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Este é o Gabinete de Guerra, um podcast da Rádio Observador, em que olhamos para as mais recentes notícias da guerra na Ucrânia. Bruno Cardoso Reis, já é considerada a tempestade do século, está a afetar o sul da Ucrânia e da Rússia, já fez vítimas mortais, provocou cortes de eletricidade. De que forma é que esta tempestade do século pode condicionar as batalhas e os progressos ucranianos no terreno?
É mais um evento a recordar-nos a importância do clima na guerra. Isso sempre aconteceu. Há o exemplo histórico, que muitas vezes tem exatamente a ver com esta zona do mundo, a famosa campanha do Napoleão contra a Rússia em 1812, em que ele até tem uma série de sucessos militares, ocupa Moscovo, mas depois é derrotado basicamente pelo general inverno e por uma utilização muito inteligente dos russos dessa arma, destruindo tudo o que era abastecimentos, atacando as linhas logísticas, etc. Mas aqui temos mais uma vez um exemplo disso, ou seja, é realmente uma zona que já tem um clima bastante severo em condições normais, mas quando há tempestades são ainda piores. Até houve aqui um prolongar, eventualmente, de um período de tempo mais quente durante mais tempo. Também há alterações climáticas nesta zona, mas obviamente agora quando o tempo mais frio chegou, e chegou a sério, chegou mesmo a sério, e até independentemente da guerra, já está a causar baixas. Certamente é um período em que, pelo menos nas zonas mais afetadas por esta tempestade, as operações militares ficam completamente congeladas, ficam impedidas e a prioridade é a proteção de forças, ou seja, garantir que as tropas não estão demasiado expostas aos elementos e não sofrem baixas até por esse efeito, e não simplesmente pelo efeito do combate com o inimigo.
Bruno, Zaporíjia está novamente sob ataque, quase 100 ataques num só dia, e é lá que se encontra a central nuclear. Qual é o ponto de situação e quais são os riscos neste momento?
É uma zona importante da frente, uma zona que faz a ligação entre a frente leste e a frente sul, uma zona chaveira. Há sempre esse problema, que é uma zona chaveira, portanto, é normal que os dois lados concentrem aí muitos esforços ofensivos. Por outro lado, tem a maior central nuclear da Europa exatamente nessa região. Não é mesmo na linha da frente, é nesse distrito de Zaporíjia, mas não é mesmo na linha da frente, mas não deixa de ser uma preocupação. Apesar de tudo, e tanto quanto percebemos, e mesmo neste contexto, não há notícia de que realmente, como no passado, tenha sido aqui um alvo ou tenha estado em grande risco. Eu estou convencido que realmente o esforço das Nações Unidas, do secretário-geral António Guterres, da Agência Internacional de Energia Atómica, que é uma agência, um organismo do sistema das Nações Unidas, de estabelecer lá uma presença permanente, ter lá permanentemente observadores, ajudou bastante a que as duas partes moderassem os seus comportamentos de risco e que haja aqui um risco menor. Mas o risco nunca é zero e se há um intensificar dos ataques nesta zona, temos que estar sempre atentos se isso não vai afetar a segurança da central nuclear.
Bruno, o ministro dos Negócios Estrangeiros russo, Sergey Lavrov, está disponível para participar na reunião da Organização para a Segurança e Cooperação na Europa, na Macedónia do Norte, se a Bulgária abrir o espaço aéreo. Pergunto-te se achas que a Bulgária pode vir a ceder. E já agora, o que tens a dizer sobre as palavras de Lavrov em relação a Moscovo não ter planos para expandir ainda mais o território na Europa?
Isso é uma resposta ao secretário da Defesa, ao ministro da Defesa americano, Lloyd Austin, que veio dizer: "Atenção, que se nós não pararmos a questão russa aqui, não sabemos o que é que se seguirá, mas podemos especular que, por exemplo, os próprios estados bálticos estariam ameaçados" e Lavrov vem dar essa garantia que isso não acontecerá. Eu acho que em termos lógicos, racionais, não deverá acontecer, sobretudo contra países da NATO. Contra países que não estão na NATO, já tenho mais dúvidas. E sobretudo, temos este problema de base, de credibilidade de base da Rússia, que é: isso já foi dito várias vezes no passado. Eu recordo, por exemplo, no discurso de Putin a anunciar a anexação da Crimeia em 2014, ele disse: "No Ocidente vão vos dizer que isto é só o início, que vai haver novos ataques, novas ambições de expansão territorial contra a Ucrânia, mas não é verdade. A Crimeia é um caso absolutamente excecional e não fiquem preocupados, não vai haver novas ameaças". Ora, logo a seguir houve aqueles levantamentos armados com o envolvimento direto dos serviços secretos russos, daquele senhor Igor Girkin, que aliás agora está detido porque antes de tanto entrou em choque com o presidente Putin, ainda em 2014, e obviamente em 2022 tivemos a invasão em grande escala da Ucrânia. Isso realmente afeta muito a credibilidade dessas declarações. E é isso também que torna a presença de diplomatas russos e mesmo do líder da diplomacia russa algo de valor questionável, ou seja, vamos estar aqui a negociar, mas temos alguma garantia de que o que é dito, os compromissos eventualmente assumidos, depois têm alguma tradução prática. Acho que isso provavelmente pode tornar menos interessante levantar essas sanções em relação aos voos a partir da Rússia, para permitir a presença de Lavrov numa reunião desta Organização de Segurança e Cooperação na Europa. Agora, é verdade que essa organização foi criada em 1975, em plena Guerra Fria, exatamente para facilitar o diálogo diplomático entre os diferentes países europeus, inclusive países europeus com relações muito tensas. Eu tendo a achar que manter algumas pontes, algum diálogo diplomático, é importante. Eu tenderia a ser favorável a ver o que Lavrov teria para dizer. Agora, também admito que haja sinais de que ele não fará muito mais do que propaganda. Que não virá propriamente negociar ou falar de boa-fé e que não seja um exercício muito interessante para os outros membros da OSCE. Imagino que seja isso que eles estejam a ponderar.
Bruno, deixa-me só introduzir aqui um quarto ponto na nossa ordem de trabalhos, rapidamente. O secretário-geral da NATO vem acusar a Rússia de utilizar migrantes para exercer pressão sobre a Finlândia. É o que está a acontecer? Estamos aqui a falar do facto de Moscovo estar a facilitar a chegada de migrantes à fronteira da Finlândia com a Rússia.
Sim, eu acho que infelizmente é explorar a pobreza, explorar a ânsia de muita gente em países do sul global de virem para a Europa mais rica. Não é por acaso que de repente começam a aparecer imigrantes na Lituânia ou na Polónia, que foi o que aconteceu no passado com a Bielorrússia. Não é por acaso que de repente começam a aparecer imigrantes na Finlândia e, no caso da Bielorrússia, isso estava bem documentado, que eles eram incentivados, eram angariados em países como o Iraque, era-lhes pago o voo, todas as deslocações e eram atirados depois como uma espécie de carne para canhão para as fronteiras desses países da União Europeia para criar problemas, tensões nesses países. Portanto, aqui parece-me que é mais um exemplo desta armamentização das migrações, da utilização das migrações como uma espécie de arma de arremesso, de arma de propaganda. E dentro deste arsenal de ataques híbridos, que foi também o que eu sempre achei que seria a aposta previsível da Rússia em relação à adesão da Finlândia à NATO. Não seria um ataque convencional, não seria um ataque militar no sentido tradicional, seria apostar nestas dimensões de ciberataques, de desinformação, enfim, todo esse tipo de ataques híbridos que não são realmente ataques convencionais, portanto, não correm o risco de levar a um conflito direto com a NATO, à evocação do Artigo Quinto, mas criam grandes dificuldades ou criam dificuldades a estes países, fazem passar esta mensagem que desafiar a Rússia é algo que traz sempre alguns custos. Mas a Finlândia já disse, aliás, em resposta a isso, que provavelmente vai acabar por fechar todas as fronteiras com a Rússia, o que também será péssimo para a população russa destas regiões. Eu no passado já visitei, por exemplo, São Petersburgo e era evidente a presença de imensos turistas finlandeses na Rússia. E também era muito frequente, pelo que eu percebi, muitos russos irem fazer compras, irem fazer curtas visitas, irem passar um fim de semana à Finlândia. Portanto, acho que isso será péssimo para as populações civis dos dois lados, mas certamente não é essa a prioridade, a questão central para o Kremlin.
O Gabinete de Guerra é um podcast da Rádio Observador, vai para o ar de segunda a sexta, depois do noticiário das 9h30 da manhã, tem nova edição depois da síntese das 16h30 da tarde e está sempre disponível em podcast. Eu sou a Vanessa Cruz.