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Começa agora a Guerra na Terra Santa com a análise de Bruno Cardoso Reis, coordenador do Doutoramento em História e Defesa do ISCTE da Academia Militar. Bruno, bem-vindo. Obrigada por teres aceitado o nosso convite para estares conosco hoje, mais cedo do que o habitual.
Olá, bom dia. Obrigada.
Olá, Bruno. Já vamos falar dos ataques aos hospitais de Gaza, mas começamos pelo Pentágono, que anunciou que ataques aéreos dos Estados Unidos terão matado representantes iranianos na Síria, depois de aviões de guerra norte-americanos terem atingido um campo de treino e um esconderijo, isto em resposta aos recentes ataques a militares americanos na região. Bruno, isto não é nada bom. Depois disto vamos assistir o quê? A um alastrar e escalar do conflito?
Eu acho que há aqui um risco sério de isso acontecer e, nesse caso, as consequências poderiam realmente ser dramáticas. Estamos a falar de, muito dificilmente, um conflito que envolva os Estados Unidos e o Irão deixaria, por exemplo, de afetar a segurança do Golfo Pérsico, nomeadamente o Estreito de Ormuz, que é um dos grandes pontos de estrangulamento da navegação mundial e, sobretudo, basicamente 50% do petróleo, por exemplo, que vai para a China, passa por esse estreito. Portanto, o impacto no mercado global e no preço, nomeadamente do petróleo, dos combustíveis, seria potencialmente enorme. É realmente um risco muito sério. Os Estados Unidos têm estado a dar sinais de alguma contenção, mas a deixar claro que não vão tolerar aquilo que tem estado a acontecer, que é, de acordo com as fontes americanas, desde o dia 8, portanto, nestes últimos quatro dias, houve seis ataques de milícias pró-iranianas contra tropas americanas no Iraque e na Síria. Nós tendemos a pensar que se calhar já se foram embora, mas não, eles continuam lá. São algumas centenas na Síria e pouco mais de 2000 no Iraque, que estão lá para tentar garantir, são sobretudo forças especiais, controlam drones, etc. No fundo, para garantir que há uma vigilância e há uma garantia também contra qualquer regresso à atividade do Estado Islâmico, do Daesh. Mas realmente são bastante vulneráveis e já houve ataques que causaram alguns feridos, não mortes americanos, para já. Mas há aqui um sinal claro e o ministro da Defesa americano veio dizer: "Atenção, que nós não vamos tolerar que isto continue. Parem agora, porque senão vamos ter aqui uma escalada muito perigosa". Eu acho que temos que estar realmente muito atentos a esta tensão crescente entre o Irão e os Estados Unidos.
Bruno Cardoso Reis, desde o fim de semana, os ataques aos principais hospitais da Faixa de Gaza. Netanyahu garante que Israel não vai abrandar os ataques contra o maior hospital do enclave e apesar de todas as críticas, apontou o dedo ao Hamas por usar os civis como escudos humanos e diz que colocam as suas infraestruturas militares em túneis, por baixo ou nas proximidades de locais como hospitais. Este argumento justifica tudo? Israel está, de facto, a atacar civis.
O presidente de Israel, que é da esquerda israelita, Isaac Herzog, veio dizer que não, que Israel não tinha atacado hospitais, tinha feito ataques próximos dos hospitais, mas não tinha atacado hospitais. E realmente não vimos uma destruição generalizada de um hospital. Agora, a situação é claramente extraordinariamente dramática e mais dramática que tudo nestes hospitais, onde se põe também a questão de abastecimento de combustível. Realmente, eu fui rever as minhas leituras das leis da guerra, das Convenções de Genebra. O artigo 19 é muito claro. Em nenhuma circunstância um hospital pode ser atacado. É verdade que o mesmo artigo 19 também diz que as autoridades responsáveis, no fundo, quem controla o território onde está o hospital, têm a obrigação também de, na disposição das suas forças, evitar que ataques militares contra as suas forças atinjam hospitais. Portanto, evidentemente, há aqui argumentos para dizer que muito provavelmente o Hamas está certamente a usar escudos humanos e que provavelmente está a usar os hospitais como parte da sua estratégia para proteger as suas forças. Agora, isso não isenta Israel desta responsabilidade, é uma responsabilidade concomitante e paralela. Portanto, eventualmente podemos condenar o Hamas por fazer isso, mas isso não isenta Israel destas obrigações e espero que Israel esteja ciente disso e que realmente, em termos do seu apoio externo, se eles dão algum valor a isso, e penso que sim, era muito importante realmente darem sinais de que, na medida do possível, estão a tentar evitar que aconteça o pior nos hospitais, seja por via de ataques muito próximos ou mesmo que possam atingir os hospitais ou por via indireta, com questões como a questão do combustível. E aí também houve indicações de que Israel até estaria disponível a fornecer esse combustível. Israel alega que o Hamas impede isso. O Hamas diz que não é verdade. Temos aqui também narrativas contraditórias, mas é realmente uma situação terrível, dramática, a pior, certamente todas, em termos da proteção de civis em Gaza.
Entretanto, o Hamas diz que depois destes ataques aos hospitais se recusa a negociar com Israel, mas a questão coloca-se ao contrário: pode negociar-se com terroristas, Bruno? O acordo sobre reféns ainda é uma possibilidade?
Temos tido informações contraditórias. Houve informações que ele poderia estar iminente, pelo menos em relação a crianças, e estamos a falar de reféns que têm menos de um ano. Há um bebê, por exemplo, que é órfão de pai e mãe, que está na mão dos raptores, portanto, bebês de poucos anos e também pessoas muito idosas. Mas logo depois veio também essa informação. Israel diz que já houve várias vezes anúncios de acordos iminentes, que depois não se confirmam. Historicamente, nós sabemos que há negociações entre os piores inimigos e que há negociações também entre Estados e grupos terroristas e em alguns casos até resultam em processos de paz. O caso talvez mais famoso, mais conhecido, recente, é o do IRA, do Exército Republicano Irlandês, no fundo do movimento separatista independentista na Irlanda do Norte e o Estado britânico. Agora, é verdade também que isso não costuma acontecer depois de ataques terroristas extraordinariamente violentos contra civis como aqueles que o Hamas fez. Geralmente surge depois de um processo de anos em que esses grupos terroristas vão moderando a sua violência No fundo, dirigindo essa violência mais contra alvos militares, policiais, que apesar de tudo, são vistos como um pouco mais aceitáveis. Aqui tivemos exatamente o contrário. É realmente um contexto muito difícil para as negociações, em que a confiança entre as partes, que nunca foi grande, está num extremo de completa desconfiança. Há aqui, apesar de tudo, mediadores, nomeadamente o Qatar, que tem procurado fazer esse trabalho, mas realmente eu não consigo estar muito otimista, aunque não é impossível. Historicamente, como eu digo, tem acontecido no passado. Mesmo na região do Médio Oriente, houve também reféns, e foi muito usado pelo Hezbollah, que como sabemos, é um grupo até próximo também do Hamas, aliado do Hamas, nos anos 80, e os Estados Unidos e outros países envolveram-se em negociações. No caso dos Estados Unidos, até deu aquele escândalo depois dos chamados Irã-Contras.
Sim. Bruno, já vamos com mais de um mês de conflito. Que balanço faz? Israel está a ganhar a guerra e a perder apoio internacional?
Eu acho que este tipo de guerra são guerras prolongadas. Israel tem estado a conseguir claramente resultados militares que os israelitas consideram positivos. Acredito que certamente entre os mortos de Gaza estão, infelizmente, tragicamente, muitos civis, mas também estarão certamente muitos homens armados do Hamas. Israel tem, aliás, nomeado uma série de comandantes importantes do Hamas que teriam sido já eliminados, inclusive responsáveis diretos por estes ataques. É claro que há também alguma perda de apoio internacional de Israel. Não em relação àqueles países-chave para Israel, e nomeadamente países como, por exemplo, os Estados Unidos ou, por exemplo, na Europa, um país como a Alemanha, ou por exemplo, a nível global, do Sul global, um país como a Índia. Isto não quer dizer que se a situação humanitária se degradar muito em Gaza, isso não torna a situação muito difícil, mesmo para estes aliados, que são aliados especialmente próximos de Israel, especialmente importantes. Eu diria que Israel nunca contou com uma solidariedade muito grande a nível internacional, mas conta com alguns aliados-chave que têm capacidades militares e económicas excepcionais, que têm, por exemplo, no caso dos Estados Unidos, a possibilidade de vetar qualquer resolução que pudesse afetar seriamente os interesses de Israel nas Nações Unidas e são esses com os quais Israel essencialmente se preocupa. Para já, o custo militar não tem posto isso em causa, mas eu acho que estamos a chegar a um momento decisivo desse ponto de vista e acho que Israel, realmente, e os Estados Unidos são muito claros a insistir cada vez mais nesta questão das pausas humanitárias, mais condições para evacuação de pessoas, mais condições de segurança e de ajuda humanitária na zona Sul. Acho que Israel provavelmente vai ter que começar a prestar alguma atenção a isso e não apenas à dimensão mais militar da campanha.
Temos assistido a manifestações contrastantes em França e na Grã-Bretanha. Bruno, a Europa está dividida no apoio a Gaza e a Israel?
Esse é um dos lados mais inesperados na sua dimensão, na sua escala, na sua intensidade. Isso não se nota talvez tanto em Portugal, mas sobretudo em França e na Grã-Bretanha e também na Alemanha, nota-se realmente bastante uma grande divisão, uma grande polarização, apesar de tudo, com pesos diferentes. Eu diria, sobretudo na Alemanha, pesa muito a questão da necessidade histórica, por causa do passado nazi, de manter a prioridade ao apoio a Israel, à ideia de garantir a segurança de Israel. Mas a verdade é que realmente há aqui polarizações, divisões enormes. Houve um claro crescimento, sobretudo do antissemitismo, do ódio a judeus. É verdade que não se pode confundir a crítica ao governo de Israel ou ao Estado de Israel com antissemitismo. Agora, se as pessoas atacam os judeus, ameaçam os judeus, mesmo em Portugal, aconteceu numa sinagoga, pintam coisas em sinagogas, é evidente que essas pessoas realmente estão a demonstrar preconceitos antissemitas, estão a associar, por exemplo, os judeus automaticamente àquilo que o Estado de Israel está a fazer. Também é verdade que tem havido algum crescimento da islamofobia, portanto, dados de alguma hostilidade em relação a árabes. Eu acho que tudo isso são péssimas notícias. Acho que há aqui um risco acrescido de violência, há um risco acrescido, inclusive, de terrorismo jihadista, também. É mais um impacto péssimo desta crise e é muito importante que os líderes políticos deem os sinais certos, apontem no sentido certo, que é evidentemente que as pessoas têm direito às suas opiniões, mas não expressá-las de forma violenta. Evidentemente, não se pode confundir judeus e muito menos justificar qualquer tipo de hostilidade ou ataque a judeus por causa de eventual discordância com o que Israel está a fazer. E também não se pode confundir o Hamas com todos os muçulmanos e justificar por isso ataques, ameaças ou preconceitos contra muçulmanos.
Bruno Cardoso Reis, muito obrigada pelo teu análise. Um bom dia, Bruno.
Bom dia, obrigado.
Obrigada.