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"Guerra na Terra Santa" é um podcast da Rádio Observador. Em destaque, a situação no Médio Oriente. Bruno Cardoso Reis, as forças de segurança de Israel estarão a propor uma força internacional para controlar Gaza quando a guerra terminar. Há viabilidade disso acontecer e que força é que seria essa?

Essa é a grande questão. O problema aqui é que a ação militar de Israel foi criando crescente tensão e hostilidade a nível internacional. Israel tem entrado muito em choque com as Nações Unidas. Portanto, uma resposta evidente seria uma missão das Nações Unidas, com mandato das Nações Unidas, idealmente com países árabes moderados, mas também as tensões entre os países árabes moderados e Israel têm aumentado por causa do tipo de campanha que Israel está a conduzir em Gaza. Eu tenho que sublinhar que, de facto, do ponto de vista militar, é muito difícil combater eficazmente o Hamas sem causar um enorme dano, desde logo à infraestrutura basicamente civil em Gaza, porque o Hamas não tem estruturas militares identificadas, esconde-se no meio da população civil. Agora, a verdade é que o tipo de campanha que Israel optou por fazer torna muito difícil depois conseguir apoios para exatamente isso, ou seja, os Estados árabes moderados dizem: "Nós vamos para um campo de ruínas com a população toda revoltada, vamos fazer aqui uma missão ad hoc, sem mandato das Nações Unidas?" Isso também não será aceitável e, sobretudo, há aqui uma condição que parece fundamental a todos, que é algum tipo de legitimação do lado palestiniano, ou seja, isso ser aceito pelo lado palestiniano, nomeadamente pela Autoridade Palestiniana. Ora, a Autoridade Palestiniana também tem dito que qualquer tipo de ação política de legitimação, por exemplo, de uma força qualquer que garantisse a segurança de Gaza, teria de passar por garantias do retomar das negociações e do compromisso com a existência de dois Estados. Ora, o governo Netanyahu também tem dito que não está interessado nisso e que a Autoridade Palestiniana não terá um papel em Gaza. Portanto, tudo isso, de facto, não permite ser muito otimista sobre a viabilidade dessa solução, que é evidente que seria preferível para Israel. Israel não tem nenhum interesse em ocupar Gaza, retirou de lá militarmente em 2005 e tem receio que se continuar lá, na medida em que o Hamas consiga, nem que seja ainda de uma forma residual, manter alguma presença, as suas tropas vão ser alvo de ataque e da hostilidade da população civil, portanto, tem todo o interesse em ser substituída. Agora, a questão é que isso realmente não parece politicamente viável neste momento.

Bruno, falavas da Autoridade Palestiniana e o presidente Mahmoud Abbas diz que os Estados Unidos devem intervir e forçar Israel a parar a agressão. Está Mahmoud Abbas a aproveitar os puxões de orelhas que os Estados Unidos têm feito a Benjamin Netanyahu?

Acho que provavelmente sentiu-se encorajado a fazer esta exigência porque percebe que ela corresponde um pouco à linha que a própria administração Biden está a seguir. O que não é realista é achar que os Estados Unidos podem simplesmente mandar Israel parar uma campanha militar, sobretudo quando não há garantias, por exemplo, de libertação dos reféns que ainda estão nas mãos do Hamas. Não há garantias de que o Hamas, no fundo, se renda ou que, por exemplo, este arsenal de foguetes que continuam a ser usados pelo Hamas para bombardear Israel vai ser eliminado. Portanto, isso não é realmente muito realista posto nesses termos, de exigir que Israel simplesmente pare a sua ação militar contra o Hamas. Aquilo que parece mais realista é a mensagem que os Estados Unidos parecem estar a dar, usando alguma autoridade e também alguma influência que têm como resultado de serem um aliado decisivo de Israel em termos diplomáticos, por exemplo, permitindo vetar coisas que são inconvenientes para Israel no Conselho de Segurança. Aliado em termos militares. No fundo, os Estados Unidos não estão envolvidos diretamente no conflito, mas estão a fornecer equipamento militar, munições. Israel tem uma grande capacidade própria e cada vez mais, mas continua a ser importante poder contar com algum abastecimento vindo dos Estados Unidos e tem uma presença também de navios, de até tropas, quer no Mediterrâneo, quer no Mar Vermelho, que têm sido importantes para interceptar, por exemplo, mísseis que vêm dos houthis do Iémen para, no fundo, dissuadir também um alargamento maior do conflito a nível regional. E, portanto, isso dá-lhe alguma margem de influência grande em Israel, no sentido de influenciar um pouco, por exemplo, o grau de intensidade dos ataques de Israel, o tipo de operações militares. Não me parece que chegue ao ponto de poder dizer a Israel que tem de parar o conflito agora.

Entretanto, Bruno, o conselheiro de Segurança Nacional dos Estados Unidos diz que a guerra em Gaza vai progredir para um novo foco, mais dirigido à liderança do Hamas, mas não disse quando, nem como é que isso pode concretizar-se. O que é que perspetivas?

Eu penso que exatamente em linha com o que eu estava a dizer, no fundo, isso corresponde muito à agenda dos Estados Unidos. Ou seja, o que os Estados Unidos estão a dizer a Israel é que têm de continuar a procurar lidar com a ameaça militar do Hamas, que ainda não está eliminada, agora têm de fazer uma campanha muito mais direcionada, muito mais orientada para alvos precisos, ou seja, em função das informações. Esta ideia de que numa guerra contra insurreição, contra terrorismo, to fight them you have to find them. Para os combater é preciso encontrá-los. Portanto, aí boas informações são cruciais, também para evitar mortes civis desnecessárias, desproporcionais e, portanto, isso é uma coisa muito mais direcionada. A grande questão que se coloca é se Israel está disposto a isso, por um lado, e por outro Tem capacidade de fazer isso. Um dos grandes problemas que todo este conflito revelou e que se traduz no massacre de 7 de outubro, é que as capacidades de Israel em termos de recolha de informações de qualidade fiáveis sobre o Hamas era bastante pior do que se pensava. É verdade que também havia alguma informação que não foi devidamente analisada e tida em conta, mas a questão é, isso permite-nos ter algumas dúvidas até que ponto, mesmo a forma como a campanha tem estado a decorrer, pode ser resultado um pouco desta dinâmica quase de vingança emocional em relação a 7 de outubro, mas pode também ser um pouco resultado de Israel não ter informações suficientemente precisas para poder fazer uma campanha mais precisa. Portanto, eu espero que Israel tenha informações do lado de Israel que permitam dizer isso e apontar nesse sentido, isso seria realmente muito importante para reduzir o sofrimento da população civil de Gaza, que é uma das principais vítimas desta tragédia.

Bruno, a companhia de navegação dinamarquesa Maersk suspendeu a navegação no Mar Vermelho, isto depois de uma série de ataques a partir do Iémen por um grupo apoiado pelo Irão. Que implicações é que isto pode ter na guerra e eventualmente também até na economia mundial?

Terá grandes implicações sobretudo desde já na economia mundial, ou seja, estamos a falar de uma das principais vias de comunicação marítimas a nível global, de um ponto de estrangulamento que é incontornável, ou seja, todos os navios que vêm da Ásia para a Europa e que atravessam o Canal do Suez, o que reduz praticamente uma semana em relação à rota alternativa, que implica contornar toda a África, no fundo a velha rota do Vasco da Gama através do Cabo. Portanto, para encurtar isso, o que tem também consequências em termos de menos custo para a navegação, menos custo para os produtos, tudo isso vai aumentar a pressão inflacionista sobre muitos produtos. Como sabemos, a Ásia neste momento é o grande centro de produção industrial, sobretudo a China, mas não só. Portanto, vai aumentar a pressão em relação aos preços de múltiplos produtos. Vai ter consequências também provavelmente no preço dos combustíveis, porque obviamente falamos muito do Golfo Pérsico e do Estreito Ormuz, isso é o ponto de saída de muitos dos combustíveis do petróleo que vem dos países do Golfo, mas depois aqueles que vêm, pelo menos para a Europa, por regra, esses petroleiros vão atravessar também o Mar Vermelho, vão atravessar o Canal do Suez e têm que passar também por esta zona do Estreito de Bab-el-Mandeb, ou seja, do estreito que basicamente fica junto exatamente ao Iémen, que é controlado pelos houthis. E portanto, têm se multiplicado aí os ataques. A Maersk é a segunda maior companhia de navegação a nível global e é um sinal muito preocupante. Se eles suspendem, é possível que outras companhias de navegação façam a mesma coisa e corremos o risco de realmente ficar aqui numa situação um pouco parecida àquilo que aconteceu durante a pandemia, em que houve também um acidente no Canal do Suez e isso aumentou ainda mais os problemas em termos de preços e até de disponibilidade, de abastecimento de produtos, porque estamos também num sistema do "just in time", uma logística em que se está muito a contar que as coisas cheguem, não ficam em armazém muito tempo e se de repente é preciso acrescentar uma semana ao abastecimento que está previsto, isso complica muito também a gestão logística das coisas. Portanto, é realmente uma péssima notícia e mostra que este conflito tem uma dimensão local, tem uma dimensão regional, mas pode ter algumas implicações mais globais.

A Guerra na Terra Santa é um podcast da Rádio Observador, vai para o ar de segunda a sexta, depois do noticiário das 9h30 da manhã e tem nova edição depois da síntese das 16h30 da tarde. Está sempre disponível em podcast. Eu sou a Vanessa Cruz.