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Este é o Gabinete de Guerra das manhãs 360, esta quinta-feira com a análise do tenente-general Marcos Ronha. Bom dia, bem-vindo. Obrigada por ter aceitado o nosso convite.

Olá, bom dia.

Bom dia. Começamos pela visita do secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, a Lisboa. General, certo para reforçar o papel de Portugal como ponte estratégica no Atlântico, com o uso da base das Lajes, ou vem, sobretudo, pressionar o governo português a aumentar os gastos em defesa e alinhar com Washington?

Olá, bom dia mais uma vez.

Bom dia.

Eu julgo que será um pouco as duas coisas. Vemos que Marco Rubio tem estado a visitar os países, quem vê que do ponto de vista dos Estados Unidos, mais benignos foram ao apoio às operações militares dos Estados Unidos no Golfo Pérsico. E começou pela Grécia, que foi o país que talvez tenha mais apoiado ou facilitado as operações militares, principalmente da parte das operações aéreas. E Portugal também. Mas essa segunda parte que falou também é verdade. Ou seja, há uma pressão americana no sentido que os europeus não comprem só material europeu, que é um pouco o que está em cima da mesa neste momento. O programa Safe foi o programa criado pela União Europeia, que fez um empréstimo que depois distribuiu pelos países de acordo com as suas ambições em termos de compra, mas que incide essencialmente em potenciar dois eixos que são importantes, naturalmente, para a indústria europeia. Uma é estimular os projetos multinacionais com diversos países europeus, no sentido de criar capacidades adicionais no âmbito da indústria de defesa. E a segunda, de facto, que esse dinheiro que seja gasto numa enorme percentagem em compras na indústria de defesa europeia, naturalmente. É evidente, sob o ponto de vista das capacidades de defesa europeia, isso não chega. A defesa europeia não tem todas as capacidades, não tem capacidade de produzir e de vender nesta fase sistemas essencialmente de defesa aérea e interceptores antimíssil e, portanto, há aqui capacidades do âmbito tecnológico que só os Estados Unidos é que têm e que muito provavelmente o que os Estados Unidos estão a perceber é que há um decréscimo nas compras dos europeus relativamente ao material americano. E há aqui uma questão que é muito sensível, naturalmente, já se falou mais, agora não se está a falar tanto, que é a questão dos aviões de combate. Os europeus têm algum grau de competências, o que está a pôr em causa uma expectativa que os americanos tinham, e têm, naturalmente, ainda, de vender os famigerados aviões F-35 às Forças Aéreas dos países da NATO europeus. E fruto do que se tem passado e da questão da dúvida se as tecnologias, principalmente os sistemas de software que gerem os novos aviões, possam ter um turn off à distância, ou seja, poderem ser desligados, criou alguns receios nos países europeus, principalmente ao nível político e militar também, mas essencialmente ao nível político. Provavelmente, temos que pensar duas vezes antes de comprar um determinado tipo de equipamentos militares que são muito caros e que são importantes e que possam estar sujeitos às atitudes dos governos americanos. E essa é uma questão que eu julgo que Marco Rubio tendo algum a tentar desmistificar que não é assim e tentar convencer alguns países que estavam numa direção de compra dos aviões F-35 e que no momento, especialmente com a guerra do Irão, do período em diante, tiveram algumas dúvidas. E essencialmente, julgo que é uma questão económica e uma questão também de algum agradecimento político para o futuro.

Sim. Entretanto, há menos de um mês das eleições intercalares nos Estados Unidos, funcionários da Casa Branca dizem que Donald Trump pediu ao Pentágono planos para novos ataques contra o Irão antes de 3 de novembro, antes das eleições. Tenente-general Marcos Ronha, usar operações militares como trunfo para tentar ganhar votos e baixar o preço dos combustíveis antes das intercalares é uma jogada que pode resultar ou pode ser aqui um tiro no pé para a economia americana?

Isso é uma avaliação que Donald Trump tem vindo a fazer. Ele nesse aspecto é muito sensitivo. Essa questão política dele avaliar, principalmente a sua base de apoio. Eu julgo que o Donald Trump já percebeu que ganhar as eleições vai ser muito difícil. O que ele quer, julgo eu, no mínimo, é manter a sua base de apoio, naturalmente. E, portanto, para isso, a questão da política externa poderá ter algum peso. Agora, o que nós percebemos é que a administração americana está a jogar nos dois tabuleiros, no tabuleiro das negociações e J.D. Vance e Marco Rubio, de alguma forma, as suas declarações têm caminhado mais nessa direção de tentar buscar uma plataforma de entendimento com o Irão que possa levar a algum grau de entendimento para haver uma reativização. Não sabemos daquele memorando de junho, se alguma coisa reformulada. E, por outro lado, Donald Trump está muito com a linguagem mais bélica, da ameaça ao Irão, a registar com agrado que há conversações, mas que está muito mais inclinado para penalizar o Irão com operações militares. Nós conhecemos o modus operandi de Donald Trump no âmbito comunicacional e, portanto, isto também tem a ver com as reações, é por assim dizer, um teste à opinião pública americana relativamente a estas duas questões. E, portanto, da avaliação disso sairá o resultado. Se Donald Trump tiver a noção que uma operação militar, mesmo que seja limitada, de ataques militares de novo ao Irão, lhe possa trazer benefícios sob o ponto de vista político interno, não temos dúvida que isso irá acontecer e será forçada, por assim dizer A paragem do diálogo com o Irão e a reativação das operações militares, se for avaliado que traga benefícios. Nós sabemos que a opinião pública americana está muito dividida, está muito polarizada e, portanto, é difícil perceber o que agrada a uns, não agrada a outros. Mas eu julgo que neste momento o que ele tem mais interesse é tentar manter aquela base magra. Onde ele tem tido muita crítica, em números suficientemente robustos que possam dar alguma dinâmica, pelo menos de tentar não perder alguns dos estados centrais que são fundamentais para manter um equilíbrio, essencialmente no Congresso e no Senado também, mas especialmente no Congresso, onde a derrota de Donald Trump pode ser maior.

Temos também de falar sobre a Ucrânia, que utilizou pela primeira vez em combate o FP7, um míssil balístico de fabrico 100% nacional, com alcance até 200 quilómetros. Junta-se assim ao restrito clube de países capazes de produzir a sua própria tecnologia balística. General, este é o salto tecnológico que permite à Ucrânia fustigar a retaguarda russa sem precisar de pedir uma espécie de autorização a Washington para usar armas ocidentais?

Sim, a Ucrânia estava muito condicionada à utilização dos mísseis ATACMS, que são americanos, que são os mísseis equivalentes, são mísseis que são utilizados com distâncias entre os ATACMS de 300 a 500 quilómetros. O FP7 poderá chegar também aos 500 quilómetros, com elevada carga destrutiva, que é a vantagem dos mísseis balísticos, além de serem mais difíceis de interceptar e destruir, têm uma carga destrutiva de explosivo enormíssima, portanto, provocam estragos. E estes mísseis entrarão no capítulo da possibilidade de praticamente chegar a Moscovo, se tiverem 500 ou 600 quilómetros de alcance. Não sabemos se a Ucrânia os vai utilizar no bombardeamento de cidades russas, provavelmente não, mas consegue atingir as principais bases aéreas de onde estão a sair os aviões para fazer o ataque à Ucrânia. Principalmente para o lançamento de mísseis e bombas guiadas. Uma coisa é tentar destruir essas bases com drones, que têm feito alguns ataques, naturalmente, e consegue destruir alguns aviões.

Outra coisa é com um míssil balístico.

Sim, mas os drones têm uma capacidade destrutiva muito baixa, conseguem levar no máximo 100 quilos de explosivo, um míssil balístico chega a levar 1000 ou 2000 quilos de explosivo. Até sob o ponto de vista da retaliação que a Ucrânia muito provavelmente vai fazer sobre a Rússia, no caso das infraestruturas energéticas, da produção de energia, muito provavelmente vamos ver no futuro muito próximo uns covas escuras também, conforme Kiev esteve nos últimos invernos, e o ataque às capacidades de produção de energia, calor. Nós sabemos que no velho sistema soviético é feito de forma centralizada, tem uma capacidade, neste momento, enormíssima. E depois, os mísseis balísticos são muito difíceis de interceptar e não é só a Ucrânia que tem dificuldades nos sistemas interceptores, a Rússia também tem, até porque o território é muito grande, não consegue proteger tudo em simultâneo. Portanto, vai ser um valor acrescentado, julgo eu, que permite algum equilíbrio, por assim dizer, nesta guerra que se vai passar muito contra as cidades, já percebemos, neste inverno.

Tenente-general Marcos Ronha, muito obrigada pela sua análise. Bom final de semana. Obrigada.

Muito obrigado