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É o som do Gabinete de Guerra da Rádio Observador, espaço onde passamos em revista os principais conflitos no mundo, hoje com o Bruno Cardoso Reis. Bruno, muito bom dia. Bem-vindo à Rádio Observador. Obrigado por estares conosco no feriado.

Bom dia. Obrigado.

Queria começar a olhar contigo para as mais recentes declarações de Donald Trump. Parece que há aqui um agudizar de tensões entre Washington e os seus aliados europeus, as capitais europeias. Donald Trump disse que o chanceler alemão deveria estar mais ocupado em consertar o seu país destruído depois de algumas críticas do chanceler alemão à guerra que os Estados Unidos estão a conduzir no Médio Oriente e agora a Itália, na voz do seu ministro da Defesa, veio dizer que está surpreendida com as ameaças de Donald Trump de retirar tropas norte-americanas, quer de Itália, de Espanha e também da Alemanha. Estas declarações, há aqui alguma conclusão que se possa tirar ou é apenas fogo de vista estas declarações de Donald Trump e estas ameaças de retirar tropas norte-americanas do continente europeu, Bruno?

Aqui uma questão interessante também para ponderar é, no fundo, o que é que teria acontecido, por exemplo, se Portugal tivesse tomado uma posição semelhante à da Espanha, tendo em conta que, por exemplo, a base das Lages realmente tem um peso bastante mais importante, embora seja uma base relativamente pequena comparada, por exemplo, com as bases na Alemanha ou na Itália, mas que tem realmente um impacto grande na vida local, na economia local. Para os Açores seria realmente uma preocupação grande. Agora, isto obviamente não é dar razão a Donald Trump. É curioso, eu estive aqui a rever os dados, em termos globais, a Alemanha é o segundo país onde há mais bases e bases maiores, portanto uma presença militar maior dos Estados Unidos. São quase 120 bases, que variam bastante em tamanho contando todo o tipo de instalações militares, seria mais correto falarmos em instalações militares, mas só é ultrapassada pelo Japão e por pouco. A Alemanha tem 119, o Japão tem 120, mas em termos de tropas, na Alemanha andam à volta dos 30 mil, no Japão anda à volta dos 50 mil, mas o Japão é o número um, depois o número dois é a Alemanha, depois a seguir vem a Coreia do Sul e depois a seguir vem a Itália, portanto a Itália é o quarto. Mas aqui o que é curioso, olhando para estes dados, é que o Japão e a Coreia do Sul, que têm mais bases, respetivamente, e mais tropas do que a Alemanha e do que a Itália, utilizam muitíssimo mais o Estreito de Ormuz, estão muito mais dependentes da importação de energia do Estreito de Ormuz, têm taxas de pensão acima dos 50%, como aliás múltiplos outros países na Ásia, que os Estados Unidos há vários anos, e não apenas com Donald Trump, têm apontado como os seus grandes parceiros de futuro. É a Ásia que está aqui a emergir, a Europa que está a submergir. E portanto, Donald Trump continua a insistir, embora diga sempre que os europeus são irrelevantes do ponto de vista militar, incapazes do ponto de vista militar, insultou os veteranos europeus que andaram a combater durante 20 anos no Afeganistão com os norte-americanos depois do 11 de setembro. Mas é aos europeus é que ele insiste em exigir algum tipo de ajuda militar no contexto desta guerra contra o Irão, e não aos aliados asiáticos. Isto quando não consultou, não informou todos os aliados europeus, não lhes perguntou a opinião, não lhes pediu ajuda, para além das redes sociais, o que obviamente não é a forma de pedir ajuda deste tipo. E obviamente, e aqui é importante sublinhar este ponto para terminar, os acordos, o Tratado de Washington, que cria a Aliança Atlântica, cria a NATO, em nada obriga os europeus a ajudar obrigatoriamente os norte-americanos numa qualquer guerra que eles decidam iniciar em qualquer parte do mundo. Aliás, por exigência dos Estados Unidos, em 1949, em abril de 49, está muito claro no artigo sexto do Tratado do Atlântico, nós falamos muitas vezes do artigo quinto, de defesa mútua, mas é muito claro no artigo sexto que essa cláusula de defesa mútua, defesa coletiva, só se aplica no Atlântico Norte, numa região geográfica muito bem delimitada da Europa e dos Estados Unidos, e não fora dessas áreas.

Mas o que é que poderia acontecer na Europa se, de fato, houvesse essa redução de bases militares e também de tropas norte-americanas? Neste momento, temos uma guerra no continente europeu da Rússia contra a Ucrânia. Poderia haver aqui alguma implicação se Donald Trump avançasse, de fato, com esta ameaça, Bruno?

Essa é uma questão importante e, aliás, pegando também numa parte da pergunta anterior que eu não respondi, quem é que perde com isto e será que Donald Trump vai mesmo concretizar isto? Isto é de tal forma irracional e é um tiro no pé, e são militares ou antigos militares, analistas estratégicos americanosQue dizem isto e que realmente é difícil acreditar que ele leve isto adiante, porque realmente as bases na Europa, em particular estas na Alemanha e em Itália, são absolutamente centrais na estrutura logística global de projeção de poder dos Estados Unidos. São fundamentais para a capacidade dos Estados Unidos projetarem poder militar com eficácia e com rapidez, com segurança em África, no Médio Oriente, em particular, onde fazem isso com muita frequência, no Índico, mesmo para certas regiões da Ásia, muito mais do que os Estados Unidos conseguiriam fazer se tivessem apenas bases no seu próprio território. Esta é uma das grandes vantagens relativas dos Estados Unidos em relação aos seus rivais estratégicos tradicionais, como a China ou como a Rússia. Há, aliás, por causa disso, da importância destas bases para os Estados Unidos, legislação no Congresso já prevendo os perigos, digamos, de uma presidência de Donald Trump, aprovada aliás com uma ampla maioria, portanto, com muitos republicanos também, que impede o presidente de reduzir a presença militar na Europa abaixo dos 105 mil homens, se não me falha a memória, sem autorização do Congresso. Portanto, há limites ao número de tropas que ele pode aqui reduzir. Ele pode reduzir alguma coisa, mas não me parece que por razões legais, por razões estratégicas do próprio interesse dos Estados Unidos, das necessidades de apoio à própria operação no Irão, que ele reduza isso muito significativamente. É verdade que estas bases também são importantes para os europeus, porque são no fundo uma espécie de garantia de que, no caso desse país onde há bases americanas ser atacado, no fundo, quase inevitavelmente, isso iria levar também a baixas norte-americanas e, portanto, quase que obrigaria os Estados Unidos politicamente, e não apenas por razões legais do artigo quinto, a responder, mas elas são de uma enorme importância estratégica para os Estados Unidos. Portanto, isto parece ser, sobretudo aqui, uma questão de retórica de Donald Trump não tolerar qualquer tipo de contrariedade ou de que alguém se atreva, publicamente, sobretudo, a dizer que não. E a apontar até também problemas na ausência de estratégia, de uma estratégia clara em relação ao Irão. Aqui há este lado irônico, que também vale a pena sublinhar. Falamos muito de Pedro Sanchez, que é obviamente um governante de esquerda e que tem até uma coligação com o partido de extrema-esquerda, que tem uma tradição de antiamericanismo. Portanto, em termos de política interna, isto pode lhe trazer algumas mais-valias. Mas no caso de Merz, estamos a falar de um político de centro-direita, um político conservador alemão que durante toda a sua vida foi pró-americano, embora tenha sido cada vez mais crítico no último ano, e Giorgia Meloni era apontada como uma espécie de trumpista, portanto, era alguém que ideologicamente até tinha algumas proximidades com Donald Trump, esteve na posse de Donald Trump. Enfim, mostrou que é realmente uma verdadeira nacionalista ou patriota e, portanto, considerou que os interesses de Itália não eram compatíveis com este alinhamento automático com os Estados Unidos ou com tolerar que Donald Trump achasse que podia insultar ou ameaçar o Papa.

Sinto que as declarações do chanceler alemão, de Merz, foram particularmente duras para com os Estados Unidos. Disse que os Estados Unidos estão a ser humilhados nesta guerra do Irão. Por que a necessidade deste tom em particular, uma vez que até estavas a apontar, Bruno, Merz sempre foi um político de centro-direita. Há esta proximidade também entre Giorgia Meloni e o próprio Donald Trump. Não é uma crítica demasiado franca, honesta, mas particularmente dura para com os Estados Unidos?

Eu estive nestes últimos dias com uma colega alemã, que aliás conheceu bem a Merz, até como estudante, na mesma faculdade, mas o ponto dela realmente é, eu também poderia concordar com isso, ou seja, eu concordo com muitas das declarações que Merz fez, mas realmente não é uma forma muito diplomática, e o contraste com o Rei Carlos III é bastante grande. Ou seja, talvez realmente o chanceler alemão tivesse de afinar aqui um bocadinho as suas capacidades diplomáticas. Mas realmente isso também é um estilo, em certo sentido, muito alemão, de ser muito direto naquilo que se tem a dizer, ou não dizer nada, ou ser muito direto naquilo que se tem a dizer. Eu acho que é possível realmente ser aqui um bocadinho mais diplomático, mas é significativo que realmente o chanceler alemão não tenha optado por fazer isso. E aí podemos ter várias explicações. Uma é que Trump é politicamente tóxico na Europa neste momento, mesmo na direita mais nacionalista. Vemos mesmo partidos como o de Nigel Farage, por exemplo, na Grã-Bretanha, ou o Rassemblement National da senhora Le Pen, ou Meloni, lá está, em Itália, a afastarem-se publicamente de Donald Trump, e portanto essa é uma possibilidade. A outra também é que, no fundo, os líderes alemães também estão a apostar cada vez mais nessa ideia da autonomia estratégica da Europa e, sobretudo, também esta conclusão de que não resultou esta estratégia de tentar mostrar deferência, de tentar o mais possível evitar críticas em relação a Donald Trump. O que vimos foi Donald TrumpEnfim, ameaçar com novas guerras comerciais, mesmo depois de um acordo comercial que lhe foi muito favorável precisamente por parte dessa estratégia. Ameaçar um país aliado europeu, a Dinamarca, eventualmente até com uma ação militar, porque a Dinamarca se recusava simplesmente a vender a Gronelândia e os gronelandeses, que não querem ser norte-americanos. E, portanto, acho que também há aqui um certo cansaço dos líderes europeus com esta postura sempre muito agressiva do Donald Trump e a ideia de que não resulta todo este tipo de deferência, de cuidado a lidar com o Donald Trump. Vamos ver se esta estratégia tem melhores resultados em termos de defender os interesses europeus, mas parece-me também compreensível que os líderes europeus não se tivessem deixado arrastar para uma guerra e para uma missão nos Estreitos de Ormuz de elevado risco que os próprios militares norte-americanos não estão a querer levar a cabo ou não estão a conseguir levar a cabo, simplesmente para satisfazer aqui as exigências e o ego do Donald Trump.

E o que pode funcionar? Nós vimos esta visita de Estado do rei Carlos III de Inglaterra aos Estados Unidos da América, sendo que na despedida Donald Trump disse que o monarca era o mais formidável dos reis na cerimônia de despedida na Casa Branca. Vimos alguns momentos que parecia até ter alguma cumplicidade, por exemplo, quando Carlos III disse que se não fosse o Reino Unido, os Estados Unidos falariam francês, Donald Trump talvez não aceitasse essa brincadeira de outro líder europeu. O que é que Carlos III tem que, por exemplo, Keir Starmer não tem para conseguir este aparente respeito de Donald Trump?

Desde logo é rei, acho que isso ajuda bastante. Acho que objetivamente o rei Carlos é alguém que mesmo amigos britânicos que não são particulares fãs da monarquia, reconhecem que a monarquia é realmente uma grande vantagem. Era obviamente ainda mais, talvez, com Isabel II, que tinha muitas décadas de experiência disso, mas também o rei Carlos teve aqui um exemplo próximo com o que pôde aprender, é realmente um grande trunfo diplomático da Grã-Bretanha. Há aqui um efeito, uma certa fascinação com a realeza, que de facto também ajuda. Eu acho que isso é particularmente evidente com Donald Trump, que não esconde isso. Há muitos norte-americanos que estão convencidos. Tivemos aquelas manifestações massivas contra a ideia de ter um rei nos Estados Unidos. Donald Trump realmente gostaria, eventualmente, de ser ele próprio uma espécie de rei norte-americano, até na pompa e circunstância também, digamos, no luxo e no fausto que ele está a tentar criar na Casa Branca como uma espécie de novo Palácio de Buckingham. O rei Carlos também usa aqui um estilo de algum humor, um pouco subtil, portanto faz críticas, mas que não são críticas diretas, que não são críticas também visando diretamente o Donald Trump. Acho que tudo isso ajuda, mas é inegável que aqui a fascinação do Donald Trump com a pompa e circunstância da realeza, em particular britânica, também por via da sua origem familiar pelo lado da mãe da Escócia, que ele também é muito claro ao falar disso, certamente ajuda bastante. Aqui há tempos um colega norte-americano dizia a um colega espanhol: "Bem, vocês se quiserem, no fundo, atenuar aqui os problemas, se calhar deviam jogar a cartada também do rei Felipe e organizar aí alguma visita com pompa e circunstância ao Palácio Real de Madrid para ajudar."

Bruno, antes de te deixar ir, deixa-me só continuar aqui, correndo o risco de ser monomatemático a olhar para Donald Trump, mas para o impacto que pode ter internamente na política interna esta guerra no Médio Oriente. Donald Trump tem até hoje este prazo de 60 dias até o qual é preciso pedir uma autorização ao Congresso para continuar esta guerra. Já vimos Pete Hegseth, secretário de Defesa dos Estados Unidos, secretário da Guerra dos Estados Unidos, no Congresso a responder às perguntas dos congressistas e senadores norte-americanos, a recusar a ideia de que esta guerra tivesse sido iniciada sem uma ameaça iminente e sem uma estratégia coerente. A minha pergunta, Bruno, é se esta guerra, a cada dia que passa, custa votos a Donald Trump numa altura em que temos umas eleições intermédias à vista.

Sim, todos os sinais são de que sim, de que está a acentuar os problemas do Donald Trump. A popularidade do Donald Trump continua a cair, está nos 33%, mais ou menos, em média, o que é um número historicamente baixo para esta altura de um segundo mandato. E realmente a guerra foi impopular desde o início, ou seja, ao contrário do Iraque, ao contrário do Vietnã, ao contrário do Afeganistão, que se tornaram impopulares à medida que a guerra se foi prolongando muito ao longo dos anos e foi ficando claro que realmente não se conseguia aqui um resultado, uma vitória decisiva. Neste caso, a guerra foi impopular desde o início. E de facto não há nenhuns sinais de que isso esteja a mudar, até porque também não há sinais realmente que haja aqui uma estratégia clara de saída ou de vitória. O custo econômico é realmente enorme, é muito maior também do que nesses casos, sobretudo por causa do efeito dos Estreitos de Ormuz. E isso ainda vem agravar um problema político do Donald Trump, que é a percepção que as pessoas têm de que ele realmente foi eleito a prometer melhorar substancialmente a economia, baixar os preços, e realmente tem sido exatamente o oposto, e esta guerra ainda vem acentuar mais isso. Agora, o que é estranho aqui é que Donald Trump, de facto, não parece estar muito preocupado com isso. Talvez ele já tenha dado as eleições como perdidas, talvez acredite em alguma ilusão de que não será assim tão mau, de que as sondagens e a imprensa é que estão aqui a pintar uma imagem mais negra. Em relação à questão dos 30 dias, francamente acho que isso não é o principal para os eleitores, pelo menos os eleitores que tradicionalmente apoiariam Trump e que agora estão a ficar cada vez mais insatisfeitos, é a questão realmente dos 60 dias, é a questão realmente da economia. E também é verdade que isso é uma questão que se colocou com outros presidentes, portanto aqui Donald Trump, há que ser rigoroso, não é propriamente o primeiro que tem aqui uma espécie de guerra com o Congresso sobre se isto é uma guerra, se não é. E no fundo insistindo que o presidente é que deve controlar essas decisões com o máximo de latitude para poder defender os interesses dos Estados Unidos. E Pete Hegseth alegou algo que também outros presidentes no passado vieram dar a entender, que havendo um cessar-fogo, no fundo, isso para essa contagem. Não é claro em termos jurídicos se é assim ou não, mas acho que essa questão dos 60 dias não é realmente a principal para os norte-americanos, embora haja muitos que estão preocupados com esta ideia de que o Donald Trump realmente abusa do poder presidencial, portanto para esses será aqui mais uma prova de que é o caso.

Análise do Bruno Cardoso Reis no Gabinete de Guerra desta manhã. Bruno, muito obrigado, um forte abraço, bom feriado. O Gabinete de Guerra está de regresso já amanhã.

Bom feriado.