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Este é o Gabinete de Guerra da Rádio Observador. Eu sou o Luís Soares e connosco temos hoje o Vítor Gabriel Oliveira, secretário-geral da SEDS Europa. Boa tarde, bem-vindo mais uma vez. Começamos por olhar para as declarações de Donald Trump. Foram várias declarações feitas ontem numa conferência de imprensa em Mar-a-Lago, na Flórida. Vai tomar posse Donald Trump como presidente norte-americano a 20 de janeiro e, portanto, é importante também percebermos o âmbito destas declarações em que ele falou dos conflitos no Médio Oriente e também na Rússia e a Ucrânia. Começando pelas declarações que Donald Trump fez sobre este conflito na Europa. Diz que consegue perceber a posição da Rússia sobre a entrada da Ucrânia na NATO e alarga esse prazo para acabar a guerra na Ucrânia para seis meses. Trump está aqui mais realista em relação a este conflito, depois das declarações que tinha feito antes das eleições.
Antes de mais, obrigado à Rádio Observador mais uma vez pelo convite. Trump, se pudéssemos utilizar um termo utilizado na guerra também, Trump disparou para todo lado ontem. Confirmações sobre tudo e mais alguma coisa a nível económico e a nível militar. Aquilo que me parece é que ele tem algum recuo na questão da Ucrânia, não nos outros assuntos que ele consegue dominar melhor, nomeadamente no Médio Oriente, em que ele tem uma relação muito mais para cima com Benjamin Netanyahu e depende muito, em parte, de Benjamin Netanyahu um acordo de paz, claro que depende também do Hamas, mas ali, na Ucrânia, não depende só da vontade dos Estados Unidos e da vontade da Ucrânia, mas também de Vladimir Putin. Sabemos também da proximidade que neste momento Elon Musk tem de Donald Trump e provavelmente terá numa futura administração Trump, e provavelmente Elon Musk estará envolvido também nestas negociações. Sabemos que o Starlink, que é uma rede operada pela empresa de satélites de Elon Musk, foi muito importante, e é muito importante ainda hoje, nos ataques com drones na Ucrânia, para o lado ucraniano, e sabemos que isso pode levar a alguma pressão. Eu deixava só aqui uma nota de rodapé, é que a Tesla não vende carros na Rússia desde que tem estas sanções. Estamos aqui perante um novo cenário geopolítico, provavelmente para os próximos quatro anos, em que a área militar e a área geoestratégica se misturará ainda mais com a área económica do que já estava até aqui. Aquilo que eu penso que irá acontecer na Ucrânia, que Trump irá ter enviados especiais, enviados dele próprio na Ucrânia a tentarem resolver o conflito, mas parece-me que com perdas elevadas para o território ucraniano e para o povo ucraniano.
Donald Trump diz que dá razão, de certa forma, a Vladimir Putin, dizendo que percebe que Vladimir Putin sublinha essa ideia de que a Ucrânia não devia entrar para a NATO e também vai dizendo que acredita que a guerra pode escalar. Até que ponto é que poderemos achar que afinal este conflito poderá durar ainda mais para lá dos três anos que vai completar no mês que vem?
Eu dava-lhe aqui duas ou três notas numa visão mais europeísta, que é o seguinte: neste momento, pelo que sabemos, com base em fontes abertas internacionais, os militares norte-coreanos estão mais próximos e estão a aproximar-se de fronteiras NATO. Neste momento está a haver uma pressão grande, nomeadamente sobre o Reino Unido e sobre a Alemanha, em termos políticos, por parte de Elon Musk. E Donald Trump disse ontem também que pretendia propor que o orçamento de cada país para a NATO se elevasse a 5%. Estamos aqui perante um cenário em que a pressão sobre a União Europeia é como nunca foi vista.
É uma pressão crescente.
É uma pressão crescente. Emmanuel Macron, por exemplo, já falou disto nas últimas horas. Em França, que é de onde vos falo, é um dos temas principais, entre outras questões de política interna, mas é um dos temas principais a nível internacional, de política internacional, porque realmente os países estão a perceber que poderão ter um ataque diplomático na União Europeia em vários países e ou se unem, ou terão mesmo um grande problema de quebra das suas economias internas por medo da guerra, por ataques com base em apoio à extrema-direita, etc. E com perda, nem que seja diplomática, de soberania, se me permito utilizar esta expressão, não tecnicamente, mas difícil de gerir para os políticos a nível dos países da União Europeia. Portanto, parece-me que a Europa, o nível de intervenção que vinha tendo até aqui na Ucrânia, poderá ficar diminuído por toda esta pressão que está sendo colocada na União Europeia e que isso poderá afetar a capacidade da Ucrânia. Porque se os Estados Unidos não fornecerem material militar à Ucrânia e se a Europa estiver débil, a Ucrânia provavelmente não aguentará esses seis meses como se está a falar. E isso é preocupante, de certa forma, mas penso que teremos que esperar pelo dia 20 e pelas semanas seguintes à tomada de posse de Donald Trump para percebermos realmente o que é que-
Qual será a estratégia.
Qual será a estratégia.
E daqui a pouco vamos falar também da questão do gás na Europa, do gás russo, mas ainda falando das declarações do Donald Trump no que diz respeito ao Médio Oriente, ele fez uma declaração a ameaçar lançar o inferno se o Hamas não libertar reféns até dia 20. Que significado exatamente é que podem ter estas declarações do presidente eleito norte-americano?
É difícil pensarmos, pelo aquilo que temos visto nos últimos meses, o que poderá ser ainda pior do que aquilo que já se verifica naquela região. Aquilo que me parece é que ele irá forçar Benjamin Netanyahu a aceitar um acordo de paz, mas ele também sabe que Benjamin Netanyahu não aceitará nunca um acordo de paz sem libertação de reféns. E isto, de certa forma, pode ser muito complexo. Está em causa também a sua credibilidade internacional quando disse que terminaria as guerras em 24 horas ou em 48 horas. Portanto, Donald Trump fará tudo com a pressão que conseguir, nomeadamente pressão multilateral, ou seja, Donald Trump e os serviços de informação americanos sabem onde é que estão os líderes que estão exilados, ou seja, que não estão em Gaza ou não estão na região. É sobre esses líderes que podem fazer pressão, e nessas regiões onde esses líderes estão e que coordenam o Hamas e outras milícias da região, eu penso que poderá ser aí que as forças militares americanas poderão intervir.
Vitor Gabriel Oliveira, vamos sair agora das declarações de Donald Trump e olhar aqui para algumas informações também que vão chegando desses dois conflitos. Começando pelo conflito entre a Rússia e a Ucrânia. Amanhã realiza-se a reunião do grupo de contacto para a defesa da Ucrânia na base aérea de Ramstein, na Alemanha. O que se poderá esperar desta reunião, sendo que o Pentágono já veio a dizer que o objetivo será mapear as capacidades de defesa da Ucrânia?
Eu acho que neste momento é mapear, mas basicamente é fazer um resumo e perceber qual é o plano A, plano B, plano C para aquilo que acontecerá a seguir à tomada de posse de Donald Trump. Nós voltamos sempre ao mesmo assunto e repetimos muitas vezes, mas aquilo que me parece é que praticamente a 10 dias da tomada de posse de Donald Trump, aquilo que será feito é um mapeamento do que está feito até agora e do que poderá acontecer, cenário A, cenário B, cenário C, e todos os cenários que poderão acontecer com a participação ou não dos Estados Unidos em cada cenário desses, em cada região e em cada acordo de paz feito macro ou micro para a Ucrânia, com cedências de regiões ou não. Ou seja, é fazer uma tese de hipóteses para aquilo que se poderá passar num futuro acordo de paz e qual a intervenção dos países da União Europeia, da NATO e dos Estados Unidos nessas negociações. É isso que eu acho que vai ser negociado nesse encontro.
A gerar polémica, como eu dizia há pouco, está o fim do transporte de gás russo pelos gasodutos ucranianos. A Hungria já criticou, o primeiro-ministro Eslovaco também já fez saber que vai discutir essa questão com representantes da Comissão Europeia em Bruxelas amanhã. Esta questão do gás, e tendo em conta também aquilo que falava há pouco da questão da NATO, poderá representar um irritante dentro da União Europeia, algo que poderá causar grandes divisões?
Eu aí tenho uma opinião, não sei se global, mas acho que a União Europeia tem cometido muitos erros nos últimos anos em termos estratégicos, mas esse, depois do momento em que aconteceu o início do conflito na Ucrânia, foi um dos temas bem tratados pela União Europeia estrategicamente. Ou seja, a partir do momento em que há esse corte de gás, em que já não existe esse fornecimento de gás da Rússia através da Ucrânia, a União Europeia, neste momento, depende muito próximo de 0% da Rússia em termos de gás. E isso foi um trabalho que foi sendo feito durante os últimos três anos, bem feito, e que expunha muitos países na zona Oeste, e principalmente a Alemanha, a essa debilidade económica, mas também estratégica, que expunha a Alemanha bastante. E nessa matéria, eu penso que o trabalho foi bem feito. E neste momento, o facto de, incrivelmente, ser a Hungria uma das economias mais prejudicadas com esse corte de gás, é claro que vai levar a que Viktor Orbán proteste junto dos seus pares da União Europeia, mas também vai fazer com que todos os outros países mantenham um poder sobre a Hungria, para que a Hungria tenha um controle maior nas relações que tem com a Rússia. E eu acho que isso foi bem tratado pela União Europeia e foi um dossiê que se prova agora que já deveria ter sido assim tratado na altura por Angela Merkel, que foi uma das principais negociadoras das questões do gás. Mas penso que é um dos dossiês bem tratados neste panorama onde a União Europeia esteve envolvida desde o primeiro minuto a tentar resolver esta questão energética.
Mas como é que a União Europeia pode gerir as dificuldades alegadas pela Hungria e também por Robert Fico relativamente a esta questão do gás? Ou seja, não fica aqui algo que pode causar alguma entropia numa união que se quer para fazer face à Ucrânia e para ajudar a Ucrânia, não poderá haver aqui alguma entropia também nessa negociação?
Sim, claro que sim, mas temos que perceber e temos que ser solidários com todos os países que temos na União Europeia, essa é a primeira questão. Mas num ponto final, temos que saber que num panorama de guerra há sempre perdas. E as perdas que a Ucrânia teve até agora foram muito maiores, embora não estivesse na União Europeia, e em vidas humanas, do que aquelas que a Hungria terá. Haverá sempre soluções, portanto, o gás não canalizado, mas o gás que é transportado em navios e que depois tem que ser transportado para a Hungria. Temos outras opções que a Hungria terá que desenvolver no futuro para não depender da Rússia. Poderíamos enumerar várias, mas essa será uma nova fonte de pressão sobre a Hungria, que na minha opinião a União Europeia utilizará, para que a Hungria dependa mais de países aliados e dentro da União Europeia do que dependa da Rússia. Portanto, isso não é por acaso. E não é por acaso neste momento também, porque embora o último contrato tenha chegado ao fim neste momento, é neste momento que o gás é mais preciso também, porque estamos em pleno pico do inverno e é neste momento que o gás é mais preciso.
Vitor Gabriel Oliveira, ainda nestes últimos minutos, olhando ainda para o Médio Oriente e há pouco falávamos também na questão da troca de reféns. O certo é que continuam as negociações para um possível cessar-fogo entre Israel e o Hamas. O Hamas exige o fim da ofensiva em Gaza para qualquer acordo pela libertação de reféns. Há também alguma contrainformação com Israel a dizer que a possibilidade de trocar uma lista de reféns por um cessar-fogo é totalmente falsa. Em que ponto é que estamos exatamente desta negociação? Estamos à espera também do dia 20 para tentar chegar a um entendimento relativamente a um possível cessar-fogo.
Sim, eu acho que aquilo que irá acontecer a partir do dia 20 é que haverá um forcing do lado de Donald Trump para que Benjamin Netanyahu aceite a proposta de libertação de reféns, mas claro, Benjamin Netanyahu quererá sempre o maior número de reféns. Houve um ponto em que o Hamas queria entregar reféns, mas falava também em entregar reféns cadáveres, portanto, era um pouco estranho esse tipo de troca, mas que não foi acordado com Israel, porque Israel queria reféns vivos. Portanto, o pormenor, que é um por maior, estará nesta diferença que difere nas expectativas que Israel tem para anunciar aquilo que é um acordo de paz e nas expectativas que o Hamas tem. Só de recordar que o Hamas mantém reféns, alguns deles, desde 2014. Portanto, não é tácito, não é garantido que Israel, num acordo de paz, entregue todos os reféns em várias fases. Poderá, no final, não cumprir a última parte do acordo de paz. Aquilo que eu penso é que poderá haver uma resolução para o conflito armado e para a guerra que vivemos neste momento, mas para o conflito em si, não haverá uma resolução a curto prazo. Precisamos de esperar muito tempo e mesmo assim, são conflitos com demasiadas décadas e com demasiadas feridas abertas que não vão ficar resolvidos, penso eu, em 2025.
Vitor Gabriel Oliveira, muito obrigado pela sua análise em mais um Gabinete de Guerra. Estamos de regresso amanhã.
Obrigado.