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"Guerra na Terra Santa" é um podcast da Rádio Observador. Em destaque, a situação no Médio Oriente. João Diogo Barbosa, Joe Biden deixou escapar que Israel terá acordado uma pausa nas hostilidades, depois disse que estava a falar de mais, mas podemos de facto considerar essa pausa? Eu pergunto isto porque o embaixador israelita na ONU disse que não vai acontecer e insistiu que a estratégia do Hamas passa por deteriorar a situação humanitária na Faixa de Gaza e aumentar o número de vítimas palestinianas, isto de forma a motivar a ONU e o Conselho de Segurança a deter Israel.
Sendo que ontem houve já uma resolução do Conselho de Segurança precisamente a pedir essa pausa humanitária. A verdade é que os comentários de Joe Biden, apesar do que nós temos visto nos últimos tempos sobre algumas gafes nos discursos, não parecem acidentais. Eu interpretaria mais como uma forma de pressionar as partes a chegar a esse acordo. A verdade é que se fala já há algumas semanas dessa possibilidade de uma pausa humanitária, de um cessar-fogo muito limitado, quer no tempo, quer no escopo, para permitir a entrada de ajuda humanitária e a saída, eventualmente, de algumas pessoas de Gaza. Não tem sido possível chegar aí, porque o Hamas também não tem, aparentemente, mostrado grande disponibilidade de libertar o número de reféns exigido por Israel, mas é uma boa notícia que, por um lado, continuemos a ouvir falar sobre essa possibilidade e, por outro, que o próprio presidente americano venha pôr a questão a público e venha forçar, de certa forma, que o acordo seja feito. Acho que por essas razões, pela pressão pública, pelo conjunto de declarações que temos ouvido, há razões para pensarmos que um acordo pode estar próximo, mas também que esse acordo nunca vai ser uma forma de resolver o conflito. Terá sempre um escopo limitado. Também é duvidoso que se libertem todos os reféns que ainda estão sob o controle do Hamas e, portanto, algum otimismo moderado parece-me que é a postura correta a ter perante estas notícias.
Entretanto, Joe Biden reforçou também que mantém de pedra e cal o apoio a Israel, sobretudo depois de, e disse, o Hamas ter dito que planeia atacar Israel novamente, cortando cabeças de bebês, queimando mulheres e crianças vivas. Portanto, João Diogo Barbosa, o massacre de dia 7 está a ficar esquecido por causa das imagens que nos vão chegando de Gaza, mesmo depois de sabermos que de facto o Hamas usava, por exemplo, o maior hospital de Gaza como base?
Sim, o tempo ia sempre prejudicar a posição de Israel aqui. Quanto mais tempo passar desde aquelas imagens que todos nós vimos, mais difícil vai ser para Israel fazer o seu caso e convencer o mundo de que está do lado certo e que precisa de apoio. Também não traz nos dados a reação brutal que Israel teve em alguns momentos. A resposta claramente escapou até do controle dos Estados Unidos, que durante vários momentos reafirmaram o apoio, mas pediram a Israel que se moderasse, e isso nem sempre aconteceu. Acho que Israel perdeu também um pouquinho o controle da narrativa e isso tem-se visto, desde logo, na ONU. Este é o momento ideal, se calhar, para que Israel modere os seus esforços ao nível militar, que passe a ter objetivos mais concretos e acho que é isso que nós temos visto com a tomada do Hospital de Al-Shifa. Ter objetivos concretos e tentar perceber, para além dos ataques militares, qual é que pode ser a solução política mais ou menos duradoura para Gaza. Esse é um grande desafio. É mais fácil atacar edifícios do que perceber como é que se pode governar aquele território e como é que se pode assegurar que eliminar o Hamas é, de facto, tirar à organização capacidade de conduzir ataques dentro do território israelita. É um desafio muito grande e politicamente muito difícil, sobretudo para um governo israelita que não é muito popular entre os seus cidadãos e também vai tendo uma base de apoio política parlamentar cada vez mais difícil. Há já conversas de moções de censura para o governo Netanyahu e também não seria chocante que alguma instabilidade política começasse a surgir em Israel e isso justificasse alguma mudança de posição do ponto de vista militar.
A "Guerra na Terra Santa" é um podcast da Rádio Observador. Vai para o ar de segunda a sexta, depois do noticiário das 9h30 da manhã e tem nova edição depois da síntese das 16h30 da tarde. Está sempre disponível em podcast. Eu sou a Maria João Simões.