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Está aqui connosco o Coronel José do Carmo. Queria lhe perguntar, uma vez que estamos aqui, tentar perceber aquilo que também aconteceu ao longo desta manhã, se há realmente esse risco do conflito poder alastrar e também que capacidade real tem, neste momento, o Irão de retaliar contra os alvos norte-americanos e aliados que tem na região.
A impressão que se tem aqui é que se trata, ainda dentro do quadro negocial, é a tentativa de impor ao Irão uma mão mais fraca. O Irão tem estado a fazer aquilo que é o seu interesse, que é arrastar as negociações, tentar evitar perder os seus pilares estratégicos, que são a parte nuclear, os mísseis e o controle dos proxies. E portanto, esta negociação não está a decorrer bem, segundo o ponto de vista americano, que no fundo pretende acabar com estes pilares. E portanto, isto é uma tentativa de mostrar ao Irão que tem que negociar porque de facto aquilo não é só teatro, há ali um pau que se pode aplicar. É nesta base que estamos. Eu penso que isto não é um ataque massivo, é um ataque pontual, diretamente ao que é que interessa, que são os mísseis.
Mas os próprios Estados Unidos a assumirem que o que aconteceu nestes últimos dias foi teatro.
Não, as negociações são sempre um teatro. Há aqui uma gesticulação em que ambas as partes dizem que vão fazer isto se a outra parte não ceder. E portanto, os americanos, como não estão a conseguir, têm lá o dispositivo. O dispositivo em si já é uma peça de teatro, está montado o cenário para mostrar à outra parte que estão a falar sério e que, portanto, são credíveis, a ameaça é credível. Há uma ameaça, obviamente, o Irão não está a negociar porque quer, está a negociar sob ameaça. A concentração de forças em si é uma credibilização da ameaça. E a utilização agora é um passo em frente, ou seja, agora, se isto for tudo racional, o Irão reage com os mísseis, poucos, para enfim não ser alguma coisa que penetre, a probabilidade é pequena, e depois passados uns tempos voltam a sentar-se. E aí com o Irão numa base mais baixa. Se as coisas descontrolarem, e podem de fato descontrolar-se, porque a racionalidade nestas coisas não está sempre presente e há aqui valores que são mais importantes que a razão nestes casos. Se as coisas descontrolarem e se o Irão, por exemplo, reagir massivamente, agora se lançar ataques que causem mortes no lado americano ou do lado israelita, sim, aí as coisas podem descontrolar-se. O que o Irão pode fazer? Pode fazer muita coisa, pode criar caos, pode saturar com mísseis as defesas americanas, mísseis e drones, e as defesas israelitas durante muito tempo e pode criar instabilidade na zona, toda aquela zona pode ficar os estreitos do Mar Vermelho com os Houthis, depois ali a parte do Ormuz, tudo isso pode causar muitos problemas a nível internacional, porque há ali um gargalo estratégico, que é um gargalo estratégico do mundo. Portanto, o Irão pode fazer isto tudo. Se é do seu interesse fazê-lo? Essa é uma análise que quem manda no regime fará, se compensa a perda de alguma dessas capacidades estratégicas iranianas, se compensa a destruição do próprio Irão. E iremos ver isso nos próximos tempos. Esta guerra não pode ser sustentável durante muito tempo, porque a parte logística, mesmo do lado americano, está bastante estendida. Tem ali, por exemplo, os mísseis Tomahawk, estão aqueles que estão nos tubos, não têm ali mais, portanto terão que mandar vir mais, isso implica uma ponta aérea. Tudo isto se for durante muito tempo, vai colocar constrangimentos de ambos os lados.
A previsão que temos para já é uma fase inicial de quatro dias e depois pode durar algumas semanas. Quando diz que não é possível durar muito tempo, muitas semanas já será muito tempo, ou não?
Estou falando dos mísseis Tomahawk. Dos mísseis Tomahawk, digamos que não há paióis dentro dos navios para mísseis Tomahawk, são os que estão nos tubos. São umas centenas que estão ali. Depois de gastos, têm que vir mais, e por isso é uma ponta aérea que tem que se fazer. E aliás, aquilo não é fácil, porque são mísseis que têm que ser carregados com guindaste, aquilo é muito complicado. Os navios que os têm, têm que ir aos portos. Portanto, é uma coisa complicada. Não é fácil. E portanto, esta campanha está desenhada, neste momento, essa é a minha opinião, e por aquilo que se vê, pela intensidade das coisas, está desenhada apenas para aumentar a pressão sobre o Irão. Agora, é evidente, quando se faz uma coisa destas, tem que estar a pensar que o adversário não colabora conosco e vai tentar maximizar as suas possibilidades, que aliás gastarmos também, até porque isto tem custos que são muito maiores do lado de quem ataca, aliás, do lado de quem se defende, no caso dos americanos e israelitas, cujos interceptores são caros, enquanto o Irão normalmente aposta no volume, em coisas baratas, drones e tal, e tudo aquilo vai saturar de uma forma barata e que obriga ao uso de interceptores caros. A resposta do Irão, pelo que se vê até agora, é uma resposta, e eu digo que é simbólica, porque lançar um míssil ou dois, eles sabem que vão ser interceptados. Aquilo só funciona quando lançados às centenas. Mas o Irão também não se pode dar esse luxo de lançar às centenas, porque se tiver que aguentar uma campanha de quatro semanas, também fica sem eles. Portanto, tudo isto é um cálculo que, se forem racionais as partes, voltam a sentar-se daqui a uns dias outra vez. Se não, se a escalada for total, é evidente que já sabemos como é que isto acaba. Ou seja, se a escalada for total, se os americanos, de facto, se empenharem numa guerra total, o Irão será obliterado, e eles também sabem disso. Ou seja, no entendimento dos prejuízos que causem, não só os americanos, mas também todo mundo, não têm hipótese de aguentar um conflito clássico durante muito tempo.
O que o Coronel José do Carmo acredita que pode acontecer nesta situação, tendo em conta que há bocadinho também falávamos com o Francisco Pereira Coutinho, especialista em Direito Internacional, falávamos da questão das intercalares que acontecem em novembro e dessa posição de Donald Trump poder ou estar ou não enfraquecida, tendo tomado esta posição de atacar o Irão. O que acha que pode realmente acontecer nos próximos dias? Vamos ter um ataque contínuo, mais prolongado, ou tudo se pode resolver em tempo útil?
Os Estados Unidos não querem um conflito prolongado. Aliás, eles não têm ali forças terrestres, têm ali forças aeronavais só. Não querem um conflito prolongado. Aliás, essa faz parte da própria proposta ideológica Trump. Não há conflitos prolongados, não há conflitos longos. Agora, evidente que isso para a base eleitoral do presidente Trump é uma contradição. Mas isso é uma gestão que ele terá que fazer lá com o seu eleitorado. E não sei até que ponto as análises que se fazem sobre as próprias intercalares marcam esta posição. Não podemos ver só este conflito com base no que se passa no interior dos Estados Unidos. Também tem influência a maneira como ela se faz. Esta intervenção israelita tem um bocado a ver com isso. No fundo, há aqui uma tentativa de legitimação interna desta ação, atendendo a que está no fundo ao lado de um aliado e poderá ser construída uma narrativa em torno disso. Mas, de fato, há aqui coisas importantes. O programa nuclear do Irã, os próprios mísseis iranianos e os próprios proxies que podem fazer a interrupção dos fluxos marítimos naquela zona. Tudo isso é importante e tudo isso já está na mesa há muito tempo, antes das eleições. São coisas que já estão há muitos anos na mesa. Neste momento, há aqui uma oportunidade, o Irã está enfraquecido, os seus aliados estão incapazes de o apoiar. Há aqui uma conjuntura, inclusive interna no Irã, que diz que é a altura de aproveitar. Agora, para aproveitar isto, é evidente que tem que se ultrapassar algumas linhas daquilo que se considera ser o direito internacional. Esta coisa do ataque preventivo não é bem um ataque preventivo, porque não há aqui uma ameaça latente. A ameaça latente existe, mas não é imediata. E portanto, como se diziam já os romanos, "In terrorem silent leges", ou seja, em tempos de guerra calam-se as leis, e acaba por ser um bocado isso. Muitas vezes utiliza-se o direito apenas como a maneira do vício pagar tributo à virtude, e é um bocado por aí.
Também falámos um pouco sobre essa questão do direito internacional com o Francisco Pereira Coutinho. É uma conversa que vai ficar também disponível no podcast Gabinete de Guerra. Mas voltando aqui, até porque estava a falar sobre essa questão dos aliados. Israel convocou, entretanto, os reservistas. É uma notícia também que acabamos de publicar em observador.pt, no ao minuto, no live blog que temos activo, que vão ser posicionadas estas tropas nas fronteiras com o Líbano e com a Síria. E vamos dando conta também aqui de que já houve ataques no Bahrein, a base americana foi atacada. Também surgem aqui notícias do Qatar, que enviou também um alerta para os cidadãos a recomendar que fiquem em casa e longe de bases militares. A imprensa está a avançar aqui explosões também em Doha, precisamente no Qatar. Há este, de facto, e como também sinalizava aqui o João Costa e Silva há pouco, esta ideia de que o conflito pode realmente alastrar.
Essa ameaça iraniana, a estratégia dissuasória do Irão passa justamente por isso. Ou seja, se nos atacarem, nós fazemos isto e eles têm instrumentos para fazer, são os tais mísseis. Os tais mísseis que, como se vê, são neste momento a grande capacidade estratégica do Irão. Ele pode lançá-los para muitos sítios e pode interceptar, se forem lançados em vaga, alguns passarão. Neste momento, estes ataques, pelo que parece ser, eu também não tenho muita informação, são ataques isolados, ou seja, são mísseis interceptáveis, digamos que são simbólicos, é para o Irão mostrar que pode fazê-lo, e de facto pode. Mas esses mísseis também se esgotam. O Irão já terá tido tempo de recuperar o seu arsenal de mísseis em todo este tempo, mas se os lançar em saturação, não duram muito tempo. São mísseis que vão acabar em três a quatro semanas, se os lançar em saturação. Se lançar um de vez em quando, são interceptáveis pelos meios na zona. Enfim, poderá haver umas armas, a base é essa. Ainda sobre Israel, percebe-se, porque os proxies iranianos ainda na Síria ainda há alguns, e há o Hezbollah no norte, que apesar de estar bastante enfraquecido e bastante limitado pelo que aconteceu e pela própria camisa de forças dentro do Líbano, o Hezbollah é um agente iraniano e, portanto, poderá tentar, em desespero, lançar um ataque sobre Israel. As condições já não são as melhores, mas ele tem muitos mísseis, pode fazê-lo. Portanto, Israel convoca os reservistas justamente para isto, para poder, uma eventual infiltração de meios humanos do Hezbollah, para os conter na fronteira. Portanto, é uma medida de precaução e percebe-se.