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E já está conosco nesta quarta-feira o Bruno Cardoso Reis. Vamos reunir o gabinete de guerra, como sempre, na tarde em direto e também com a Judite França, o Bruno Vieira Amaral e a Vanessa Cruz. Num dia, Vanessa, marcado pelo convite formal da NATO à Suécia e à Finlândia, vão aderir à Aliança Atlântica, mas é um dia também com alguns avisos de Moscovo.
A NATO tomou essa decisão histórica de convidar a Finlândia e a Suécia para pertencerem à Aliança Atlântica. Moscovo diz que essa adesão constitui um fator particularmente desestabilizador, são estas as palavras. Bruno Cardoso Reis, boa tarde. Um dos grandes objetivos da Rússia, desde a Segunda Guerra Mundial, era precisamente não ter a NATO à porta. Que resposta é que podemos esperar da parte de Vladimir Putin?
Eu penso que não irá muito além daquilo que já foi feito, que são estas declarações, algum reforço de meios naquela região, que foi anunciado, mas que eu duvido até que se concretize, pelo menos de forma muito significativa, por causa da enorme pressão sobre tropas, sobre equipamento, por causa da campanha em curso na Ucrânia. Houve também a suspensão do fornecimento de gás e certamente haverá, no caso da Finlândia, algum impacto em termos diplomáticos, mas realmente, como já falamos aqui várias vezes, em termos de uma ameaça militar direta, ela é pouco provável. Há ainda sempre a possibilidade dos ciberataques, que aliás estes países já sofreram bastante antes e não é por acaso que a Finlândia tem o centro de excelência de combate a ameaças híbridas da União Europeia, portanto já era uma ameaça com a qual estavam familiarizados. Mas de facto a Rússia tem aqui grandes dificuldades em responder. Até acaba por responder às vezes de forma contraditória, porque ora diz que é desestabilizador, ora o presidente Putin, por exemplo, naquele fórum de São Petersburgo, disse: "Nós não vemos aí nenhum problema de especial, é uma questão desses Estados, desde que não haja uma presença de forças estrangeiras, de bases estrangeiras", que foi, por exemplo, aquilo que a Noruega fez desde o início, desde 1949, que é um país vizinho destes e que é vizinho também da Rússia, e que é um membro fundador da NATO e que assumiu voluntariamente esse compromisso de não ter tropas nem bases estrangeiras, portanto, no fundo, ter aqui a pertença à Aliança Atlântica como uma garantia de segurança face a uma possível agressão russa e que não ia alterar, em termos materiais, o número de tropas ou a presença de tropas estrangeiras ou o tipo de equipamento militar que estava presente nesses países, que poderia justificar aqui algum receio da parte da Rússia. Mesmo neste contexto, há sinais de que os países da NATO e que estes novos Estados-membros estão dispostos a procurar, até certo ponto, ter em conta as preocupações mais legítimas ou mais racionais da Rússia. Agora, obviamente, não estão é disponíveis para fazer parte de uma esfera de influência ou para confiar nas garantias de segurança ou nas boas intenções do Kremlin, porque de facto é esse o risco que se corre quando, como aconteceu com o presidente Putin, ele passou meses a negar que esta concentração de tropas junto às fronteiras da Ucrânia era uma ameaça. Chegou a dizer que era uma invenção do Ocidente, depois disse que era um exercício de rotina e depois, dias antes do início da invasão, disse que as tropas estavam a retirar. Quando se entra nesse nível de desinformação, de mentira descarada, depois é normal que se crie aqui uma enorme desconfiança nos países vizinhos. E lembro até que no caso da Finlândia, a Finlândia foi formalmente parte do Império Russo até 1917. Portanto, também se pode sentir abrangida por estas declarações recentes do presidente russo, presidente Putin, que ele só estava a recuperar o território que tinha sido perdido pelo Império Russo, como se isso fosse um argumento legítimo para a agressão armada, que esta ideia é uma espécie de reconquista de territórios perdidos.
Bruno, vamos só recuar aqui por um bocadinho, porque ontem soube-se que a Turquia cedia, e eu estou a fazer aspas no "cedia", e a Finlândia e a Suécia então podem pertencer à NATO. Estas cedências que foram feitas são, de uma forma geral, executíveis por parte da Suécia e da Finlândia?
Eu não quero desvalorizar isso. Aliás, nós falámos disso ontem e eu tive o cuidado de dizer que se olhássemos para as declarações do presidente Erdogan, não havia razões para ter grande esperança. Ele prometia que ia partir a loiça na cimeira. Por outro lado, também disse, tal como aconteceu com o primeiro-ministro Orbán aqui há umas semanas, de facto são atores muito imprevisíveis e portanto se se sentirem muito pressionados, se acharem que não conseguem mais, se conseguem ganhar mais com o compromisso, também podem de repente mudar completamente de retórica e até aceitar um compromisso. Não desvalorizo isso e corresponde ao padrão, ao modus operandi de Erdogan, que o torna bastante imprevisível. Como eu também disse, de facto, estas cedências são cedências com algum significado, sobretudo político. Obviamente, a Suécia não pode mudar a sua Constituição ou o seu Estado de Direito para acomodar aquilo que seriam os desejos do senhor Erdogan, que era que eles deportassem toda a gente que tivesse a mínima simpatia pelos movimentos curdos. Agora, há aqui algum esforço para acomodar, por exemplo, uma linguagem mais forte na questão do combate ao terrorismo, alterar também a questão da legislação em relação ao fornecimento de armamento para ter em conta Que a Suécia passará agora a ser um país membro da NATO e já não um país historicamente neutro e, portanto, a questão do fornecimento de armamento a outros Estados membros da NATO ser tida em conta também como um fator. Eram cedências significativas, como eu também fui referindo, objetivamente, eu achava que havia aqui, de facto, margem para um compromisso que seria aceitável para a Turquia. Agora, lá está, isso também tem sempre aqui um fator de jogo político interno, e aí eu chamo a atenção que ainda há uma cartada que a Turquia pode jogar, que é este passo da aprovação pelos chefes de Estado e de governo, mas depois a adesão dos novos Estados-membros tem que ser ratificada pelos parlamentos dos 30 Estados-membros. Portanto, isso ainda pode dar alguma margem à Turquia para criar dificuldades se achar que a implementação do que foi acordado não é suficientemente satisfatória.
Bruno, Volodymyr Zelensky, na Cimeira do G7, pediu ajuda às potências para acabar com a guerra antes do final do ano. Dmitry Peskov diz que se a Ucrânia quiser, pode até acabar com a guerra antes do final do dia. Basta dar ordem às unidades nacionalistas para deporem as armas. Peskov estava a fazer, parece um pouco de humor, mas é possível que nos próximos tempos tenhamos pressão sobre a Ucrânia para aceitar uma rendição, ainda que com várias condições?
Eu acho que isso mostra que não há qualquer vontade de compromisso, nomeadamente da parte da Rússia, e acho que eventualmente de uma forma humorística, mas é bastante revelador daquilo que me parece que é, desde o início, o grande objetivo e a grande ambição da Rússia. Está muito longe de o atingir. Esperemos que não o consiga atingir, nomeadamente por causa do apoio ocidental à Ucrânia, mas o grande objetivo da Rússia, desde o início, é que a Ucrânia desapareça como um Estado realmente soberano e realmente independente, que se torne um satélite, lá está, que se renda à Rússia, que se torne um satélite do Kremlin. Enfim, todos aqueles escritos do presidente Putin a dizer que a Ucrânia não existe realmente, que não existem ucranianos. Todos estes propagandistas em torno do Kremlin passam tempo a insistir nisso, de facto apontam nesse sentido. É uma conclusão lógica. Agora, eu acho que há aqui o outro lado, é que eu acho que vai haver uma tendência para pressão para se chegar a um compromisso. Vai chegar o outono, vai chegar o inverno, isso vai tornar as operações militares bastante mais difíceis, se tivermos em conta o histórico. E portanto, naturalmente, cria-se aqui algum espaço, uma pausa operacional para tentar transformar isso numa paz mais durável. E por outro lado, temos um impacto econômico disto muito sério nos países europeus, nomeadamente, e com a agravante no contexto do inverno, sobretudo nos países do centro e do norte da Europa, realmente a questão do aquecimento torna-se absolutamente vital e sabemos que eles dependem muito do abastecimento de gás natural e até do abastecimento de gás natural russo. Portanto, isso dá também um instrumento de pressão adicional muito significativo à Rússia, que eles sem dúvida irão tentar explorar para tentar forçar uma paz que lhes seja mais favorável ou um compromisso que seja mais favorável. Eu continuo muito cético que isso seja possível, porque realmente as duas partes continuam muito afastadas naquilo que são os seus objetivos mínimos.
Portanto, temos aqui uma tendência para pressão militar e também pressão diplomática, agora com a Rússia prestes a ter a NATO à porta, com esta adesão da Finlândia e da Suécia. O convite formal já está feito e teremos mais cenas nos próximos episódios, Bruno, e vamos, claro, analisá-las também contigo aqui no Gabinete de Guerra. Voltamos a encontrar-nos amanhã. Até lá.
Até amanhã.
Rádio Observador