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Gabinete de Guerra na Rádio Observador, como o Nélson Ferreira aqui há pouco anunciava. Esta é a segunda edição do dia, com a presença do historiador Bruno Cardoso Reis, a quem agradeço pela disponibilidade para analisar alguns dos temas que vão marcando a atualidade internacional. E hoje, esse Conselho Europeu que decorre em Bruxelas com o apoio à Ucrânia em plano de fundo. Há pouco, Bruno, a conferência de imprensa do presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, respondeu àquela provocação de Donald Trump, que disse que não era grande fã de Zelensky?

Olá, boa tarde a todos. Sim, basicamente, Zelensky tem esta característica, que é realmente um líder de guerra, muito mais do que propriamente um diplomata ou um líder convencional. Isso também temos que ter em conta que ele está há quase cinco anos a liderar um país em guerra e que é a ele que lhe cabe, muitas vezes, ir falar com as viúvas, com os órfãos, com as pessoas que têm de ser amputadas como resultado deste conflito. E, portanto, percebe-se que realmente ele nunca teve esta característica de ser muito diplomático. Também provavelmente é isso que ajuda a explicar a forma como tem conseguido liderar a resistência ucraniana em circunstâncias muitas vezes muito difíceis. Mas aqui ele foi bastante claro dizer basicamente isso. Quando lhe perguntaram isso, ele disse: "Eu tenho de defender os interesses da Ucrânia. A Rússia está a invadir o nosso país, está a matar os nossos cidadãos, está a ocupar o nosso território, recusa-se a parar". Ele voltou a repetir, aliás, a recordar que ele aceitou a tal proposta de um cessar-fogo energético. Agora tem que ser um real cessar-fogo e tem de ser minimamente equilibrado, ou seja, não pode ser o país agredido deixar de se defender atacando, por exemplo, infraestruturas que são muito importantes para o esforço de guerra, para alimentar o orçamento de Estado russo, como é tudo que é as infraestruturas ligadas à energia na Rússia, e a Rússia continuar a atacar civis ucranianos e a infraestrutura energética ucraniana, como tem continuado a fazer. Portanto, realmente há aqui uma enorme assimetria na forma como Donald Trump lida com Putin e com Zelensky, que tem suscitado muitos comentários ao longo dos anos. Ele também tem oscilado nisso.

A Ucrânia ainda pode contar com o apoio dos Estados Unidos nesta altura do campeonato e tendo em conta as declarações dos últimos dias?

Essa é realmente a grande questão, e não é uma questão indiferente. É verdade que em termos de doação de equipamento militar, basicamente isso parou já e foi assumido na medida do possível pelos europeus ou através de equipamento europeu, ou de compras com dinheiro europeu de equipamento americano, mas os Estados Unidos podem recusar-se continuar a vender. Aliás, têm estado a restringir muito as vendas dos interceptores, por exemplo, dos Patriot. E depois ainda há outra questão que para os Estados Unidos não custa nada, basicamente, mas que é usar os enormes meios de recolha de informações de espionagem e também os meios de comunicação, inclusive privados.

O Starlink, não é?

O Starlink.

Sim, que o Elon Musk disse que as falhas do Starlink não são da responsabilidade dele.

E eu acredito que sim. Depois de haver uma enorme controvérsia no início da guerra, realmente houve um acordo e, portanto, criou-se os chamados Starshield, ou seja, no fundo, a parte militar, o uso militar do Starlink passou a estar sob o controle do governo americano, que paga, por sua vez, ao Elon Musk, mas obviamente o Elon Musk pode ter sempre aí alguma palavra a dizer, mas em última análise, e em princípio, quem decide será realmente o governo e o presidente americano, que foi o que disse o Elon Musk. E portanto, isso são coisas que realmente são muito difíceis de substituir. Estamos a falar de milhares de satélites.

Era isso que ia perguntar, se os europeus têm essa capacidade ou não para se substituir aos Estados Unidos na partilha de informações.

Os europeus estão a investir nisso e Portugal até tem tido aí algum protagonismo também nesta questão do espaço, como uma dimensão cada vez mais importante, de facto, nos conflitos armados, mas nisso, como noutras áreas, estão no fundo a tentar compensar o prejuízo e o atraso. Estão a tentar aproximar-se daquilo que os Estados Unidos já têm. E portanto, isso realmente é um problema quando estamos a falar de um conflito armado em curso, em que obviamente a questão de quanto tempo é que demora é a questão crucial. Dizer que está disponível daqui a dois anos, isso não serve nada para a Ucrânia. E portanto, aliás, nas próprias declarações de Zelensky, essa questão também aparece, que é: ele diz que só ouviu palavras de apoio, não ouviu críticas. Havia esta ideia de que os europeus talvez pudessem pressionar um pouco Zelensky a ser um pouco mais diplomático nas declarações sobre Trump, mas a verdade é que ele também insistiu: "Bem, eu agradeço muito o apoio que foi sempre declarado, agora vamos ver como é que se concretiza, com que rapidez é que se concretiza". E realmente esse é o grande problema, é o grande drama da Ucrânia e dos europeus também, é que realmente estão aqui a tentar compensar, digamos, um período longo em que a guerra parecia uma realidade muito distante e em que nós nos podíamos envolver ou não de acordo com os nossos interesses ou os nossos valores. Realmente, já há vários anos que é uma realidade no continente europeu e há muitos países europeus que têm o receio que se as coisas correrem mal para a Ucrânia e correrem bem para a agressão russa, a seguir eles podem ser os alvos. Estamos a falar de países como, por exemplo, os países bálticos, que à partida, pela sua pequena dimensão, pequena população, etc, até são muito mais vulneráveis do que a Ucrânia.

Como é que interpretas esta aparente aproximação de Donald Trump a Vladimir Putin e, por consequência, afastamento em relação a Zelensky e à causa ucraniana?

Bem, foi perguntado a Zelensky se ele era, digamos, o álibi de Donald Trump na questão do preço dos combustíveis E também no contexto político interno americano, em que temos eleições à porta. Vamos ter eleições intercalares a 3 de dezembro, que vão decidir o controle da Câmara dos Representantes e um terço dos lugares no Senado. Zelenskyy limitou-se a sorrir e disse que era essa a resposta dele. Eu acho que realmente a explicação mais evidente é essa. À partida, temos este dado, que eu tenho sempre sublinhado, que é Trump tem uma clara preferência, uma clara simpatia, uma clara admiração, uma clara empatia com líderes autoritários, com o presidente Xi, até com aquele ditador grotesco da Coreia do Norte, o último representante da dinastia comunista da Coreia do Norte. Portanto, há realmente esse dado, que é um dado permanente. E, por regra, tende a ser muito crítico dos aliados tradicionais, dos líderes democráticos, que são aliados tradicionais dos Estados Unidos, talvez porque ache que tem mais a ganhar com os ditadores, que podem inclusive fazer negócios sem terem de prestar contas a parlamentos, a tribunais, etc. E também ele tem esta ideia, realmente, de que, por regra, as alianças são uma espécie de abuso dos Estados Unidos, um abuso e um constrangimento também ao poder do presidente americano. Portanto, isso são dados permanentes. Agora, por que agora? E esta questão, parece-me que é evidente, que é realmente uma tentativa de desviar a conversa, portanto, desviar a conversa de que isto é causado por aquilo que é causado, que é o conflito com o Irão. Realmente, o peso dos países do Golfo no mercado energético não tem nada a ver com o da Rússia. Estamos a falar de qualquer coisa 4% ou 5% pra 20% ou 25%. Portanto, desviar daí a atenção, aparecer aqui com uma suposta solução, embora também todos os especialistas dizem que isto, mesmo que se concretize, que é pouco provável que a Rússia consiga exportar os volumes que prometeu, mesmo que exportasse todo esse valor, era uma gota de petróleo ou de gasóleo no oceano, portanto, teria um impacto mínimo no mercado. E, portanto, parece ser, sobretudo, uma tentativa realmente de desviar atenções e convencer alguns eleitores mais distraídos de que isto poderá ser uma solução.

Era o que eu te ia perguntar também, fazias referência às eleições intercalares, se, de facto, entre o povo norte-americano, esta aproximação à Rússia é bem vista.

Nós não temos ainda sondagens, mas todas as sondagens que temos anteriores mostram que, pra generalidade dos americanos, há uma clara simpatia pela Ucrânia e uma clara rejeição da invasão russa. Mesmo entre os republicanos, uma percentagem significativa tem esse ponto de vista. Até entre os líderes republicanos no Congresso, senadores, congressistas, há muitos que realmente são críticos dessa aproximação. Outros não, outros até parecem mostrar alguma simpatia por Putin e por este regime muito nacionalista, autoritário, reacionário de Putin, mas pra já parecem ser uma minoria. Eu vi alguns debates que têm estado a decorrer nos últimos dias e vários congressistas ou senadores republicanos deixaram claro que estavam contra este acordo com a Rússia, republicanos, portanto, candidatos republicanos à eleição ou à reeleição. Portanto, não parece estar a ser particularmente eficaz, mas, em todo caso, esse argumento não quer dizer que funcione com Trump. Ele também não tem boas opções neste momento. Realmente, as sondagens são-lhe muito desfavoráveis. Ele está com níveis historicamente elevados de impopularidade. As sondagens todas apontam para uma vitória praticamente certa dos democratas na Câmara Baixa, talvez com uma margem de 30 ou mais deputados, e mesmo no Senado, que são só um terço dos lugares, e dois terços desses lugares são em estados muito conservadores. Ainda assim, não é impossível que os democratas vençam ou que empatem, ou seja, estamos a falar de estados como o Texas, o Alasca, o Kansas, que não elege um democrata há quase 100 anos, que é um estado historicamente republicano. As sondagens dão basicamente um empate técnico entre o candidato republicano e o candidato democrata. E, portanto, realmente, Trump parece estar aqui com poucas boas opções. Infelizmente, a má opção que ele escolheu realmente é péssima, não só pra Ucrânia, mas também pros interesses, pra segurança da Europa.

Era também o que eu te ia perguntar, em que medida é que esta aparente mudança de orientação da Casa Branca tem impacto nas relações transatlânticas entre a União Europeia e os Estados Unidos.

Tem, e tem um impacto muito negativo, ou seja, alimenta esta ideia de que os Estados Unidos não são um aliado fiável. Convém recordar, as pessoas dizem: "A Ucrânia não faz parte da NATO". É verdade, mas os Estados Unidos assumiram um compromisso, deram uma garantia de segurança à Ucrânia. Os Estados Unidos empenharam-se neste esforço de chegar a algum tipo de acomodação com a Rússia. Empenharam-se em 1994, em que a Ucrânia entregasse todas as armas nucleares que tinha herdado da União Soviética à Rússia. Em contrapartida, quer a Rússia, quer os Estados Unidos garantiram expressamente as fronteiras da Ucrânia tal como ela se tornou independente, como ela se tornou independente em 1991, incluindo o Donbass, a Crimeia. Portanto, os Estados Unidos assumiram essa obrigação. Já não a estão a cumprir, ou só a estão a cumprir minimamente. E, de facto, isso obriga os europeus a pensar realmente se pode confiar numa garantia de segurança como o artigo quinto da NATO. Se nós achamos que Donald Trump, se houver uma agressão, um ataque a um país europeu, felizmente, Portugal não é o alvo mais provável, são países como, por exemplo, os países bálticos, etc. Mas não podemos dar tudo por adquirido que Donald Trump irá reagir de forma robusta. Toda esta predisposição a chegar a acordos com a Rússia custe o que custar, só alimenta, no fundo, a determinação da Rússia continuar com a guerra, pensar que o tempo está a seu favor, que a Ucrânia terá cada vez menos apoio, alimenta os setores na Europa que também são hostis ao apoio à Ucrânia. Ainda ontem ouvimos declarações, por exemplo, da Alice Weidel, da líder da AFD alemã, dizendo: "O próprio presidente Trump dizendo que nós não devíamos comprar combustíveis à Rússia, gás natural". Ao que, aliás, o próprio Donald Trump dizia, porque queria que nós comprássemos gás natural aos Estados Unidos. Foi muito crítico das compras de gás natural pela Alemanha no passado. Mas, portanto, a Alice Weidel diz: "Bem, é o próprio presidente Trump que está a fazer acordos pra comprar combustíveis à Rússia, por que nós não podemos voltar aos bons e velhos tempos em que não apoiávamos a Ucrânia, não gastávamos dinheiro com a Ucrânia e comprávamos combustível à Rússia?" Portanto, no fundo, tudo isto mina a coesão da Aliança Atlântica, mina a coesão entre os países europeus e os Estados Unidos e no interior dos países europeus, e torna mais tentador, eventualmente, pra uma Rússia agressiva, testar as águas e tentar perceber até onde é que pode ir naquilo que declaradamente é, no caso de Putin, esta ambição de alguma forma restaurar, pelo menos em parte, a grandeza do velho Império Russo ou Soviético.

Tempos de incerteza estes que atravessamos, aqui analisados pelo historiador Bruno Cardoso Reis, na segunda edição do dia de Gabinete de Guerra.

Obrigado.