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Gabinete de Guerra na Rádio Observador, o último da semana. Vamos analisar mais uma vez alguns dos principais focos de tensão um pouco por todo o mundo. Contamos esta sexta-feira com a análise de Bernardo Valente, especialista em Relações Internacionais. Olá, boa noite, Bernardo.
Olá, boa noite.
Seja bem-vindo mais uma vez e obrigada por ter aceitado o nosso convite. Hoje vamos trocar as voltas do que temos feito em semanas anteriores. Vamos começar pela guerra na Ucrânia. Putin aceitou uma trégua por ocasião da Páscoa, que se celebra naquela região da Europa, no Leste Europeu, essencialmente no dia 12. É a Páscoa Ortodoxa, portanto é no próximo domingo. Por que Putin se mostra sensível, já pela segunda vez, a esta trégua de Páscoa e nada mais? Qual é que será a estratégia do presidente russo?
Olá, boa noite mais uma vez e obrigado pelo convite. Me parece que temos aqui duas dimensões. Por um lado, temos a dimensão da importância da Igreja Ortodoxa Russa na Rússia e na plataforma euro-asiática em geral, aliás, até a relação próxima que Putin tem com Kiril, o líder, que seria uma espécie de aiatolá, agora que se fala tanto dos regimes teocráticos da Igreja Ortodoxa Russa. Portanto, Vladimir Putin, de facto, tem tido sempre esta tendência para em períodos pascais, é imbuído assim numa espécie de uma paz cristã. Por outro lado, temos a dimensão que me parece mais importante e que é o que importa discutir, que é a dimensão estratégica que liga o conflito da Ucrânia, da Rússia, ao conflito no Irão. Portanto, a Rússia, de alguma forma, beneficiou daquilo que foi o último mês, as últimas cinco semanas de conflito entre o Irão e os Estados Unidos e Israel, e ao beneficiar, principalmente do ponto de vista económico e energético, ao terem levantadas as sanções à economia russa, Vladimir Putin teve aqui agora não só um novo canal diplomático, mas também uma brecha económica e portanto, este novo canal diplomático e brecha económica que surge para o mercado energético russo acaba por ser favorável também a Vladimir Putin, que agora quer o quê? Quer alinhar estratégias, ou seja, quer redefinir a sua diplomacia, alinhar estratégias. Por quê? Porque a própria Ucrânia, soubemos ontem que Zelensky admitiu que na região do Golfo conseguiu, de facto, abater alguns drones da Guarda Revolucionária Iraniana, dos proxies do Irão, portanto Hezbollah e por aí fora, dos Houthis. E Zelensky então também está envolvido nesse conflito. Portanto, temos aqui uma ligação um pouco perversa, mas geopolítica e geoestratégica, entre aquilo que é o conflito na Rússia e na Ucrânia e aquilo que é o conflito no Irão. Vladimir Putin, de alguma forma, foi talvez, para além da China, quem mais beneficiou deste conflito ou destas seis semanas no Irão. E por outro lado, Zelensky mostrou a força ucraniana, principalmente uma força ucraniana que se especializou na defesa aérea, desde que há quatro anos tivemos os ucranianos a defenderem-se com drones muito arcaicos e que agora são especialistas reconhecidos do ponto de vista internacional e que de facto foram para o Golfo, tiveram uma participação também junto das monarquias do Golfo, participação essa que afirma não só a Ucrânia como especialistas, como dizia, no domínio da defesa aérea, mas também abre aqui um novo caminho para uma autonomia fora da plataforma euro-asiática, fora da influência russa, uma autonomia energética para a Ucrânia.
Ali um pouco ao lado da Ucrânia, há eleições na Hungria no domingo. Orbán está atrás nas sondagens. Há especialistas que avisam que em caso de derrota, quer Orbán, quer a Rússia podem não reagir de forma democrática aos resultados. O que podemos esperar, Bernardo, caso se confirme que Péter Magyar vença as eleições e perca o atual primeiro-ministro?
Uma boa notícia é que afinal esta ditadura, que não lhe chamaria ditadura, e realmente a vivência na Hungria, e estive lá há pouco tempo, não está imbuída neste espírito ditatorial. No entanto, se Orbán cair realmente e se aceitar a sua queda de forma pacífica, que são duas coisas muito diferentes, e tivemos experiências semelhantes com líderes políticos que também têm uma simpatia especial por Orbán, como por exemplo com Trump e até o próprio Bolsonaro, portanto, experiências em que o resultado eleitoral, a democracia e o valor das instituições não foi respeitado. No entanto, se isso se verificar e tivermos então o consumar desta transição de poder, não é uma mudança de regime, ou seja, o regime e as instituições manter-se-ão as mesmas. No entanto, há aqui uma diferença, principalmente na narrativa em relação à União Europeia. É importante recordar que o próprio Magyar em tempos teve alguns momentos em que mostrou o seu euroceticismo, no entanto, é um líder mais moderado relativamente à relação da Hungria com a Europa. Portanto, para a Europa, o ponto positivo verdadeiramente é que deixa de ter aquele que é o seu principal cavalo de Troia a minar a União Europeia por dentro, que é a pessoa também mais próxima, o líder europeu mais próximo de Vladimir Putin.
É quase um espião do Kremlin na Europa, não é?
É quase um espião do Kremlin e o problema é que pelo fato de a União Europeia não ter os mecanismos para expulsar os seus Estados-membros E, portanto, este caso da Hungria, como o caso da Eslováquia, seriam casos crassos para poder ativar esse mecanismo, se o tivéssemos. O que resta à União Europeia, uma vez que não tem esse mecanismo, é apelar à normatividade, ao consenso e ao conluio de todos os Estados-membros. Mas é uma Europa, como sabemos, a várias velocidades e, portanto, Viktor Orbán tem funcionado como um agente do Kremlin, mas como um agente do Kremlin que tem, de facto, agência. Ou seja, Viktor Orbán tem bloqueado a maior parte das decisões relativamente à guerra da Ucrânia e da Rússia, decisões essas que beneficiariam, principalmente do ponto de vista económico e armamentista, a Ucrânia, portanto, tem conseguido atuar naquilo que é o esforço de guerra da Rússia e da Ucrânia, mas de forma indireta. Este é um dos primeiros pontos. Agora a Europa terá que perceber que a história é cíclica e teremos outros líderes, como temos agora, por exemplo, o líder da Chéquia, que também tem este euroceticismo, também tem algumas relações com Vladimir Putin, até porque vem de um background relativamente semelhante, em que passou pelos serviços secretos, tem também um background relacionado com os negócios na República Checa ou agora na Chéquia. E a Europa, enquanto não tiver esse mecanismo de expulsão, enquanto não conseguir de facto atuar, seja a nível de sanções, seja a nível de uma expulsão de jure, portanto, uma expulsão que fica consumada na legislação, mecanismo de expulsão que fique consumado na legislação, vai estar sempre muito dependente de um consenso que é difícil neste momento pela Europa.
Bernardo, mas a Rússia está, de alguma forma, também a investir nestas eleições na Hungria, porque interessa ao Kremlin que Viktor Orbán se mantenha no poder e, portanto, se isso de facto não acontecer, que é o que apontam as sondagens, qual é a reação que podemos esperar do Kremlin? É uma reação democrática, pacífica?
Esse é o grande problema, porque temos não apenas o Kremlin a jogar nessa dimensão de minar a Europa por dentro, mas temos também os Estados Unidos, como vimos na estratégia de segurança, exatamente a minar a Europa da mesma forma e pelo mesmo ator que é Viktor Orbán, neste caso. E não é à toa, não é por acaso, que o J. D. Vance agora foi fazer o périplo também pela Europa, como Marco Rubio tinha feito na altura da reunião de Davos, para dar força a Orbán, no momento de campanha que antecede as eleições. Portanto, os Estados Unidos e a Rússia, neste caso, estão alinhados. E este caso é mitigar, erudir aquilo que será a possibilidade da Europa se assumir como um polo competitivo e um polo autónomo em todas as dimensões da economia global. Portanto, Vladimir Putin vai ter que aceitar o resultado eleitoral, mas não aceitará o resultado eleitoral de bom grado e podemos ver isso que ainda hoje o político noticiava que Viktor Orbán começa a dizer que é o Facebook e as redes sociais que estão a fazer uma campanha paga pela União Europeia para o destronar. E vão começar a surgir aqui as primeiras noções ou a primeira imputação de culpa àquilo que é o ecossistema digital europeu como uma causa da fraude nas eleições e pode-nos fazer adivinhar aqui que será difícil convencer Viktor Orbán, convencer Vladimir Putin, convencer Donald Trump, que uma vitória de Peter Magyar será uma vitória limpa, porque eles farão questão de afirmar que a vitória não foi limpa e que teve grande mão, grande pulso dos serviços de inteligência europeus, principalmente a partir do ecossistema digital e das redes sociais.
Vamos focar-nos agora no maior foco de tensão, conflito no Irão. Há constantes avisos de Donald Trump. Aliás, cada vez que nós falamos, Donald Trump diz tudo e o seu contrário. Um dia diz que o acordo com o Irão está próximo, no dia seguinte diz que vai atacar, ou às vezes até no próprio dia ou na própria hora, como sabemos, não é, Bernardo? Estes constantes avisos de Trump ao Irão, que muitas vezes são contraditórios, a pergunta é se mostram de alguma forma um desespero dos Estados Unidos, uma falta de estratégia ou até interesse em arranjar alguma razão para sair do conflito. Por exemplo, ainda há pouco, Donald Trump deixou uma mensagem enigmática na sua rede social a dizer que vai haver um reset absoluto. Não sabemos muito bem o que isso quer dizer.
O que isso significa, exato. Essa é uma das grandes questões, o que é um reset absoluto. No entanto, é sintomático daquilo que todos vimos desde o início do conflito, que é: entrou sem um plano estratégico no Irão, o Irão ofereceu mais resistência do que os Estados Unidos e Israel pensavam que poderia oferecer e portanto, Donald Trump agora tem muito mais incentivos para sair da guerra do que para a continuar. Um dos grandes incentivos é, como estávamos aqui a falar também do espírito eleitoral e das denúncias de fraude de Viktor Orbán, um dos incentivos é precisamente as eleições intercalares nos Estados Unidos, que sabemos que esta guerra não é popular junto do seu eleitorado, nem sequer é popular, veja-se, dentro do eleitorado MAGA. Ou seja, dentro da administração de Donald Trump, tivemos J. D. Vance com um silêncio, diria, ensurdecedor durante todo este conflito, durante as primeiras seis semanas deste conflito, porque J. D. Vance apoia muito mais aquela ideia da doutrina do hemisfério ocidental, da doutrina Monroe, depois aplicada à doutrina Dunroe, portanto, um controle do seu quintal, da América do Sul e América Central, principalmente por parte dos Estados Unidos, como acontecia no século XIX, e não estas aventuras, estas cruzadas, como Peter Axel lhes chama, para o Médio Oriente. Esta é a primeira dimensão, a divisão no MAGA. E a divisão no MAGA, aliás, que ficou muito bem ilustrada pela demissão de Joe Kent. Foi ele próprio que decidiu sair pelo próprio pé. Joe Kent, que era o diretor do Centro Nacional de Contra-Terrorismo, que aliás perdeu a sua mulher no atentado bombista na Síria há cerca de uma década, e mesmo ele, que tinha todas as razões para ter um ódio visceral ao mundo islâmico, mesmo ele foi dos primeiros a demitir-se. Portanto, percebemos aqui que há uma divisão clara naquilo que é o eleitorado do MAGA e aquilo que é a própria administração do MAGA. E portanto, Donald Trump tem esta vertente eleitoral e de divisão do seu eleitorado, que já percebemos que está patente e este interesse nacional tem implicações naquilo que são os interesses estratégicos norte-americanos na região. Depois, a pressão do estreito de Ormuz faz com que Donald Trump, neste momento, sinta também a pressão da economia internacional nas suas costas. A possibilidade do Irão, neste momento, conseguir, por exemplo, cobrar uma portagem, que não deixa de ser uma violação internacional, é verdade, mas cobrar uma portagem que permita, por exemplo, a certo ponto, deixar apenas passar navios chineses, deixar passar navios que façam sentido do ponto de vista de alavancagem diplomática para este momento de cessar-fogo Há a possibilidade do estreito de Ormuz ter uma cartada forte também na alavancagem diplomática para estas negociações que estamos a ver e para fazerem impor, de alguma forma, os seus 10 pontos aos Estados Unidos. Mas há aqui um problema crônico, um problema maior que tudo isto e que já não é tanto relativo ao interesse dos Estados Unidos, mas é ao contexto geopolítico e histórico que torna este cessar-fogo muito difícil e que torna também uma saída de Donald Trump deste conflito muito difícil. A primeira parte desta ideia da dificuldade da saída de Donald Trump é que deixará sozinho numa região cada vez mais instável o seu maior aliado, Israel, e deixará também sozinho, ou pelo menos com maior instabilidade e dificuldade de lidar com os seus vizinhos, as monarquias do Golfo, que são também aliados muito próximos dos Estados Unidos do ponto de vista económico. E depois há a questão do Líbano, que neste momento, mais que tudo, o que está a impedir o fim da guerra é precisamente a questão do Líbano. E o governo libanês, nas últimas seis semanas, tem dado sinais de estar do lado dos Estados Unidos e de Israel. Netanyahu e o seu plano do Grande Israel inclui uma buffer zone, uma zona de controle dos proxies iranianos e da Guarda Revolucionária Iraniana no sul do Líbano e portanto, Netanyahu irá perseguir este objetivo até os Estados Unidos continuarem a legitimarem a sua continuação e dizerem que de fato continuarão no conflito a apoiar Israel. Este é um dos grandes problemas, tal e qual como foi um problema desarmar o Hamas no conflito em Gaza. O que vamos ver aqui é que quanto ao Hezbollah vai acontecer precisamente o mesmo, ou seja, certeza absoluta que num próximo plano de cessar-fogo elaborado pelos Estados Unidos e por Israel, estará lá consubstanciado este ponto de termos que desarmar o Hezbollah. Só que o Hezbollah, para além de ter uma facção política, como já elaborei até noutros gabinetes de guerra, tem essa facção política, social, cultural e consolidador, principalmente no Ministério da Saúde e no Ministério da Cultura, no entanto, não deixa de ser uma milícia organizada, não deixa de ser uma milícia terrorista.
Claro. E num minuto vamos falar aqui do regime iraniano e sobretudo dos iranianos. O que é que este povo tem beneficiado com este conflito?
Os iranianos, no fundo, não ganham nada. O regime ganha no sentido em que não perde, portanto, conseguiu mostrar ao mundo e aos Estados Unidos que a tal defesa em mosaico e a defesa dos proxies acontece de tal forma que têm acautelados três, quatro pessoas para cada subestrutura, para a liderança de cada subestrutura, caso as suas lideranças possam eventualmente morrer em combate, que foi o que vimos, e que portanto têm uma população junto de si, que são cerca de 20 milhões de apoiantes ainda dentro do Irão, que são na sua maioria trabalhadores da administração pública e que continuarão a apoiar este regime, mas na verdade ninguém ganha. Ou seja, o povo iraniano, como o povo libanês, está a sofrer como dano colateral deste conflito. A transição de regime parece hoje mais difícil do que era há um mês e portanto, na conclusão, bom, como em todas as guerras, perde-se muito mais do que se ganha e o próprio Donald Trump também já percebeu que ele também não ganha nada com este conflito. Veremos agora, neste novo cessar-fogo com Galibaf, de um lado, que Donald Trump já percebeu que gosta deste representante iraniano, Galibaf. Por outro lado, com J.D. Vance, que é muito antibélico, pode ser que tenhamos aqui algum resultado palpável.
Fechamos esta semana de gabinete de guerra com essa mensagem, Bernardo Valente, essa mensagem importante que realmente com as guerras ninguém ganha. Fica por aqui o gabinete de guerra desta sexta-feira. Bernardo Valente, bom fim de semana, até à próxima. E voltamos na próxima segunda-feira.