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Este é o Gabinete de Guerra das manhãs 360, esta quarta-feira com análise de Francisco Pereira Coutinho, especialista em Direito Internacional. Bom dia, Francisco, hoje ao vivo. Bem-vindo.
Bom dia.
Olá. Começamos pelo príncipe herdeiro da Arábia Saudita, que foi ontem recebido por Donald Trump na Casa Branca. Encontro centrado na venda de caças F-35 e cerca de 300 tanques. Francisco, qual é o principal objetivo de Trump, que diz que olha para a Arábia Saudita como um aliado importante fora da NATO?
Sim, Trump e da família Trump, porque há aqui uma série de negócios também associados ao próprio Trump, ao genro, aos filhos, tudo muito associado à Arábia Saudita. Portanto, ele quer fazer um grande negócio no Medio Oriente e está a caminho de o fazer. É verdade que ontem não tivemos grandes novidades e grandes promessas. O príncipe herdeiro fez a promessa de um trilhão, portanto, um bilião em euros de investimentos, mas ninguém sabe muito bem como é que isso vai ser concretizado. Os sauditas queriam muito um tratado de defesa com os Estados Unidos, que está a ser falado há muito tempo, também não tivemos, mas tiveram a promessa de venda de caças F-35. E isso é muito relevante porque naquela região só Israel é que tem este tipo de armas. E os Estados Unidos sempre fizeram uma promessa a Israel, que Israel teria sempre superioridade militar naquela região. E Trump não teve problema nenhum em dizer que vendia este tipo de armamento aos israelitas.
E Trump não corre o risco de estar a fortalecer ainda mais a capacidade militar da Arábia Saudita com esta venda?
Sim, embora Israel não esteja demasiado preocupada com a Arábia Saudita, está preocupada se os americanos venderem F-35 aos turcos, com quem, de facto, os israelitas têm neste momento um grande diferendo. Mas a Turquia faz parte da NATO, também é uma aliança da qual fazem parte os Estados Unidos. Mas atenção, houve esta promessa de venda dos caças, mas é preciso que os caças sejam produzidos, vendidos, etc. Portanto, tudo demorará algum tempo. Agora, isto foi um grande sucesso, especialmente para o príncipe herdeiro Bin Salman, porque há oito anos foi acusado de assassinar e desmembrar um jornalista na Turquia. Ele tinha sido considerado um pária pelo próprio Biden, mas já tinha havido uma reaproximação. Biden foi à Arábia Saudita e já sabe que Trump não liga muito a direitos humanos.
E Trump não gostou quando ontem uma jornalista perguntou, precisamente, ao príncipe herdeiro sobre esse caso.
Sim.
Foi logo aposta do lado, não é?
De facto, os Estados Unidos abrem muito a Casa Branca, a imprensa, os jornalistas estão muito perto do presidente e o próprio presidente vive muito dessa interação com os jornalistas, mas ontem tinha ali um convidado de honra e não queria perguntas inoportunas e, portanto, ele foi bastante indelicado com uma jornalista, creio eu, da ABC, inclusivamente dizendo que achava que a licença da televisão devia ser revogada porque são pessoas muito péssimas e fazem perguntas muito inconvenientes.
Mas Francisco, e como é que devemos interpretar as palavras de Trump quando diz que quer fazer um acordo também com o Irão e de ter confirmado contactos nesse sentido com o Irão?
Sim. Mais uma vez, se os iranianos se oferecerem para ter uma Trump Tower em Teerão, estará aberto a todo tipo de negociações. Agora falando a sério, de facto, ele tem esta visão muito transacional para o Medio Oriente e, portanto, não está muito preocupado que o Irão seja uma teocracia, que o Irão não seja uma democracia. Isso era uma preocupação de outro tipo de presidentes, outro tipo de republicanos neoconservadores, não é esta a visão de Donald Trump. Ele acha que conseguirá a paz através do comércio, que, aliás, era uma ideia muito popular na Europa, na nossa relação com a própria Rússia, etc. E, portanto, é esta a visão que ele tem. E, portanto, a circunstância de ter atacado o Irão foi episódico. Aliás, ele disse: "Eu ataquei aqui, vamos fazer já a paz. Eu sou o presidente da paz, não estou interessado em conflitos armados, acho que isto é péssimo para os negócios". E isso depois concretiza-se a vários níveis. Agora, resta saber se os iranianos querem fazer um acordo com Trump.
E depois há também a questão: será que é quem vier a seguir que trate do que ficar daqui?
Sim, o que é que fica daqui? Vamos lá ver. O Trump está muito interessado em alargar os chamados Acordos de Abraham. Já tinha conversado com os Emiratos, os Emiratos conseguiram estabelecer relações diplomáticas com os israelitas, e isso é muito positivo. Portanto, neste momento há relações diplomáticas, os israelitas podem passar férias nos Emirados, que era uma coisa que não acontecia antes. Ele quer alargar isto. A questão fundamental continua a ser a questão palestiniana, que está ali numa prateleira e que impede que isto avance. Porque os sauditas também voltaram a dizer ontem, não vale a pena pensarem numa restabelecer das relações diplomáticas com Israel, ou do estabelecimento de relações diplomáticas, para ser mais preciso, sem se resolver a questão da autoatribuição da Palestina, dois Estados. E sobre isso, enfim, ainda estamos muito longe. Mas tem razão, porque Trump vai estar em funções mais três anos, não haverá Estado da Palestina, então que o próximo presidente resolva o problema.
Que depois lide. Sobre a guerra na Ucrânia, depois de Paris, Zelensky esteve em Madrid, saiu de lá com mais de 800 milhões de euros, sendo que 600 serão para um novo pacote de ajuda militar. Hoje está na Turquia, diz que para reavivar as negociações de paz, vai reunir com Erdogan e Steve Witkoff. Francisco, além do desgaste, houve alguma mudança recente num dos lados que indique alguma abertura?
Não propriamente. Aliás, os sinais vão no sentido, os ucranianos disseram: "Suspendemos formalmente as negociações, porque não há novidade nenhuma, os russos continuam a atacar, a natureza da guerra não mudou substancialmente e, portanto, estamos todos à espera de um sinal de Moscovo de que queiram avançar de alguma maneira". Aquelas negociações que tivemos em Istambul, o que é que resultou dali? Troca de prisioneiros, coisa que temos feito com grande regularidade e que é comum nos conflitos armados. E, portanto, Zelensky está num périplo que começou na Alemanha, foi a França, esteve em Espanha, agora vai à Turquia, com quem tem agora relações mais estreitas. A Turquia tem estado sempre um bocadinho a meio caminho entre a Rússia e a própria Ucrânia, neste momento mais próxima da Ucrânia, porque a Ucrânia está numa posição mais débil, também não tem interesse que a Rússia controle todo o Mar Negro, portanto, tem ali um interesse em que a Ucrânia continue a ser um Estado importante naquela região. Então, Zelensky, neste momento, é o caminho que ele tem, é tentar encontrar forma de resistir mais um ano, que eu creio que neste momento é a estratégia ucraniana, para ver se acontece alguma coisa na Rússia, se a economia russa colapse. Tenho falado muito sobre isto, mas enfim, é uma guerra de atrição que vai demorar ainda algum tempo, pelo menos a perspectiva é essa.
Falou aí da economia russa. Donald Trump disse esta semana que qualquer país que faça negócios com a Rússia vai ser sancionado e de forma severa. E disse mais, disse que os republicanos estão a trabalhar para passar no Congresso um novo pacote de sanções contra Moscovo. Francisco Pereira Coutinho, Trump está finalmente a tomar um dos lados, ou vindo de quem vem, é sempre melhor esperar para ver.
Eu acho que já me fizeram essa pergunta várias vezes ao longo dos últimos meses. Eu estive a ver, esse pacote de que falou agora, ele foi apresentado a 1 de abril E, portanto, nós estamos quase em dezembro. Ele está pronto para ser aprovado desde 1 de abril. Estão todos à espera que Donald Trump dê luz verde para se avançar com estas sanções secundárias. Só que o problema das sanções secundárias é o efeito bumerangue que podem ter sobre os Estados Unidos e sobre a economia americana, sobre o preço do petróleo. Os americanos, por alguma razão, têm pensado muito bem se querem avançar por esse caminho, e esse será possivelmente algo para pensarmos fazer em 2026. Houve agora sanções direcionadas a petrolíferas russas que já estão a ter algum impacto. E mesmo essas, os americanos, creio eu, que já diferiram no tempo a aplicação de algumas delas, porque justamente não é simplesmente aplicar sanções e esperar que elas produzam efeitos, porque elas produzem efeitos, inclusivamente efeitos contra quem as decreta. Os americanos têm sempre alguma prudência nesse tipo de medidas, até porque acham que isto é uma guerra da Europa e, portanto, por que é que vão ter consequências negativas deste contexto.
Sobretudo na própria economia. Entretanto, dois países da NATO tiveram que tomar medidas devido àquilo que consideram ser ações agressivas da Rússia. A Roménia evacuou duas aldeias junto à fronteira com a Ucrânia. Já a Polónia acusou Moscou de sabotagem das linhas de ferrovia que dão acesso a Kiev. A reação destes dois países pode, de alguma forma, acelerar mudanças estruturais na segurança europeia?
Sim, esse tem sido o debate que temos tido, porque é muito difícil. Nós estamos numa zona híbrida, cinzenta, da nossa relação com a própria Rússia. Não estamos num conflito aberto, mas estamos num conflito através da Ucrânia. E sabemos que a Rússia desenvolve o que nós chamamos a tal guerra híbrida, que passa por sabotagens, ciberataques e muitas circunstâncias.
Ou seja, que não configuram agressão militar direta, não é?
Não, mais do que isso, são ações que nós achamos que são imputáveis, em última instância, à Federação Russa, mas que eles não assumem. Não temos a certeza que tenham sido eles. Possivelmente, depois de uma investigação, podemos encontrar um elo de ligação, mas é muito difícil perceber se aquela sabotagem que houve agora numa linha férrea na Polónia, se foi a Federação Russa ou se foi um acidente, ou se foram outros tipos de actores. E este tipo de intervenção é sempre muito difícil para quem está deste lado. Mas agora, eu acho que acima de tudo, são necessárias medidas coordenadas pelos vários Estados europeus que tenham um efeito dissuasório sobre a Rússia, no fundo, fazendo-os pensar duas vezes antes de entrarem neste tipo de intervenção. Claro que os russos muitas vezes fazem isso para nos dissuadir a nós de dar à Ucrânia outro tipo de armamento, outro tipo de apoio. Mas à medida que o tempo vai passando, nós próprios estamos a dar à Ucrânia cada vez mais apoio financeiro, cada vez mais apoio militar.
Aliás, como se viu esta semana, não é?
Sim, mas uma pergunta que temos feito nos últimos quatro anos é quando é que, por exemplo, a Alemanha dá Taurus à Ucrânia, e nunca deu. E nunca deu porque realmente há aqui passos que os Estados entendem que não devem dar, porque temem também a resposta russa através deste tipo de ações encobertas, ações híbridas, inclusivamente interferência em atos eleitorais, que também acontece. Alguns partidos europeus que sabemos que são financiados pela Federação Russa. Este tipo de ações encobertas que ocorrem, de certeza que ocorrem e já ocorriam no passado. Tivemos assassinatos seletivos russos em solo europeu no passado, são de facto muito difíceis de contrariar. E claro, os países de fronteira têm, como vimos no verão, drones russos que aparecem, caem, mas caem por quê? Caem porque foram objeto de interferência eletrónica, caem porque foi propositadamente, é uma ação hostil, não é. Portanto, isto coloca-nos todos num conjunto de questões. E, por outro lado, também nós não podemos reagir de forma excessiva, porque isso poderá levar a uma escalada, a uma ação em cadeia, que depois pode tornar a nossa intervenção na guerra incontrolada, e as nossas opiniões públicas não estão preparadas para um conflito direto neste momento.
Francisco Pereira Coutinho, muito obrigada pela análise no Gabinete de Guerra e por ter vindo aos estúdios da Rádio Observador. Um bom dia para si. O gosto foi nosso.