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Gabinete de Guerra da Rádio Observador, segunda edição do dia, com o professor Jorge Rodrigues, coordenador de risco geopolítico da Porto Business School. No dia em que se assinalam os três anos dos ataques do Hamas contra várias zonas de Israel, 1200 mortos, o início de um conflito no Médio Oriente ainda sem fim à vista. Senhor professor, boa tarde, bem-vindo. Em que ponto estamos deste conflito?
Boa tarde, Miguel. Para começar, este é um evento de terrorismo injustificável e acho que esse é o primeiro ponto que nós devemos salientar. Está a ter pouco impacto na Europa e no mundo ocidental, pouco evocado, apesar de uma ou outra referência. Pela importância, pelo significado e mesmo pelo impacto do terrorismo, deveria ser mais evocado, mais referenciado. De qualquer maneira, estamos num momento algo complexo. Houve uma reconfiguração do Médio Oriente. Este evento, de alguma forma, deu bandeira a um movimento que nunca viu Israel com bons olhos e que nas várias manifestações, por diferentes motivos, acaba sempre por haver um apoio à Palestina e, portanto, foi criando aqui um tipo de instabilidade social, que eu consideraria o primeiro ponto de resultado deste conflito. Um segundo é a evidência do risco existencial que Israel sempre esteve e que de alguma forma se traduziu e que aumentou talvez um pouco com este conflito, inclusivamente as ações terroristas, como nós vimos muito recentemente com o Fly Dubai, deram uma certa razão à linha dura, obviamente com culpas próprias, mas também a verdade é que existe essa dificuldade em controlar a segurança de Israel. E depois temos aqui um reconfigurar do Médio Oriente, o ponto terceiro, mais num plano geopolítico, em que o conflito verdadeiramente nunca foi só contra o Hamas, mas sim diretamente entre Israel e o Irão, na chamada guerra de centros frente, que foi de alguma forma conduzindo Israel a enfrentar os diversos adversários desse eixo de resistência liderado pelo Irão. O equilíbrio estratégico do Médio Oriente foi posto em causa, a competição pela liderança levou novos atores, ou pelo menos atores a ganharem uma nova dinâmica, como por exemplo a Turquia, mas também a Arábia Saudita, o Egito, o Paquistão, etc. Desenvolveu alguns realinhamentos, diria, a Turquia, o Paquistão e a Arábia Saudita a desenvolver um acordo Meca de segurança, chamada NATO de Meca. Houve algum afastamento também entre outros atores, como por exemplo entre a Arábia Saudita e os Emirados, e os acordos de Abraão foram atrasados, mas não foram afastados definitivamente, não colocaram em campos opostos os países do Golfo e Israel. Mas há um impacto global, de facto, há um impacto global muito relevante e que se nós apontarmos para a questão visibilidade na Europa, sentimos um desgaste de relações com Israel, no plano político, apesar de uma defesa contra o antissemitismo político, isso não há dúvida nenhuma que isso tem sido manifestado. Mas a verdade é que afastou o Ocidente também de vários parceiros do Médio Oriente. Há um conflito social nas ruas, que há pouco evocámos, mas que se traduz inclusivamente em ações que nada têm a ver com essa questão securitária, como por exemplo as manifestações estudantis, que muito rapidamente degeneram para este tipo de conflito. E naturalmente, temos um elevado risco terrorista a nível global e em particular na Europa. Portanto, temos um mundo mais inseguro, sem dúvida, com um ponto de partida que não podemos esquecer, que é uma ação de terrorismo injustificável.
Estamos mais próximos ou mais distantes de uma solução negociada para este conflito?
Neste momento, eu dificilmente vejo uma solução que possa agradar às várias entidades, pois é muito complexo o mosaico de líderes que existem, representativos, naturalmente, do mosaico de etnias, de interesses da região. Portanto, dificilmente nós vamos ter aqui uma situação de pacificação. Agora poderá haver algumas linhas muito relevantes. E a esse propósito, eu até me lembro de um estudo do Arab Barometer, que foi apresentado pela Foreign Affairs, em que houve uma evolução muito grande da parte dos palestinianos na aceitação, na visão como solução dos dois Estados. Por exemplo, no West Bank passou a haver 56% e em Gaza 64% palestinianos, ou de inquiridos, melhor dizendo, que veem a solução dos dois Estados como a melhor solução. Antes andava na volta dos 20, 30, respetivamente. Inclusivamente, a hipótese de confederação ganha 21% em Gaza. Portanto, mesmo do lado dos palestinianos, em que existe uma cultura de ressentimento, começa a haver aqui uma compreensão que esta poderá ser a única solução. Isso poderá ser um bom indicador, resultado das eleições em Israel, que obviamente há aqui um grande impacto deste conflito também, poderemos encontrar elementos mais moderados para futuro, que poderá permitir um acordo, mas não definitivo. Julgo que é muito importante encontrar aqui pelo menos um cessar-fogo essencial e já vimos que o lado de Israel nunca irão aceitar Hamas à frente, seja do West Bank, seja de Gaza, e portanto isso será determinante. Outros passos poderão ser conseguidos e eventualmente conseguir algum tipo de sucesso, mas ainda não definitivo, longe disso.
Senhor professor, vamos ao conflito que envolve o Irão e os Estados Unidos. Há uma mudança de estratégia dos dois lados deste conflito, deste confronto?
Sim, naturalmente. Houve uma primeira fase que eu diria de confrontação direta muito intensa e agora foi caminhando para uma guerra de desgaste multidimensional. Eu diria que, por exemplo, do lado do Irão, essa estratégia multidimensional, seja diretamente, obviamente, de guerra, diplomacia econômica, tem como objetivo maior forçar a saída dos Estados Unidos do Oriente Médio. Aliás, vimos a reação extraordinária de júbilo e evocação de vitória com a saída das tropas norte-americanas do Iraque, de algumas bases no Golfo e com isso, de certo modo, desenvolver pilares de bloqueio marítimo em Ormuz, em navegação, com desenvolvimento de capacidades tecnológicas militares, portanto, menor custo e com maior impacto, e as ações a serem desenvolvidas com uma maior dispersão geográfica para novos alvos e novas regiões, de alguma forma uma escalada horizontal, criando como que um cerco regional a Israel, mas também às forças norte-americanas na região. Portanto, com esse objetivo, a procura de alguma forma pressionar os Estados Unidos, particularmente agora que as eleições se encontram à porta. Por parte dos Estados Unidos, foi identificado que as ações militares que estavam a ser desenvolvidas não estavam a ter o impacto que se pretendia, portanto, são desenvolvidos os ataques cirúrgicos, que continuam, desenvolvendo uma certa pressão militar de controle nos estreitos, ameaça através da chegada de novas forças, como o terceiro Strike Group da região, mas principalmente o bloqueio naval e asfixia econômico-financeira, que é esse o grande objetivo, não só em relação ao regime em si, mas diretamente direcionados para a guarda revolucionária, e com sanções e ameaçando, inclusivamente, os países que façam negócios e tenham algum tipo de relação financeira com o Irão. Essa dupla estratégia leva aqui um novo desequilíbrio, que obviamente vai procurar ser respondido pelas partes, mas que me parece que neste momento está a colocar o Irão em grandes dificuldades, por muito que tente contrariar através de coligações internacionais. Não está numa posição particularmente fácil e o tempo deixou de ser tão vantajoso para o Irão como estava a ser no início do conflito.
Professor, das últimas horas também a notícia de que as forças governamentais do Iêmen garantiram o controle efetivo do estreito de Bab-el-Mandeb. Foi isso que avançou à Reuters o ministro da Informação do Iémen. Adianta também que esta semana as forças governamentais garantiram o controle de Mocha, estratégica cidade portuária no Mar Vermelho. Que impacto têm estas ações do governo do Iémen apoiado pela Arábia Saudita?
Micael, isso está muito ligado à questão do Irão, basicamente, há esta ligação do eixo de resistência. Os houthis, de certo modo, davam uma nova dimensão regional ao conflito, era uma arma que estaria sempre pronta para ser usada e que a iniciativa no terreno parecia determinar muito sucesso e a capacidade de conseguir controlar Bab-el-Mandeb, o que colocaria, a nível global, um certo estresse nas cadeias de abastecimento e energética. Mas com a perda de terreno dos houthis, pressionados pela Coligação do Sudeste, apoiada pela Arábia Saudita, em boa verdade, Mocha e Taiz estão agora já sob o controle das tropas governamentais ou pelo menos aliadas das tropas governamentais. Isso permite que Bab-el-Mandeb continue no controle das forças governamentais do poder reconhecido no Iémen, e retira a capacidade dos houthis de pressionarem nesse campo e eventualmente alargar o conflito para o outro lado, para o Corno de África, Somália, etc. Poderia ter ali um impacto extremamente perigoso, mais uma vez para o comércio internacional e as linhas energéticas. Os houthis agora desenvolvem ações, mísseis balísticos e drones diretamente para a Arábia Saudita, mas a Arábia Saudita aí está mais capaz de reagir porque tem mais capacidade para fazer face a esse tipo de ataques. É de salientar também o apoio dos países aliados do Acordo de Meca, que não foi direto, isso foi evidente, mas foi sempre recebendo algum tipo de material, em particular do Paquistão, que foi sempre com voos diretos para a Arábia Saudita ou para o Iémen, melhor dizendo, conseguiu fazer algum reforço de material e equipamento. Portanto, parece que neste momento a iniciativa foi perdida pelos houthis e que há uma recuperação e a estabilização da situação por parte da Coligação do Sudoeste e, portanto, apoiada pelas forças governamentais e pela Arábia Saudita.
Professor, ainda temos aqui três minutos e um último tema, a guerra no leste da Europa. De há pouco a informação de que o número de mortos em Kiev subiu para 15, resultado de ataques massivos russos sobre a Ucrânia. Há aqui uma nova estratégia por parte da Rússia neste conflito?
Sim, eu julgo que sim e é perfeitamente evidente. Mais uma vez a Foreign Affairs, entre outras publicações de referência, já têm vindo a falar de uma certa orientação que eu gostaria de resumir no seguinte: há aqui, para mim, quatro grandes vetores. Em primeiro lugar, uma constatação que não estava a resultar e era necessário mudar a estratégia e um segundo que era um vetor de orientação para um esforço de ataque a estruturas críticas, à economia e à energia ucraniana. Depois, um segundo ponto de pressão sobre a população civil, que de alguma forma cria dificuldades e um certo impacto, em particular agora que se aproxima o inverno, retira a vontade de combater. Um terceiro ponto em que a Rússia aposta all in, passa uma mensagem de grande força e de empenhamento total e que quer mesmo vencer a guerra. A narrativa da guerra de comunicação é extraordinária, com apoio orçamental e uma mobilização de forças. E um ponto quatro que transporta para um risco de conflito a longo prazo com a Europa, com repetidas ameaças nucleares e com ações de ameaças híbridas, que, de certo modo, levam a um reposicionamento da Rússia e uma posição de força para esta fase do conflito e, de alguma forma, repetir a veleidade de encontrar uma solução a curto prazo, por não estar a resultar a ação no terreno, pelo contrário. Encostado à parede, Putin resolveu reagir em força e ir para frente.
Perspectiva-se um inverno difícil para os ucranianos. Professor Jorge Rodrigues, muito obrigado pela sua presença neste Gabinete de Guerra, segunda edição do dia, muito centrado nesta efeméride que hoje assinala os três anos do ataque do Hamas a Israel, conto com a presença do professor Jorge Rodrigues, é coordenador de risco geopolítico da Porto Business School.