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Gabinete de Guerra na Rádio Observador, o programa em que destacamos as principais questões geopolíticas mundiais. Hoje contamos com a análise do historiador Bruno Cardoso Reis. Bruno, muito bem-vindo de novo à Rádio Observador. Vamos começar por falar sobre os 14 pontos do memorando de entendimento entre Estados Unidos e o Irão, divulgados hoje pela agência iraniana Mehr, um documento que foi visto como um possível caminho para a paz entre os dois países, sendo que, e esta situação está constantemente a desenvolver-se, Bruno Cardoso Reis, há pouco tivemos Donald Trump que veio desmentir esses 14 pontos do memorando e acusou o Irão de ser desonesto. Bruno, nos pontos que foram conhecidos, o que é que há a destacar e esta divergência diz-nos o quê sobre a situação?
Boa tarde a todos. Diz-nos que podemos ter aqui bastantes cuidados, mas estávamos aqui a comentar em off que estava a ver as últimas e de facto na rede de Donald Trump, ele retuíta, reposta um tweet do ministro dos Negócios Estrangeiros iraniano, do Abbas Araqchi, que pede aos media, aos meios de comunicação para evitarem a especulação. Portanto, diz que nunca um acordo esteve mais próximo, mas que é preciso realmente ter aqui algum resguardo. Aqui, obviamente, o que é extraordinariamente irônico e paradoxal, por um lado, é não só o presidente americano estar a dar eco a palavras do ministro dos Negócios Estrangeiros do Irão, que à partida é um beligerante com os Estados Unidos, mas sobretudo de ver Donald Trump a apelar à contenção dos media e a que haja aqui recato e reserva na divulgação de informações em relação a este tipo de acordo. Aquilo que nós vemos em relação a Donald Trump é que ele constantemente passa o tempo a vazar informação. Ainda há dois ou três dias, a principal correspondente da BBC nos Estados Unidos ligou-lhe para o telemóvel. Ela, como muitos outros jornalistas, tem o número e sem qualquer preparação de Donald Trump respondeu a um par de questões. Portanto, Donald Trump é talvez dos líderes que nesse aspeto há que lhe dar crédito.
Pede cautela e ele próprio divulga informações.
Mas é dos líderes que está mais disponível para falar com a imprensa, embora muitas vezes de uma forma bastante conflituosa e até insultuosa, mas realmente está sempre a interagir com a imprensa. Eu diria que uma parte crucial da lógica política de Donald Trump é esta questão de estar constantemente nas bocas do mundo. Eu quase que diria que Donald Trump não existe politicamente, ou até sem ser politicamente, de outra forma que não seja como uma espécie de marca, e de marca constante no debate público. Ele vive e prospera nesta constante visibilidade, por muito polêmica que seja. Mas agora ele próprio parece ter percebido, e acho que isso é um bom sinal, que realmente há que evitar esta constante troca de galhardetes e de informações claramente mais ou menos interessadas de um lado ou do outro, porque isso pode tornar mais complicado realmente fechar o acordo, que seria aqui o aspeto mais importante. O que há que sublinhar também é que o acordo a ser assinado e a concretizar-se este acordo, será, em todo caso, um acordo parcial. Portanto, aquilo que está em cima da mesa, ou pelo menos que parecia estar em cima da mesa, com base na informação que tínhamos, é que seria um memorando de entendimento focado em resolver este problema mais imediato que é a questão da insegurança no Estreito de Ormuz. O estreito não está completamente fechado, mas realmente é uma zona de alto risco pra navegação comercial e isso cria grandes problemas à economia global.
Sendo que o Irão diz, Bruno Cardoso Reis, que não vai abrir mão do controle do Estreito Ormuz, o que nos chega dos meios de comunicação iranianos, isto é o maior entrave para qualquer tipo de negociação?
Com Donald Trump é sempre difícil prever, porque o que é certo é que ele vai declarar uma vitória e vai querer declarar uma vitória e precisa disso, como também precisa, do meu ponto de vista, que rapidamente o conflito termine pra ter alguma possibilidade de recuperar politicamente antes das eleições intercalares de novembro, pra o qual ele já parte com desvantagem. Isso podemos dar como certo. Agora, exatamente que termos é que ele vai querer, até que ponto é que ele se contentará com um acordo mais vago, mais genérico, que permita quase tudo às duas partes e também aos dois lados salvar a face e declarar vitória. Isso parece-me talvez o cenário mais provável, mas vamos ver se ele será mais exigente em relação a algum destes aspetos. Mas acho que o mais realista neste momento é isso. E o aspeto mais concreto em relação ao qual me parece que temos que estar mais atentos para avaliar se realmente este acordo vale alguma coisa ou não, não é tanto a questão de uma declaração, por exemplo, genérica sobre o nuclear, é sobretudo a questão de perceber se há condições para haver liberdade de navegação no estreito. E aí, como dizias, esse parece ser um problema. Agora, aquilo que o Irão diz, se o Irão se contentar com uma espécie de vitória moral, de haver algum sistema que lhe permita dizer que tem algum tipo de controle, mas que isso não signifique cobrar taxas ou impedir a navegação segura, talvez haja aqui algum tipo de quadratura do círculo. Agora, o que também me parece evidente é que se houver alguma cedência substantiva a esse nível, isso é criar aqui um precedente perigosíssimo e muito custoso pra todos. No fundo, um dos pilares da ordem internacional, nomeadamente económica, é a liberdade de navegação nestes estreitos internacionais, mesmo que uma parte deles esteja em águas territoriais, são considerados estreitos internacionais em que não pode ser impedido o livre trânsito de navios civis, de navios pacíficos. Se isso se altera aqui, a moda pode pegar e podemos ver o mesmo tipo de constrangimentos e taxas a aparecerem noutros estreitos. Isso vai complicar muito a vida da economia global e vai contribuir para Prolongar este problema de uma tendência para uma inflação mais elevada, para preços mais elevados.
Bruno Cardoso Reis, temos ainda quatro minutos. Há dois temas que eu ainda gostaria de abordar contigo. Vamos dividir isto de forma salomónica. Dois minutos para cada um. O primeiro, ainda relacionado com o Médio Oriente, é a questão do Hezbollah, que disse estar confiante de que o Irão irá incluir o Líbano em qualquer acordo com os Estados Unidos. O Hezbollah tem motivos para estar confiante, Bruno?
Eu acho que estas declarações são significativas de que não está assim tão confiante. Ou seja, isto é evidentemente uma forma de fazer pressão pública sobre o Irão. E realmente o Hezbollah estaria numa posição muito difícil se isso não acontecesse. E também seria difícil, nomeadamente à ala mais dura do regime iraniano, salvar a face se isso acontecesse. Mas parece-me que há claramente essa preocupação, que o Hezbollah não tenha, no fundo, as garantias de segurança do seu grande patrono, em nome do qual o Hezbollah, já muito enfraquecido, entrou nesta guerra, basicamente para defender o Irão. Com isso, ficou numa posição muito frágil no Líbano, que foi objeto de muitas críticas, até de setores xiitas no Líbano, que viram isto como realmente sendo o Hezbollah a pôr-se ao serviço do Irão e não dos interesses libaneses. Portanto, se o Irão realmente não conseguir demonstrar ao Hezbollah que corresponde a essa dedicação, acho que vai ser muito complicado para o Hezbollah e também para a influência iraniana no Líbano.
Bruno, estes últimos dois minutos do Gabinete de Guerra de hoje são dedicados a abordar o tema do Dia da Rússia. Medvedev assinalou este dia com um vídeo a triturar fotos de líderes europeus como Merz, o chanceler alemão, e também Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia. A minha pergunta é: o que ganha a Rússia com esse tipo de provocações e se Medvedev retrata também, de certa forma, a posição do Kremlin?
Desde logo, temos este espetáculo de Medvedev, que era visto como um líder pró-ocidental, para sobreviver politicamente no sistema russo, se ter transformado basicamente numa espécie de figura quase cômica no seu antiocidentalismo, no seu antieuropaismo. Mas provavelmente, isso explica-se realmente com esta ideia de que para sobreviver era preciso fazer esquecer esse passado em que ele era visto como um líder moderado, que tinha chegado a acordos com a Europa e com o presidente Obama. É claramente algo que tem a ver, sobretudo, com a política interna russa, e que talvez reflita um pouco também alguns indicadores preocupantes em termos econômicos e até em termos de sondagens, a ideia de que a guerra se está a tornar cada vez mais impopular e, portanto, a solução das elites russas, das elites ligadas a Putin, é no fundo tentar o mais possível apostar no bode expiatório, no odioso, na ideia de que a Europa, mais uma vez, está a minar os interesses da Rússia sem nenhumas boas razões para isso acontecer. Obviamente, esse discurso não faz nenhum sentido. Foi a Rússia que optou por esta guerra e por quebrar todas as pontes e todas as possibilidades de compromisso ou de diálogo com a Europa. Mas realmente isso tem sido a forma como esta elite putinista tem respondido ao conflito, explicar a impossibilidade de derrotar a Ucrânia através da ideia de que está a combater o Ocidente. Atualmente, os Estados Unidos, apesar de tudo, são vistos como mais amigáveis, portanto, o que resta é a Europa.
Muito obrigado, Bruno Cardoso Reis. Fica por aqui o Gabinete de Guerra hoje com a análise do historiador Bruno Cardoso Reis. O Gabinete de Guerra fica, como sempre, disponível em podcast.