Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Este é o Gabinete de Guerra das manhãs 360 esta quinta-feira com a análise do historiador Bruno Cardoso Reis. Bruno, bom dia, bem-vindo.

Olá, bom dia. Obrigado.

Olá, Bruno. Começamos pelo enviado especial dos Estados Unidos, Steve Witkoff, que falou em reuniões construtivas depois de ter estado na Noruega com Zelensky e na Rússia com Putin. Em cima da mesa está agora a realização de uma cimeira trilateral a 10 de novembro em Abu Dhabi. Bruno, parece mesmo que venha a acontecer ou é narrativa para o eleitorado norte-americano? E a ser verdade, estar marcada para depois das eleições é prova de que as conversações estão adiantadas e que os aliados europeus da NATO vão ser apenas chamados para assinar aquilo que for acordado?

Bem.

Por partes, não é? Vamos por partes.

Exato. São vários aspectos a ter em conta, realmente. Ou seja, por um lado, haver do lado da Rússia a indicação de que, em princípio, já haver aqui um qualificativo, acho que já diz qualquer coisa, que em princípio não se opõe a que haja novamente algum tipo de negociação trilateral. E eu recordo que já tivemos negociações trilaterais, por exemplo, na Turquia, logo na fase inicial da guerra. O facto de a Rússia aceitar isso não quer dizer que seja garantido que as negociações realmente aconteçam. E sobretudo, não quer dizer que se acontecerem, acho que realmente um dos países do Golfo é uma possibilidade, porque são países que têm mantido boas relações quer com os Estados Unidos, quer com a Rússia, que são aqui os actores principais, claramente. Sendo que há este dado aqui depois um pouco irônico, que é, se calhar é preciso pedir autorização ao Irão para ter a certeza que não há bombas a cair enquanto corre a reunião. Portanto, à partida, poderia ser um bom sítio, mas mesmo isso também não pode ser dado por certo, sobretudo por via desse outro conflito. E sobretudo, não quer dizer que haja razões para achar que há condições para se chegar a algum tipo de acordo. Em relação à questão do papel dos europeus e dos próprios ucranianos. Apesar de tudo, em relação ao que foi a prática durante bastante tempo, agora temos este dado, que é, pelo menos, este enviado especial de Donald Trump, que claramente é sempre muito mais elogioso e desejoso de se encontrar com Putin do que propriamente com Zelensky ou com os ucranianos. Portanto, temos este lado também profundamente bizarro, que é as mesmas pessoas que dizem: "É preciso falar com toda a gente. Isto da diplomacia não é uma recompensa que se dá aos amigos". Coisa com que eu concordo, sempre disse isso desde o início, é preciso continuar a manter pontes com adversários, com inimigos. Mas a questão é: mas é suposto não cortar as pontes com os amigos e com os aliados e com um país como a Ucrânia, a quem os Estados Unidos pressionaram para entregar as suas armas nucleares à Rússia, em troca de confiar no compromisso dos Estados Unidos com respeitar e, no fundo, fazer respeitar a integridade territorial da Ucrânia. Mas apesar de tudo, agora tem havido encontros realmente com os europeus e com os ucranianos. Houve este encontro em Oslo, aparentemente Witkoff terá voltado a Oslo também para dizer o que terá sido falar com Putin. Portanto, há um envolvimento maior dos europeus. Agora, à partida, realmente não parece estar prevista a presença no próprio palco das negociações e isso justifica alguma preocupação.

Da reunião com Steve Witkoff, soube-se também que Putin terá oferecido a mediação de Moscovo para ajudar a travar o conflito entre Washington e Teerão. Bruno, quando Putin se oferece para mediar a crise entre Estados Unidos e Irão, significa que o Kremlin está a conseguir usar o Medio Oriente como moeda de troca para ditar os termos do pós-guerra na Europa?

Bem, acho que terá provavelmente a tentar acenar com isso, ou seja, dentro desta ideia de que é relativamente fácil satisfazer ou se quisermos enganar Donald Trump, o exemplo deste acordo do gasóleo é um exemplo disso. Portanto, é um acordo que só pode beneficiar a Rússia e não tem nenhum impacto naquilo que interessa aos americanos, que é nomeadamente o preço dos combustíveis a nível global. Mas dentro da mesma lógica, realmente houve, isso é verdade, houve uma aproximação importante entre o Irão e a Rússia. Tudo indica que a Rússia está a apoiar o Irão neste conflito, inclusive com informações que ajudariam a explicar a eficácia muito maior dos ataques iranianos do que no passado. Mas, por exemplo, isso é algo que Donald Trump em público recusa. Diz que não, que insiste que praticamente não apoiaram nada ou praticamente não apoiaram nada, como ele disse ainda ontem. E dentro dessa lógica de procurar sempre no fundar o benefício da dúvida à Rússia, evitar qualquer tipo de choque, aqui é só mais um passo e parece-me que realmente Putin está a explorar isso. Agora, a ideia de que para fazer um favor à Rússia, o Irão aceitaria condições que não aceitou já, por exemplo, por via do processo de mediação que envolveu Omã ou o Paquistão, isso de facto não parece que tenha nenhuma credibilidade.

Entretanto, e de acordo com o New York Times, os Estados Unidos e Israel têm intenções de retomar os ataques contra o Irão logo a seguir às eleições de 3 de novembro, as intercalares. A estratégia terá sido discutida entre Pete Hegseth e Netanyahu em Tel Aviv, mas tudo depende agora do aval de Donald Trump. Bruno, estamos a assistir a um plano militar real ou podemos estar perante uma narrativa na tentativa de travar Teerão até que as urnas nos Estados Unidos fechem?

Desde logo, a ideia de ter algum tipo de planejamento estratégico feito entre Netanyahu e Pete Hegseth é uma ideia que arrepia qualquer pessoa com o mínimo de bom senso e que saiba qual é o perfil desses dois líderes. Portanto, desde logo, a notícia em si é bastante preocupante e assustadora. Hegseth pelo lado da completa incompetência de achar que basicamente se resolve um conflito com conferências de imprensa a parecer muito macho e depois, obviamente, Benjamin Netanyahu pelo lado de ter umas quantas décadas de liderança de Israel em que a única estratégia parece ser a melhor defesa é o ataque. Aliás, sabemos que até de acordo com muitas fontes americanas, que tudo aquilo que ele previu que aconteceria no caso do Irão e do ataque ao Irão saiu furado. Agora, a questão do timing. Realmente fala-se muito da questão das intercalares aqui como uma espécie de garantia de um certo apaziguamento do conflito porque realmente a guerra é muito impopular nos Estados Unidos. Donald Trump está com números de impopularidade historicamente elevados e, portanto, faz sentido que ele procure evitar recordar aos americanos que a guerra ainda não acabou e portanto esse ponto de vista parece me fazer algum sentido. Agora a grande questão é o que se pode fazer de diferente para conseguir aqui um resultado decisivo. Realmente se for mais bombardeamentos, de facto não me parece que faça muito sentido esperar que isso por si só altere radicalmente as coisas ou os cálculos também do regime iraniano. Aliás, até assistimos agora a uma espécie do uso da ironia pelo regime iraniano, que não é uma coisa que se espera muito de um regime que se leva muito a sério, com esta ideia que falou-se muito da mãe de todas as bombas, daquela bunker buster americana, e agora os iranianos, a Guarda Revolucionária veio falar do pai de todas as bombas. Portanto, acho que estamos nesse registro, realmente, o que é preocupante também para o resto do mundo e para a saúde da economia mundial, além de para a vida de pessoas naquela região que continuam realmente a morrer, agora sobretudo por via dos ataques dos houthis na Arábia Saudita.

Bruno Cartaxo Reis, muito obrigada pela tua análise. Um bom final de semana.

Obrigado. Bom dia. Um bom fim de semana.