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Gabinete de Guerra na Rádio Observador. Hoje contamos com a análise de Daniela Nunes, especialista em Relações Internacionais. Boa tarde, Daniela, bem-vinda. Hoje começamos com Benjamin Netanyahu, o primeiro-ministro israelita, chegou ontem aos Estados Unidos, vai discursar amanhã perante o Congresso norte-americano e já deixou a promessa de mostrar a verdade sobre a guerra na Faixa de Gaza. O propósito da visita de Netanyahu é de alguma maneira fazer as pazes com os Estados Unidos depois de alguma crispação, depois de alguns pedidos a que o primeiro-ministro israelita não quis dar ouvidos ou o objetivo desta visita vai para além disso, Daniela?

Olá, Diana, boa tarde. Boa tarde a todos. Para já é preciso dizer que esta visita já estava planeada antes de todo este tumulto norte-americano dos últimos dias, mas mesmo assim, este é um tumulto de grande relevância para definir e para que possamos entender a postura de Netanyahu ao longo desta visita ao seu principal aliado. Em primeiro lugar, as circunstâncias vão obrigar Netanyahu a abrir caminho para qualquer que seja a possibilidade ou o cenário nos Estados Unidos nos próximos meses. Por um lado, vai ter de continuar, pelo menos até novembro, a interagir com alguém com quem tem tido alguns, embora pequenos, atritos, que é Joe Biden, e por outro, vai ter de preparar mentalmente, e mesmo sem certezas, a troca de liderança democrata pela republicana a partir de novembro, se isto se concretizar. Em segundo lugar, também podemos esperar da parte de Netanyahu a postura de quem, do ponto de vista das narrativas, vai procurar recordar, e sobretudo para os mais desagradados, que são muitos nos Estados Unidos, que o problema em Gaza não começou com as ofensivas chocantes e altamente desrespeitadoras face ao direito internacional por parte das forças israelitas, mas sim a 7 de outubro, com o ataque perpetrado pelo grupo Hamas, significando tudo isto que Israel é a vítima, que se está a defender de uma ameaça que ainda por cima é uma ameaça tão marcante na história contemporânea da América, que é a ameaça terrorista. Portanto, para responder à tua pergunta, Diana, julgo que a postura de Netanyahu, mais do que tentar agradar e diminuir o espírito de crispação que tem vindo a crescer nos últimos meses entre Tel Aviv e Washington, mais do que isso, eu julgo que ele vai tentar, e passo a expressão, puxar a brasa à sua sardinha, no sentido de recordar os americanos, para além da liderança, recordar a sociedade americana, que o que está aqui em causa é uma ameaça que os dois países em comum temem e detestam particularmente. Agora, seja como for, julgo ainda que o apoio norte-americano a Israel estará sempre garantido. Independentemente da liderança dos Estados Unidos estar entregue aos democratas ou aos republicanos, este apoio, e esta amizade, no fundo, também, estarão sempre garantidos. Mas é bom abrir o caminho para ambas as possibilidades, conforme eu comecei por dizer. Nós não nos podemos esquecer também que isto, do ponto de vista dos Estados Unidos e Israel, significa ou representa uma espécie de estado pivô no Médio Oriente. É a única democracia numa geografia que, para além de ser consideravelmente vasta, também está repleta de um conjunto de ameaças à forma de estar e à ordem mundial liberal liderada pelos Estados Unidos. Por exemplo, e para não me alongar muito, podemos mencionar aqui o caso do Irão. Israel, nesta dinâmica ameaçadora que tem vindo a crescer nas últimas semanas em especial, Israel pode aqui representar uma espécie de visão, os olhos dos Estados Unidos no seio desta ameaça que tem vindo a tornar-se cada vez mais real, onde, por exemplo, no Mar Negro, com a ameaça dos Houthis, um grupo proxy do Irão, tem estado a provocar também tensões crescentes na zona e tem inclusivamente afetado o comércio internacional, que é não só, mas também do interesse dos Estados Unidos. Portanto, há um conjunto de razões pelas quais, quer para um lado, quer para o outro, a relação entre Washington e Tel Aviv não vai deixar de ser aquela que conhecemos há décadas, uma relação de amizade entre os dois países, porque os interesses dos dois são, na maioria das vezes, interesses concomitantes.

Netanyahu vai encontrar-se com Donald Trump, também com Kamala Harris. Para quem nos ouve, na perspectiva de Israel, acaba por ser um pouco mais benéfico se forem os republicanos a vencer as eleições ou não é bem assim?

Eu julgo, e um pouco na sequência daquilo que eu estava a dizer, não sei se fará uma grande diferença a transição de poder, e assumindo que ela vai acontecer, dos democratas para os republicanos. E gostava também de chamar a atenção para a questão da possibilidade de um acordo de cessar-fogo. Não julgo que a mudança de uma liderança democrata para uma liderança republicana, por exemplo, possa constituir caminho para uma grande evolução ou para um grande retrocesso em matéria de negociações para a paz. Até porque a pergunta que se impõe, nesta matéria de um caminho para a paz, o ônus não está tanto nos Estados Unidos ou na liderança dos Estados Unidos, mas mais na liderança israelita e muito particularmente no governo de Netanyahu, que, se vistas bem as coisas, é o único que não está assim tão interessado em acordar este cessar-fogo, e por várias razões e razões de vários domínios. Do ponto de vista doméstico, para Netanyahu, esta guerra funciona como uma espécie de colete salva-vidas, em primeiro lugar, porque lhe permite fugir à realização de eleições e, em segundo lugar, porque com isso, permite-lhe evitar a sua própria derrota. Depois, são os seus próprios parceiros, portanto, a linha dura da coligação governativa, quem ameaça fazer implodir o poder em Tel Aviv, caso Netanyahu baixe a guarda. E depois, fora de Israel, nos Estados Unidos, em especial, os motivos também são óbvios para prolongar este conflito, pelo menos até novembro, que é quando vamos saber quem é o novo presidente. E aqui, agora especificamente para responder de forma mais direta à pergunta, se a senhora Harris for a candidata democrata e a ser eleita, parece-me que ela tenderá a continuar o legado. Ela distingue-se muito de Joe Biden em matérias, sobretudo de política interna dos Estados Unidos, porque ela é de uma ala do partido que é mais à esquerda do que Biden. Mas em matéria de política externa, eu julgo que nesta guerra, como na outra, ela tenderá a dar continuidade ao legado de Biden, sobretudo no que concerne às chamadas de atenção do governo israelita e às chamadas de atenção ligadas à questão da proporcionalidade, à questão dos excessos das forças israelitas no contexto das suas ofensivas e nomeadamente em matéria humanitária. Portanto, parece-me que, a manter-se a dinâmica democrata, também a dinâmica ofensiva israelita tenderá a manter-se. Se porventura for Trump o candidato eleito, e também porque não tenho certeza que a relação entre os dois homens, Trump e Netanyahu, apesar da amizade entre os dois países, não tenho a certeza que a relação entre os dois seja a mais simpática à face da Terra. Algumas divergências são conhecidas, talvez menos conhecidas do que aquelas que temos vindo a observar entre Netanyahu e Biden, sobretudo também nos últimos tempos. Agora, e repetindo-me, uma coisa está garantida: o apoio a Israel estará sempre garantido. Talvez com maior robustez se os republicanos levarem a melhor nas eleições de novembro, até porque sabemos qual é a leitura de Donald Trump em relação à causa israelita, qual é a sua leitura em relação à causa judaica e à comunidade judaica. Portanto, julgo que esta eleição não fará grande diferença a Netanyahu, como, por exemplo, vai fazer a Zelensky. Mas arriscaria dizer que é possível que a causa deste governo tão pouco flexível em Israel, possa ser defendida com mais ânimo se a candidatura republicana levar a melhor nas eleições. E termino dizendo que, mais do que estas questões da América ou na América, o que eu creio que vai realmente obrigar Israel a ceder perante uma negociação para a paz, são as ameaças paralelas, portanto, as ameaças que não dizem respeito ao Hamas e as chamadas de atenção que não dizem respeito à relação com os Estados Unidos. E aqui refiro-me, obviamente, à questão dos houthis, à questão do Hezbollah. Israel vai estar sujeito a uma pressão que vai obrigar as forças israelitas a desconcentrarem-se de um só alvo, que tem sido o Hamas, e por consequência, vai obrigá-las também a dispersar essa atenção e a focar essa atenção em um conjunto de alvos, ainda por cima de caráter terrorista, com quem, ao longo desta guerra, deste 7 de outubro, Israel tem vindo a comprar hostilidades. Portanto, mais do que o cenário norte-americano, eu julgo que é o próprio cenário do Médio Oriente o que vai obrigar este governo, de alguma forma, parar para pensar que vai mesmo ter que ceder a determinada altura, quanto mais não seja para reaver os seus reféns, que são o principal desígnio, ou pelo menos é assim que Netanyahu nos apresenta a sua retórica sobre os seus objetivos principais nesta luta contra o Hamas. O seu principal desígnio é reaver estas pessoas e de preferência com vida, mas depois ele também dá algumas provas de alguma Enfim, de não estar exatamente empenhado na recuperação destas pessoas e destas vidas.

E também por isso que são cada vez mais os cidadãos israelitas que saem à rua a pedir o cessar-fogo.

Todos os sábados temos manifestações em Tel Aviv e eu concluiria só dizendo que se Netanyahu e se este governo estivessem realmente interessados em recuperar os reféns, não levantariam tantos obstáculos e não levantariam tantos problemas às várias tentativas de acordo e às várias tentativas de negociação, inclusivamente aprovadas aqui com algumas aspas pelo Hamas, e que depois acabam por não resultar em nada, porque Israel levanta sempre um detalhe, levanta sempre um problema qualquer que me faz a mim, pelo menos, duvidar deste seu desígnio, que afinal parece não ser assim tão fundamental para este governo, que é o de recuperar os israelitas sequestrados pelos terroristas.

E falavas aqui há pouco de Volodymyr Zelensky, por isso mudamos de conflito, do Médio Oriente para a Ucrânia. A Rússia diz que o afastamento de Biden vai agravar as possibilidades de envio de ajuda norte-americana. Isto pode, de facto, ser uma realidade, ou seja, Joe Biden pode começar já a perder influência sobre as instituições e com isso a Ucrânia sair prejudicada mesmo antes das eleições norte-americanas?

Sim, a resposta rápida é sim. Mas é preciso avaliar aqui toda uma estratégia que a meu ver Zelensky já tem vindo, ou na qual Zelensky tem vindo a trabalhar, e de forma muito inteligente, diga-se de passagem. De facto, Biden tem vindo a perder essa relevância e esse poder, não apenas no domínio da guerra da Ucrânia, mas noutros domínios. Designadamente os domínios domésticos, na esfera doméstica da vida dos norte-americanos, da política norte-americana, e isso é sobretudo visível e está sobretudo patente no debate desastroso com Donald Trump, que depois acabou por degenerar numa série de debates e numa série de comentários muito pouco favoráveis acerca do candidato ou do ex-candidato democrata às próximas eleições. E Zelensky, aliás, como nenhum de nós, tem dúvidas acerca do abalo que será para o esforço de guerra ucraniano e para a causa ucraniana, se Trump ganhar as eleições na América em novembro. E portanto, se há uma eleição que pode mudar o curso desta guerra, é a eleição de Trump, se Trump ganhar. Porque a senhora Kamala Harris, não só na Ucrânia, mas do ponto de vista da política externa norte-americana de uma maneira geral, não parece querer reconfigurar aquelas que foram as estratégias e a dinâmica internacional levada a cabo por Joe Biden. O problema está, de facto, na possibilidade do próximo presidente e do vice-presidente também, atenção, muito especialmente, J.D. Vance, serem dois homens com projetos quase integralmente distintos destes de Joe Biden, e neste caso com foco na guerra russo-ucraniana, que é uma guerra e é um assunto acerca do qual quer Trump, quer Vance, já demonstraram, e aliás verbalmente, que não é um assunto com o qual estejam muito preocupados. E sobre o qual lhes interesse muito investir a atenção, os recursos e o dinheiro do seu país. Antes desta campanha, Trump já tinha dito que acabaria com a guerra em 24 horas, portanto, pelo menos, entretanto já se moderou um bocadinho no contexto deste disparate, para dizer o mínimo. Já falou ao telefone com o presidente Zelensky na semana passada e disse que estava disposto a contribuir para a resolução do conflito, mas que isso implicaria sentar as duas partes beligerantes à mesa para negociar. Qual é o problema? Vamos perceber qual é o problema e qual é a parte positiva. O problema é que todos sabemos o que significa negociar para Trump, que deve ser mais ou menos a mesma coisa que significa para Putin. Ou seja, ceder território ucraniano. E portanto, essa não pode ser uma condição negocial, porque obviamente não conduziria a uma paz justa e a uma paz que pudesse deixar o menor número de ressentimentos na região e nos dois povos envolvidos. Portanto, o mais certo seria que uma nova guerra deflagrasse no espaço de poucos anos. Por outro lado, e este é o lado positivo, em política, como aliás em geral na vida, nós não trabalhamos com o desejável, nós trabalhamos com o que há. E o que há de mais provável é um novo presidente nos Estados Unidos com pouco interesse em investir e em continuar a ajudar os ucranianos como até aqui tem vindo a ser feito. Ora mais depressa, ora mais devagar, ora com mais bloqueios ou com menos bloqueios, a verdade é que os Estados Unidos, o dinheiro e as armas dos Estados Unidos, provavelmente salvaram a Ucrânia do desastre. Esta guerra já leva mais de dois anos e a Ucrânia, obviamente sozinha, não teria conseguido suportar todo este esforço, significando isso que perder o apoio norte-americano não pode ser sequer considerável para o governo ucraniano. E é por isso, como eu comecei por dizer, que Zelensky já está a trabalhar, pelo menos ao nível da diplomacia e da sua narrativa acerca deste tumulto norte-americano, ele já está a trabalhar com o que há. Desde logo está a planear a apresentação de um novo plano de paz numa nova cimeira internacional, ainda este ano, em novembro, onde Zelensky considera, desta vez, a presença de representação russa, o que está, de resto, conforme, e sublinho, que está conforme a exigência de Trump no telefonema entre os dois. Portanto, há aqui claramente uma procura pelo agrado do candidato republicano

Ainda, Daniela, desculpa interromper-te, que a Rússia, tanto quanto sabemos até agora, declinou o convite para estar presente nessa cimeira.

Certo, mas até lá vamos ver se o próprio Trump não poderá exercer aqui alguma influência, no sentido de, uma vez que já conseguiu fazer vergar o lado ucraniano, vamos ver se com algum charme, e fruto também da amizade que os dois têm, Trump e Putin, ou pelo menos da relação simpática que têm, vamos ver se não consegue fazer também vergar o lado russo. Como eu dizia, e também serei muito breve para terminar, Zelenskyy está claramente à procura de agradar a pessoa que ele sabe que tem as maiores probabilidades de vencer em novembro. E este mês, a própria data da cimeira não é casual. Há também uma tentativa de fazer confluir os eventos, e eu diria que com o intuito de colocar a Ucrânia numa agenda que é internacional, que seja badalada, que seja conhecida e que seja relevante do ponto de vista global, numa altura em que vamos todos estar a falar, a comentar e a observar a política internacional e designadamente no epicentro intelectual dessa política internacional, que são os Estados Unidos, por causa das eleições. Zelenskyy quer colocar o seu país, a sua causa e esta guerra no centro dessa agenda. Portanto, até novembro, julgo eu, o ideal será estar de bem com ambos os lados da barricada, com os democratas e com os republicanos, mas ir abrindo a via para este lado republicano, que é um exercício que a mim me parece muito inteligente da parte de Zelenskyy, significa que ele está atento e significa que ele percebe que estas eleições vão ser cruciais na definição da soberania e da história do seu país daqui para frente, e por isso ele vai ter que lidar com qualquer que seja o resultado, sabendo ele e sabendo nós que o mais provável é que seja esse resultado a vitória de Trump e da retórica trumpista. Portanto, Zelenskyy está a fazer o que está certo, está muito estrategicamente e muito inteligentemente a zelar pelo seu país e pelos seus conterrâneos.

Obrigada, Daniela Nunes. Fica por aqui mais um episódio de Gabinete de Guerra. Regressamos amanhã.