ameaçar, que pode ameaçar a sua sobrevivência política, ele acaba por encontrar uma solução que garanta a sua vida política. Eu diria que, apesar de tudo, neste caso, parece que já foram dados passos muito grandes para haver aqui um recuo completo, mas acho que tudo tem que continuar a estar em cima da mesa até tudo estar fechado e tudo estar a ser implementado.
Esta conferência imprensa que está em andamento de Antony Blinken. Vamos tentar recuperar o início desta conferência de imprensa e perceber também a posição dos Estados Unidos sobre o andamento destas negociações. Escutamos Antony Blinken. Começa por agradecer aos jornalistas. Agradecer a trabalho de jornalistas que viajaram muito longe. Agradecer o facto de serem feitas as perguntas difíceis. Esta é uma conferência de imprensa também de final de mandato do secretário de Estado norte-americano. No próximo dia 20 muda a presidência norte-americana. E agora as perguntas a serem feitas, mas aqui com alguma dificuldade também para chegar a essa fase de perguntas. Parece que há jornalistas também a tentar interromper esta declaração inicial. O que temos aqui é, de facto, um jornalista que está a tentar interromper o discurso inicial de Antony Blinken Com perguntas precisamente sobre Israel. E agora a Antena 1 vai continuar esta ligação. Já voltaremos a esta conferência de imprensa, para já ainda muito inicial e com alguns agradecimentos, mas já lá voltaremos. Bruno Cadouço Reis, qual é o papel dos Estados Unidos em todo este processo? Ontem Joe Biden quis puxar dos louros, quis falar bastante daquilo que foi o trabalho e que os Estados Unidos vão continuar em contacto com as forças locais para garantir que este processo avança, não só na primeira fase para depois ir para a segunda e para a terceira. Qual é a importância dos Estados Unidos em todo este desfecho?
Tem sido uma importância muito grande, mas não decisiva neste sentido, ou seja, não são os Estados Unidos que decidem quando é que vai haver um acordo. Portanto, muitas vezes eu tenho de sublinhar este ponto, que é esta ideia, uma visão muito simplista da política internacional, que é há grandes potências, há Estados muito poderosos como os Estados Unidos, às vezes até o próprio presidente eleito Trump parece subscrever algo desse género, e isso significa que são as grandes potências que decidem e os outros obedecem. Ora isso está muito longe de ser assim. Se fosse assim, os Estados Unidos não tinham retirado do Afeganistão e não tinham sido forçados a aceitar, no fundo, uma vitória dos talibãs depois de 20 anos a combaterem esse grupo. Se fosse assim, o regime de Assad na Síria não tinha caído porque a Rússia queria continuar a apoiar esse regime. Portanto, de facto, as grandes potências têm grande poder, têm grande influência, têm uma palavra muito importante a dizer, mas não são as que decidem, são os beligerantes, são os países ou os grupos que estão a combater no terreno, que em última análise decidem quando é que querem fazer a paz, quando é que há condições para a paz. Obviamente, isso não quer dizer que não haja aqui uma pressão importante do exterior, mas se não houver vontade de acordo dos grupos que estão no terreno a combater, qualquer paz, qualquer acordo será sempre muito frágil. E portanto, vimos os Estados Unidos a fazer enorme pressão sobre Israel há muitos meses, praticamente quase desde o início da guerra, para haver um acordo de cessar-fogo para aumentar a ajuda humanitária. Alguma coisa aconteceu ao nível da ajuda humanitária, mas sempre menos do que aquilo que os Estados Unidos queriam. E conseguimos até agora um acordo de cessar-fogo, que foi o único que resultou, aliás, na libertação de reféns e num período curto de alívio do sofrimento da população civil de Gaza, mas basicamente já estamos há um ano praticamente sem um acordo e portanto isso mostra também aqui os limites do poder americano.
Mas houve aqui algum tipo de pressa, antecipação, por causa também do prazo da mudança de administração para avançar com este anúncio de entendimento? Porque parece que estamos numa situação de limbo, na verdade, quanto a este cessar-fogo. Quem o está a negociar, Qatar, Estados Unidos, foram rápidos a apontar para o acordo fechado e Israel e Hamas ainda a dizerem que não é bem assim.
Há aqui duas interpretações possíveis. Uma é que os dois lados, por razões distintas, Netanyahu porque está sob pressão dos seus parceiros de coligação, o Hamas porque eventualmente também de acordo com as notícias estará a tentar garantir que tem mais controle sobre a lista de prisioneiros palestinianos que são libertados, os dois lados continuam a querer tentar obter aqui algumas concessões antes do fecho completo do acordo. E portanto, eu diria, e tenho dito, aliás, de forma muito sistemática, que temos que ter grande prudência em dar o acordo por encerrado, até ele estar mesmo assinado pelas partes, que é quem tem de assinar o acordo, e mesmo até começar a sua implementação. Agora também percebo que os países que estão aqui a funcionar como mediadores, no fundo, também utilizam estes anúncios como uma forma de fazer pressão sobre as partes, tentar garantir que realmente se chega ao fecho do acordo. E apesar de tudo, a verdade é que quer o Hamas, quer, como já referi, o próprio presidente de Israel, já vieram dar o acordo como tendo sido de facto alcançado. Portanto, aparentemente há realmente aqui uma negociação de última hora que está a complicar isso, mas isto só mostra como realmente há aqui uma enorme desconfiança entre as partes e por causa disso, uma enorme dificuldade em chegar a acordo e portanto temos que ter muita prudência nas análises em dar por fechadas coisas que ainda não estão ou dar até por garantido que elas serão efetivamente implementadas.
Ficam também, por causa de tudo isto que estamos a dizer e daquilo que foste referindo nos últimos minutos, muitas dúvidas para aquilo que pode acontecer à Faixa de Gaza, imaginando um cenário em que avança este cessar-fogo nos próximos dias, avança a libertação de reféns, avança a retirada de tropas, a entrada de apoio humanitário e depois, o que acontece à Faixa de Gaza?
Sim, desde logo vai haver aqui uma transição muito difícil para a segunda fase do acordo, onde se estará a avançar para supostamente um cessar-fogo mais definitivo. E portanto, se é tão difícil chegar a um acordo já para esta primeira fase, eu diria que temos que ser especialmente prudentes em relação a esta ideia de que vai haver um cessar-fogo mais definitivo. Mas sobretudo o que falta sempre aqui é uma visão política, aliás, dos dois lados, porque falamos muito disso a respeito de Israel, que é um Estado em relação ao qual há expectativas maiores a esse respeito, no fundo, ter aqui uma resposta política e não apenas militar, mas do lado do Hamas também. Basicamente, o que isto mostrou é que o Hamas só tem uma resposta militar, não tinha nenhuma ideia política para o que se ia seguir ou se calhar tinha, que era esta ideia de um alargamento da guerra com o envolvimento do Hezbollah e o envolvimento mais direto do Irão, mas isso acabou por não se concretizar. Mas de facto, uma crítica que é muito feita ao governo israelita, inclusive no interior de Israel, e até por alguém como o anterior ministro da Defesa, que é um membro do próprio partido de Benjamin Netanyahu É esta ideia de que não há uma resposta política, não há uma ideia de quem é que vai governar Gaza a seguir, em alternativa ao Hamas, de como é que se vai fazer a reconstrução e como é que se vai garantir, para além disso, uma paz mais durável com os palestinianos e com o resto do mundo árabe.
E que papel tem a Rússia em todo este conflito? A Rússia aplaudiu, disse que concorda com este cessar-fogo, que está satisfeita com este cessar-fogo, com este entendimento entre Israel e o Hamas. Mas que significado é que tem este cessar-fogo também para aqueles que são os interesses da Rússia?
A Rússia sofreu aqui uma derrota importante com a queda do regime do Assad. Isso era dado como um grande exemplo do génio estratégico de Putin, de que ele com recursos relativamente limitados, tinha conseguido, no fundo, vencer ou fazer vencer Assad na guerra civil na Síria. Tudo isso era claramente exagerado, mas realmente Assad parecia estar numa situação de relativa vantagem e em boa parte por causa do apoio externo, nomeadamente apoio aéreo da Rússia e com algumas tropas especiais. Obviamente, isso ficou tudo posto em causa. Houve aqui uma perda de influência nesta região mais próxima de Israel. Houve uma derrota também estratégica de um aliado importante da Rússia, que é o Irão. Agora a Rússia claramente não vai deixar de procurar ter influência no Médio Oriente. Eu diria que cada vez mais apoiando e apoiando-se no Irão. Tivemos agora a notícia do anúncio de uma parceria estratégica por 20 anos, que será assinada proximamente e que no fundo vem formalizar aquilo que é já muito evidente, que é esta crescente convergência entre um eixo de regimes autoritários muito isolados internacionalmente, mas a que depois temos de acrescentar a China, que dá outra dimensão a este grupo. Enfim, a Rússia e o Irão, mas também a China e a Coreia do Norte, que estão claramente determinados a minar a ordem internacional e regional tal como ela existe.
Falar ainda um pouco do conflito na Ucrânia, até porque hoje há uma entrada do Reino Unido a marcar a atualidade, que o Starmer e o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky acabaram por assinar oficialmente um acordo de parceria de 100 anos que garante o apoio britânico a Kiev. Que acordo é este?
É uma tentativa da Grã-Bretanha, aliás, em linha com o que tem sido sempre a sua política, a Grã-Bretanha tem sido o apoiante mais precoce e mais determinado, mais robusto da Ucrânia, a par da Polónia, mas a Polónia está mesmo ali ao lado e sente-se diretamente ameaçada. Mas entre os países europeus mais relevantes militarmente, tem sido o apoio mais importante, até muitas vezes antecipando os próprios Estados Unidos. Deu armamento mais avançado, permitiu a sua utilização sem linhas vermelhas, etc, mais cedo do que os Estados Unidos. Tudo isso resulta, por um lado, da Grã-Bretanha ter essa possibilidade, apesar de tudo, os países europeus não têm as capacidades que têm os Estados Unidos, mas continuam a ter capacidades militares significativas avançadas, uma indústria de defesa também importante a nível global. E reflete também o facto de a Grã-Bretanha ter um longo histórico nas últimas décadas, sobretudo desde que Putin tomou posse como presidente em 2000, de um conflito crescente com a Rússia, inclusive com ações de sabotagem, de assassinato no próprio território britânico. Tivemos vários casos de dissidentes russos assassinados em território britânico, quer em Londres, quer em Salisbury, no caso de Salisbury em 2018, isso levou até à morte de uma cidadã britânica e a risco de vida para uma série de cidadãos britânicos. Com uma arma química que foi utilizada Novichok contra esses dissidentes e tudo isso levou a Grã-Bretanha realmente a achar que não tinha nada a perder, por exemplo, ao contrário da Alemanha, com assumir uma postura muito crítica da Rússia e a não hesitar no apoio à Ucrânia, no fundo, utilizar a guerra da Ucrânia também para mostrar à Rússia que esta atitude muito hostil de vários anos contra a Grã-Bretanha tinha consequências.
E é esse acordo, acordo de parceria de 100 anos entre Reino Unido e Ucrânia, que é com essa notícia que terminamos esta edição de Gabinete de Guerra. Quanto a Antony Blinken, continua a dar essa conferência de imprensa, diz que os Estados Unidos estão muito melhores agora do que quando esta administração tomou posse e também já elogiou esse trabalho feito para alcançar um cessar-fogo em Gaza, conferência de imprensa que ainda decorre em Washington. Está a falar o secretário de Estado norte-americano. O Gabinete de Guerra está de regresso amanhã.