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Abrimos agora o novo gabinete de guerra para atualizarmos as últimas sobre o conflito na Ucrânia e vamos fazê-lo como tem sido hábito desde o início da ofensiva russa, com a ajuda do Bruno Cardoso Reis, historiador, especialista em segurança internacional e que faz parte do painel do Café Europa da Rádio Observador, que vai para o ar à quarta, depois do jornal da uma. Bruno, bom dia.
Bom dia.
Bom dia. Esta manhã volta também a estar conosco o major-general José Armando Moreira. Muito bom dia. Obrigada.
Olá, muito bom dia.
Obrigada. Começo por si. Zelensky diz que as Forças Armadas estão a fazer tudo para libertar as cidades cercadas pelos russos e deu exemplo dos últimos avanços feitos em aldeias a norte e a nordeste de Kharkiv. Isto de alguma forma contrasta com as palavras do chefe da Agência de Inteligência Americana, que ontem disse que a guerra está num impasse. Os russos não estão a ganhar e os ucranianos também não.
Eu julgo que há ganhos que ambos podem reivindicar nesta fase, só que são em localizações de natureza distinta. Enquanto os russos continuam a sua investida no Donbass, os ucranianos, que têm vindo a resistir com grande valor do ponto de vista tático e do ponto de vista operacional no Donbass, portanto, concedendo poucos quilômetros de território na última semana, digamos, nos últimos 10 dias, têm, sobretudo, insistido na questão da segurança de Kharkiv. Kharkiv esteve praticamente rodeada pelas forças russas aqui há algumas semanas e essa aproximação das forças russas a Kharkiv permitia que a colocação da sua artilharia num perímetro à volta de Kharkiv sujeitasse a cidade a bombardeamentos constantes dia e noite. Ora, Kharkiv é uma cidade importante, é a segunda maior cidade da Ucrânia, e as forças ucranianas decidiram investir na defesa de Kharkiv, alargando o perímetro de segurança e, portanto, afastando as forças russas para distâncias da cidade que não lhes permitissem fazer esses bombardeamentos constantes. Ora, acontece que o sucesso aí tem sido talvez tão surpreendente que em alguns locais o afastamento das forças russas empurrou-as em direção à fronteira e neste momento algumas forças russas estão só a 10 km dentro da fronteira e estão praticamente, digamos, expulsas da região de Kharkiv. Isto tem, do ponto de vista da moral ucraniana, um valor muito forte, embora Zelensky tenha tido o cuidado, julgo que nas últimas horas, de colocar alguma cautela num excessivo otimismo em relação a esta ofensiva. Esta ofensiva tem, pelo menos, para além deste efeito de natureza moral e do efeito da segurança sobre o bombardeamento sobre Kharkiv, também uma vantagem. É que, de repente, as forças russas foram obrigadas a colocar do lado russo da fronteira, para fazer face a esta ofensiva ucraniana, cerca de 20 batalhões, que é um número muito importante, porque existem neste momento cerca de 97 batalhões russos em território ucraniano. Ora, portanto, esta ofensiva em Kharkiv por parte dos ucranianos obriga os russos a fixar um número substancial de batalhões do lado de lá da fronteira. Esses batalhões fixados em território russo não podem ser empregados na área da ofensiva do Donbass. E, portanto, estamos aqui a assistir, de alguma maneira, a duas manobras distintas. Enquanto que os ucranianos com a sua ofensiva a norte procuram fixar forças russas dentro das fronteiras russas, a sul, a ofensiva russa procura, numa primeira fase, chegar a Sloviansk, para depois, eventualmente, poder atingir Dnipro. Portanto, digamos, ambos os lados podem aqui hoje reclamar algum nível de vitória, apesar de ser em zonas distintas.
Bruno Cardoso Reis, a tua opinião e também sobre as palavras do chefe de espionagem dos Estados Unidos, que diz que Putin se prepara para prolongar a guerra e que vai recorrer a medidas mais drásticas para atingir os objetivos.
Sim, eu estou muito de acordo com a análise. Acho que realmente é bastante relevante aquilo que está a passar em volta de Kharkiv. Lá está, os russos podem sempre dizer que até estão a retirar, mas não é crível que estejam a retirar de forma voluntária. E, sobretudo, é isso, se as forças ucranianas se aproximarem da fronteira russa, corre-se o risco, ou os russos têm de lidar pelo menos com esse risco, de que, de facto, isso possa significar que elas até possam atravessar a fronteira. Ainda por cima, do outro lado de Kharkiv, muito próximo de Kharkiv, está esta zona de Belgorod, que parece ser um nó logístico bastante importante para o exército russo. Portanto, acho que isso é realmente significativo. Fala-se inclusive também, mas obviamente isto são tudo informações que é difícil de confirmar, que até poderia haver aqui alguma retirada de forças russas que estavam a atacar na zona de Izyum, portanto, dentro daquela ideia de envolvimento da frente leste a partir do norte, que estariam a retirar para tentar, no fundo, socorrer essa zona de Kharkiv. Agora, a outra parte da questão é De facto, aqui aparentemente continua a haver alguns avanços, embora com muitas dificuldades na parte mais leste da frente leste, esta zona de Severodonetsk, que claramente os russos estão a procurar realmente rodear, cercar, ocupar e que é uma zona realmente de difícil defesa para os ucranianos, mesmo que tenham posições preparadas e tropas experientes. De facto, é uma zona muito exposta. E depois há esse outro terceiro aspecto que foi referido pela Avril Haines, pela responsável máxima dos serviços de informações americanos. Sabemos que os norte-americanos não estarão certamente a divulgar essa informação sem ter alguma intenção também, provavelmente preparar as várias partes, os próprios norte-americanos, os europeus, os ucranianos pra essa possibilidade. Mas de facto, sabemos que as informações americanas têm revelado bastante credíveis e corresponde um pouco à minha análise, ou seja, a este receio que Putin não se pode dar ao luxo de perder e portanto, na medida em que tenha perdas no terreno, vai ter de as tentar compensar, nomeadamente com uma escalada da intensidade, por exemplo, dos bombardeamentos e também até eventualmente com o intensificar desses ataques em profundidade, ou seja, noutras zonas da Ucrânia. No fundo, fazer pagar a Ucrânia, para além dos objetivos militares que eventualmente possam existir, fazer pagar à Ucrânia pelo prolongar do conflito ou por não lhe oferecer uma vitória fácil. E portanto, também acredito que haja realmente esse risco. Aqui o único fator que poderá, no fundo, contrariar um pouco essa tendência para o prolongar do conflito é o esgotamento das partes e também o custo económico, o preço económico que, sobretudo aqui a Rússia está a pagar com as sanções. Mas mesmo aí, no fundo, era preciso que houvesse também uma alternativa credível. Ou seja, não é muito evidente que mesmo que o conflito terminasse, que houvesse rapidamente um acordo de paz que permitisse, por exemplo, levantar estas sanções económicas à Rússia. E portanto, acho que há aqui de facto muitos sinais que infelizmente apontariam pra um prolongar do conflito, embora eventualmente em modalidades diferentes e com a utilização de meios diferentes ou com o foco também geográfico diferente.
Major José Arnaut Moreira, ainda sobre este assunto e sobre estas informações dos serviços secretos, falam também na possibilidade de uma escalada da guerra. Dizem que os russos podem não ficar só pelo Donbass e há movimentos até com armas táticas nucleares. É só uma forma de pressão ou pode ser real isto?
Putin está também sob pressão. Nós no Ocidente talvez tenhamos uma menor percepção sobre o conjunto de pressões internas que existem sobre Putin, mas há, através mesmo de comentadores muito ligados ao regime, nota-se às vezes uma certa exasperação. Isto é, achavam que os resultados de natureza militar, que se traduziriam certamente em ganhos de natureza territorial, não só deveriam ter sido de maior envergadura, como deveriam ter ocorrido de forma mais rápida. E portanto, já há comentários na imprensa e nos círculos e nas elites que demonstram que era de esperar mais. Isto coloca pressão sobre Putin, porque do ponto de vista convencional, nós não notamos ainda qual é o elemento novo desequilibrador que Putin pode vir a trazer para o combate para reverter o curso da sua ofensiva de natureza militar. Ele tem utilizado a panóplia toda de armas de natureza convencional de que dispõe. E isso tem lhe permitido, por um lado, pequenos ganhos de natureza territorial aqui e ali localmente, e tem lhe permitido, sobretudo, manter toda a Ucrânia sob o sobressalto da guerra, através da utilização de um combate em profundidade, baseado em bombardeamentos estratégicos, em mísseis de cruzeiro, em mísseis balísticos táticos, etc. E portanto, isso tem permitido à Rússia manter a Ucrânia num certo sobressalto, impedindo que a Ucrânia volte à sua vida normal, uma vez contidos alguns dos avanços em zonas mais perigosas. Mas isso não tem resolvido o problema da guerra, porque esses sobressaltos de natureza estratégica têm tido resultados Pouco palpáveis, nem é crível que tenham conseguido isolar do ponto de vista do apoio ocidental físico, através dos equipamentos, que tenham impedido, que tenham impermeabilizado, se assim podemos dizer, o acesso destes materiais mais sofisticados ao teatro de operações da Ucrânia. Portanto, Putin está também a viver um dilema. Há pressões visíveis do ponto de vista interno. Ele não pretende, do meu ponto de vista e para já, saltar para o patamar das armas nucleares táticas, até porque faz também pouco sentido do ponto de vista da justificação de uma operação militar especial que se utilizem armas de natureza tática. Tanto mais, digamos, que ele veio para libertar a Ucrânia. Ora, libertar a Ucrânia contaminando-a com resíduos de natureza nuclear, também não parece uma narrativa que seja fácil de explicar, inclusivamente, à opinião pública interna. Em resumo, nós estamos numa fase em que se é verdade que há estresse no Ocidente pela dificuldade em conseguir mais pacotes de sanções, também se nota estresse dentro das elites russas relativamente à falta de progressão e à falta de sucessos militares, que todos acreditavam que nesta altura da guerra seriam bastante mais visíveis. E o sentimento de vitória parece estar a escapar, pelo menos em relação àquilo que são as elites influentes na Rússia.
Bruno, no seguimento disto e desta pressão que Putin está a sofrer também, há a informação hoje de que está a fazer uma limpeza nos serviços secretos russos. Não sei se esta informação também é garantida, mas é o que chega. É um sinal, de facto, desta pressão que Putin também está a sofrer e das dificuldades que está a ter?
Sim, eu acho que, de facto, os russos, ao contrário dos norte-americanos, tiveram problemas muito sérios de informações, embora muitas vezes os serviços de informações são culpados, porque o poder político também precisa ter aqui algum bode expiatório. Mas aparentemente, também surgiram notícias que temos de analisar com o devido cuidado, mas que até poderia ter havido da parte ucraniana, digamos, uma operação deliberada de desinformação ou de contrainformação, ou seja, muitos dos agentes que os russos achariam que tinham dentro do governo ucraniano, na verdade eram leais à Ucrânia e portanto, estavam a passar informação falsa à Rússia. Vimos também naquela reunião do Conselho de Segurança Russo, o próprio responsável dos serviços de informações externas, vamos dizer assim, a ser tratado quase como um estudante que tinha estudado mal a lição, com o presidente Putin publicamente a dizer: "Não é isso, explique lá bem, mas seria a favor ou é a favor?" E também já tinham surgido notícias de que alguns responsáveis deste serviço da ação externa estariam em prisão domiciliar ou teriam sido afastados. Acho que é normal que isso aconteça. É normal que agora se esteja à procura de bodes expiatórios, porque num sistema como o sistema autocrático que atualmente reina na Rússia, uma espécie de Putin como um novo czar, realmente a última coisa que pode acontecer é o Putin ser o responsável, ele ter cometido os erros. Agora, isso também tem aqui um outro elemento, que é que tudo isso demonstra estas tensões na própria Rússia. Apesar da retórica ser sempre no sentido oposto, mostra que se calhar há limites. O Putin segue muito aquela retórica, que está muito presente na cultura política russa, de que os russos são superiores aos ocidentais porque têm uma capacidade de sacrifício muito maior, ilustrada, por exemplo, pela Segunda Guerra Mundial, pelo cerco de Leningrado. Mas se calhar os russos mudaram alguma coisa entretanto e haverá limites a essa capacidade de sacrifício e portanto, é preciso apresentar aqui culpados para tentar um pouco atenuar essa frustração. E depois um terceiro elemento que eu também acho que é relevante, que é que tudo isso pode parecer muito interessante para Putin, mas cria aqui algum risco de que as elites que o rodeiam, os responsáveis, por exemplo, pelas Forças Armadas, também se tem falado muito dos falhanços das Forças Armadas, do ministro da Defesa, Shoigu, etcetera, podem pensar que também serão eventualmente eles os próximos a ser apanhados nessa purga. É nesse contexto que surgem coisas como um golpe de Estado. Não estou a dizer que é o mais provável, acho que é mesmo pouco provável. De facto, Putin tem muitos sistemas de segurança, está rodeado de lealistas, etcetera, que sabem que tentar fazer alguma mudança no contexto atual também seria muito arriscado para eles, poderiam ser arrastados pela corrente de mudança Mas acho que tudo isso ilustra bem este ponto, com o qual estou muito de acordo, que é: há aqui grandes pressões, grandes tensões e grandes problemas também do lado russo, por causa destas dificuldades. Aquilo que foi apresentado, tudo indica, foi pensado inicialmente como uma vitória fácil, na verdade, está-se a revelar muito longe disso.
Bruno, e depois do líder da oposição alemã, ontem foi a ministra dos Negócios Estrangeiros a visitar Kiev. É mais um elemento político a visitar a Ucrânia desde o início da guerra. Só Olaf Scholz é que continua sem ir. E na sequência desta visita, ficamos a saber que Dmytro Kuleba aceitou o convite para se juntar ao G7, na reunião desta semana na Alemanha. Que importância é que pode ter esta participação?
Eu acho que é um esforço de parte a parte para recuar, acalmar, pôr água na fervura. Ou seja, eu percebo que a Ucrânia tenha aqui grandes capitais de queixa, grandes frustrações com muitos anos em que muitos elementos da elite alemã defendiam uma posição de acomodação da Rússia, tinham relações econômicas muito próximas e às vezes até benefícios pessoais por causa dessas relações. Agora, a Alemanha é um país absolutamente central na Europa, não só em termos de geografia, mas em termos de economia, em termos de política, em termos das dinâmicas no seio da União Europeia. E, portanto, por muitas razões de queixa que a Ucrânia possa ter no passado e algumas até no presente, em termos de lentidão, por exemplo, a alterar a sua política no fornecimento de armamento, etc. A verdade é que a Alemanha tem dado imenso apoio financeiro, sobretudo económico, à Ucrânia. É um parceiro indispensável e portanto acho que é importante que de parte a parte haja esta tentativa de restabelecer relações um pouquinho mais cordiais, mais normais e mais cooperativas.
Quanto a Mariupol, Zelensky disse que o país não recebeu armas suficientes para desbloquear o cerco russo e libertar a cidade. José Arno Moreira, num minuto, isto é o presidente ucraniano a tentar isentar-se de alguma culpa depois das críticas feitas pelo Batalhão Azov sobre a falta de apoio em Azovstal?
Eu não sei se a culpa verdadeiramente pode ser atribuída, porque do ponto de vista tático, era muito difícil libertar Mariupol. Por um lado, porque se situa no mar de Azov, que é um mar praticamente fechado pela força naval russa e, portanto, qualquer tentativa a partir do mar teria grande insucesso. E, por outro lado, também a partir de terra, os russos rapidamente, porque fizeram um envolvimento com forças vindas da Crimeia e vindas do Donbass, rapidamente ganharam muitos quilômetros de distância de segurança em relação a Mariupol. E portanto, digamos que ficou muito complicado, do ponto de vista militar, conseguir extrair estes militares de Azovstal. É claro que eles, naturalmente, sentem-se abandonados e isso é absolutamente natural. Tenho dificuldade em dizer se do ponto de vista militar, seria possível retirá-los de Azovstal em face daquilo que foi a manobra russa conseguida nessa região.
Major-general José Arno Moreira, Bruno Cardoso Reis, muito obrigada por terem estado conosco.
Obrigado, bom dia.
Em mais um Gabinete de Guerra. Um bom dia para os dois.