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Coordenador de Risco Geopolítico da Porto Business School é o convidado da segunda edição do dia de Gabinete de Guerra. Vamos centrar-nos hoje no conflito no Leste da Europa, na Ucrânia, o conflito que opõe a Ucrânia à Rússia e também o conflito no Médio Oriente. Professor, boa tarde. Bem-vindo. Obrigado pela disponibilidade. Vladimir Putin sabe que a força excessiva pode transmitir uma imagem prejudicial no plano internacional. Ainda assim, optou por levar a cabo um ataque em larga escala e sobre alvos civis, dirigido à Ucrânia. Que razões para essa decisão e por que agora, professor?

Boa tarde, Miguel. Acho que estamos perante um novo paradigma. Acaba por ser uma estratégia de terror desenvolvida por Vladimir Putin e evocar os ataques ucranianos de 22 de maio, se bem que não corretos, é apenas um pretexto. Então por quê e por que agora? Em boa verdade, acho que em primeiro lugar é para aproveitar um momento de fraqueza. Não há interceptores antimíssil, especialmente balísticos, e os poucos que há têm de cobrir a frente onde estão as forças e, portanto, pondo em causa a linha da frente e a retaguarda, considerando não só a logística, o comando e controle, mas também os civis. Os Estados Unidos precisam deles, foram buscá-los inclusivamente ao Sudeste Asiático, e a Europa tem muito poucos. Aliás, foi salientado mesmo por uma intervenção de Zelensky, exatamente essa incapacidade e a necessidade da Europa desenvolver a estratégia urgentemente de desenvolver esse tipo de programa de interceptores antimísseis balísticos. O segundo ponto, para mim, será uma distração sobre a situação no terreno. Não que no plano tático as coisas estejam a cair perfeitamente pro lado ucraniano, e só vimos em Pokrovsk, não vemos nas outras áreas onde a Rússia vai conseguindo ganhar algum território, muito pouco, mas a verdade é que aí perdeu a iniciativa completamente. Portanto, não tem essa iniciativa. E há aqui um sucesso, já falamos nisso, da estratégia Budanov, que acaba por conseguir atingir a retaguarda russa e, portanto, põe em causa as infraestruturas críticas russas, a logística russa, o comando e controle russo, e dá uma imagem de incapacidade da Rússia de se defender perante esta nova ameaça. Isso tem um impacto muito grande que definitivamente Putin pretende fazer distrair. Depois há uma demonstração de poder, uma tentativa de mostrar que tem capacidade militar e econômica, mas também sinalizar a capacidade nuclear, o vetor nuclear, porque muitos destes meios têm a capacidade de transportar ogivas nucleares. Há uma estratégia de pressão sobre a Ucrânia e a União Europeia, como estratégia de medo, como guerra comunicacional, passar uma mensagem forte que ainda é muito capaz e, finalmente, uma sinalização interna, porque essa economia débil que o ministro das Finanças e o Banco Central acabaram por admitir, segundo a Bloomberg, e a contestação do regime por parte das elites acaba por fazer um pouco tremer o regime de Vladimir Putin. Portanto, eu diria que é uma fuga pra frente, acreditando em resultados a curto prazo, sem colocar em processo de paz, em que traz os Estados Unidos para uma negociação a dois, que se prevê em São Petersburgo, e em que assume, portanto, que o fator tempo é determinante e que há aqui uma janela muito relevante até iniciar o inverno e, portanto, é exatamente aproveitar essa janela.

De hoje há também aquela notícia do ataque da última madrugada por parte da Ucrânia, um dos ataques mais significativos com recurso a drones contra o território russo dos últimos meses. Atingiu um importante terminal de exportação de petróleo em São Petersburgo. Como é que interpreta esta iniciativa militar por parte da Ucrânia, professor?

É exatamente a concretização da estratégia Budanov, é conseguir ser eficaz nos pontos críticos, nas infraestruturas críticas, e com isso ter um impacto determinante não só no abastecimento logístico, mas também, obviamente, em toda a estrutura, toda a estratégia de defesa, que acaba por colocar em causa. Repare que a nível energético já houve 40% de limitações assinaladas do lado russo, exatamente por esse tipo de estratégia. E a resposta da Ucrânia no sentido de ter sucesso não só no terreno, mas também num plano político-social com impacto extraordinário e que acaba por ser sinalizado por várias fontes internas russas e com isso colocar em causa não só a estratégia, como também deixar bem claro que a iniciativa não está do lado dos russos.

Professor, passemos agora para a negociação entre Estados Unidos e o regime iraniano, uma negociação que se parece eternizar. Donald Trump diz que o acordo com o Irão está quase a chegar. Pese embora, sinais que não parecem apontar para esse desfecho. Estamos realmente próximos de um acordo ou ainda vamos ter de esperar mais algum tempo?

Bem, Miguel, parece-me que ambos querem e precisam. Ainda não está plenamente confirmado, aqui uma guerra comunicacional não ajuda, apesar das posições maximalistas. No entanto, é a primeira vez que temos uma perspectiva de compromisso. Só que esse compromisso, repare que estamos a falar das condições para o memorando de entendimento, para chegar a um acordo de cessar-fogo, que por sua vez há de levar a um processo que terminaria num acordo de paz. Portanto, ainda estamos muito longe. Fica claro que Trump, apesar de dizer o contrário, o tempo é imperioso, é determinante e está sob contestação interna, mesmo dentro do seu grupo de apoio, o MAGA. A economia está a ter maus resultados, as midterms estão aí perto. A verdade é que Trump precisa que é um acordo, pelo menos esseA curto prazo, mas não controla o processo. Como é a expressão dele "já não tem as cartas", já não controla todo este sistema e portanto, de alguma forma, tem que ir para o que chama o modelo Trump de negociação, com um memorando de entendimento genérico, sobre um dos pontos e o resto logo se vê como chegará. Não há propriamente um end state, uns objetivos políticos perfeitamente identificados. Do lado do Irão, não capitulou, demonstrou alta resistência à dor e tem conseguido, com uma estratégia extraordinária, marcar a agenda negocial. Resistiu, ganha tempo, está a escalar e divide os países do Golfo, uma estratégia muito interessante, e conseguiu colocar na mesa os temas que mais lhe interessam. Faz defender o acordo do conflito no Líbano, vai consolidando o estreito de Ormuz, que é verdadeiramente a sua arma nuclear e de alguma forma consegue alongar. É um cenário de alongamento no tempo que interessa definitivamente ao Irão, isso é uma grande vitória que o Irão conseguiu alcançar.

Professor, o presidente norte-americano Donald Trump, falávamos dele há pouco, reconheceu hoje que teve uma conversa dura com o primeiro-ministro israelita Benjamin Netanyahu, em que acusou o chefe de governo de Israel de estar completamente louco. Não está particularmente satisfeito com os ataques israelitas ao Líbano. Estão os dois amigos desavindos, que consequências terá este aparente afastamento nos conflitos da região?

Miguel, esse aparente é exatamente o ponto relevante. Em certo modo, as discussões com o Netanyahu é um déjà vu. Eu lembro-me de Bill Clinton que terá tido uma reunião aos berros presencial com Netanyahu no momento em que procurava, de alguma forma, ter uma aproximação à Arafat. Já falamos nisto. Este é um caso paradigmático das relações internacionais em que a média potência consegue impor a sua vontade à superpotência. Já vem de várias administrações, eventualmente desde Golda Meir, o lobby judeu nos Estados Unidos é determinante, mas os Estados Unidos também reconhecem que Israel é sua potência representante de interesses na região. A partir do momento em que foi essa a referência, naturalmente ganhou uma certa capacidade de influenciar as decisões dos Estados Unidos para a região. Netanyahu consegue sempre o apoio dos Estados Unidos e depois nunca cumpre a sua parte. Tem essa capacidade, é extraordinária e portanto foi alguma inocência da parte de Donald Trump, se é que sabemos toda a informação, acreditar numa resposta rápida e decisiva que terá sido apresentada por Netanyahu numa determinada reunião. Nem o regime cai, nem há uma mudança extraordinária. Mas os objetivos sempre foram diferentes. Os objetivos que Israel, neste caso, pretendia o caos e mais tempo para resolver as questões das sete frentes, incluindo a Jordânia, obter grandes vitórias, mas acaba por perder com este momento, porque não pode explorar o sucesso. Atingiu grandes vitórias e está mais seguro numa perspectiva interna, mas queria mais, queria ir mais longe. Para os Estados Unidos é determinante que a região acabe por ficar estabilizada de alguma forma importante para se concentrar na Ásia-Pacífico. Estas discussões parecem-me apenas arrufo e que poderão mais tarde ou mais cedo voltar a dar um certo alinhamento. Israel, em particular sob a liderança de Netanyahu, vai continuar a tentar forçar sempre que possível, ir um bocadinho mais além. Trump já deixou essa janela também aberta e, em boa verdade, o Hezbollah vai continuar a dar motivos, o Hezbollah vai continuar a atacar aqui ou ali, o Hezbollah ou outro grupo de terrorista de género acabará por dar essas razões que vão ser bem aproveitadas por Israel, que em última análise, e não podemos esquecer, está sob ameaça existencial, que é atacada do sul do Líbano.

Israel, ainda sobre este conflito no sul do Líbano, Israel acusa as forças da ONU, a UNIFIL, de ter recolhido informação sobre a localização e movimentos do exército israelita e que essa informação terá chegado ao Hezbollah. A UNIFIL apoia o Hezbollah, como se queixam os israelitas?

Eu gostaria de acreditar que não. Agora o problema é o seguinte, já não é a primeira vez que há este tipo de acusações. Já no passado foi comprovado que realmente informação da UNIFIL chegou às mãos do Hezbollah. Podemos analisar, diria, sobre três vetores. Um primeiro vetor é que a recolha de informação é normal e é um procedimento adequado a qualquer força militar, faz parte da missão e isso é perfeitamente normal. Agora o que está em causa é a informação ter chegado ao Hezbollah e aqui vai o segundo vetor que é determinante. Se é intencional, talvez não, ou se não é intencional. Se é intencional, e no passado já vimos vários elementos da ONU, seja diretamente das forças, seja depois dos seus quartéis-gerais, chamando assim, que acabam por ter alguma simpatia pelas forças que combatem Israel, vamos supor desta forma muito simplista, e que acabam por deixar fugir aqui e ali algum tipo de informação. Mas se não for intencional, não deixa de ser igualmente grave, é uma incompetência bastante grave. Estamos a falar de informação classificada, com implicações graves de segurança e que deve ser tratada como tal. Não pode ser tratada de uma forma leviana e põe em causa naturalmente todo o processo, não só as vidas dos militares, mas todo o processo de paz. E isso termina com o terceiro vetor, que é, de certo modo, a ONU com este tipo de situações acaba por dar força àqueles que acreditam na reforma da ONU. A ONU está na crônica, não tem sido isenta, não serve de regulador para o qual foi criada, o regulador internacional que possa servir de mediador, inclusivamente resolor, passe o mau português, dos conflitos e das crises que vão surgindo, não representa a distribuição de poder atual e definitivamente está incapaz. E esse é um grande problema que a ONU vai ter que resolverEstes não pequenos incidentes acabam por alimentar.

O senhor professor considera que é só uma questão de reorganização, ou seja, que uma reorganização das Nações Unidas irá permitir, de facto, uma intervenção mais eficaz por parte dessa organização, da ONU?

Eu diria uma refundação, e uma refundação que tem que começar exatamente por respeitar o poder atual, a distribuição do poder atual. Segundo, definir muito mais especificamente quais são os seus campos de ação, as suas capacidades e o que tem para o fazer cumprir, ou seja, as suas forças, as suas potencialidades para o fazer cumprir, e depois ser pragmático no terreno. Tive a oportunidade, em vários momentos, de lidar com missões da ONU. Não posso dizer que sejam as mais brilhantes, tendo em conta os meios empenhados e os resultados conseguidos. Isso necessariamente, mesmo considerando muitos e extraordinários elementos que tem nas suas fileiras, a verdade é que o bolo geral é muito complexo e acabam por respeitar muitas vezes interesses nacionais. E quando se quer uma organização supranacional, espera-se muito mais e só mesmo uma refundação é que poderá determinar essa direção.

Sr. Professor, temos ainda aqui dois minutos. O senhor professor sugeria aqui ainda mais um tema para este gabinete guerra. Durante a recente visita a Pequim, Trump terá pedido a Xi Jinping que pressionasse a Rússia no sentido de aceitar um acordo de cessar-fogo. Há alguma hipótese de sucesso nesta ação de Donald Trump ou é um pedido para cair em saco roto?

Esta questão é particularmente importante por dois motivos. Um primeiro, porque existe essa capacidade por parte da China, portanto, é o único país que tem capacidade para estabelecer pontes e tem a capacidade de pressionar, seja a nível político ou económico, energia, etc. Tem a real capacidade, mas também tem essa capacidade, mas não está no seu modus operandi, portanto, duvido que venha a desenvolver esse tipo de ação, muito para além de vagas sugestões de paz no mundo, acaba por não se querer envolver diretamente numa postura equidistante, dá algum apoio ao seu aliado conjuntural, Rússia, mas acaba por se manter afastada e não entrada decisivamente. O outro ponto confirma que a China é o centro de gravidade neste momento, que é o império do meio, teve oito pedidos nesse sentido, visitas consecutivas, e é também relevante Trump a ser pragmático, é uma ação que daí diferencia das anteriores administrações e, para mim, com algum sucesso, que tem uma aproximação de rivalidade com a China, mas também de competição. E, portanto, pretende competir sem ruptura e pretende que haja assuntos que são de superior importância, que devem ser abordados em conjugação, em cooperação pelas duas superpotências, são as únicas duas superpotências, portanto, têm a responsabilidade de evitar o caos internacional. E neste parâmetro, parece que Trump até tem uma posição algo moderada e que procura, apesar da competição, manter algum tipo de aproximação a Pequim. Isso pode ser relevante. Duvido é que tenha resultados concretos neste conflito da Rússia.

Sr. Professor, esgotamos o nosso tempo. Professor Jorge Rodrigues, coordenador de risco geopolítico da Porto Business School, foi o convidado desta edição da tarde de quarta-feira de Gabinete de Guerra. Boa tarde, sr. Professor.