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Abrimos agora o novo Gabinete de Guerra das manhãs 360. Eu sou a Maria João Simões e esta quarta-feira junta-se a mim e ao Júlio Magalhães, o major general João Vieira Borges, presidente da Comissão Portuguesa de História Militar. Bom dia, General. Bem-vindo. Muito obrigada por estar conosco.
Muito bom dia, muito obrigado pelo convite.
Medvedev diz que o mundo está na iminência de uma nova guerra mundial e apela para que os países trabalhem para o evitar. Acrescentou ainda: "Não posso dizer qual será a gota d'água ou qual poderá ser o gatilho, mas pode acontecer". General, isto parece o departamento de Medvedev. As ameaças de guerra nuclear e global, é uma ameaça cada vez mais séria ou este dirigente russo está incumbido de dizer isto de vez em quando para pressionar o Ocidente?
Eu penso que é mais a segunda modalidade que referiu. De vez em quando, em determinadas situações em que a Rússia não está com uma situação favorável, usa este argumento como forma de pressão. E neste momento, nós temos o acordo dos cereais em risco para dia 18 de maio. Neste momento, nós temos uma situação que continua há mais de 11 meses em Bakhmut e não se resolve. Nós temos a contraofensiva ou ofensiva russa, que era para o inverno e primavera, que também tem poucas probabilidades de sucesso. Nós vemos o mundo a pedir a paz e, portanto, ele de vez em quando, nestas situações, usa este tipo de discurso. Esperemos que não haja pressupostos que não conheçamos, mas sobretudo é mais um aviso, é mais uma pressão internacional, é mais uma demonstração de força, de que efetivamente também a Rússia tem estas capacidades. E portanto, faz parte do discurso da Rússia, porque ele é usado nesse sentido.
Entretanto, o Kremlin, através de Peskov, veio negar que Putin esteja a recorrer ao uso de duplos. Além disso, numa conferência de imprensa, afastou também o rumor de que o líder russo passaria a maior parte do tempo escondido num bunker. Não passa de uma mentira, diz. Isto pode ser possível, usar duplos por questões de segurança e em que se baseiam estas revelações?
É possível, já foi usado, e para ele responder da maneira como respondeu, poderá eventualmente ter sido usado.
Pois.
Só saberemos disso mais tarde. Usou isso com graça, até num discurso. Desta vez apareceu as suas imagens, não só o seu som, junto de jovens a brincar com esta situação, mas obviamente que é algo que já foi usado muitas vezes, sobretudo em termos de segurança, em determinadas zonas, em determinados cenários de guerra. Obviamente que foi usado ao longo da história, todos nós sabemos. Neste caso em concreto, até sobretudo porque foram órgãos de comunicação social da Ucrânia que deram a indicação de que efetivamente isso tinha acontecido na última visita. A última visita que, obviamente, ao dizer que estava na linha da frente, depois veio-se a confirmar que estava na tal linha de proteção dos 180 km. E, portanto, obviamente que isto depois faz parte desse discurso. Digamos que ele também aproveitou a mensagem para dizer: "Continuo interativo, continuo o nosso presidente". E portanto, foi mais uma oportunidade para demonstrar a grande liderança de Putin ao povo russo. Julgo que não terá sido usado, ou não foi necessário usar nestes cenários, até porque não houve imagens claras de que ele efetivamente estivesse mesmo na frente de combate, como aconteceu com o Zelensky.
Entretanto, no habitual discurso diário, Zelensky denunciou os ataques das forças russas sobre a cidade de Kupyansk, que atingiram o museu e provocaram a morte de duas pessoas, e disse ainda que ninguém se pode sentir seguro em lugar nenhum até que o agressor seja derrotado. Estes ataques russos que atingem civis podem ser considerados só danos colaterais ou são deliberados para manter o terror sobre a população?
Podem acontecer as duas coisas. Efetivamente, este confirmou-se que foi o S-300. Ou seja, o S-300 é sempre uma desculpa da parte da Rússia para efeitos colaterais. Sendo, como já todos sabemos, um míssil antiaéreo, obviamente, quando é utilizado contra alvos terrestres, primeiro dificulta a antiaérea da parte da Ucrânia de o abater e, em segundo lugar, tem efeitos colaterais, tendo em conta a imprecisão do sistema. E, portanto, pode bater alvos a uma distância de 500 metros, 1000 metros, com erros de 500, 1000 metros. E isso é sempre uma desculpa aquando dos julgamentos de crimes de guerra, que a intenção seria um determinado tipo de objetivo e afinal foi outro. De qualquer maneira, o discurso de Zelensky é o discurso certo, no sentido em que está a ser destruída a cultura. E portanto, não estamos a falar só de um museu, nem de cinco, nem de 10. Não estamos a falar de uma igreja, nem de cinco, nem de 10. Não estamos a falar de uma escola, nem de cinco, nem de 10. E portanto, isto tem um enquadramento depois em termos culturais, da destruição da cultura da Rússia em termos de crimes de guerra deliberados, portanto, ações deliberadas. Uns serão, outras não serão, serão efeitos colaterais, mas aquando de julgamentos, esperemos que os haja, efetivamente, isso poderá ser enquadrado. Este caso da cultura, da língua, é muito importante e faz parte do discurso de alguns extremistas russos, portanto, tem esse enquadramento também.
Também no terreno, já agora, as forças ucranianas na margem ocidental do Rio Dnepr têm vindo a fazer ataques perto de Kherson para tentar reduzir a capacidade operacional dos russos na região. Ora, dizem que o objetivo é levar à retirada das forças russas, que têm vindo a bombardear a cidade. Começa aqui a notar-se alguma capacidade de resposta dos ucranianos com o material que têm recebido ou são apenas ataques esporádicos, também estes de intimidação e sem grande eficácia?
Nós temos acompanhado com muita atenção aquilo que está a passar em Kherson. Em Kherson tem havido informações de que efectivamente estão a bater e que já há forças também no lado sul ou, neste caso, oeste do rio, e que estaria ali, sobretudo, a grande ofensiva da parte da Ucrânia. Nós já vemos isso acontecer quando foram os contra-ataques ucranianos. Pode ser uma manobra para afastar atenções. Pode ser aquilo que está a acontecer, daquilo que nós temos indicação, que é, sobretudo, afastar as forças que estavam junto ao rio Dnieper até ao alcance das armas da artilharia, pelo menos dos 15-2, e portanto para cima de 40, 50 km, mas também pode ser interpretado como a preparação de uma manobra, tendo em conta a concentração de mais de 10 mil militares naquela região. Mas há desmentidos da parte da Rússia de que tenham passado o rio, até porque aquela ponte vai dificultar consideravelmente a passagem. Por outro lado, há indícios, quer da Rússia, de que pediu aos civis para se afastarem daquelas zonas, quer da parte da Ucrânia, que também pediu aos civis para se libertarem daquela zona, de que há ali alguma prioridade para aquele eixo, nem que seja um eixo secundário de algum ataque da parte da Ucrânia. Tem havido da parte dos serviços de informações muita informação e contrainformação, e nós não conseguimos ter todos os dados para assegurar que efectivamente haverá aí um contra-ataque da parte da Ucrânia. O que é difícil ainda nesta fase, aquilo que era estimado era que fosse em maio, que era quando as nove brigadas mecanizadas estivessem já dotadas dos respectivos equipamentos, quando já houvesse munições. É um risco muito grande. Aliás, veio um artigo no "New York Times" muito interessante sobre a própria ofensiva, dizendo que é um risco muito grande fazer uma ofensiva sem ainda ter condições, porque a falha de uma ofensiva tira toda a liberdade negocial à Ucrânia, depois numa fase posterior de negociações, que é essa sempre a intenção a seguir uma grande ofensiva, seja de um lado, seja do outro, mas também ainda ninguém pôs de parte uma ofensiva russa nesta fase, logo que a parte lamacenta condicione os carros de combate, ou seja, no princípio de maio, haverá condições no terreno para haver ofensivas, seja de um lado, seja do outro. Estamos ainda na guerra da informação e contra informação, não há muitos dados. Agora que há muitos bombardeamentos de parte a parte na região de Kherson, isso é um facto.
General João Vieira Borges, segundo a inteligência do Reino Unido, o número de baixas russas caiu cerca de 30% em abril, muito provavelmente devido ao fracasso da ofensiva de inverno. Disse ainda que a Rússia provavelmente está a preparar as tropas para a contraofensiva da Ucrânia. Isto para um leigo em matéria militar pode não fazer muito sentido. Ou seja, o estado agressor que invade está a preparar uma defesa e não a preparar uma ofensiva para conseguir os objectivos que o levaram a fazer esta guerra. General, como é que se explica isto?
Eu explico a partir dos discursos, quer de Prigozhin, quer de Peskov. Prigozhin é claríssimo, que efetivamente bastava conquistar Bakhmut e depois assegurar a defensiva daquilo que está conquistado. Tem perfeita consciência de que não há condições para fazer uma ofensiva. Há, sobretudo, condições para garantir, depois da conquista da grande vitória, como ele dizia, de Bakhmut, vamos ver quando é que será, e por isso também o Zelensky investe ali, teria condições para fazer uma defensiva dos territórios conquistados e portanto tinha já toda a liberdade de ação para negociar. Essa é uma perspectiva não só de Prigozhin, mas de alguns dirigentes russos, que não vale a pena ter mais perdas de vidas, tendo em conta que já, na prática, têm as quatro repúblicas mais ou menos conquistadas. Eles fazem sempre as interpretações que entendem. E nessa perspectiva, era jogar com o tempo. A partir do momento em que têm as quatro repúblicas asseguradas, entram numa posição defensiva, numa guerra, como já foi a guerra que nós sabemos no Donbass durante oito anos, em que o tempo joga a favor da Rússia, no sentido em que o Ocidente, em particular os Estados Unidos, que têm eleições em 2024, depois enfraqueceriam o seu apoio à Ucrânia. Eu julgo que isto estará na estratégia pensada pela Rússia nesta fase. Se falhar ou se não houver uma ofensiva, julgo que será esta a linha estratégica para os próximos meses até às eleições norte-americanas.
É interessante que Kiev admitiu ter estado por trás de um ataque com drones na baía de Sevastopol. No entanto, as autoridades ucranianas rejeitaram as alegações russas de que o ataque teria colocado em risco a operação do corredor de cereais. O que pretendem os ucranianos com estes ataques em termos militares? Destruir defesas russas?
Nem tanto. Os drones não têm uma capacidade, em termos militares e sobretudo em termos de destruição. É mais uma demonstração de que efetivamente, e foi esse o discurso já noutras situações, que podem atacar qualquer território ocupado, designadamente a Crimeia ou nas zonas interiores do Donbass, já ocupadas pela Rússia. Nunca terão sossego, nunca terão paz. É mais nesse sentido a mensagem do que propriamente para enfraquecer o acordo dos cereais. Isso é sempre um argumento que utiliza a Rússia. Como sabemos, o principal argumento tem a ver com o facto de estar a ser prejudicado na exportação, sobretudo de fertilizantes O facto de as exportações da Ucrânia só 3% serem para os países pobres, que era um dos princípios da negociação com a Turquia e com as Nações Unidas. Depois juntam a esses grandes argumentos, de foro mais económico ou político, outros argumentos da guerra. Inclusivamente, nós vimos o Secretário-Geral das Nações Unidas, António Guterres, quando dá a carta, que é uma carta importante diretamente para Putin, a propósito desta questão dos cereais, Lavrov vem logo dizer que se aquela carta for posta nos órgãos de comunicação social, isso é considerado como um instrumento de coação para a tomada de decisão. Ou seja, estamos a ver que efetivamente aquela carta contém muitas verdades, que é bom que o mundo não saiba e que seja a negociação feita somente em grande sigilo entre as partes. E portanto, a Rússia joga frequentemente com outros factores que não só o factor militar, como estamos a ver.
E falou dele há pouco, Prigozhin, o líder do grupo Wagner, fez ontem uma declaração violenta e perturbadora. A partir de agora não vai fazer prisioneiros soldados ucranianos, vai mesmo matá-los. Isto em resposta a uma alegada liquidação de um soldado russo por tropas ucranianas. Ora sabe-se, como os prisioneiros de guerra acabam por ser um trunfo para as duas partes, que depois servem para negociar trocas. Este é mais uma vez o líder deste grupo a correr em carril próprio?
Sim, neste caso tem que ser. A Rússia pode pensar o mesmo, mas não o pode dizer, sendo um Estado soberano. Obviamente, essas partes que têm relação directa com crimes de guerra e crimes contra a humanidade, fica sempre para estes grupos de mercenários. Sempre foi assim, desde Maquiavel e continua a ser nos dias de hoje. Portanto, eles podem morrer à vontade, eles podem dizer o que quiserem, eles podem matar à vontade, porque obviamente já são considerados como uma organização terrorista. A serem julgados no futuro, é diferente de ser julgada a Rússia. De qualquer maneira, julgo que também tem a ver com o facto de ter havido imensas perdas nos últimos meses das forças do grupo Wagner. E essas perdas, como sabe, grande parte delas tem a ver com as forças de operações especiais, ou seja, os snipers, que matam e não ficam feridos. E matam com elevada precisão. E os poucos feridos são depois abatidos durante os processos de evacuação. E é essa a raiva dele. Ele assistiu no terreno, ele está no terreno, ele vê uma mortandade elevadíssima, com poucas baixas no sentido feridos e muitas baixas no sentido de mortos, e por isso é esta reação. As próprias forças de operações especiais ucranianas ali não fazem muitos prisioneiros. Neste sentido, quer da destruição com a artilharia, quer com os snipers, normalmente a mortandade é elevada. E esta é uma reação em face daquilo que ele está a ver no teatro de operações nos últimos tempos e também uma mensagem, por outro lado, para o lado ucraniano, de passar o terror para o lado das forças militares ucranianas. Só que aquelas que estão na linha da frente são forças de operações especiais, que ainda ontem foram visitadas pelo chefe do Estado-Maior do Exército, na prática, e que obviamente estão muito preparadas para este tipo de discurso e estão muito preparadas para este tipo de operações. É evidente que a situação está a agravar-se. A força aqui sobrepõe-se à quantidade, como dizia ontem ele no seu discurso, e vão conquistando quarteirões atrás de quarteirões com destruição total. Não é só mortandade e não fazer prisioneiros, é destruir totalmente todos aqueles bairros que vão conquistando ao longo do tempo e portanto a situação vai-se agravando também para o lado da Ucrânia, mas por outro lado, vai ganhando o tal tempo para chegar a maio e poder fazer então a contraofensiva. Julgo que estará aí o argumento para continuar a lutar, para concentrar ali as forças russas, não as deixar fazer um ataque e, por outro lado, permitir o contra-ataque a partir de maio, em função do empenhamento elevadíssimo das forças russas, não só os mercenários, ali naquele teatro de operações.
Deixe-me aproveitar então esta última pergunta para falarmos de Lula da Silva, que esteve em Portugal. Isto a propósito de Josep Borrell convidar o presidente do Brasil a visitar a Ucrânia para ver a agressão da Federação Russa pelos próprios olhos. É mais uma reação de desagrado sobre a posição de Lula em relação ao conflito e por isso perguntava-lhe: acha que o presidente brasileiro esclareceu devidamente a posição do Brasil neste conflito agora em Portugal ou deixou ainda algumas dúvidas?
Acho que esclareceu perfeitamente. Desta vez, com um discurso lido, obviamente que esclareceu a intenção do Brasil. Eixo central, a paz. Eixo central em torno daquilo que é a intenção de apoiar uma solução política negociada para este conflito. Eixo central do Brasil, digamos que é conseguir encontrar outros países, mais ou menos como no período dos não alinhados durante a Guerra Fria, para trabalharem em prol da paz. Criticando à partida, obviamente, a invasão da Rússia, que essa é manifestada no Conselho de Segurança e na Assembleia Geral. E ele reforçou isso. De qualquer maneira, a grande intenção é a busca da paz. É evidente que Portugal tem uma posição diferente. E essa posição foi manifestada, e bem, pelo Presidente da República, em que referiu que o caminho para a paz é obviamente uma possibilidade, uma intenção, mas a Ucrânia deve em primeiro lugar ter direito a responder à invasão. E portanto, são duas posturas diferentes naquilo que é o caminho para a paz. Nesse sentido, ficou claro, e eu vi os diferentes órgãos de comunicação social, desde o Der Spiegel até à Al Jazeera, a fazerem alusão deste tipo de discurso. Também Borrell, apesar de sabermos que usa expressões muito complicadas E muito ofensivas, também não foi muito ofensivo aquilo que o Brasil. Houve mais a intenção de o levar ao teatro de operações, mas o Lula também já disse que não foi à Rússia nem foi à Ucrânia, só vai quando houver possibilidade de paz. Ele foi à China. Portanto, é uma situação diferente. Eu penso que a posição do Brasil ficou clara, sobretudo através da leitura que fiz dos órgãos de comunicação social, é de respeitar e é de usar o Brasil, e não é por ser nosso aliado privilegiado, usar o Brasil na resolução do próprio conflito num futuro próximo, como um mediador, que obviamente tem os seus interesses e temos que respeitar, quer relativamente à China, quer relativamente à Rússia, quer relativamente aos Estados Unidos, onde fez a sua primeira visita oficial. Portanto, tem essa mais-valia para um processo negocial de um país que pretende estar entre os membros permanentes do Conselho de Segurança e que em 1945 por pouco não esteve, aliás, participou na Segunda Guerra Mundial, inclusivamente na Itália, e perdeu muita gente, e tinha direito na altura, mas por circunstâncias diversas, não ficou no Conselho de Segurança das Nações Unidas. E portanto, agora é uma oportunidade que é deliberada, aliás, não só do Brasil, mas também de outras grandes potências representativas de outras regiões do globo, numa altura em que nós precisamos, sinceramente, de uma reforma das Nações Unidas. Se ela já era necessária a seguir à Guerra Fria, hoje em dia não é só necessária, é urgente fazer-se essa reforma, mas uma reforma que seja representativa do mundo no Conselho de Segurança e construtora da paz, e não ter membros do próprio Conselho que deviam construir a paz e que fazem a guerra deliberadamente, como é o caso da Rússia.
Major-General João Vieira Borges, muito obrigada por mais um Gabinete de Guerra da Rádio Observador. Um bom dia pra si, general.
Muito bom dia. Obrigado.