Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Abrimos a porta a mais um Gabinete de Guerra, o programa na Rádio Observador em que analisamos dois dos conflitos ativos no globo mais pertinentes, um na Ucrânia, outro no Médio Oriente. Para tal, hoje contamos com a análise do historiador Bruno Cardoso Reis. Bruno, obrigado por ter aceitado este nosso convite. Vamos começar pelo Médio Oriente, até porque Doha, no Qatar, vai receber a Cimeira Árabe-Islâmica de Emergência sobre o ataque israelita precisamente a Doha. O que é que pode sair deste encontro e como é que está toda esta situação após o ataque israelita?

Boa tarde a todos. Isto mostra que realmente, apesar de ser verdade, aquilo que muitas vezes se diz é que realmente há uma postura pública dos Estados Árabes e outra às vezes em privado, como em muitos casos há convergências de interesses pragmáticos com Israel, etc. Mas realmente não há nenhum Estado árabe moderado que tenha interesse em que passe esta mensagem de que Israel pode tomar a iniciativa de os atacar, se eles têm lá a delegação de algum tipo de movimento palestiniano, como o Hamas neste caso, que é mais ou menos universalmente reconhecido como terrorista, mas em todo o caso é realmente um precedente perigoso para a região. Isso significa que apesar de ter havido, por exemplo, no passado, grandes divergências entre o Qatar e a Arábia Saudita, precisamente em torno também do apoio do Qatar à Irmandade Muçulmana, que é uma organização mais islamista, mais militante, muitas vezes hostil a vários governos da região, no Egito também o regime atual é muito hostil a esse movimento, etc. Isso criou anticorpos em relação ao Qatar, mas apesar dessas crises, houve nos últimos anos um esforço para alguma recuperação das relações. Isso também provavelmente é um fator aqui. E depois surtout isto, que é realmente a perceção generalizada de que Israel está a ir longe demais, que os próprios países árabes já fizeram o esforço também de se distanciarem do Hamas. A Liga Árabe deixou claro que o Hamas não poderia ser parte de uma solução governativa palestiniana. E isso não foi suficiente e, pelo contrário, Israel parece responder a esses gestos políticos que mostram que há alguma predisposição por parte dos países árabes moderados para chegar a algum tipo de acordo com Israel, desde que haja uma melhoria da situação dos palestinianos, desde que haja algum avanço no processo de negociação com a autoridade palestiniana e com os palestinianos mais moderados, mas realmente isso não tem tido resultados e portanto o governo Netanyahu continua a apostar surtout na via militar. É que houve obviamente aquele atentado, aquele ataque terrorista em Jerusalém, que foi usado como justificação por Israel, mas no fundo isso só mostra como há sempre este risco dos extremos, dos elementos mais violentos de um lado e do outro, de se irem alimentando mutuamente, encorajando mutuamente. Mas o ponto aqui surtout a sublinhar é esse, é que não parece haver aqui realmente margem para dúvidas de que a generalidade dos Estados da região vão usar este caso para mostrar a sua solidariedade ao Qatar e mostrar o seu descontentamento com a postura de Israel. Vamos ver se isso terá algum tipo de consequência mais séria, se isso será suficiente para fazer pressão sobre Israel e sobre os Estados Unidos também, que são obviamente aqui um aliado crucial, quer de Israel, quer de muitos destes Estados. E no caso do presidente Trump, com o interesse particular em captar muito investimento destes Estados, surtout do Golfo, que fizeram promessas, inclusive o próprio Qatar, de investimento de mais de mil milhões de dólares nos Estados Unidos nos próximos anos.

E até cedendo um avião para ser o Air Force One.

Exatamente, o Qatar ofereceu o avião para ser o Air Force One do presidente Trump e portanto, à partida, a expectativa é que isso também lhes desse alguma capacidade de influenciar Donald Trump, mais do que aquilo que tem sido o caso até agora.

Bruno, há pouco já tocavas neste ponto, que é precisamente esta coligação, de certa forma, que se está a começar a criar em torno não só do Qatar, mas sobretudo depois do ataque ao Qatar. Que poder e que influência é que teria essa coligação árabo-islâmica para influenciar toda a zona do Médio Oriente e sobretudo a ação israelita?

Vamos ser também claros. O Médio Oriente é uma soma de imensos conflitos muito complicados e a questão está longe de se resumir apenas a Israel ou à questão palestiniana e portanto continua a haver aqui grandes rivalidades, grandes conflitos, grandes desconfianças entre muitos destes Estados. Obviamente, o caso do Irão é um exemplo também disso, mas as coisas vão também para além do próprio Irão e portanto eu acho que isto não significa que todos os outros problemas, todos os outros conflitos, todas as desconfianças acumuladas do passado vão desaparecer e se vai criar aqui finalmente uma grande frente panárabe sem divisões e que possa ter um impacto para além desta questão de Israel e da Palestina. Agora, acho que na questão de Israel e da Palestina, realmente há aqui um consenso crescente de que a situação não pode continuar, de que, de facto, surtout em Gaza, a situação está a chegar a limites que são inaceitáveis. E por muito que estes regimes também não sejam regimes democráticos e, portanto tenham Olhem, sobretudo para os interesses da elite governativa, de uma forma muito pragmática e não tanto para a opinião pública, a verdade é que também não se podem dar ao luxo de ignorar completamente esta opinião pública, no fundo, a indignação potencial nas ruas, eventualmente os riscos de haver aqui uma percepção de que estes regimes são de alguma forma cúmplices ou excessivamente passivos perante esta questão. E portanto acho que em relação à questão palestiniana e à questão de Israel e à postura deste governo israelita, começa a emergir aqui um consenso crescente, que eu acho que devia ser muito preocupante para Israel, em termos dos seus interesses de longo prazo. É o próprio Netanyahu que diz que um dos grandes interesses de Israel, por exemplo, falou disso a seguir ao ataque ao Irão, seria uma viragem de página no Médio Oriente, retomar os Acordos de Abraham, este esforço de normalização de relações, também com grandes incentivos económicos com os países árabes mais moderados. Agora, o que estes países também deixam claro é que isso não é possível, não é possível sequer manter o status quo e menos ainda melhorar as coisas ou alargar estes acordos a outros estados, se Israel continuar a adotar esta postura em relação à questão palestiniana. Uma coisa é combater o Hamas, o Hamas tem alguns amigos na região, alguns aliados, sobretudo o Irão e até em parte o Qatar, mas é um movimento terrorista que suscita muitas dúvidas, até pelas suas ligações à Irmandade Muçulmana em muitos outros países da região. Mas outra coisa é realmente os palestinianos em geral, e sobretudo esta ideia de que não é aceitável realmente entregar uma população árabe, potencialmente aqui a uma agenda que, no limite, parece ser de limpeza étnica, de anexação e limpeza étnica. E portanto, acho que em relação a esta questão específica, começa a emergir aqui um consenso. Mas vamos ver, eu acho que apesar de tudo o teste é com consequências, até que ponto é que estes países estarão dispostos a, de facto, apresentar uma frente unida, não só em termos retóricos, mas em termos práticos, e fazer perceber aos Estados Unidos que isto pode ter consequências nas relações bilaterais. Ou se isso é simplesmente algo que eles exigem aos europeus, os europeus é que têm de cortar relações com Israel ou pressionar os Estados Unidos, mas mesmo correndo o risco de isso eventualmente criar tensões com a administração americana, e os países árabes moderados, esses aí que vão continuar a fazer bons negócios com Donald Trump. Vamos ver, esse é que será o verdadeiro teste.

Um teste de algodão, como dizias aqui, Bruno Cardoso Reis. Vamos avançar, olhar para a situação na Ucrânia, a guerra na Ucrânia, embora aqui não tanto na Ucrânia em si, mas derivado a esse conflito, o Conselho de Segurança da ONU vai reunir para discutir a violação do espaço aéreo polaco pela Rússia, isto depois de forças armadas polacas terem abatido drones vindos da Rússia. O que é que nos diz toda esta situação, Bruno, e o que é este artigo quarto que a Polónia acionou para que exista esta reunião do Conselho de Segurança da ONU?

No fundo é o artigo anterior ao artigo quinto, não só na ordem numérica, mas realmente na própria lógica. No fundo, o artigo quinto é o artigo que diz que um ataque a um será um ataque a todos, com uma linguagem um pouquinho mais moderada do que isso, mas a interpretação tende sempre a ser essa, mas no fundo a ideia de que havendo um ataque, todos os Estados têm a obrigação de ajudar esse Estado, inclusive, potencialmente, com ajuda militar, mas esse é o artigo quinto, é o mais robusto, é esta cláusula de defesa mútua. O artigo quarto eu digo que é anterior porque significa que não havendo um ataque tão claro, não havendo uma invasão em grande escala, havendo aqui atos mais ambíguos, agressivos, mas que podem ou não ter sido um acidente, há a possibilidade, apesar de tudo, desse Estado membro da NATO, que se sente ameaçado, que se sentiu ameaçado, convocar o Conselho do Atlântico, convocar os seus aliados para consultas e obter aqui um sinal de solidariedade política e potencialmente, eventualmente militar, no sentido de evitar que haja aqui uma escalada, ou seja, que esses atos de potencial agressão, na verdade, se transformem numa real agressão numa escala maior. E é por isso que eu digo que é algo que está aqui um pouco antes, não só em termos de ser o número quatro e depois vem o número cinco, mas em termos também desta ideia da escala, da escalada. Da lógica de escalada, evitar que isso se verifique.

Então podemos falar numa clara escalada do conflito ucraniano que se está a estender para o resto da Europa?

A Rússia continua a apostar sempre nesta zona cinzenta, naquilo que nós chamamos a gray zone. Ataques híbridos, sabotagem, cortar cabos, ou seja, ações que em muitos casos é difícil atribuir inequivocamente à Rússia, por exemplo, se houver ataques, aquela questão do avião de Von der Leyen, foi ou não foi, o GPS teve problemas por causa da Rússia ou foi outra questão. É muito essa zona cinzenta, ou então quando são drones russos, a justificação que é apresentada é: "Foi um acidente, não foi de propósito, foi o jamming", portanto, foi a ação defensiva da Ucrânia que levou a que os drones se descontrolassem, etc. Isso realmente não é muito credível, porque a questão que se tem de colocar é: bem, mas já há drones e já há jamming, já há ações defensivas da Ucrânia, nomeadamente guerra eletrónica, há muitos e muitos meses. O que é que aconteceu agora para de repente, e de facto tinha acontecido uma vez ou outra, haver um drone que vai parar à Polónia. Inclusive, no caso, um míssil que-

Chegou a haver um míssil cujos destroços ficaram em território polaco.

Outro míssil, um míssil que depois se veio a descobrir em território polaco. Mas aqui temos aparentemente mais de uma dezena de drones, portanto isto parece coincidência a mais. E eu diria que é o mais provável, temos sempre de ter aqui algum cuidado, mas o mais provável é que realmente se trate aqui de uma provocação, de um teste, tentar perceber qual seria a reação, ver quais são também as retaliações Já há meses que digo que me parece que, independentemente de haver aqui uma intenção deliberada ou não da Rússia de atacar, e eu até admiti que no passado não existisse essa intenção, independentemente disso, a Polónia e os países da NATO já deviam ter tido uma postura muito mais proativa de criar uma zona coordenada com a Ucrânia, de defesa aérea ativa nas fronteiras da zona mais ocidental da Ucrânia. Aqui temos outra questão: mais uma vez aparece a Bielorrússia como um estado satélite, um peão da Rússia. Neste caso, esses drones nem sequer vêm a partir da fronteira ucraniana, vêm a partir da Bielorrússia e aí acho que também se pode e deve equacionar, sinalizar isso, que se pode ter de fazer uma defesa proativa, pelo menos aérea, ainda nos céus da Bielorrússia. Se a Bielorrússia não consegue impedir drones russos de atravessarem o seu território e chegarem a território polaco, então a Polónia e os países da NATO têm que tomar medidas para eles não chegarem a entrar no território polaco, mesmo que isso implique abater drones no território da Bielorrússia.

Bruno, temos dois minutos para falar precisamente sobre o papel da Bielorrússia em todo este embrulho.

O papel da Bielorrússia é o mesmo desde a invasão, ou seja, um dos fatores que permitiu a invasão em grande escala em fevereiro de 2022 foi a Bielorrússia poder ser usada para fazer ataques a partir do norte, portanto, obrigar uma enorme dispersão de esforço dos ucranianos. Permitiu avançar também em direção à capital de uma forma que não teria sido possível sem essa aliança da Bielorrússia. Portanto, a Bielorrússia é, no fundo, aquilo que a Rússia quer para a Ucrânia, ou seja, um Estado que formalmente é independente, mas que na prática é um satélite, é um vassalo, é um Estado completamente dependente da Rússia, mas que se comporta formalmente como se fosse um Estado independente e isso, em certo sentido, complica a resposta. Eu acho que temos aqui de descomplicar a resposta e deixar isso claro, que é das duas, uma: ou a Bielorrússia é um Estado soberano, capaz de se defender e, portanto, não pode haver drones russos a passar de lá pra Polónia, ou então, se não é capaz de se defender, alguém tem que tratar disso. Sobretudo, parece-me que esse tipo de postura mais robusta, obviamente aí seria crucial ter também o apoio dos Estados Unidos, seria fundamental para estes episódios não se repetirem, para não se repetirem com mais gravidade e até para dar alguma credibilidade a todo este esforço que a Europa está a tentar fazer para dizer que conseguirá criar algum tipo de garantia de segurança mais robusta em relação à Ucrânia, no caso de haver um cessar-fogo ou mesmo um acordo de paz.

Muito obrigado, Bruno Cardoso Reis, historiador, aqui a analisar os desenvolvimentos mais recentes de dois dos conflitos ativos do mundo mais importantes, um no Médio Oriente, outro na Ucrânia. Foi um gosto, Bruno. Até uma próxima oportunidade. Fica por aqui. O Gabinete de Guerra está de regresso amanhã, aqui à antena da Rádio Observador e fica, como sempre, disponível também em podcast.