Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Gabinete Guerra na Rádio Observador, espaço onde analisamos os principais focos de tensão na geopolítica mundial. Hoje contamos com a análise do especialista em Relações Internacionais, Orlando Samões. Seja muito bem-vindo à Rádio Observador. Obrigada por aceitares este nosso convite.

Muito obrigado, eu é que agradeço e boa noite.

Boa noite. Queria começar com as declarações recentes de Donald Trump na rede social Truth Social. Diz que o Irão não passa da conversa à ação e que deixou de ter o estatuto de bully do Médio Oriente. São estas as palavras de Donald Trump, que diz também que os Estados Unidos controlam totalmente o Estreito de Ormuz, fala num muro de aço. O presidente norte-americano garante este controle da passagem estratégica e reafirma a desconfiança em relação ao Irão enquanto Washington mantém este bloqueio marítimo. É mesmo assim que as coisas estão a acontecer?

De facto, não é bem assim. Trump tem uma tendência para estilizar e até para exagerar. Costumamos notar que os posts também são uma maneira de ele marcar a sua presença, de se reafirmar e, muitas vezes, de testar as reações. Ele vai muitas vezes através destes posts vendo não só como é que o mundo reage, e a tendência é começarmos a ver essas palavras como operações de um certo marketing, de ele dizer que está tudo a correr muito bem e dizer que estão do outro lado desesperados por um acordo, quando na realidade aquilo que sentimos, e sabendo que boa parte desta tentativa de entrar em diálogo pode ter uma dimensão secreta, mas está a acontecer de maneira muito indireta, por intermediários. Agora, ele insiste nesta ideia de controlar. Quem controla efetivamente o estreito, essa guerra ganha, pelo menos nesta segunda parte, que foi muito mais sobre o estreito de Ormuz do que sobre as capacidades do Irão, que ficaram numa boa parte destruídas, embora seja sempre discutível a dimensão. As frases dele são muito contundentes. Por acaso também as tinha aqui, que ele diz: "Controlamos totalmente, controlamo-lo mais ninguém, só nós". Utilizar tanto a palavra controlar é porque se calhar ainda não está assim tanto sob o controle. E seria, de facto, bom sinal que os Estados Unidos, ao anunciarem a abertura do estreito, como fizeram, até mesmo por consequência do memorando de entendimento, que em parte apontava nesse sentido, que tivessem capacidade e força para prosseguir nessa estratégia de abertura. Aquilo que reparamos é que, pelo contrário, o Irão atingiu os navios, até mercantes, que não passaram pela rota que estava efetivamente estabelecida e que no fundo era controlada pelo Irão, e os Estados Unidos tiveram que reagir. Ainda não estamos assim tão longe dessa situação. Temos sempre a sensação de que estamos por horas ou por dias de termos gizado e se calhar apresentado, mais do que isso, o acordo entre Omã e o Irão, mas também não sabemos assim tão bem que espartilha é essa que será feita entre os países do Golfo desta passagem e de que modo é que poderá haver ou não uma pequena taxa, que não lhe vão querer chamar taxa, mas um pequeno emolumento que possa ter que ser pago à passagem e que tudo aponta neste momento, pelo menos na imprensa internacional, que será bastante abaixo daquilo que se calhar o Irão queria. Ainda assim, seria colocado a teste apenas em alguns meses. Já se sabe que o tempo conta muito e que o Irão também está aqui um pouco desesperado pela dimensão económica, por muito que consigam sempre, pelo menos a guarda revolucionária, quem está no poder, ser ressarcido e continuar a ter uma vida, provavelmente muito acima da população, cuja opinião não lhes interessa assim tanto. O que é facto é que o efeito económico faz-se sentir, o esforço que o Irão incute neste exercício de tentar travar aqui um pouco das pressões dos Estados Unidos é gigantesco. Aliás, é sempre uma comparação que muitas vezes os comentadores não fazem quando falam nos valores envolvidos e em toda a dimensão da guerra e quem está a ganhar, esquecem-se que a economia do Irão é muito mais frágil, são precisos muitos riais, muitos milhões para comprar um dólar e que em relação ao PIB americano, por muito que o investimento pareça grande, estamos a falar sempre de valores abaixo daquilo que é 1% do próprio PIB americano, que estão para já perdidos, mesmo na dimensão de armamento, etc., no Irão. Não é assim tanto. Esta comparação nem sempre é feita. Daí Donald Trump, apesar do medo, que até notámos que poderá ter sentido em Ankara, na saída da cimeira da NATO, onde poderá ter havido este exercício de mudança de avião, sobre o qual soubemos há uns dias bastante mais, demonstra alguma falta de controle da situação, alguma capacidade do Irão de o amedrontar e de tornar credível essa ameaça e, portanto, wishful thinking. Aqui o desejo de Trump seria controlar, ainda não controla, e a bem da liberdade de navegação, era bom que o fizesse, era bom que tentasse empenhar também um pouco mais de coligação de possíveis aliados, dos quais os Estados Unidos precisaram e precisam sempre, para conseguir essa libertação de um estreito fulcral para a economia e o comércio internacional e para a nossa prosperidade.

Mudamos agora um pouco o rumo para falar do Conselho de Paz, que nega a existência de qualquer acordo financeiro com o Hamas. Este esclarecimento do Conselho de Paz surge depois de uma notícia que dava conta de que a organização teria acordado, eventualmente, alegadamente, cobrir 400 milhões de dólares da dívida do Hamas a terceiros. Esta é uma notícia falsa, mas se não fosse, era possível existir um acordo assim?

Seria muito difícil, mas nós estamos agora numa fase de interpretação do conflito muito complexa. A dimensão pública, aquela que nós podemos comentar, demonstra uma fissura entre os Estados Unidos, nomeadamente entre Trump e Netanyahu. Trump parece estar, inclusive, a pressionar Netanyahu a regressar ao acordo que previa a desmarcação ou a retirada gradual e para valores de percentagem que estavam, mesmo no início, inferiores àqueles que são os atuais da presença das forças de Israel sobre Gaza, que agora está muito acima daquilo que seriam as linhas inicialmente estabelecidas. Aquilo que sabemos é que Trump continua a pressionar Netanyahu nessa retirada e que o Hamas teria da sua parte não desarmar para já completamente, mas abdicar de algum tipo de equipamentos, também de forma gradual. Sabemos que Israel não poderia aceitar este tipo de situação, porque está na gênese do grupo Hamas ser um grupo de resistência armada que muito dificilmente poderia largar, pelo menos as armas de mão, que por muito que possam parecer mais ligeiras num contexto de guerra, o que é facto é que são suficientes para um grupo terrorista continuar as suas investidas e poderem raptar pessoas, poderem continuar nas suas querelas internas, que neste momento existem muito em Gaza. E esta ideia de que pode haver uma tentativa de suavizar as dificuldades financeiras de um grupo é antiga. Sempre houve muitas notícias que até apontaram para a possibilidade de Israel e por esta via do mundo ocidental encontrar um destes grupos que chegou a ser o Hamas, se olharmos para o início e para a sua fundação, que podiam ser mais suaves para com este grupo, precisamente para fazer frente a uma Fatah que estaria nessa altura um bocadinho mais radicalizada ou estridente. A história veio a provar que afinal a situação era o contrário. Ainda assim, foi a Fatah que conseguiu estabelecer um pouco mais de pontes e algumas tentativas de diálogo, de forma que pelo menos nas palavras continuavam sempre um bocadinho bruscos, tempestivos, mas nos atos foram menos agressivos que o Hamas nessa altura, até nesta fase depois do sete de outubro, até se veio a dizer por que se apoiou este grupo ao início. Ora, foi de facto muito no início, o tipo de liderança podia ser diferente, não se sabia assim tão bem do que eram capazes. Agora estarmos a regressar a essa via para tentar atenuar alguns conflitos e querelas que se passam hoje em Gaza. Seria uma possibilidade. Ainda bem que se vem desmentir e que é mentira. É sempre possível seguir estes tipos de raciocínio porque quem está no terreno e este tipo de conselho não consegue estabelecer a força de interposição. Era suposto termos uma força internacional que assim que se começa a discutir que países é que podem estar presentes nessa força, normalmente o ímpeto é desmoronado porque há sempre algum dos lados do conflito a negar essa possibilidade, porque os países que estão interessados em constituir essa força, por vezes também têm algumas dimensões nas quais estão tensos ou para com Israel ou até para com os palestinianos nalguns casos, e portanto parece que ficamos sempre na mesma ou que essa força de interposição não consegue ser mesmo efetivamente constituída. Daí o arrastar deste problema. A somar também não se conseguir na Cisjordânia uma melhor situação, porque há de parte a parte acusações muito graves de situações de tensão permanente. Parece que é mesmo uma zona em que eles se conhecem, conhecem os limites uns dos outros e estas tentativas de vir por fora firmar a paz são por vezes muito bem-vindas, mas nem sempre conseguem se realizar de maneira efetiva. Para nós é muito simples, palestinianos e israelitas deviam todos cooperar e ter um futuro que respeitasse mais a dignidade de todos e desse até igualdade de direitos aos dois grupos, independentemente do formato de um ou dois Estados. Mas é muito difícil e agora teremos as eleições. Se calhar também uma das razões pelas quais esta campanha de informação e contrainformação e não sabermos bem o que é verdade ou mentira, também está por tentativa de isto, as eleições no final de outubro vão ser determinantes. Nenhum grupo sozinho, nenhum dos partidos, por muito que alguns tentem constituir desde já em coligações, conseguirá formar uma maioria. Muito longe disso, terão que haver mais uma vez efeitos de coligação. Os partidos estão muito complexos, a sociedade está muito dividida e vamos ter ainda praticamente dois meses e meio de grandes interpretações sobre esta situação, que poderão redundar num restabelecimento, quem sabe, do Likud em coligação, ou quem sabe que estes grupos juntos do Bennett com o Yair Lapid, que agora até estão juntos, ou quem sabe até o próprio En cike Hot, que chegou a estar mais ligado àquele partido da Unidade Nacional com o famoso Gantz, que fez parte do governo, mas depois também saiu. Eles ainda estão todos a ver todos estes líderes que no fundo simbolizam uma parte do eleitorado, mas que não conseguem garantir um bom resultado nenhum deles isoladamente, estão agora também aqui a tentar encontrar alguma maneira de por diálogo, por coligação, apresentarem uma alternativa à atual, enquanto que Netanyahu continua secretamente, provavelmente a falar com Trump, se calhar num tom diferente, enquanto publicamente continua a tentar defender Israel desta maneira que é sempre interpretada pelo seu Povo e pelas suas pessoas, como tendo de ser bastante inteligente para com o Hamas. Já se tentou de tudo em relação a Gaza, até a retirada em 2005, por muito que não tenha sido completa, verdade é que os colonatos saíram, e a situação nunca se resolveu. Anos depois, há sempre problemas. Agora, era bom que esse conselho de paz, que a força de interposição conseguisse um bocadinho mais. Não creio que passe por financiar um dos grupos ou atenuar essas questões de dívidas, seja do Hamas, seja de qualquer outro grupo, sob pena de podermos continuar a fomentar estes grupos que têm tendência para utilizar o método dos terroristas a muito breve trecho e não terem limites à instrumentalização, ao uso da violência. E ao mundo ocidental cabe continuar a pressionar Israel para que se comporte melhor, para que ouça, para que eleve os padrões e para que possa ser defensável as suas atitudes, que por vezes não são, que como sabemos, por vezes também abusam bastante os poderes que têm sobre um povo que deveriam respeitar e dar os mesmos direitos que a si mesmos.

E já estamos, entretanto, quase a chegar ao fim do nosso tempo, mas ainda há tempo para mais uma pergunta, à qual vou pedir uma resposta um pouquinho mais curta. Mas para isso vamos do Médio Oriente até à Europa, porque Zelensky anunciou hoje que 26 aldeias nas regiões de Dnipropetrovsk, Donetsk e Zaporizhia foram devolvidas ao controle ucraniano. Foram os dados mais recentes no âmbito de uma operação que foi executada entre janeiro e agosto. Acrescenta também que já foram libertados cerca de 745 km² de território. Pergunto, para fechar, se este pode ser ou não um sinal de esperança para a Ucrânia.

Há muitos sinais de esperança, de facto. Os ataques às infraestruturas portuárias da Rússia. A Rússia atacou as infraestruturas portuárias. A Ucrânia respondeu no Mar Negro, teve navios atacados outra vez em Novorossiysk, houve até problemas com abastecimento de água. Houve esse anúncio, mas esse anúncio, de facto, como disse, e bem, é de janeiro a agosto. A Rússia continua a reivindicar também algum ganho de terreno, ainda que lento. É sempre muito lento. Aliás, se não fosse, já a Ucrânia teria sido conquistada. Não foi. Há, de facto, aqui notícias que são ambíguas sobre a realidade no terreno. Sabemos também que a Rússia não tem uma capacidade de avançar assim tanto na linha da frente, esses grupos também são pequenos. Notamos este estender da mão à Coreia do Norte e o possível envio de militares da Coreia do Norte, não para a frente, mas possivelmente para uma posição de retaguarda. A utilização, quem sabe, de mísseis, um dos mísseis que atingiu Zaporizhia pode ter sido de fabrico norte-coreano. Sabíamos desta coligação. A Rússia também está a jogar com a força que tem. A proposta de paz de Zelensky aparece no fórum ucraniano para a juventude. Claro que é uma maneira de pressionar Putin, mas numa altura em que a Ucrânia, apesar de tudo, também está aqui com algumas dificuldades. A economia de guerra russa está muito ágil na produção de mísseis, mantém o esforço de mobilização, pode utilizar até a força para mobilizar, se calhar, de uma maneira mais ágil do que a Ucrânia. E agora até, de uma maneira absolutamente inacreditável, o Tribunal Supremo excluiu da participação eleitoral o partido Yabloko, que era aquele que era mais passível de ser contra esta guerra. Aliás, a situação é interessante porque é a pedido de um dos partidos, que diz que no fundo o Yabloko tem agentes estrangeiros infiltrados, mas uma das justificações também é porque Yabloko significa maçã e isso poderia ser um problema de plágio para com uma marca norte-americana que também usa o símbolo da maçã e que todos conhecemos. Agora, o que é facto é que a pressão económica que tem sido feita e as várias camadas de sanções à Rússia também têm o seu efeito, os ataques ao Wildberries por parte da Ucrânia, aos centros de refinação também, esse trazer a guerra para as pessoas, porque ainda assim muda um bocadinho a opinião pública, as pessoas verem que não é uma operação especial, mas sim algo que à sua volta começa a acontecer mesmo nas profundezas da Rússia, reequilibra um bocadinho. E já se sabe também aqui a posição, sempre um pouco estranha e difícil de interpretar, mas de uns Estados Unidos que começam, por vezes, a tresler esta primeira posição que tiveram aquando do início da administração Trump, que parecia ser mais favorável à Rússia, agora está mais equilibrada, mas, apesar de tudo, a situação continua difícil e por isso é que estamos neste impasse. Aliás, a falta de notícias significa que se notarmos de um lado e do outro, os pratos da balança continuam algo equilibrados. A Ucrânia pede ajuda à NATO também para este tema de desminagem. A NATO lá vai responsabilizando a Rússia, isso também é importante publicamente, por causa destas infrações ao espaço aéreo, nomeadamente da Polónia e da Roménia recentes. Há aqui um conjunto de elementos que nos fazem pensar que esta tentativa de ir já para a mesa é difícil, até por este equilíbrio, mas a Ucrânia não desiste da sua soberania e da sua liberdade e mesmo numa posição que é constantemente apanhada em contrapé perante uma Rússia que sabemos que tem uma dimensão superior, consegue, para já, travar muito do impulso. Essas 26 localidades desde janeiro é uma conta generosa que faz com que, se calhar, a linha da frente, se fizermos o zoom out, não oscila assim tanto e consegue travar, mas a Rússia também mantém toda a sua voracidade e seria sempre melhor. Os Estados Unidos vão ter um exercício conjunto com a Coreia do Sul, creio que na próxima semana. Pode ser aqui mais uma maneira de se mostrar que há mesmo dois eixos e estes exercícios com a Coreia do Sul e os Estados Unidos vão mostrar aos Estados Unidos de que lado está. Porque do outro lado, norte, na Coreia do Norte, temos esta culpa eterna da política hegemônia dos Estados Unidos até na guerra entre a Rússia e a Ucrânia. É a justificação que a Coreia do Norte dá para tentar ajudar a Rússia. É que no fundo, a culpa é dos Estados Unidos. Perante este tipo de narrativa, acho que devemos saber muito bem e conhecer que estes dois eixos são propostas de modos de vida diferentes e por muito que eles tenham estas alianças tácitas, muitas vezes difíceis de perceber quais são os princípios que os unem, mas Irão, Coreia do Norte, Rússia, e com efeito da China, têm aqui algo que partilham contra o modo de vida da ordem liberal liderada pelos Estados Unidos, que com todas as fraquezas, com todos os efeitos que teve, que por vezes criticamos, ainda assim conseguiu gerar, pelo menos nos últimos 80 anos, paz no mundo, paz dentro das fronteiras da NATO e por isso é que até esta fórmula da NATO está agora a ser copiada no Médio Oriente. Tivemos agora este acordo em Meca que faz parecer o começo de uma NATO de países muçulmanos à volta do Irão. Se há acordo geral é que o Irão tem instigado a destabilização e incentivado ao terrorismo em toda a região e isso é algo que faz dos Estados Unidos e desta guerra um pouco mais justificável do que aquilo que nos parecia, se calhar, em fevereiro, quando tudo estava um pouco mais calmo nas vésperas da guerra.

E chegamos, entretanto, ao final do nosso tempo. Fica por aqui o Gabinete de Guerra, hoje com análise do especialista em Relações Internacionais Orlando Sá Moes. Mais uma vez agradeço-lhe por ter estado conosco neste Gabinete de Guerra.

Eu que agradeço, obrigado.

Obrigada, boa noite. O Gabinete de Guerra está de regresso amanhã.