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Fazemos nos próximos minutos, na Rádio Observador, um ponto de situação dos conflitos na Ucrânia e no Médio Oriente. Hoje com Francisco Pereira Coutinho, especialista em Direito Internacional. Vamos falar da Ucrânia e também do Médio Oriente, mas começamos com as eleições na Moldávia. Eleições e referendo. Um referendo que tinha como pergunta alterar a Constituição, se concorda com a alteração da Constituição de forma a permitir a entrada do país na União Europeia. Ora, Francisco Pereira Coutinho, como é que vê os resultados destas votações? No referendo, um sim muito curto, 50,3% da população disse sim a essa alteração da Constituição para permitir a entrada na União Europeia. E quanto às eleições, vamos ter uma segunda volta, para já a vitória de Maia Sandu, a candidata, podemos dizer, pró-Ocidente, contra a facção pró-Rússia, mas consegue uma vitória. Vamos ter uma segunda volta. Para já, o que é que podemos dizer destas eleições da Moldávia?
Olá, Miguel. Muito boa tarde. Foi, de facto, um resultado no referendo, mesmo à tangente, 50,3%. Eu creio que os votos não estão ainda completamente todos apurados, mas aparentemente terá vencido o sim a uma alteração constitucional que vai prever o desejo da Moldávia se tornar um Estado-membro da União Europeia e vai repetir aquilo que a Ucrânia também fez na sua Constituição, para grande fúria do Kremlin. Até porque isto foi um resultado que só hoje soubemos que seria favorável à adesão à União Europeia, com os votos da diáspora. Eu vi algo que nunca tinha visto. Quando estavam apurados 90% dos votos, o não tinha uma vantagem de 5%. Isto é a prova de que temos que esperar mesmo pelo fim para sabermos os resultados de qualquer ato eleitoral ou, neste caso concreto, um referendo.
Aquilo que foi noticiado é que a população que vive no estrangeiro acabou por ter grande influência, foram os últimos votos a ser contados e que foi a partir daí que se começou a dar essa viragem para o sim neste referendo.
Sim, completamente. Foi uma viragem dramática à última hora e que acabou com o resultado mesmo à tangente. Aliás, Maia Sandu está neste momento também nas presidenciais, passou à segunda volta com mais de 40% dos votos, embora não seja certa ainda a sua reeleição. A certa altura ontem fez uma conferência de imprensa, antecipando a vitória do não, vindo dizer que estas eleições foram muito influenciadas por uma campanha de desinformação da Federação Russa, ciberataques, há registo de tentativa de suborno ou mesmo de suborno de milhares de eleitores. Mas apesar de tudo isso, venceu o sim. É preciso também dizer que a Moldávia é uma antiga república soviética que tem uma região separatista, a Transnístria, onde estão ainda tropas russas. Portanto, a influência da Federação Russa no processo político da Moldávia é enorme. Por isso é que hoje ouvimos Peskov furioso com este resultado eleitoral, dizendo que houve aqui uma chapelada, justamente por aquilo que estávamos a falar agora. Até à contagem dos votos na diáspora, a maior parte de moldavos no Ocidente, parecia que o não iria vencer, mas isso acabou por não acontecer e a Moldávia escolheu, tal como a Ucrânia fez há 10 anos, virar-se para o Ocidente e não para Oriente. Agora, é evidente que o destino da Moldávia está muito relacionado com aquilo que se passa na Ucrânia.
É isso que podemos esperar agora de uma reação russa a tudo isto? Podemos prever algum tipo de movimentação perante o que aconteceu nesta votação?
Já começaram dizendo que terá ocorrido aqui algo de muito anômalo para que a vantagem do não se tivesse eclipsado com a contagem dos últimos votos, mas como o Miguel explicou, isto tem a ver com os votos de diáspora e vamos ter agora uma segunda volta. Maia Sandu é, de facto, uma presidente que foi eleita numa plataforma anticorrupção e muito voltada justamente para uma Moldávia europeia e não rusófila. Agora já percebemos, isto é verdade, que temos um país muito dividido. É um país muito pobre, o país mais pobre da Europa e muito exposto a campanhas de disrupção e tentativas de desinformação oriundas da Federação Russa. Vamos ver como é que corre a segunda volta, porque ela tem um opositor que é apoiado justamente pela Federação Russa. Será também uma eleição muito apertada, apesar de ela ser alguém muito competente, formada também no Ocidente, em Harvard, uma pessoa que merece ser reeleita, mas vamos ver até que ponto é que os eleitores moldavos conseguem resistir a todas estas campanhas de influência russa.
Sendo que, olhando para o conflito na Ucrânia, hoje uma visita do secretário de Estado da Defesa norte-americano a Kiev, reuniu com o Zelensky. Dessa reunião, o anúncio de um novo pacote de US$ 400 milhões de apoio à Ucrânia, essencialmente para apoio militar. O que podemos tirar desta reunião do secretário de Estado da Defesa norte-americano em Kiev?
É uma reunião que tem lugar depois de apresentado o plano para a vitória de Zelensky. Portanto, vamos ver se há algum tipo de declarações sobre isto por parte de Lloyd Austin. E lembro que esse plano incluía um convite para a NATO Passa muito também por uma decisão dos Estados Unidos e também o fim da restrição de uso de armas. Para já, o que temos é um novo pacote, essencialmente de munições, muito importantes, principalmente os HIMARS e fundamentais para a defesa da Ucrânia. Agora Zelensky ambiciona muito mais. Quer mais armas, quer o fim das restrições de uso e quer um convite para aderir à NATO. Agora, tudo isso são desejos que terão que ser respondidos pelo próximo presidente americano, e vamos ter eleições daqui a 15 dias. Austin é o secretário de Defesa, que está também em fim de mandato e, portanto, estamos todos na expectativa de tentar perceber o que vai acontecer nos Estados Unidos, porque isso vai ter, obviamente, consequências sobre o futuro próximo deste conflito na Ucrânia, porque uma vitória de Donald Trump, com elevada probabilidade, levará ao fim do apoio americano à Ucrânia.
Sendo que continuamos aqui a falar de eleições, porque hoje a viúva de Alexei Navalny disse à BBC, numa entrevista que vai ser transmitida ao final da tarde, mas já saiu essa informação, que quer candidatar-se à presidência da Rússia. Está a viver fora da Rússia, claro. É possível algum cenário de sucesso numa candidatura dessas, sabendo a forma como a Rússia controla a comunicação, todas as comunicações, não só a comunicação social, e sendo também alguém que está a viver fora da Rússia nesta altura?
Isso não é claramente possível. Eu creio que ela, aliás, disse que pretende candidatar-se à presidência da Rússia depois de Putin sair. É verdade que Vladimir Putin já tem 62 anos.
Ainda assim.
Ainda assim. E, portanto, eu creio que isto é simplesmente uma aspiração que ela tem. De facto, Alexei Navalny era o principal opositor político de Vladimir Putin, tentou concorrer várias vezes, mas como vimos este ano, tivemos eleições presidenciais na Rússia, todos aqueles que tentaram candidatar-se foram afastados, com exceção de alguns candidatos que são candidatos fantoches e que estão lá apenas a fazer número e que têm votações muito pouco expressivas, incluindo o candidato comunista. Portanto, enquanto este regime autocrático de Vladimir Putin existir, com certeza não haverá qualquer tipo de possibilidade para um candidato da oposição aparecer e ser aceito pelos órgãos eleitorais da Federação Russa. Agora, Vladimir Putin já está em funções há um quarto de século e não vai durar para sempre. Vamos ver como é que vai evoluir o processo político na Rússia, mas com este tipo de eleições, da forma como elas são organizadas, não há qualquer tipo de hipótese de um candidato da oposição poder legitimamente aspirar a ser presidente da Federação Russa.
No conflito do Médio Oriente, a informação hoje de que está agendada para amanhã mais uma reunião de Antony Blinken com Netanyahu. Esta é já a 11ª vez que Blinken visita o Médio Oriente desde os ataques de 7 de outubro do ano passado. Agora é uma reunião com Netanyahu. O que é que estará aqui a procura, os Estados Unidos da América procuram também nestas reuniões com Netanyahu? Podemos estar a falar aqui de um cenário de iniciar um caminho para o cessar-fogo agora que se conseguiu matar o líder do Hamas e o Hezbollah está cada vez mais frágil, tal como o Hamas. O que podemos esperar deste posicionamento norte-americano nestas reuniões em Israel, sabendo nós que há eleições daqui a praticamente três semanas?
Sim, é isso mesmo. Eu creio que aquilo que o Blinken vai procurar fazer é abrir novamente uma janela para um possível cessar-fogo. E digo novamente porque todos assistimos ao que se passou em julho, em que a certa altura Blinken visitou o Médio Oriente sucessivamente e a certa altura disse que esta seria a última oportunidade para um cessar-fogo. Não foi possível, e não foi possível porque de um lado o líder do Hamas, Sinwar, fez finca-pé nas suas exigências, não mostrou qualquer tipo de flexibilidade e, por outro lado, Netanyahu, na altura, veio trazer para a mesa das negociações novas exigências em relação àquelas que tinham, designadamente, a presença no corredor de Filadélfia, na linha de fronteira entre o Egito e a Faixa de Gaza, para além de outras exigências que entretanto trouxe para a mesa negocial e que levaram a que não fosse possível então avançar para um acordo de cessar-fogo e troca de reféns por prisioneiros. Entretanto, a situação agravou-se imenso. Não é menos que entretanto agora temos também um conflito no Sul do Líbano, com uma incursão terrestre israelita. Estamos na antecâmara daquilo que poderá vir a ser a resposta de Israel ao ataque com 180 mísseis iranianos sobre Israel que ocorreu há umas semanas. E, portanto, aquilo que o Blinken entende, e muita gente no Ocidente, é que a morte de Sinwar, o principal inimigo de Israel, o principal responsável pelos ataques de 7 de outubro, estando morto, isto poderia ser o momento em que Israel diria: "Vencemos, conseguimos eliminar o Hamas, conseguimos aqui uma grande vitória". Não será uma vitória total, porque ainda há alguns filhinhos do Hamas em Gaza. E, portanto, isto poderia ser uma janela de oportunidade, como eu referia, para baixar a temperatura do Médio Oriente, porque sempre se entendeu, pelo menos os americanos procuraram transmitir isso ao longo dos últimos meses, que um cessar-fogo em Gaza levaria a um cessar-fogo no sul do Líbano e, por outro lado, levaria a que as relações entre Israel e o Irão não se agravassem ainda mais do que aquilo que se agravaram durante este ano de 2024, em que tivemos os primeiros ataques diretos Entre dois Estados. Portanto, é isso que o Blinken vai procurar. É uma manobra diplomática até um pouco desesperada para procurar convencer os israelitas no momento em que a sua capacidade negocial é relativamente limitada, justamente porque a administração americana está em período eleitoral, em fim de mandato, mas ainda assim o Blinken vai fazer uma nova tentativa para tentar perceber junto de Israel se haverá ou não alguma flexibilidade em relação às exigências que fizeram em julho e tentar também perceber, e isso é algo que nós não sabemos neste momento, qual vai ser o futuro do Hamas, que tipo de liderança vamos ter no Hamas, se vamos ter uma liderança tão ou mais extremista do que aquela que tínhamos com o Sinwar, ou se pelo contrário, poderão emergir líderes dispostos a fazer alguns compromissos.
Sendo que o gabinete de segurança de Israel reuniu no fim de semana e ainda ontem Netanyahu disse que foram discutidas novas ideias sobre um acordo para a libertação de reféns. Esta é a grande aposta de Israel neste momento de ausência de liderança do Hamas, conseguir recuperar os reféns que continuam nesse cativeiro desde 7 de outubro do ano passado.
Exatamente, já passou um ano. Estima-se que são mais de 100, mas muitos deles, infelizmente, já não estarão vivos. Mas a ideia do governo de Israel, ou pelo menos de alguns elementos do governo de Israel, aqueles pertencentes à extrema-direita messiânica, vai no sentido de não aceitar um cessar-fogo e procurar recuperar os reféns por via militar. Algo que Israel ao longo do último ano só conseguiu fazer, creio eu, com seis reféns. Portanto, ainda que o Hamas esteja muito debilitado, será muito difícil esperar que por via militar se consiga recuperar esses reféns. Por outro lado, Netanyahu, logo a seguir a saber-se que o Sinwar tinha sido morto pelas IDF, veio dizer que é esta a altura do Hamas capitular e nós vamos permitir a saída de Gaza daqueles que se renderem. Agora, já passaram alguns dias, não há nenhum sinal de que o Hamas vai se render, que vão capitular, o que significa que a única alternativa é justamente a via negocial para se conseguir recuperar os reféns. Aliás, aquilo que se fez a certa altura com uma pausa humanitária, que foi possível chegar em novembro do ano passado. E portanto, a expectativa agora é essa, tentar perceber se as exigências do Hamas continuam a ser aquelas que eram no verão e que passavam por um cessar-fogo completo, a retirada de Israel de Gaza, ou se pelo contrário, haverá aqui por parte das lideranças do Hamas mais flexibilidade. E se houver, então essas é que serão as tais novas ideias que poderão servir de base para um acordo de libertação dos reféns. Havendo sempre esta restrição, e isto é particularmente problemático, que é aqueles membros do governo de Israel que não estão interessados em que o conflito cesse sem uma vitória total sobre o Hamas e também continuam a insistir na necessidade de destruir o Hezbollah, e isso levará seguramente a uma guerra interminável no Médio Oriente, porque a certa altura será necessário também aqui alguma capacidade de compromisso diplomático entre todos os envolvidos, o que parece não existir neste momento entre alguns elementos do governo de Israel e o próprio Netanyahu, todos sabemos isso, nunca esteve muito interessado no fim do conflito, porque o levaria a que tivesse que responder por aquilo que aconteceu a 7 de outubro e eventualmente convocar eleições, e portanto não é certo que o queira fazer neste momento.
Francisco Pereira Coutinho, muito obrigado por ter estado conosco neste gabinete de guerra. Voltamos amanhã para continuar a analisar os conflitos em curso.