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Gabinete de Guerra na Rádio Observador. Já sabe que por aqui, todos os dias analisamos aquilo que se passa nos dois principais conflitos, quer na guerra na Ucrânia, quer também na guerra no Médio Oriente, entre Israel e o Hamas, agora com o Irão incluído. Junta-se a nós para analisar todos estes temas que vamos falar hoje, o coronel Carlos Menos Dias. Muito bem-vindo, senhor coronel. Obrigado por estar aqui conosco mais uma vez no Gabinete de Guerra.

Obrigado eu.

Vamos começar por falar sobre a Ucrânia e sobre a Rússia. O Senado dos Estados Unidos da América aprovou mais 61 mil milhões de euros para a Ucrânia. Pergunto-lhe se esta ajuda dá um balão de oxigênio realmente aos ucranianos.

Sim, o povo encara assim, nós também podemos encarar assim, as pessoas que veem com um maior rigor estas matérias. Trata-se do apoio, no total, de 57 mil milhões de euros, são 61 mil milhões de dólares. Pese embora, desse pacote, cerca de 13 mil milhões de euros se destina à aquisição, à obtenção e alguma formação de equipamento militar, que vai ser enviado pra Ucrânia. Portanto, desses 57 mil milhões, apenas 13 mil milhões. E depois tem várias rúbricas. O restante, 9,3 mil milhões, eu estou a falar em euros, é pra fazer a Ucrânia viver. E isto é a título de empréstimo, com uma cláusula, que é pra aplacar algumas reticências republicanas, isto é, uma cláusula até 2026, que se os democratas, por exemplo, o presidente Joe Biden ganhar as eleições em novembro, pode perdoar essa dívida, pode não cobrar o empréstimo. Mas se for a facção republicana, por exemplo, Donald Trump, inclui a possibilidade de cobrar esse empréstimo. E portanto, isso levou os republicanos, que têm muitas reservas a estes apoios a fundo perdido, a aprovarem. 24 mil milhões é para repor stocks nos depósitos norte-americanos.

Certo.

E depois ainda há a possibilidade, e aqui há muitas pessoas que se manifestam contra, independentemente do lado em que se colocam, da possibilidade de confisco e de utilização de ativos russos na reconstrução da Ucrânia. Isto é o acordo em geral. E claro, isto vai traduzir-se aqueles 13 mil milhões de euros, mais ou menos, em material e equipamento que entrará na Ucrânia, haja pessoas para o manusear. Eu falo porque é o que parece. Há material que já está na Polônia, até algum já estava em depósito e pronto, e outro já estava a ser preparado, tudo dentro de um pacote de cerca, nesses 13 mil milhões, um subpacote de 935 milhões de euros, e que se trata, por exemplo, de munições de artilharia 155 mm, o míssil antiaéreo Stinger, que não é um sistema Patriot. Portanto, é um míssil que tem um alcance de 4 km, 4,8 mais ou menos, e a uma altitude de 3,8 km. Os mísseis anticarro Javelin, aquilo que vimos em certas alturas as imagens na televisão, é um míssil que pode subir e depois desce na vertical sobre a torre de um carro de combate, que é a parte mais vulnerável. E depois, os ATACMS, os tais mísseis com a possibilidade de 300 km de alcance, estarão também incluídos neste pacote e aprovados. Relevo que estes mísseis ATACMS já estão na Ucrânia desde outubro do ano passado.

Certo.

O que interessa é que não são estes com até 300 km de alcance. São os M39, o Block 1, com 165 km.

E senhor coronel, gostava aqui de aproveitar e até para avançarmos para alguns outros temas que temos. Estamos aqui a falar de manter a sobrevivência da Ucrânia no futuro. Hoje tivemos a Ursula von der Leyen a alertar que a Rússia é uma ameaça existencial também pra Europa. Pergunto-lhe se é uma ameaça realista esta que a Ursula von der Leyen hoje sublinha.

Certo que é o tal balão de oxigênio e von der Leyen está a aproveitar isso. Deixe-me só acabar que há material, veículos de combate de infantaria e artilharia a 170 km de Lviv, na Ucrânia, nesta altura, já desde ontem. E o que é que significa a ameaça existencial? Porque nós estamos fartos de ouvir isto, mesmo do lado da Federação Russa. Se for colocada a nossa existência em perigo, utilizamos tudo o que temos.

Claro.

É isto que quero dizer. Quero dizer que a senhora presidenta da Comissão, ao verbalizar isto, está a dizer que a Federação Russa coloca em causa a existência, ou pode colocar em causa a existência da Europa, e ela não fala pela Europa, fala só pela União Europeia, porque Europa é mais que União Europeia, e isso significa, no final, porque esta existência está ligada à concretização de objetivos vitais, e isto pode significar o uso do sangue das populações que pertencem à União Europeia. É isto Factualmente, quer dizer ameaça existencial. Agora, não sei se é isto. E claro, há aqui uma lógica de narrativa também de puxar a um lado o fervor. Agora não sei se foi exatamente isto que a senhora presidente da Comissão quis dizer, mas é isto que factualmente significa ameaça existencial e as consequências, eu julgo que todas podemos tirar a partir daqui.

Vamos passar à guerra no Médio Oriente e já falámos há pouco do apoio dos Estados Unidos à Ucrânia. Falemos agora do apoio dos Estados Unidos, aprovado também no Senado, a Israel, um apoio de mais de 24 mil milhões de dólares. Temos aqui, Coronel Mendes Dias, finalmente os Estados Unidos a voltarem a aproximar-se de novo de Israel e pergunto também até que ponto é que Israel precisa desta ajuda neste momento.

A minha opinião, eu julgo, independentemente do que se diz à nossa frente, que os Estados Unidos nunca se afastaram de Israel. E os factos também falam por si, embora do ponto de vista diplomático, e afirmações tenha que se responder a pressões internas. Eu vou lhe dar números para ser objetivo. Em 2023, ou melhor, já 11 anos por ano, incluindo 2023, os norte-americanos ajudam Israel no valor de 3100 milhões de euros. Para lá destes 3100 milhões de euros, ainda ajudam no tal upgrade do sistema Cúpula de Ferro em 500 milhões. Nos últimos cinco anos, 70% das importações israelitas de armamento vieram dos Estados Unidos, particularmente na área, porque como sabe, Israel não é um grande produtor de armamento na área da aviação, por exemplo, e os F-35 até que Israel utilizou na Síria, foram exportados pelos norte-americanos. Portanto, nunca houve isolamento, nem pode haver isolamento, porque para os norte-americanos, Israel é essencial. Porque Israel numa ligação com a Turquia, que nesta altura é pró, vou chamar assim, pelo menos à luz de quem ouve falar, pró-Hamas, é um eixo equilibrador com o Irão. Mas deixe-me dizer, porque nós só falamos nos Estados Unidos e portanto este apoio, do meu ponto de vista, não significa isso, significa a manutenção de uma linha de ação externa que já vem há muito tempo. Mas eu queria relembrar também que não é só os Estados Unidos, é a Alemanha. A Alemanha, julgo que em 2023 também, julgo que o ano passado, as suas licenças de exportações para Israel aumentaram 10 vezes relativamente a 2022. Julgo que ficaram a rondar os 330 milhões de euros. A Alemanha exportou 3000 armas anti-carro para Israel, 500 mil munições para metralhadoras, espingardas, etc. E ainda relembrada, nós é que ficamos esquecidos, de repente, que em 2023, Israel também recebeu da Alemanha duas corvetas e dezenas de motores para os carros de combate israelitas. É que eles são conhecidos pelo carro de combate Merkava. Portanto, objetivamente, do meu ponto de vista, é a manutenção de uma linha de ação externa. Nós é que às vezes perdemos o fio condutor, na minha opinião.

Claro. Coronel Carlos Mendes Dias, mesmo para fechar e muito rapidamente. Temos aqui a notícia também de que as Forças de Defesa de Israel, as IDF, anunciaram que estão a atacar o Líbano. Qual é que é o interesse de Israel nesta região?

No sul do Líbano. No sul do Líbano está o Hezbollah, o Hezbollah coloca em causa a segurança do Estado de Israel a norte, particularmente agora, sempre colocou desde que lá estivesse, a guerra em 2006 foi com o Hezbollah, e, por conseguinte, o que está a fazer Israel, está a retribuir, a retorquir a ameaça que vem do Hezbollah. Deixe-me apenas dizer que quer o Hezbollah, quer forças israelitas que por acaso estivessem no sul do Líbano, estavam lá ilegalmente. Porque a Resolução 1701, porque é este o número do Conselho de Segurança das Nações Unidas, aprovada em agosto de 2016, é clara. Para além daquilo que se chamou linha azul, a sul de Unitani, nenhuma força armada, àquela altura, para além da UNIFIL e do Líbano, pode estar aí. E, portanto, o Hezbollah está ilegal. Israel, se estiver lá, também está ilegal. E nenhuma força estrangeira no Líbano, sem o consentimento do governo, pode lá funcionar. Isto é o que dizia a resolução. E, por conseguinte, estamos a recuar um bocadinho. Factualmente hoje é tentar fazer frente à ação inimiga, opositora do Hezbollah, que está a colocar em insegurança as populações, até que já foram evacuadas, do norte de Israel. É isto que se está a passar. Não há interesse nenhum na ocupação, do meu ponto de vista, nesta altura, a não ser por questões de segurança, e não me parece que isso venha a acontecer.

Coronel Carlos Mendes Dias, agradeço. O Gabinete de Guerra está novamente no ar a partir de amanhã, aqui na Rádio Observador. Obrigado e até à próxima.

Muito obrigado, uma boa tarde.