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Homens de uma certa idade. Homens de uma certa idade. O Borges, o Horácio e o Raminhos estão na Rádio Observador porque já são homens de uma certa idade.

Olá, bom dia, boa tarde ou boa noite. Sejam muito bem-vindos a mais um episódio de "Homens de Uma Certa Idade". Hoje a conduzir a emissão, Luiz Felipe Borges, 48 anos, melhor suramista do mundo entre todos aqueles que trabalham com esferovite.

Muito bem. E Marco Horácio, 51 anos, bem conservado graças ao boião Nivea e sou comentador do jogo da macaca.

Dos melhores também.

Sim.

António Raminhos, 45 anos, scroller profissional.

Ganha-se bem.

Ganha-se muito bem. Há pessoas que não têm dedos e eu estou lá por eles.

Para scrollar.

É por esses. As pessoas não dão importância ao trabalho, esquecem-se. Pessoas que não têm mãos. O Paulo Azevedo. Como é que o Paulo Azevedo faz scroll?

Exatamente, porque te tem a ti.

Porque me tem a mim.

Incrível.

Porque ele quando tenta fazer scroll com os cotos, ele muda de página.

Isso depois é uma chatice.

Abre janelas que não está nada à espera. É desagradável.

Antes de um disclaimer, sou muito amigo do Paulo Azevedo.

As pessoas já estavam a começar: "ai".

E o Paulo Azevedo tem um grande sentido de humor.

É pior, bem pior do que isto.

Sim, o Paulo Azevedo tem tanto sentido de humor que ele tirou as próprias mãos para poder fazer piada.

Se isto já está a começar assim, meu Deus! O tema de hoje é... Desculpa, eu tenho aqui um grande tema.

E depois admiram-se que hajam mensagens de ódio.

Não. E se nós fizéssemos um episódio já com um grande disclaimer só de piadas assim?

Lá se vão as hipóteses ser substituídos.

Todas!

Só, o que pedíamos era ter um dia o episódio especial onde somos substituídos, por exemplo, pelo Paulo Azevedo, pela Mafaldinha, pelo Nuno Santos. Ter aquele episódio protagonizado por pessoas com handicaps. O Nuno Vitorino.

Sim.

Outra pessoa com grande sentido de humor. Fica a ideia.

Fica a ideia.

Ou então o José Mário.

O surf adaptado, não é?

Pessoas mais...

O surf adaptado, que é o bodyboard.

Foi o que eu disse ao Nuno. Nós estamos a dar outra volta completamente diferente. Posso contar, Borges?

Conta.

O Nuno era presidente da Federação Portuguesa de Surf Adaptado. O Nuno Vitorino. E o Nuno, no fim da adolescência, acho eu, teve um acidente com uma arma. A arma disparou e então a bala alojou-se na coluna, ficou tetraplégico e acabou por desenvolver o gosto pelo surf, etc. E eu estava a falar com ele: "Então, mas como é o surf adaptado?" E ele: "O surf adaptado, eu estou numa prancha de surf". "Mas com a tua condição, como é que fazes?" "Vou deitado". "Isso é bodyboard." Não é surf.

Pronto, está bem. Começámos da melhor maneira.

A brincar.

Mas se vocês quisessem fazer uma coisa à séria, em vez de estarmos a convidar essas pessoas espetaculares e com histórias de vida do caraças, vocês os dois podiam era cortar as mãozinhas e vir fazer isto.

Eu acho que também é uma ideia a pensar. Acho que tem sido um brainstorming muito rico e voltaremos certamente a este tema.

Ou não.

Como obviamente todos os nossos episódios são, como se nota, guionados e têm alinamentos que são estudados de véspera, no episódio da semana passada ficou um áudio por revelar.

Pois foi.

E então, o tema da semana passada era-

Mas eu estava a pensar, se calhar eu depois posso pedir outro áudio a essa pessoa para outro tema

Mas agora não vamos regravar. Eu agora acabei de dizer isto. Vamos ouvir o Rodrigo Gomes da RFM, não é?

Sim.

Sobre qual foi a primeira grande asneira da vida dele.

Sim.

E depois eu introduzo o tema de hoje.

É esta elasticidade que este está-me a cagar.

A primeira grande asneira que eu me lembro de ter feito, eu era criança. Passava o dia na rua a jogar à bola com os meus amigos e houve um dia que o meu pai me chamou para ir tomar banho. E eu não queria ir tomar banho, queria era ficar a jogar à bola e o meu pai insistia e eu não queria. Até que eu tive a brilhante ideia de dizer ao meu pai: "Vai cagar!" Estamos a falar dos anos 80, o meu pai sai de casa disparado. Eu tenho a ideia que da rua até à banheira, eu não pus os pés no chão. O meu pai foi-me dar ponte de papéis no rabo até à banheira. Lamento ter dito isso ao meu pai.

Eram bons tempos.

Era sim.

Isso até faz bem a ponte. O tema de hoje é: o que é que foram para vocês os bons velhos tempos? Aquela expressão tão conhecida.

Eu não sei, não sou velho.

Há uma cena do Office, o Office americano, e depois isto transformou-se em meme, em que uma das personagens, Wendy, diz a seguinte frase: "Eu gostava tanto que soubéssemos que estamos a viver os bons velhos tempos antes que os bons velhos tempos acabem". E muitas vezes a gente não tem noção da alegria, da experiência positiva que estamos a ter. Só em retrospectiva é que pensamos: "Aquela fase foi mesmo muito fixe". Tu não há nenhuma fase da tua vida que tu sintas que foram os bons velhos tempos?

Roger, quando tu sugeriste essa pergunta, lembrei-me logo, não sei porquê, de cowboys e do oeste e os bons velhos tempos Chacal, essa merda.

Olha, eu digo que era bom os velhos tempos no sentido de: eu lembro da tarde, a RTP dava imensas comédias. À tarde dava os gendarmes, não se lembram?

Sim, o avô materno adorava o Louis de Funès.

Os filmes de gendarme, que eram aquelas comédias parvas.

"Cantinflas", mais parva ainda.

"Cantinflas" já não era a minha cena. Mas filmes do Jerry Lewis, dava imensos filmes do Jerry Lewis.

Eu adorava quando era puto.

Eu também adorava Jerry Lewis.

Desculpa interromper. Uma das cenas mais engraçadas até hoje, para mim, continua a ser uma cena de um filme do Jerry Lewis. O filme acho que é muito mau, mas a premissa do filme é: o Jerry Lewis, isto passa-se na Segunda Guerra Mundial, e ele vai se infiltrar nos nazistas. E então há uma cena em que ele está com o Hitler, ele tornou-se um oficial muito próximo do Hitler. E ele está no gabinete do Hitler, e o Hitler está com um grande globo terrestre e está com ar preocupadíssimo a dar voltas ao globo. E a certa altura diz: "Ó Jerry Lewis, você sabia que no ano passado morreram mais pessoas de câncer em toda a Europa do que por causa dos nossos bombardeamentos? Não é terrível?" E o Jerry Lewis: "É terrível, mein Führer. Pensa fazer alguma coisa sobre isso?" "Claro que sim. Aumentar os bombardeamentos."

Eu lembro desse filme, tem uma cena-- o que eu gostava do Jerry Lewis, o Jim Carrey, por exemplo, é um sucessor do Jerry Lewis na expressão física.

É 2.0.

Na fisicalidade.

Na fisicalidade da coisa. Mas nesse filme que o Jorge está a dizer, há uma cena do Jerry Lewis que ele está com um disco a aprender inglês. Não sei se a aprender inglês. Aprender alemão. Está a ter aulas de alemão com um disco. É de chorar a rir pelas expressões dele e ele a fazer aquilo que eu faço muitas vezes aqui: . É muito engraçado. Isso para mim é os bons velhos tempos. Eu lembro muitas vezes disso e da magia que era, sobretudo, o facto de tu só teres dois canais, de tu criares expectativa pelas coisas que iam dar. Vocês não se lembram que os filmes, quando o Super-Homem era anunciado uma semana inteira. Que ia dar o Super-Homem e tu ficavas com aquela coisa: "É hoje que dá o Super-Homem".

E havia essa partilha comunitária.

Sim.

Porque todos víamos.

Todos falávamos disso, porque também só dava aquele.

E a seguir falávamos do filme e das cenas que mais tínhamos gostado e não se podia voltar atrás. Era naquele dia, naquela hora.

Sim.

E a malta estava-

Quando muito gravavas

A cena que contaste do Jerry Lewis a tentar aprender alemão.

Eu ainda vou encontrar isso aqui, que eu vou meter.

Há uma cena mais recente, embora já tenha muitos anos, que é num dos filmes da Pantera Cor-de-Rosa feitos pelo Steve Martin.

Sim.

Isso deve ser uma homenagem. Ele está com uma professora que lhe está a tentar ensinar. Portanto, ele faz de francês, "inspecteur Clouseau".

Inglês.

Ele tem uma professora, você vai para os Estados Unidos e tem que aprender a falar inglês. E então está a tentar ensiná-lo a dizer a frase: "I would like to buy an hamburger". "I would like to buy an hamburger".

Hamburger.

"I would like to buy an hamburger". "Não, uma palavra cada vez. I. I. Would. Would. Like. Like. To. To. Buy. Buy. An. An. Hamburger. Hamburger. Muito bem, agora repita". "I would like to buy an hamburger".

Olha, só por curiosidade, eu vou pôr aqui um cadinho do Jerry Lewis, ver se isto se ouve bem.

And you will repeat that. Are you ready? Yeah, I'm here. All right, we begin. The chair. Der Stuhl. The chair. Der Stuhl. The pants. Die Hose. The pants. Die Hose. The eyes. Die Augen. Die eyes. Die Augen.

Estás a ver a careta.

Now we try some phrases. I hope so. Good evening. Guten Abend. Good evening. Guten Abend. Be quiet. Schweigen Sie. Be quiet. Schweigen Sie.

Eu adorava. Não é que isto seja relevante, mas parece que o Jerry Lewis pessoalmente era alto escroto.

Mas ao mesmo tempo isso acaba por ser o-

Quase todos os génios são. O gajo era um génio.

Grande ator.

Por isso é que o Marco Horácio é das melhores pessoas que eu já conheci.

Pois, sou um péssimo ator.

O Jerry Lewis tem um filme, ele foi uma das maiores estrelas do mundo e era um gajo que produzia também, tinha um poder nos estúdios muito raro para aquela época. Ele fez um filme que se chama "Sauveur": o dia em que o palhaço chorou, na tradução literal. E esse filme terá ficado tão horrível, segundo o Jerry Lewis, que o gajo-

Proibiu o filme

...proibiu o filme. É um filme que está feito, está montado, e ele disse: "Isto nunca vai sair", e meteu no testamento que esse filme não pode sair e as bobinas estão todas trancadas não sei onde.

Mais valia destruí-las. Então por que ficou com elas?

Eu acho que ficou. Eu acho que ficou, mas realmente é uma boa pergunta.

Desculpa, em relação a isso, eu acho que esses bons velhos tempos de vermos todos a mesma coisa e falarmos todos da mesma coisa, criava ao mesmo tempo um sentimento de união e de unidade, que eu acho que está muito mais disperso. Agora tu tens o FOMO, tens o fear of missing out. É de tanta coisa, que não há um build up das coisas. Como por exemplo, eu lembro, não sei se já falámos aqui ou não, mas quando o carro do Justiceiro, o K.I.T.T, foi às Amoreiras. Por exemplo, o tal filme que já falamos aqui, "O Monstro da Lagoa Negra", que era com os óculos 3D, o aparecimento da SIC, o primeiro dia de emissão da SIC, o primeiro dia de emissão da TVI, esse tipo de coisas que toda a gente falava disso.

E o engraçado disto é que, imagina mesmo com o Herman, no outro dia, toda a gente reproduzia as piadas, toda a gente fazia as suas personagens, e era uma coisa que divertia as pessoas e, como tu disseste, criava um sentido até de comunidade. Hoje em dia, o que acontece é: a não sei quantas deu uma chapada não sei de onde, o não sei quem agrediu não sei o quê. Ou seja, o que se vê na televisão, de repente, passa para o exterior e o que tu estás a alimentar cá fora é o ódio, é a violência. E nos bons velhos tempos não tinhas isso. Partilhavas sempre coisas boas ou mais boas do que más.

Sim, não me lembro de ver a noção.

E o que ajuda a contrariar estes tempos tão bem descritos por Marco Horácio.

O que o que ajuda tem a ver com isto?

Tão bem descritos por Marco Horácio, estes tempos de instabilidade e de clickbait e de ódio online, é ter amigos. E eu falei com alguns amigos para o programa de hoje. O primeiro é cunhado de uma grande figura do documentário futebolístico, antigo porta-voz do Sporting Clube de Benfica, o meu amigo João Malhão.

Malhão?

Queríssimos cúmplices desta passagem terrena a que chamamos vida, repito, ida. Para mim, os bons velhos tempos é o presente, repito, sente. Este podcast é o mais extraordinário na história dos podcasts, repito, casts. E a vossa pergunta faz-me pensar, repito, ar. Pergunto-me até, no meio do vosso vasto panóplio de questões já colocadas, repito, cadas. Se este podcast tivesse mais tempo, quantos mais tópicos não, cabrão? Repito, cabrão.

Muito obrigado, João Malhão.

João Malhão.

Os advogados do Observador recomendaram que o nome fosse João Malhão.

Estamos quase a chegar ao final.

Se bem que eu acho que o Malheiro não se importava.

Não.

A nossa primeira parte do tema de hoje, que é dedicado ao que foram para vocês os bons velhos tempos.

Eu tenho outra, muito engraçada.

Sendo que os primeiros 50% foi a falar de-

Nostalgia

Não, não foi bem nostalgia.

Foi de cotos.

Falávamos mais de cotos, exato.

Cotos, nostalgia. Ela por ela. Conta uma para acabar a primeira parte.

Não, pode ser na segunda.

Fica para a segunda? Queres contar alguma para acabar a primeira parte?

Não, não quero.

Então está bem. Então até já, querido auditório radiofónico.

Até já.

Homens de uma certa idade. Homens de uma certa idade. O Borges, o Horácio e o Raminhos estão na Rádio Observador porque já são homens de uma certa idade. Homens de uma certa idade. Homens de uma certa idade. O Borges, o Horácio e o Raminhos estão na Rádio Observador porque já são homens de uma certa idade.

Estamos a gravar outra vez?

Estamos a gravar.

Então o som esquisito que se ouvia era o cronômetro do meu telemóvel novo. Não sei se reparou, caro ouvinte, mas em toda a primeira parte deste podcast ouvia-se este som. Podes pôr, Borges.

Posso pôr?

Podes. Ouvia-se este som. E eu pensei: "Quem é que trouxe um relógio de pulso para aqui? Onde é que está o relógio? Será alguém com a síndrome das pernas que não param?"

O restless legs.

O restless legs. Por isso é que eu há bocado estava a olhar para baixo da mesa, a ver se havia algum de vocês que estava a tremer as pernas.

Mas melhor do que isso foi o Borges dizer: "Eu não estou a ouvir nada".

Não, eu disse: "Ouço, mas deve ser das obras".

Era o meu relógio, era o meu cronômetro, porque eu não tinha tirado o som do telefone, o telefone é novo, desculpem. Bom, então, também há um outro meme que me deixa sempre triste quando me deparo com ele, que é uma fotografia com aquele ar de fim de 80s, início de 90s, é um grupo de amigos, bicicletas e tal, estão na rua e o que está escrito é: "Houve um dia em que tu e os teus amigos saíram para brincar pela última vez e ninguém se apercebeu disso". E é verdade. Há um dia em que saímos para brincar pela última vez.

A gente não se lembra desse dia.

E foi a última vez. Pois foi. Não me lembro.

E é assim.

Sim, eu acho que os bons velhos tempos, eu associo muito a esse período da adolescência, como é óbvio, por isso é que são velhos. E é momentos, por exemplo: é engraçado que eu vou deixar as minhas miúdas na escola e vejo as miúdas a sair e lembro-me das paixonetas que eu tinha e nesse período da preparatória, daquele sentido do giro que era tu teres uma paixão por uma miúda, de pensares e de estares com ela e não sei o quê, e ver os miúdos a sair da escola, e às vezes ver um rapaz e uma rapariga a conversarem, faz-me lembrar disso e ter saudades desses tempos. Isso é curioso.

E a única coisa que tu tinhas medo ou que tu sentias medo era do teu pai ou da tua mãe. Ou seja, não havia aquele medo Não sei. Eu cresci sempre mais despreocupado. Vivia-se mais as coisas de forma mais intensa. A única coisa que eu tinha receio era não chegar atrasado, não deixar portas abertas. Havia coisas que o meu pai ficava maluco se acontecessem. E era a única coisa que eu tinha receio. Hoje em dia, e falo um bocado mais pelos meus filhos.

Agora o teu telemóvel está a tocar.

Não, que eu não trouxe telemóvel.

Não está aqui um telemóvel a tocar?

O meu maior receio. O que se passa aqui? O que se passa neste estúdio?

Xiu, cala-te.

Calo-me por quê? Eu não estou a tocar nada.

Pois não, não te calaves. Não é, estou com o meu na mão.

O teu maior receio.

Eu não consigo.

Peço desculpa.

Não falem vocês. Diz lá mais um meme e tu vê lá se consegues ouvir mais algo.

Não, volta lá ao teu.

Não, agora amuei.

Não tens nada que amuar. Quer dizer, eu disse que estava a tocar um telemóvel e estava a dizer isto porque as pessoas que estão a ouvir, não estavam a ouvir o que tu estavas a dizer.

Eu estava a ter uma conversa profunda e vocês acabam.

Então profunda outra vez. Aprofunda.

Aprofundo.

Qual é o teu maior receio? Olha, está a saber.

Olha!

O quê? Isso é o meu telemóvel que está a tocar.

Então?

Então vou buscar.

Então não subes. Qual é o teu maior receio? É o telefone das Finanças, foi o que acabou de acontecer.

É isso, exactamente.

Isto é a mesma conversa de velhos. "Não trouxe o meu telemóvel". "Então está a tocar". "Mas isso é o meu telemóvel".

Eu queria ver se continuava o meu raciocínio.

E o teu maior receio?

O meu maior receio é que o meu telemóvel continua a tocar porque a pessoa que me está a ligar vai continuar a insistir.

É a Ana. Queres que eu ligue?

Não. Tendo filhos hoje em dia, eu tenho muito mais receio de tudo o que está à volta deles, porque isto é uma conversa que eu tenho recentemente e se calhar é porque estou a ficar velho. O mundo está muito mais agressivo, está muito menos empático. Eu lembro-me que nós éramos mais inocentes quando éramos mais pequeninos, por isso é que nós brincávamos mais, arriscávamos mais. As asneiras que nós fazíamos antigamente não têm nada a ver com as asneiras que eles fazem hoje em dia. Desde meter coisas nos copos uns dos outros, desde drogas, experimentarem drogas, não sei o quê. Nós era o quê? Brincar nas obras, ter cassetes de vídeo porno em casa. Isto era a coisa mais arriscada que nós fazíamos na vida. Hoje em dia, há tanta coisa que te preocupa e que tens medo.

Esta história horrível, recente, de um miúdo de 14 anos que pegou numa arma do pai e matou a mãe. Aparentemente nada fazia desconfiar disto.

Mas isso é um bocadinho aquela história que tu dizes, Borges, que já fizeste piadas disso, não desta situação, como é óbvio, porque o miúdo era conhecido por ser um miúdo impecável, bom aluno e não sei o quê, e tu tinhas essa piada, não é? Em relação a adultos.

Eu digo para adultos, porque normalmente quando há crimes entre adultos, o que é que os canais fazem? Vão ouvir os vizinhos. E o que é que os vizinhos dizem sempre? "Era impecável. Era uma pessoa impecável. Hoje estava-me a atravessar a rua, uma vez foi à mercearia fazer compras para a minha avó e acabou de matar 17 pessoas nos correios e depois a mulher quando chegou a casa". Então eu defendo uma espécie de polícia preventiva que bate os bairros. "Olhe, Marco Horácio, como é que é o seu vizinho?" "O meu vizinho, um grandessíssimo cabrão, deixa isto tudo sujo, trata mal as pessoas". "Ok, tranquilo". E no segundo esquerdo: "Ótima pessoa". Cadeia com essa pessoa, já.

Exato. Prevenir. Sim.

Prevenir. Mas eu acho que, caro colega Marco Horácio, a sua análise eu acho que é perspicaz.

Agora parece mesmo um comentador do Observador.

Mas digo, nós também estamos a analisar os tempos de hoje, tendo em conta os nossos tempos e a nossa juventude. Os miúdos hoje também estão numa outra perspectiva e estão noutra mentalidade.

E vou ser velho agora e vou dizer isto, mas digo isto de coração: tenho muita pena do meu filho nunca passar e não viver a energia que se vivia nos anos 80 e nos anos 90. As amizades que se criavam, a cumplicidade que se criava com os amigos.

E será que o teu filho, quando for pai, se for pai alguma vez, não vai dizer isso ao filho dele, que tem saudades que o seu filho tenha vivido os tempos dele?

Não acredito, porque eles vivem as coisas muito intensamente. Hoje em dia é tudo muito rápido. E no nosso tempo, imagina, isto que o Rodrigo contou, ir a pontapé até à banheira, deve ter demorado horas na cabeça dele, ou seja, para ficar marcado na cabeça dele. E hoje em dia os putos é tudo muito rápido. Não se agarram a nada, não se agarram às namoradas, não se agarram aos amigos, não se agarram às histórias.

Olha, uma cena de bons velhos tempos que eu ainda tenho muito presente e que tenho pena de não conseguir reviver. É engraçado, porque depois há aqui um pormenor que é: eu na minha cabeça quero reviver isso e quando eu consigo reviver isso, já não tenho a mesma paciência que tinha quando era miúdo, porque eu não sou o mesmo miúdo, que é as horas que eu passava a jogar. Adorava. Antes da PlayStation, tinha Master System, tinha Game Boy.

Não tive nada disso.

Eu passava horas. Às vezes quando dizem: "Os miúdos passam horas aos computadores". Eu também passava. Claro que depois tínhamos o brincar e isso tudo, mas eu lembro. E o Game Boy tinha um problema que era: tu não conseguias gravar os jogos. Portanto, eu quando começava o jogo, eu tinha que acabar, porque senão não conseguia voltar atrás, só tinha que deixar ligado aquilo durante horas.

Eu ia jogar Atari para casa de um amigo.

Quando nós íamos jogar, a casa uns dos outros, gráficos de merda, péssimos.

O Atari eu adorava aquele que o box era quadrado.

Isso era o Mike Tyson, se não me engano, esse jogo.

Mas eles hoje em dia já nem fazem isso, jogam online, nem sequer estão uns com os outros, não se divertem no mesmo espaço.

Sim, mas por exemplo, as minhas filhas Às vezes à noite estão a falar com as amigas por WhatsApp, por videochamada, veem-se na escola, mas continuam a falar com elas. Eu não acho isso mau.

Não, acho que é giro.

É um bocadinho o nosso telefone.

Sim.

Não é? E estão a falar. E quando jogam, jogam online também e estão a falar umas com as outras, não podendo estar fisicamente.

Desculpa, só uma coisa que se perde com isto de teres a videochamada é: quando tu estavas apaixonado, tinhas de esperar até ao outro dia para voltar a ver a pessoa. E essa sensação.

Esse build up.

Essas borboletas que tu sentias. Agora não, agora fazes uma videochamada, vês a pessoa e pensas: "Ok, estou mais calmo". Nós antigamente vivíamos isto.

Eu não era borboletas, eu sou tão tímido que eram traças, mesmo.

E era tão bom isso.

O Borges era lombrigas.

Lombrigas.

Era mesmo lombriga.

Mas os bons velhos tempos também são relativos. Por exemplo, já tenho 48. Os meus filhos dormiram pela primeira vez duas noites seguidas em casa do pai. Foram estas duas últimas noites. E foi muito fixe. E eu hoje estava a vir para cá, ainda por cima não ficaram nada mal na escola, o trânsito não estava terrível. Cheguei a tempo e eu estava a pensar: "Eu daqui a uns anos vou olhar para trás e isto vão ser os bons velhos tempos". Vi o Super Mario com eles do início ao fim, Super Mario Brothers pela 12ª vez, e fiz o jantar e correu bem, e os banhinhos correram bem, e eles adormeceram bem, e quando acordámos estivemos a brincar.

Mas isso serão os bons velhos tempos deles.

Vão ser os meus bons velhos tempos, mas também vão ser os meus bons velhos tempos daqui a alguns anos, quando eles já não forem tão pequenos. Ou seja, é relativo. Outra altura de bons velhos tempos: o meu primeiro trabalho, recém-licenciado de Direito, foi numa produtora chamada Mínima Ideia, que já não existe. Ficava na Rua Augusta, que é um sítio ótimo, sobretudo quando és um puto novo em Lisboa, vais para a Rua Augusta todos os dias. E o meu patrão, que só tem mais seis ou sete anos do que eu, mas esse primeiro patrão, Luiz Osório, ele criava um ambiente onde eu sentia que nós podíamos trazer qualquer ideia. O máximo que podia acontecer era: não há dinheiro para isso, mas todas as ideias eram bem-vindas.

E é assim, na realidade, que deve ser.

"Para a semana devíamos ir à Lua fazer o programa." Ok, não dá para ir à Lua, porque é caixas de albarca. Mas as ideias eram aceitáveis. E por isso pedi a um primo direito do meu primeiro patrão para deixar o próximo áudio.

Sabes o que isto quer dizer? Que o Borges esqueceu-se de pedir o áudio.

Eu só me lembrei ontem à noite que íamos gravar hoje.

Olha que eu estive até à última hora.

Ainda bem que ele mandou mensagem a dizer: "Até amanhã", porque foi aqui que se cantou.

Graças a teres lembrado.

Eu vi o grupo e eu pensei assim: "Mas não há áudios do Borges? É o Marco Horácio. Estão a contar que eu vá fazer dois programas?" E então aqui fica a mensagem de Luiz Provisório a responder à pergunta: o que foram para ti os bons velhos tempos?

Isto é nitidamente a fazer-se às dobragens, este gajo.

Olá aos três. Esta pergunta faz-me viajar no tempo e pensar de facto que é uma pena não termos noção de quando estamos a viver os bons tempos, mas os bons tempos para mim foram, sem dúvida, quando trabalhei com António Ramos e ele era o mais alto jornalista na história das secções de desporto. Trabalhei com o Borges e ele era o mais terciense de todos os açorianos que alguma vez trabalharam na secção de cultura. E infelizmente não trabalhei com o Marco, que é seguramente o mais Horácio de todos os Marcos do país.

Muito obrigado, Luiz Provisório.

O giro disto era se ele nos tentasse enganar. Imagina ele tentar nos enganar: "Não, não fui eu".

E nós ficamos assim: "Épa, realmente".

Ainda falta uma, que é uma surpresa.

Os bons velhos tempos era quando o Borges enviava voices de pessoas amigas.

Esses dos jogos, e é engraçado, porque eu tenho uma máquina arcade em casa. As horas que eu passava, para mim, curiosamente, os bons velhos tempos estão muito associados à eletrónica e informática, que eu sempre gostei muito. E eu lembro-me, não sei se vocês se calhar não vão perceber o que eu estou a falar. Havia uma cena que era MS-DOS. Não se lembram do DOS?

Então não me lembro de Doors. Grande banda. Jim Morrison.

O MS-DOS era o sistema, já havia o Windows, mas era o 3.1, 3.11. E eu lembro-me de fazer programação em DOS e estar a escrever linhas de comando no computador e fazer cenas acontecerem e alterar a memória do computador, pôr mais memória no computador, porque havia jogos que eu não conseguia, porque o meu computador não era tão bom como os outros, então tinha que alterar as configurações para conseguir meter o jogo. Havia lojas de aluguer de jogos. Não se lembram disto?

Não, eu não jogava.

Havia sítios onde tu alugavas jogos da Mega Drive. Ias lá, alugavas dois ou três dias, tipo videoclube, ou alugavas também jogos de computador e depois instalavas e devolvias. Eu hoje tenho PlayStation, há muitos anos que sou jogador da PlayStation, e gostava de poder dedicar o tempo que eu dedicava naquela altura àquilo, mas não dá.

Sabes que eu e o Borges fomos crianças humildes. Não tínhamos as posses que tu tinhas.

Os meus pais compraram-me um Game Boy em Macau Em 1992, por ter sido em Macau, foi muito mais barato do que cá, porque imagina, cá custava, se não me engano, 25 contos.

Pronto, mas foram a Macau.

25 contos é o quê? €50, não?

25 contos são €175.

€175?

E são 350 pesetas.

E os meus pais compraram por 12 contos, na altura. 12 contos, portanto, metade do preço. Por isso é que eles me compraram. A Master System, que era da Sega, eu tive que comprar, os meus pais não me compraram.

Compraste como?

Deram-me dinheiro no Natal, pedi dinheiro em vez de prendas e comprei.

Muito bem.

É um bocadinho aquilo que eu faço com as minhas filhas também no sentido de se querem cenas arranjem maneira, têm o vosso dinheiro, há mesadas, há familiares, guardem. E elas vão usando o dinheiro delas para coisas específicas que querem muito e acho muito bem.

A nível de jogos, descobri recentemente o Snake.

Foi? Não, mas o Snake é muito à frente. O Snake é para todos. Atenção que isso é difícil.

Queres dizer umas palavrinhas antes de nos despedirmos da rádio, Marco? Um pensamento final.

Quero. Acho que uma coisa que se podia recuperar dos bons velhos tempos era o sentimento de unidade, de cumplicidade. Nós temos os filhos muito isolados, às vezes, temos medo de tudo, é deixar os miúdos brincar uns com os outros, deixá-los conviver. E acima de tudo, respeitar os mais velhos, que era uma coisa que nós fazíamos no nosso tempo, respeitávamos os nossos pais. Hoje em dia, os putos olham para nós como se fôssemos umas relíquias.

Mas era o que tu fazias com os teus pais.

É diferente, mas eu tinha respeito. Ou seja, a forma como eu falava e hoje falo com os mais velhos é sempre com respeito, porque têm outras histórias, têm outra vivência. E há uma coisa que ninguém nos tira aqui a nós os três e à maior parte do auditório que nos ouve, nós vivemos a melhor época de sempre, quer a nível musical, quer a nível emocional, quer a nível de amizades, da forma como criávamos amizades, como namorávamos, estas coisas todas. E infelizmente, as gerações de agora não vão ter isso. E tenho muita pena.

Eu não sou tão pessimista.

Não é pessimista, é a realidade deles. Para eles está bem.

Vamos agora deixar a rádio e na terceira parte, o exclusivo online, o António Ramins vai obviamente entrar na bandalhos que his, recordar os bons velhos tempos.

A nível da pornografia.

Não ia, mas agora vou.

Agora vai.

Agora vou.

Olha, eu vou-me despedir já da rádio e também do digital, que eu não estou para isto. Não estou sempre a levar com isto, sempre a falarem que a pornografia antigamente era melhor que era agora.

Não sei, eu não vejo a de agora. Essa falou o Borges.

E que antigamente não se rapavam e tinham os pelos. Epá, já estou farto dessa conversa.

E sejam muito bem-vindos à terceira parte de homens de uma certa idade. O tema hoje é: o que é que foram para ti os bons velhos tempos? Querem já ouvir o último álbum?

Sim.

Estou curioso.

Estou curioso para ver quem é que se juntou. O meu último amigo, de quem eu me lembrei ontem às 11:15 da noite, é alguém que já não está entre nós, portanto foi recuperado propositadamente para este efeito. E de acordo com a advogada estagiária do Observador, o nome dele deverá ser Ari dos Espantos.

Ari dos Espantos?

Sim. A tentar responder esta questão.

Os bons tempos não importam. O que importa é o minuto, o que importa é o agora, o que importa é aquilo que tu sentes e que tu fazes neste momento, porque não há passado, nem há futuro. Só há aquilo que acontece neste segundo. Obrigado pela vossa pergunta. Vocês são três homens de uma certa idade. Vocês são amigos em solidariedade. Vocês são qualquer coisa de especialidade. E às vezes são também a vagina que um homem tem na cama.

Que interessante esta.

Como é que tu consegues ter histórias destas pessoas?

A alusão final. Ari dos Espantos foi buscar uma. Eu imagino é o Borges sentado na sanita a fazer isso. O telemóvel à frente, com os putos a correr pela casa, e ele a gravar.

Ramins, lanço-te o desafio também, fazeres um programa e as vozes também serem as vozes que tens na tua cabeça.

Quantos áudios queres?

São só três.

Mas olha, uma coisa que também está, não é os bons velhos tempos, mas que fica na memória, sim, era os filmes pornográficos dos anos 80, das cassetes VHS, que tu mantinhas a magia de o que é que está dentro desta cassete.

Eu pensava que ias dizer o que é que está dentro desta atriz. Até me assustei.

Isso era o John Holmes.

Jesus.

Mas tu metias a cassete e ficavas fascinado e o enredo depois puxavas para a frente para perceber.

O enredo?

Sim.

Era mais complicado naquela altura.

E não era só isso. Havia um filme, tu tinhas um genérico, tu tinhas cenas. Tu agora, lá está, são cenas, são só cenas. Tu na net tens cenas, não tens filmes. Eu nem sei se ainda se faz filmes pornográficos.

Acho que ainda se faz aquela Vivid, aquelas duas ou três produtoras de conteúdo para adultos.

Mas eu aconselho.

E fazem paródias sobre tudo.

As paródias, e se havia paródias, eu vi bastantes.

Só a palavra paródias.

É horrível.

O Avengers.

É horrível, porque tu tens uma paródia sexual do Seinfeld. Tu vês o Kramer a comer a Elaine na sala do Seinfeld.

Ninguém quer ver isso.

Esquece. Mas o pior é que os gajos não são muito maus atores, está fixe. O gajo que faz o Kramer a fazer cena de entrada na porta, mas depois de repente tens a Elaine a fazer-lhe um bico. Ou tens que é o

Eu sei em brasileiro, que é o "Jerrada nas Estrelas", que é gozar com o Star Trek, em que tens o Mr. Spock.

Por que está a falar disso?

Tens o Mr. Spock.

Que é o Mr. Goku.

Não me lembro, é possível que seja, mas quando começa a ficar excitado, começam a lhe crescer as orelhas. Então o cara tem uma cena que tem as orelhas

Portanto, isso era os bons velhos tempos, era isso?

Não, isto é até relativamente recente.

Game of Thrones.

Eu lembro-me disso. Eu lembro-me de juntares a malta, até para ver os filmes pornô, tu juntavas, porque era uma cena tão exclusiva, tipo arranjei uma cassete e juntavas a malta: "bora ver".

Só fiz isso uma vez, não me senti bem. Não quis mais. Acho que isso é uma experiência solitária, não coletiva.

Atenção, nós víamos, não era com as calças em baixo, Borges.

Sim, mas há quem o fizesse.

Estou a imaginar o Borges a juntar os amigos.

Eu não juntei amigos nenhuns, eu era dealer, só.

A pôr a cassete e depois: "eu já venho, vou pôr uma coisa mais confortável". Os amigos a verem o filme, ele a entrar já nu.

Essa experiência que eu tive foi porque um colega meu do liceu, que era um grande maluco e acho que ainda hoje é, convidou a malta para ir para casa dele. E o filme que ele tinha escolhido no clube de vídeo chamava-se Animal Planet.

Já tive o azar de ter visto uma porcaria dessas quando era puto.

Eram cenas entre humanos e animais.

Eu também já tive esse azar. É horrível.

E pior ainda, o pai dele chegou a meio e devia ter chegado mais cedo. O pai dele chegou à sala, olhou para nós, toda a gente fez de conta que não estava presente. Ele tirou a cassete, fez um eject, leu todo o VHS.

E disse: "quem é que trouxe isto?"

Virou-se para o filho e disse, foi logo diretamente ao filho e disse: "Que espécie de pessoa és tu?" E nós todos: "fala!" Hoje vai ser mais rápido, vou introduzir a música, vocês não querem contar mais nada ou querem?

Não sei, estou de eyes open.

Já disse o que tinha a dizer.

Não sei se tenho mais que dizer.

Eu acho que o que nós podemos fazer, da nossa geração, que tem filhos ou tem sobrinhos, é um pouquinho partilhar estas histórias com eles e estas emoções, esta energia.

Faz muita falta o convívio, o contacto, a tertúlia. Isso não há dúvida. Faz tanta falta. Eu já senti falta disso na minha geração, quanto mais para os miúdos hoje em dia. Eu fui muito amigo do falecido Vicente Jorge Silva, que era um homem extraordinário e com um espírito, uma cabeça incrível, supernovo de cabeça. E ele contava. Ele foi um dos fundadores do Público e do Expresso, e ele contava sobre essas tertúlias, tu ias para cafés com pessoas, este é o grupo do cinema, este é o grupo da música, este é o grupo dos livros. Faz tanta falta esse contacto, não fazermos tudo através de ecrãs. O Rabic não me está a ouvir.

Não, não está a ouvir.

Estou a ouvir.

Lanço aqui o desafio às pessoas da nossa geração a partilharem essas histórias com os filhos e não só, perguntarem aos filhos também, apesar de serem mais novos, momentos que os marcaram até agora, para ver se adquiriam o hábito de ir conservando estas boas memórias. Eu quando me lembro, levámos muita porrada e as coisas não foram fáceis, mas eu recordo sempre com sorriso. E acima de tudo, ouvimos a melhor música de sempre. Isso não há dúvida, ninguém nos tira isso.

E vamos acabar com um bom exemplo, e que é muito apropriado ao tema. The Boss, Bruce Springsteen, Glory Days, uma música que eu sou uma pessoa tão dada à melancolia que quando eu era puto, já curtia esta música nos 20 e pensava: "o que eu vou sentir quando tiver nos 40 a ouvir esta música?" Glory days. They'll pass you by. Glory days like the wink of a young girl's eye. Olha, sinto-me triste, porque já não tenho o wink of a young girl's eye há bastante tempo. Grande The Boss.

Mas ainda vais wincar muito.

Não, ainda por cima. Mas isto é para o próximo tema, que é quando é que sentiste a envelhecer. Que é quando uma pessoa, já agora vou ter que contar, uma das coisas que te faz perceber que estás a envelhecer é quando tu estás num estúdio como este, e agora entrava aqui uma moça do Observador. E eu estou mais ou menos de costas para a porta. E elas são todas muito novinhas, ou quase todas. E o que eu vou fazer como ser humano normal? Vou acusar esse movimento. Ouço o barulho da porta, vou fazer assim, olhar para a porta. E é muito provável que a moça olhe para mim e naquele segundo de contacto visual, pense: "por que este velho está a olhar para mim?" Isso é muito triste. Eu só estou a olhar porque tu entraste.

Ela entrou, eu não sabia.

Mas isso é porque tens as calças em baixo.

Pois é isso.

Então enquanto ouvimos Bruce Springsteen, eu vou só puxar as calças para cima. Obrigado e até para a semana.

Comece a usar cuecas também, se faz favor.

Glory days. Well, there's a girl that lives up the block. Back in school she could turn all the boys' heads. Sometimes on a Friday I'll stop by and have a few drinks. After she put her kids to bed. Her and her husband Bobby, well, they split up. I guess it's two years gone by now. We just sit around, talking about the old times. She says when she feels like crying. She starts laughing thinking about glory days. Yeah, they'll pass you by. Glory days in the wink of a young girl's eye. Glory days. Glory days. Boys want some more. Rock it now. Think I'm going down to the well tonight. And I'm gonna drink till I get my fill. And I hope when I get old. I don't sit around thinking about it, but I probably will. Yeah, just sitting back trying to recapture a little of the glory yeah. Well, the time slips away. Leaves you with nothing, mister, but boring stories of glory days. Yeah, they'll pass you by. Glory days in the wink of a young girl's eye. Glory days. Glory days. Yeah, they'll pass you by. Glory days in the wink of a young girl's eye. Glory days. Glory days. All right. Ooh, yeah. All right. Come on, now. All right. Ooh, yeah. All right. Come on, now. All right, boys, keep it rocking now. Keep on going. Bring us home, now. Bring it home. Yeah. Bring it home. All right. Let's go!

Homens de uma certa idade. Homens de uma certa idade. O Borges, o Horácio e o Raminhos estão na Rádio Observador, porque já são homens de uma certa idade.