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Gabinete de Guerra esta manhã com a análise de Francisco Proença Garcia, militar, investigador e professor catedrático na Universidade Católica. Bem-vindo. Bom dia, professor.
Bom dia.
Bom dia. Depois dos incidentes na Polónia, tensão no Mar Báltico. Uma fragata russa disparou sinalizadores contra um helicóptero militar dinamarquês e caças da NATO tiveram de abater um drone armado que invadiu o espaço aéreo da Lituânia. Professor, Moscovo está deliberadamente a testar os limites do artigo quinto da NATO para ver até onde a Europa tolera a provocação sem retaliar?
Eu penso que isso é a análise mais comum. Eles têm intensificado de forma significativa a pressão, o teste, a capacidade de reação, a nossa coesão. Veja, os incidentes deste verão, para não ir mais longe. É muito interessante que há até um relatório do Congresso norte-americano já sobre isso e há outras análises que quantificam as intervenções deles, sobretudo nos países mais próximos, como os bálticos, depois lá em cima, a Finlândia e a Polónia. E até em França, intervenções junto dos comboios, sabotagem de comboios. De maneira que este é o tipo deles, aquilo que nós designamos por intervenções não simétricas ou guerra híbrida, para ser mais fácil de perceber. Têm se intensificado. E o que eles testam? Veja, o caso do avião é muito curioso, ou o caso do drone na Polónia. Bom, o caso do drone na Polónia, na Polónia não, na Lituânia. Eles não têm defesa aérea, o policiamento aéreo, antes chamava-se assim. Eles não têm aviões de caça. Então a NATO tem em esquema de rotação, onde às vezes estão F6 portugueses a fazer esse policiamento aéreo. Só que desde o início da guerra com a Ucrânia, a missão alterou-se um pouco e eles podem abater aquilo que eles considerem uma ameaça. Mas veja, era um caça de um piloto italiano, um caça de fabrico europeu, muito interessante. Mas para abater um drone que custa vinte mil euros, vinte e poucos mil euros, porque só é possível, neste momento, abateremos aqueles drones a jato com esse tipo de armamento. E eles testam as nossas vulnerabilidades. Eles já sabiam que em relação aos drones de motor de combustão tradicional, é mais fácil nós nos defendermos. Já estamos preparados hoje, já temos alguma preparação para isso. Agora estão a testar as novas tecnologias, como é que nós reagimos, o tempo de resposta, a coesão da aliança e por aí fora.
Precisamente.
E em relação à fragata, em princípio, aquilo foi em águas internacionais e foi para afastarem o helicóptero que se aproximou da fragata. Se eles quisessem deitar o helicóptero abaixo, não era com uma pistola sinalizadora. Quer dizer, uma fragata deles tem equipamento suficiente para abater um helicóptero. De maneira que foi para afastar o helicóptero. Mas são destes pequenos incidentes que pode surgir o trigger, ou seja, o gatilho para uma ação que depois é difícil controlar. Imagine que, apesar de ser um foguete sinalizador ou uma munição sinalizadora, atingiu um helicóptero. O helicóptero caía, a Dinamarca reagia com bombardeamento à fragata. Estava armado o caos. De maneira que eles testam, de facto, os nossos limites. Depois, houve um outro, e esse sim preocupa-me, porque já são muitas. E aquele drone que encontraram junto à base aérea na Alemanha. Vamos ver qual é a origem, como é que ele ali foi parar, porque não atravessou o espaço aéreo. Era algum elemento infiltrado ou algum contractor que estava na zona a fazer esse reconhecimento. Pois eles fazem reconhecimentos. E eu quando faço o reconhecimento de instalações militares, não é para saber onde é que ela fica, porque toda a gente sabe, é o que estão a fazer lá dentro, que equipamento têm. E depois de ter esse reconhecimento, pode haver ações. Isso é que é perigoso.
Pois é, sim.
Está a ver? Podem haver ações de sabotagem, de bombardeamentos, a gente não sabe. De maneira que isso começa a ser preocupante, sobretudo sobre a Alemanha, que é o grande financiador de equipamento para a Ucrânia. E depois sobre a Polónia, porque a Polónia é o grande corredor logístico para a Ucrânia e eles estão a fazer esses reconhecimentos constantes. Esperemos que não escale muito.
Sobre o drone abatido que entrou no espaço aéreo da Lituânia, sabe-se agora pelas autoridades de Vilnius que veio diretamente da Bielorrússia. Isto não é novidade, Francisco Proença Garcia, mas ainda há pouco li que a Bielorrússia começou com exercícios militares perto das fronteiras com a Polónia e a Lituânia. Isto nunca acontece por acaso.
Não, estas coisas não acontecem por acaso. Uma vez é incidente. Faz lembrar o 11 de setembro, que celebramos os 25 anos semana passada. Quer dizer, um avião, epá, foi incidente. Dois, imediatamente todos pensamos que era atentado. De maneira que não há coincidências nisto. Não é incidente, é teste de verificação. O preocupante, está a ver, é que começam a sair da Bielorrússia. Por que da Bielorrússia? Por que não vir diretamente da Rússia? Ou sair de Kaliningrado? Sair da Bielorrússia pode ter implicações jurídicas, tem com certeza, mas se aquilo fosse, se ele viesse armado, se tem havido um incidente, se tem havido uma explosão, o que é que nós fazíamos? Íamos sobre os russos ou sobre a Bielorrússia? Acusávamos a Rússia ou a Bielorrússia? Está a ver? Tudo isso fica nessa zona nebulosa.
Mas alguma coisa tem que ser feita, não? Nem que seja para sinalizar.
Epá, são declarações e mais sanções. Nós já pusemos centenas de sanções. Não têm efeito declarações? Não, declarações são boas intenções. É preciso mostrar os dentes, como se costuma dizer. É preciso fazer mais exercícios. Eles fazem cyber attacks, nós vamos também fazer cyber offensive. Nós vamos mostrar que eles sobrevoam o nosso espaço aéreo. Nós temos que não sobrevoar, mas passar junto à linha de fronteira, digamos assim. Temos que mostrar capacidade, porque a Aliança Atlântica tem uma capacidade militar brutal, é muito superior em tecnologia, em equipamento, em armamento. E os russos têm um grande arsenal nuclear, mas veja, na Ucrânia não conseguem andar um quilómetro, vai, em média, por dia. Quer dizer, estão parados naquela zona, naquela linha de mil e tal quilómetros, há anos Não se mexem. É pífia, digamos assim, a capacidade militar russa. Claro, então passam para outro nível de perturbação. Veja, isso desgasta as populações. Eu, se vivesse no Báltico, estava permanentemente preocupado. Acordava a meio da noite para ver se eles já tinham entrado. Porque há estudos prospectivos que falam nisso, que eles um dia vão entrar. Se a situação se deteriorar muito internamente, pode escalar.
Entretanto, pela primeira vez na história, os Estados Unidos confirmaram publicamente que têm armas de controle espacial a operar na órbita da Terra. O secretário da Força Aérea norte-americana justificou a medida com a necessidade de defender satélites vitais contra ameaças da Rússia e da China. Francisco Proença Garcia, como olha para este anúncio? Quando tudo depende de satélites, quem dominar ou conseguir cegar o inimigo no espaço ganha a guerra antes dos tanques e dos navios começarem a disparar na Terra?
Estamos a falar de níveis diferentes da guerra. O armar o espaço começou com o Reagan, com a chamada Iniciativa de Defesa Estratégica, e que acabou, no fundo, por levar ao colapso do Império Soviético, que não tinha capacidade de concorrer a esse nível de investimento e tecnológico. Mas ainda não chegamos lá. O armar o espaço não é novidade. Nós temos que proteger o espaço e, sobretudo, face ao número de satélites de comunicações, de inteligência, meteorológicos. O espaço está a ser ocupado, e bem, para facilitar a nossa vida do dia a dia, as nossas comunicações, tudo isso, mas tem uma componente que é preciso depois protegermos. Mas eu não vou ter mísseis no espaço. Eu tenho é capacidade de armas de energia dirigida no espaço, que se formos à Missile Defense Agency norte-americana, conseguimos encontrar vários tipos de armamento, mas sobretudo de energia dirigida, que eles estão a tentar colocar e a colocar no espaço. Bom, mas todos nós, quer dizer, as grandes potências têm mísseis anti-satélite, e os chineses de vez em quando fazem essa demonstração. Um satélite velho é destruído para mostrar aos outros: "Olha, eu sou capaz de destruir satélites, de maneira que vocês têm que ter atenção, porque nós temos esta capacidade". O armar o espaço e a corrida para o espaço já não é uma novidade. E pode até ser prepositadamente a altura em que se anuncia oficialmente isto nos Estados Unidos, quando os Estados Unidos estão descredibilizados militarmente. Veja aquilo que está a acontecer no Médio Oriente. Aqueles parceiros ali à volta já não acreditam nos Estados Unidos. E o Irão tem estado a ganhar, estou a exagerar, mas em toda a frente. Resolveu-se o problema da guerra no Médio Oriente? Não, não resolveu. Alastrou e as consequências económicas estão à vista, de maneira que essa guerra, que sim, é assimétrica em capacidades, mas aquele que tem menos capacidade está a ganhar ao gigante. E o gigante agora vem dizer que também tem capacidade no espaço e eventualmente vai destruir por aquele espaço.
Para mostrar poder.
Para mostrar poder. Faz parte da dissuasão. Mas vamos ver se tem resultado. Eu duvido que estes poderes intermédios se assustem muito com isso. Os grandes fazem a sua dissuasão para mostrar que estão mais à frente tecnologicamente e têm capacidade. Veja, não se esqueça que os russos, houve um homem do Conselho de Segurança Russo que disse que era capaz de destruir o planeta em três dias. Não conseguiram destruir a Ucrânia em quatro anos e meio, mas só com o nuclear. E eles vêm dizer: "Bom, afinal nós temos armas no espaço". Não é novidade. A altura do anúncio é que pode ser interessante.
Francisco Proença Garcia, muito obrigada pela sua análise em mais um Gabinete de Guerra. Um bom dia, obrigada.
Obrigado