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Homens de uma certa idade. Homens de uma certa idade. O Borges, o Horácio e o Raminhos estão na Rádio Observador, porque já são homens de uma certa idade.
Olá a todos, sejam bem-vindos a mais um episódio de "Somos Todos Malucos", estava eu aqui a pensar, mas não, esse é o outro que eu faço, que por acaso está parado, mas tem que voltar. Homens de uma Certa Idade, na Rádio Observador, um podcast feito por três seres humanos com histórias particulares, porque são as suas próprias histórias convosco.
Por isso é que são particulares.
Isso é que são particulares. António Raminhos.
Está a gostar tão bem isto.
45 anos, condutor de distribuidores da Uber.
Da quê?
Da Glovo e da Uber. Eles vão buscar aos restaurantes, vêm com a mochila e eu levo-os ao sítio que eles têm que ir.
Malta que está a ouvir, quando vocês não tomam medicação à hora certa, isto pode acontecer. Portanto, tomem sempre a vossa medicação no horário indicado.
Luís Filipe Borges, designer, 51 anos. 51, Borges? Está bonito isto. 48 anos, designer de panos para guarda-chuvas, neste momento a fazer um doutoramento em toldos.
Muito bem. Paula Novais, 51 anos, e sou fabricante de casas modulares em Tirilene.
Eu quero uma. Tirilene é o quê?
Não sei, mas soa bem.
Isso parece a capital de um país da América. Já foste a Tirilene, na Letónia?
Exatamente. Na Europa do Norte.
Raminhos, uma pergunta: sabes quem é-
Sabes qual é o prato típico da Letónia?
Tirilene à Brás.
É o letão da barra. Dad jokes.
Muito bom.
Uma amiga disse assim: "Olha, gosto imenso do podcast, mas se puderes não respirar ajuda muito ao conteúdo". Mas por que é que estás a falar da Diana Garrido?
Porque eu de vez em quando faço . Hoje vou-me afastar.
É isso. Mas tu também te enervas muito. Olha, Raminhos, quem é Nuno Albuquerque?
Ele disse-me que ias falar disso. Nuno Albuquerque é o meu mestre de Shorinji Kempo e presidente da Federação Portuguesa de Shorinji Kempo, que me disse assim: "Um amigo teu vai dizer que esteve comigo num hotel".
Tive, sim, senhor.
O que é que tu estiveste a fazer num hotel com um mestre de artes marciais?
Onde é que era o hotel? Ao Barreiro?
E dia 16, onde é que tu vais estar?
Dia 16?
Pois.
Dia 16 de novembro? Não sei onde é que eu vou estar.
Não vais estar numa competição qualquer brevemente?
Não é dia 16, é este fim de semana.
É este fim de semana.
Ou seja, já passou.
Ou seja, já passou. Ganhei, malta. Ganhei! Foi espetacular. Ganhei. Ora bem, o tema desta semana é: qual foi a vossa primeira grande asneira? Sendo que quando eu pensei neste tema, quando pensei em grande asneira, eu acho que podemos dividir também por fases da vida, porque tens uma grande asneira quando começas a tua vida, normalmente, na infância, mas eu acredito que tu também hás de ter uma grande asneira na adolescência, que marca a tua primeira grande asneira da adolescência e a primeira grande asneira na vida adulta. O que é esta definição de grande asneira? Eu acho que nós assumimos muito que quando somos crianças é mesmo coisas de crianças.
Inocentes, não é?
Inocentes. Às vezes não sei se são inocentes ou não, mas eu incluí nesta pergunta e nesta palavra, asneiras, sejam questões emocionais, sejam físicas, sejam particularidades, sejam às vezes mentiras que não estávamos à espera que se transformaram numa grande asneira. Da minha parte, por exemplo, na infância, eu não consigo encontrar uma grande asneira.
Tu és uma grande asneira.
Porque foram várias. E eu perdi a noção do tempo. Eu não sei onde é que elas se situam no tempo.
Ok.
Mas tenho várias.
Ou seja, a tua infância foi toda uma grande asneira e, portanto, não consegues distinguir uma que seja maior que a outra.
Tenho aí três ou quatro que marcam claramente a minha infância. Mas eu vou vos dar espaço também. O Borges não fez nenhuma.
Não.
Porque a mãe não deixava.
Exatamente, porque eu era um rapaz-bolha.
Rapaz-bolha, olha, estava um belo filme.
Rapaz-bolha, pois é. Não vi um filme assim.
Acho que sim. Que é literalmente ele vive dentro de uma bolha.
Sim, que ele vive dentro porque tem um problema de saúde.
Exatamente. Eu sei que eu conto isto e ninguém acredita, mas eu até aos meus 18 anos saí à noite cinco vezes. E eu sei que foram cinco vezes, porque acho que me consigo lembrar de cinco mentiras que tive que contar para poder sair. Era um trabalho de grupo muito importante em casa de um amigo, era um retiro católico, não sei como. Portanto, cinco vezes porque tive que contar cinco mentiras.
E não tiveste medo-
De ser apanhado.
Se calhar isso foi a tua primeira grande asneira.
Dizer mentiras. Sim. Quer dizer, não me arrependo porque me diverti nessas únicas cinco noites. Consegui curtir numa delas.
Qual delas? A primeira, a segunda, a terceira, a quarta ou quinta?
No retiro católico? Foi no retiro católico que conseguiste curtir?
Por acaso não. Na mentira do retiro católico. Se calhar foi. Não sei, eu não fui para o retiro católico, fui para a Jump, que era como se chamava a discoteca, que tinha aquela música de opener, o anúncio na rádio da discoteca.
"I said jump!"
"Jump!" Tocava todos os dias.
E tu não tiveste medo da tua mãe descobrir?
Activo, claro.
Mas a tua mãe, como também não saía de casa porque estava sempre a ler a Bíblia e a rezar.
Imagina ele chegar à discoteca e estar lá a mãe dele.
Isso é que era. Ou de linguados com o colega dele.
Ó Raminhos, tu hoje estás impossível.
Dopo de eu ir para a faculdade, a minha mãe liberou o geral e eu já podia sair. Só que ela, coitadinha, não se deitava enquanto eu não chegasse a casa.
Mas eu acho que isso era um clássico das mães.
Sim, acho que todas as mães padecem dessa insônia.
O teu pai só queria era comprar eletrodomésticos, tecnologia e ver Sports Illustrated. E tu, Marco Horácio?
Vou-vos já falar da asneira que vai acontecer neste momento, daqui a um bocadinho, que é: eu vou tomar uma coisa que é tipo uma coisa de fruta. Não é fruta, leva pera, uva, chlorella.
Tens razão, não é fruta.
Alcachofra.
Coca não é fruta, é uma planta.
Tematcha, brócolo e espinafres.
Vais almoçar? Vais comer uma sopa.
Não, há aqui uma grande possibilidade de eu me alvejar durante esta gravação, esta se calhar é a maior asneira que eu vou fazer. Quando era miúdo, eu também tinha um pai muito rigoroso, como vocês sabem, e partilhámos aqui. Houve uma vez que fui à matinée, saí de casa. Não sei qual foi a desculpa que inventei.
A matinée era à tarde, não era?
Era das 17h à noite.
Eu nunca entendi esse conceito de discoteca à tarde.
Era maravilhoso.
Mas por quê?
Domingos à tarde. Vou te dizer porquê.
Nunca experimentei.
Porque a matinée tinha uma coisa que não havia nas noites, que tinha os slows.
O quê?
Tinha os slows. A matinée tinha os slows, ou seja, aquilo começava com a música normal de discoteca e de repente havia os slows, a malta abria aquele buraco todo na pista, ficavam todos a olhar uns para os outros e depois os casaizinhos iam, assim meia vergonha, pedir para dançar.
Eu fui a uma festa de garagem, numa das minhas cinco mentiras para poder sair. Uma festa de garagem onde dancei slows. Em casa do meu amigo Rodrigo, que era popular, e eu dancei um slow com Nélia. Nélia, até me lembro. Lourinha, olhos azuis, ruliça como eu.
Nélia, se puderes, liga ao Luís de Borges.
Diga que estás perdoada.
Fiquei muito entusiasmado.
Ou seja, és um dançarino de slows.
Eu acho que nunca dancei um slow.
Estás a gozar. Tens que fazer isso com a Catarina.
Carlos Wisches.
O Carlos Wisches.
Nós não gostamos de dançar.
Carlos Wisches.
E nunca dançamos. Eu acho que dançamos no nosso casamento porque fomos obrigados.
Carlos Wisches?
Em português. Carlos Wisches.
George Michael é Carlos Wisches?
Só deve ser para aí uma vez, um slow.
Ó Raminhos.
Mas deixa-me dizer-vos que vocês foram muito tenrinhos na vossa-
Tu deves ter algum encargo entrado.
Vou começar por uma que eu contava muito nos espetáculos de stand-up.
Quando cegaste três vizinhos com uma fisga.
Não, mas não estiveste muito longe. Eu tinha um problema. Espero bem nunca ter contado isso aqui. Acho que não, que deitava muito sangue do nariz. Eu já contei esse episódio?
É possível.
Não, eu acho que tu já te lembras porque eu já contei isto em espetáculos e provavelmente já falámos. Mas eu deitava muito sangue do nariz e há uma vez que eu estou a deitar sangue do nariz e em vez de meter a cabeça debaixo d'água e pôr algodão ou qualquer coisa para parar de deitar. Eu não sei que idade é que eu devia ter, devia ter para os sete ou oito anos. E em vez de parar o sangue, o que eu resolvi fazer? Comecei a recolher o sangue num copo.
Ok.
Encostei o copo ao nariz.
Esta história mete a tua avó?
Mete.
Já contaste.
Aqui?
Já.
Então não.
Fogo, estás a repetir.
Mas essa foi a primeira.
Fogo, tu estás a me queimar.
Não, é que eu já contei isto.
Vais pôr isso à tua avó.
Para quem não se lembra ou não ouviu, eu recolhi o sangue, basicamente, recolhi o sangue no copinho e depois deitei o sangue nos meus olhos. E fui correr para a minha avó dizer assim: "Avó, o gato vazou-me a vista. O gato vazou-me a vista". E a velha ia morrendo do coração e eu parecia a imagem de Cristo. Estás a ver aqueles filmes de terror, que as pessoas têm as chagas de Cristo e choram dos olhos. E a minha mãe, obviamente, passou-se da cabeça.
Olha, eu estou neste momento a ligar para o meu médico. Tu precisas de uma consulta. Tu estás a ficar carregadinho de Alzheimer.
Vocês não levaram dos vossos pais? Eu lembro da última vez que levei do meu pai.
Eu acho que a minha mãe bateu-me nessa altura, foi para aí duas poucas vezes.
Eu tinha 17 ou 18.
Foi pouco.
Portanto, já era bem crescido. E eu já não sei o que é que estávamos a debater à mesa de jantar, mas sei que o meu pai deu a opinião sobre qualquer coisa. E era um assunto que eu achei que ele não dominava de todo, e saiu-me.
Cala-te.
Não, saiu-me. Confirma-se. Burro velho não aprende línguas.
Já contaste isto aqui também.
E levei assim com as costas da mão, levei assim um chapadão. Bem-vindo aos 5 aqui, a latejar o lado.
Estou a ficar muito preocupado com vocês os dois.
Nós estamos ótimos.
Vocês estão em loop. A vossa revista está em loop.
Não estamos nada, Pedro. Olha, vamos ouvir o primeiro áudio, pode ser o da Cátia Pitrez.
Já passou.
Se quiseres. Já passou. Já mandaste este Cátio?
Este Cátio já.
Quem é Cátia Pitrez?
É a minha vizinha.
É a conta que tu fizeste.
Já carreguei.
A minha primeira asneira? Eu nunca fiz asneiras na vida, Raminhos. Portanto, eu morava numa aldeia, devia ter para aí uns cinco anos Uns amigos meus, uns vizinhos meus, rapazes, estavam sempre a chatear-me, a meter-se comigo e a estragar as minhas coisas. Mas eles tinham uns carrinhos de brincar, uns carrinhos que eles brincavam, pequenitos, e que gostava imenso deles. Um dia eles deixaram-nos lá perto da minha casa e o que é que eu fiz para me vingar? Peguei neles e atirei para o meio das silvas. Um dia mais tarde, vem um senhor cortar as silvas e apareceram uns carrinhos e eu enterrei-os. Até hoje estão enterrados lá no quintal da minha mãe.
Que medo!
Caraças!
É que isto começa com carrinhos, depois acaba com corpos.
Sim, começa tão suave e acaba em terror, quase gore. Muito bom.
Eu por acaso ia desenterrar esses carrinhos para ver.
Sim, devem valer uma fortuna.
Lembrei-me de outra asneira. Agora que estou a avançar na vida. A coisa mais fixe que eu fiz na faculdade de Direito foi fazer parte do grupo de teatro. E a primeira peça que eu fiz, A Varanda, de Jean Genet. Éramos 19 ou 20 atores em cena. E A Varanda passa-se num bordel e eu fazia o chefe da polícia. Eu era o protagonista masculino e a protagonista feminina, a Irma, era a dona do bordel. O detalhe é: a moça que fazia de Irma não se dava nada bem comigo e eu não me dava nada bem com ela. E havia uma cena na peça onde nós tínhamos que nos beijar na boca de cena durante cinco minutos.
A beijar, cinco minutos?
Sim, cinco minutos, enquanto montes de coisas aconteciam à nossa volta. À nossa volta? Pronto, atrás de nós.
Mas isso é um péssimo casting, vocês não se gramarem e terem que fazer uma cena de um beijo.
Nós descobrimos durante os ensaios. Hoje em dia é engraçado, somos amigos.
E sempre que se veem, beijam-se cinco minutos.
E então a Laura, a minha colega e hoje amiga, cuspia-me na boca.
O quê?
Que nós tínhamos que estar mesmo de boca aberta. Era o chamado beijo técnico, não usávamos língua, mas então ela cuspia-me na boca e eu dava-lhe beliscões nas nasilhargas.
De certeza que vocês se odiavam?
Eu acho que havia aí... Como é que isso acabou, essa amizade?
Não, ficámos amigos.
Quantas vezes é que tiveram que se beijar em palco?
Fizemos mais 30 vezes essa peça.
Tu tens muito a ADN da Laura.
Exatamente.
Houve uma que eu também me lembro, depois eu vou passar para a adolescência, mas parte ainda de criança, que foi: um dia eu fugi de casa. Nunca fugiram de casa?
Não, mas sonhei com isso várias vezes. Só que eu depois estava desorientado.
O Boris fugia de casa e depois quando dava por ele, estava em casa outra vez.
Exato.
Dava a volta ao bairro e ia parar. Tipo: "Consegui, já tenho uma casa para mim e tudo. Espera aí, esta é a minha". Houve uma vez, não sei que idade é que tinha, mas provavelmente 10, por volta desses 10 anos, eu fugi de casa, só estava com a minha irmã. Eu gosto muito da minha irmã, dou-me bem com ela, mas na altura, aquelas tricas de irmãos. Eu tenho ideia que a minha irmã ajustava muitas contas comigo de coisas que tinha com o meu pai. E há um dia que eu digo: "Vou fugir!" E bazo de casa e desapareci. A minha irmã, eu estava sozinho com ela, ela é mais velha do que eu, sete anos, portanto, digamos que ela tinha 16, 17. E eu lembro dela à procura no meu bairro e eu estava às gargalhadas escondidas com ela, porque eu estava a vê-la. Tipo escondido. E via-a à minha procura, mas depois comecei a sentir-me culpado. Não, Tozé. Ninguém me chama António. E eu fiquei com a sensação de depois comecei a vê-la desesperada, como é óbvio, à minha procura, e depois apareci e tenho ideia que devo ter pedido desculpa.
Bonita história, António. Que bonita história.
O Boris, tu pediste-me para controlar o tempo. Não foi, certo? Certo, Boris?
Foi.
Então, respira fundo.
Exato, respira.
Eu tenho um relógio aqui à minha frente.
Com quantos minutos é que vamos?
16.
Então está na hora.
Não, é aos 17.
É aos 17.
E só por causa disso não vou te dizer quando é que vão chegar aos 17.
Agora vais ficar aí.
Vou contar Mississippis na minha cabeça.
Vais ficar com palpitações.
Mas eu acho que a minha família também, os meus irmãos também potenciavam as asneiras. O meu irmão, eu tenho um slide do meu irmão, quando o meu pai estava a fazer casa no Alentejo. O meu pai fez literalmente a nossa casa no Alentejo, com a ajuda do meu irmão, dos meus tios, etc. E há um dia que o meu irmão-
É todo em plasticina e tirileno.
O meu irmão lembra-se. A malta foi almoçar à choupa e o meu irmão ficou lá sozinho e lembrou-se de se fingir de enforcado num poste.
Meu Deus do céu.
A cena foi ele saber fazer aquilo. Prendeu a corda por baixo dos braços, vestiu uma t-shirt, ia sair por trás do pescoço e pendurou-se.
Meu Deus.
Aparece o meu tio: "Francisco, Francisco!" E pronto, era o divertimento. Como é que eu não hei de ser assim? Explica-me.
Já vamos com 18 minutos.
Que bonita imagem para terminarmos esta primeira parte. Aos 17 minutos e 30 segundos. Vamos fazer um pequeno intervalo.
Vamos, sim.
Até já.
Homens de uma certa idade. Homens de uma certa idade.
Sim, bem-vindos a essa segunda parte. As asneiras que nós contámos neste-
Não, mas essa tu não podes contar. Essa que tu contaste é normal.
Não, há umas que eu vou contar na terceira parte.
Sim.
As asneiras de feliz mais adulto.
Aliás, podemos começar já a lançar o nosso segundo áudio.
Eu na terceira parte vou contar uma que eu nunca vos contei, acho que só o meu melhor amigo de infância é que sabe.
Epa!
E que é mesmo absurda.
Absurda?
Basicamente eu podia ter morrido. É de umas estupidezes gritantes.
Essas asneiras. Aliás, o meu novo espetáculo, o "Volto Já", estou a fazer publicidade.
Faz muito bem.
O "Volto Já" fala muito sobre a morte, sobre o meu medo de morrer, mas fala dessa perspectiva de que a malta dos anos 80 e 70, a maior parte de nós não era suposto estarmos vivos.
Pois não.
Com a porcaria, com as asneiras que nós fizemos, com as idiotices e com a falta de controle e de responsabilidade civil que havia, eu acho que grande parte de nós não era suposto estarmos vivos. Aliás, nós vamos ouvir exatamente uma dessas asneiras, que é bastante ridícula, de Cândido Costa.
Oh!
Olha, este é o rapaz do Leroy, não é?
É. É o rapaz de tudo.
Olá, viva, meus amigos, como estão? Bem-dispostos? Espero que sim. Um cumprimento também especial a todos os ouvintes deste magnífico, deste extraordinário podcast, realizado brilhantemente por essas pessoas que aí estão, no fundo, a tentar comunicar e com isso, através deste grande portão para a vida que é a nossa boca, produzir emoções e sensações em todos aqueles que escutam atentamente para não perderem pitada. Portanto, fui desafiado para contar aqui uma travessura, uma asneira que eu tenha feito. Fui na escola, um dia eu e um amigo meu, grande companheiro de luta, mas com profusamente, decidimos pôr álcool no corrimão, que era de madeira, e dar-lhe fogo. Portanto, foi uma asneira assim um bocadinho mais... Basicamente, habilitámo-nos a pegar fogo à escola. Isto contado assim, parece que: "ei, incendiários!" Não é assim tão grave também, mas sim, tentámos de facto ver o que acontecia com álcool em madeira e um isqueiro. Um abraço a todos. Tudo brincadeiras que enfim, não são nocivas e qualquer miúdo em casa pode, sei lá, desentarrar o sofá. Estou a brincar, não vás por aí. Maltinha, um abraço muito grande e um abraço especial, naturalmente, ao Ramiños, o meu eucalipto preferido, o meu pedacinho da altura. Beijinho grande, minha cabeça de tachinha. Olha, há um pormenor que é: eu lembro-me de ser puto e de fazer estas merdas, porque estava tudo em casa, acesso a tudo. Eu lembro-me também de fazer brincadeiras idiotas com álcool. Meu, isto podia ter dado asneira da grossa. Eu lembro-me de pôr álcool no meu braço e puxar fogo. Por quê? Porque eu tinha visto: pus creme Nivea e depois pus álcool.
E arde?
E arde.
Mas ateia, faz chama?
Claro, faz chama. E claro que eu apagava logo.
Com o Nivea? O Nivea tem um...
Não, eu punha o álcool, punha a Nivea pra não sair diretamente na pele. Mas meninos, não façam isso, que isso é só estupidez. Porque eu fazia aquilo e apagava logo. Queimava! Mas eu acho que nós fazíamos tanta porcaria. Vocês nunca saltaram, nas obras, pra montes de areia?
Sim.
Eia, bem. Nunca fizeste isso?
E as traves com pregos que havia em todo lado.
Nunca fiz isso, mas fizeste-me lembrar uma coisa que até é bem recente, aqui há poucos anos, com a minha ex-mulher, fomos passar o Natal à Suíça, onde ela tem família. E foi uma experiência maravilhosa passar o Natal nos Alpes.
Claro.
Num chalé. Neve por todo lado. E nós, houve uma tarde que andámos a atiramo-nos, a rebolar. Dois adultos, bem adultos. Atiramo-nos pra neve, a rebolar. Uns dias depois, descobrimos que um rapaz que tínhamos conhecido nesses dias de Natal, um rapaz de 20 anos, que era filho de um vizinho ali, morreu a fazer a mesma coisa, a atirar-se na neve. Havia um poço num determinado sítio, ou seja, tu não sabes o que é que está. E era aquela neve muito fofa, e não sei o quê. E o gajo teve este inacreditável azar. Além de terem estado dias, os pais achavam que ele tinha fugido de casa.
Mas aí nem sequer é bem uma asneira.
É uma inconsciência.
Eu acho que nem é bem inconsciência. Eu não sei.
Eu, como sou um desastrado do caraças, eu logo num dos primeiros saltos que dei, não me magoei muito, mas cheguei a arranhar imenso a perna.
Saltaste num monte qualquer.
Havia uma coisa que estava tapada pela neve, que era tipo um pequeno poste.
Se calhar era o rapaz.
Eu podia ter ficado empalado.
O Borges.
Era o rapaz.
O rapaz ainda estava vivo nesse dia.
O Borges era tipo a cair dentro do poço e nem sequer havia neve.
Sim, fácil. Muito fácil.
Eu lembro-me de estar em obras. Por quê? Porque lá está, também mais uma cena típica de antigamente: as obras não eram entaipadas, é assim que se diz? Não eram fechadas. E tu tinhas acesso às obras. Andavas no meio das obras.
Eu ia a obras, mas era pra roubar. Eu e meu irmão gostávamos muito de ir buscar madeirinhas.
Fazer carrinhos de rolamento.
Era para construires cidades, na verdade.
Sim, também.
Como os nossos pais, soube recentemente que chegámos a ter bicicletas, que eu não tenho nenhuma memória disso, e é natural que não tenha, porque da primeira vez que subiu numa bicicleta, obviamente caí.
Espalhaste as amas. Nunca mais!
Exatamente. E a minha mãe: "pegou nas bicicletas, nem pensar, lixo com as bicicletas". Primeiro dia, é claro que vais cair da bicicleta. Pistolas nem pensar, porque provavelmente íamos desenvolver uma perigosa mente ao serviço do crime. Não havia coisas caras, carros telecomandados. O que eu e meu irmão gostávamos de fazer era: nós construíamos o nosso próprio mundo, que chamávamos de Ômega, porque o relógio do meu pai era Ômega e a gente achava muita piada à palavra. E em Ômega cada um construía a sua cidade. E íamos roubar restos de fazava.
Fazia com caixas de cartão, tipo castelos.
E maços de tabaco, aí eram os carrinhos, porque o maço de tabaco sem cigarros, a gente punha os bonequinhos lá dentro e eram os carros.
Pois era!
Por que tinha os maços de tabaco? Os meus pais não fumavam.
Repara, isso pode justificar o Borges fumar hoje.
Não. Uma tia da América tinha oferecido. Mandou não sei quantos volumes de tabaco lá pra casa. E por acaso, uma memória muito engraçada que eu tenho de infância, eu tenho isto muito presente, ainda por cima tinha faltado luz, que era uma coisa relativamente regular, e os meus pais ainda tinham aqueles candeeiros a gás.
Sim.
E então eu lembro-me de estar sentado na mesa da cozinha, à luz do candeeiro a gás, e os meus pais, bem novos ainda, 30 e poucos anos, talvez por não terem mais nada pra fazer, enquanto a luz não voltava, a loucura que lhes deu pra fazer foi: "Olha, vamos experimentar aqueles cigarros que a tia Maria..." E então eu lembro do meu pai, de estar a vê-los frente a frente com o candeeiro no meio, mas lembro do desconforto deles a darem umas passinhas nos cigarros. E terão detestado. A minha mãe deitou os cigarros todos fora e depois eu fui buscar porque achei: "Estas caixinhas são muito giras, vão servir pra qualquer coisa". Então fiquei só com os maços, mas um porradão de maços, que ainda eram muitos volumes. E eram os carrinhos que eu e meu irmão usávamos para os nossos bonecos, os habitantes de Ômega.
E os habitantes era o quê? Eram os cigarros?
Não, eram bonecos. PVC.
Eu cheguei, eu acho que isso já partilhei aqui também, no Alentejo, a brincar quando era miúdo, séria uma asneira. Era e não era. Às vezes, pássaros morriam e eu brincava com os pássaros mortos.
Não, não contaste. Vamos desenvolver isso.
Brincava com os pássaros mortos. Lembro-me de sentar um pardal em cima de uma cadeira, que era tipo o rei.
Ok.
E estava o pardalito lá. E depois os meus bonequinhos, Playmobils e aqueles soldadinhos de tropa.
Os verdes.
Verdes, aqueles verdes, eram os soldados do rei pássaro, o rei pardal, que ali estava.
Quanto tempo é que o rei demorava a descer à vala?
Aquilo era na rua, portanto, foi nesse dia. Mas lembro de uma cena que foi uma grande asneira que eu fiz, que levou a perseguição policial e tudo. Já estou a entrar na adolescência, que foi nos olivais. Nós lembrámos de fazer, quando salta a fogueira?
São João.
Sim.
Num dos santos. Nos olivais, perto de um sítio que se chama Vale do Silêncio, que é um grande bosque, nós resolvemos fazer uma fogueira, com um pormenor: nós andámos uma semana a ir ao antigo Pão de Açúcar, roubar paletes de madeira.
Durante uma semana?
Sim, fizemos uma fogueira, não estou a exagerar.
Burning Man.
Quase, sim. Tinha três metros à vontade. E puxamos fogo a aquilo tudo, num sítio ao pé de um bosque, volto a relembrar, tinha cimento, ok. Tinha cimento, nós achamos: "É um sítio fixe", puxamos fogo àquilo.
Na altura, não se chamava só vale, ficou Vale do Silêncio, que isto é uma história que nós estamos a contar.
Mas depois achamos que: "Isto é uma festa, podemos tornar isto melhor". Então, o que começamos a fazer? Fomos buscar latas de aerossol, tipo de dunduns e não sei o quê, e começamos a atirar pra dentro da fogueira. E aquilo começa a mandar bujardas a torto e direito, as latas assim disparadas pra todo lado. Esqueci-me de dizer, aquilo era uma praceta, havia prédios à volta. Alguém chamou os bombeiros e a polícia, então nós estávamos todos na fogueira e de repente só vem um carro de bombeiros e dois carros de polícia e os policiais saem a correr na nossa direção e nós bazamos todos. Eu sempre a rir, rindo como o caraças dos nervos, provavelmente. Não me apanharam, acho que não apanharam ninguém, porque depois ficaram preocupados em apagar o fogo. E nós acabamos por fugir. Houve uma vez que também fui a um mercado roubar ovos pro carnaval, eu e outro gajo.
Faz-me lembrar da primeira vez que eu roubei.
Eu roubei duas vezes na minha vida. Roubei essa, que fui roubar ovos com o meu amigo.
E o coração da Catarina.
Fui roubar ovos com esse meu amigo e estava lá o gajo escondido, o senhor, que veio a correr atrás de nós, mas não nos apanhou, porque jamais gente tinha ido lá roubar ovos. E fiz o clássico de roubar uma barra de chocolate do Pão de Açúcar. Mas das duas vezes senti-me mal.
Eu acho que só roubei uma.
A fazer isso.
Pois, eu acho que só roubei uma vez, porque eu era muito pequenino e a minha mãe fez-me sentir tão mal, e eu não sei por que eu fiz aquilo. Mas eu tinha sete ou oito anos.
Eu acho que acaba por fazer parte de alguma maneira.
E fomos a uma mercearia onde a minha mãe costumava ir. E o que eu roubei? Eu roubei um tubinho com bolinhas. É aquelas coisas pra decorar o bolo.
Sim. Prateadas?
Prateadas. Um tubinho com bolinhas.
Que eu nunca percebi se isso dava pra comer ou não.
Também não. Estava mesmo a pensar nisso.
Eu acho que sim, eu acho que isso era de açúcar, só.
E a minha mãe fez as suas compras, não sei o quê. Eu peguei naquele tubinho, sei lá, pus no bolso ou no casaco. E quando chegamos à casa, ela viu aquilo, voltamos no mesmo dia ao sítio pra eu devolver aquilo e pedir desculpa. Eu não sei, aquilo chamou-me a atenção. Eu acho que não havia maldade, não era: "Vou levar isto". Mas o que eu sei é que foi uma lição pra vida, porque eu acho que nunca mais roubei nada. Já houve aquelas coisas do achado não é roubado, qualquer coisa no chão minimamente valioso que posso ter pegado.
É, coisas que o Borges encontrou no chão, depois da pessoa que espancou também estar no chão, e ela deixou cair algumas coisas. E ele: "Achado não é roubado."
"Este laptop está aqui."
Exatamente, esta chave de carro.
Mas eu roubei essas duas coisas. Eu lembro-me do chocolate. Por que eu fiz isto? Era aquela cena dos putos dizerem: "Elas foram à escola buscar tablets e não sei mais o quê, de chocolate." É aquela excitação, acho que é mesmo cenas asneiras de puto.
Lembrei-me de uma coisa horrível.
Desculpa. Lembrei-me de pôr aquilo na manga, levar um quispo e pôr aquilo dentro da manga e ir à caixa comprar mais qualquer coisa, pra dar aquela coisa: "Vou comprar uma, mas vou levar aqui outra."
Dois em um.
E depois sair com aquilo e, em vez de me sentir bem, sentir-me mal. E por isso é que só aconteceu uma vez. Portanto, eu acho que o que tu fazes a seguir não é o roubar em si, que te vai tornar um delinquente. É, obviamente, também a tua personalidade, o que tens em casa, porque isso acabam por ser experiências.
Eu tenho uma história feia. Lá está, de boas intenções está o inferno cheio, e eu e as pessoas que fizemos o que eu vou contar tínhamos muito boas intenções. Então, quando eu estava no oitavo ano ou nono, já não me lembro bem, nós tínhamos um professor de matemática, que era um senhor mais velho, e ele era muito querido. Ninguém gosta de matemática, mas ele gostava. Ele era tão apaixonado por matemática que nós tínhamos carinho pelo homem. E ele era um homem com idade pra ser nosso avô. E ele tinha um detalhe: ele não sabia falar inglês.
Ele não sabia de matemática.
E havia um rapaz na sala que chamava-se Xavier e ninguém gostava do Xavier. Ninguém gostava do Xavier por outros motivos. O Xavier era um bocado bully. E o Xavier, quando percebeu que o professor de matemática, velhote, não falava inglês, começava a insultá-lo em inglês, dizia-lhe coisas a rir, mas em voz alta, e insultava-o nas aulas. E eu, que sempre fui, nessa altura, pelo menos, uma paz de alma, já não sei quem é que teve esta ideia, acho que não fui eu, mas eu e mais três amigos pensamos: "A gente tem que se vingar deste gajo." Então, em honra do heroísmo, há dois castelos: há o Castelo de São João Baptista, feito pelos espanhóis, muito grande, e há um forte português que hoje em dia, e desde há uma data de anos, é uma Pousada de Portugal, e está recuperado, mas naquela época esse forte estava em decadência. E nós combinamos uma coisa com o Xavier: "Vamos encontrar pra fazer não sei o quê." Já não sei qual era a treta pra ele aparecer. Mas o Xavier aparece no forte, um forte que está ao abandono e em decadência, e nós amarramos o Xavier, levamos o Xavier para o sítio onde eram as masmorras do forte, originalmente, e sei que havia muito excremento de pássaros. E a gente pegou em luvas, amarramos o gajo a uma cadeira e sujamos o Xavier de excremento de pássaro. Não lhe batemos, mas basicamente ele foi, pelo menos, psicologicamente torturado durante um tempo. E a gente depois saiu, ficamos a ouvi-lo chorar por uma hora. E depois pensávamos: "Esse cara já chega." Voltávamos a descer, tipo: "Não voltas a fazer aquilo com o professor Manel?", "Não, não volto a fazer, não sei o quê." Lá libertamos o gajo e ele foi à sua vida. Claro que ele deve ter chegado a casa tão sujo.
Assustado.
Transtornado.
Não, os pais do Xavier foram ao conselho diretivo, tipo: "Aconteceu aqui uma coisa horrível ao nosso filho", chegou todo borrado, literalmente.
Porque vai na moto.
E ele urinou, coitado do rapaz.
O Borges disse que não fez asneiras.
O que nos chafou foi quando fomos os quatro ao conselho diretivo. Eu era um santinho da escola, muito bom aluno, não me metia em problemas nenhuns. E o presidente do conselho diretivo ficou mesmo: "Mas o que é que tu estás a fazer?"
Aqui neste grupo.
E eu tornei-me um bocadinho o porta-voz, porque um ou dois rapazes desse grupo andavam metidos assim, cabiam no perfil de uma coisa destas, eu não. E então eu expliquei que estávamos muito arrependidos, e estávamos, fiquei a me sentir horrível com aquilo. E explicamos também os nossos: "Ele porta-se muito mal com o professor que a gente gosta, isto não se faz, queremos dar um castigo." Esse senhor, o presidente do conselho diretivo, por acaso esteve muito bem, porque eu lembro de eu explicar-
Prendeu-vos a vocês todos nas mãos.
"Ok, meninos, mas as coisas têm um peso e uma medida, e o que vocês fizeram não se faz. O que vocês deviam fazer é vir falar comigo e dizer: 'Há um colega nosso que se porta muito mal com este professor', eu falava diretamente com ele. Isto podia ter corrido muito mal." Deu a devida descasca e não foi condescendente. Mas basicamente o que nos chafou foi eu ser um rapazinho, ser o casting mais estranho daquela situação, tipo: "O que é que este miúdo super bem comportado..."
Pediste desculpas ao Xavier ou não?
Não, isso não.
E nunca mais falaste com o Xavier?
O Xavier depois tornou-se DJ.
E tem uma masmorra em casa.
Não tenho a certeza, ele era mesmo uma besta naquela altura, portanto é a minha desculpa pra não lhe ter pedido desculpa, mas não sei se mais tarde ou não houve uma pequena conversa sobre isso. Sei que eu fiquei a sentir-me mal, óbvio.
Sabes que isso dava alta filme thriller, o Xavier crescer e depois a seguir querer vos matar a todos.
Um a um.
A gente não lhe bateu.
Mas ainda assim.
Só o prendemos e o esborrámos de caca de pombo.
E olha, e é com esta nota.
Espera, tenho que dizer isto porque as pessoas devem estar-
O Horácio vai passando pelos picos e pelas raras. Foi uma vez a uma matinê. E pronto
...o nosso público deve estar a pensar exatamente isso.
Para as pessoas pensarem que ele é boa pessoa, nunca fez asneiras.
O Marco Horácio está a falar muito pouco hoje. E assim, eu estou em choque, porque eu percebi hoje que eu estou a fazer um podcast com dois meliantes
Eu estava no oitavo, nono ano.
Não me interessa. Eu daqui vou directamente à Polícia Judiciária e vou levar esta fita.
Esta fita, mesmo à velha.
Esta fita.
Vamos buscar, o rolo está ali fora. O senhor está a cortar agora.
Vocês não vão passar impunes. Vocês são criminosos.
Ainda tenho uma bem pior para contar, mas que só me envolve a mim.
Contas na terceira parte, que vai continuar exclusiva no online, onde vamos contar todas as ordinarices. Onde eu vou contar literalmente a minha primeira asneira de sempre.
Foi acabada em alho.
Não. Por acaso foi uma história bem engraçada. Muito obrigado por estarem desse lado.
Muito obrigado.
Por nos acompanharem no éter da rádio, nas ondas hertianas e por acompanhar também no digital. Muito obrigado. Até para a semana.
E não brinquem com álcool nem com caca de pombo.
Não façam.
Sobretudo juntos.
"Homens de uma certa idade".
Sejam bem-vindos à terceira parte do "Homens de uma certa idade". Qual foi a vossa maior asneira? Sendo que eu e o Luís Sepé Orge temos falado bastante e o Marco Horácio deve ter feito muita asneira, já matou pessoas, enterrou outras e nunca falou nada.
Já agora vou contar esta, até porque nunca vos contei isto.
É a tal história que só o teu melhor amigo sabe.
Quando eu era caloiro em Lisboa, eu nunca tinha andado de metro.
Alerta-se à mé.
E eu sou eu. Então uma vez-
Eu sou eu. E tu és tu
...na estação de Entre Campos, eu apercebo-me que estou no deck errado, não é aqui que eu tenho que estar. E então eu atravessei a linha, porque era muito mais rápido do que subir as escadas outra vez.
Por sorte não tocaste na catenária.
Exatamente. Eu lembro-me que era noite, tipo 22:30, 23:00 horas.
Nem devias saber o que aquilo era, claro.
Pois não. Eu só me lembro que havia muito poucas pessoas, quer de um lado, quer de outro.
Vimos aí nas "abordes", tinha que ser paciência nenhuma.
"Estou no sítio errado". E então ao olhar, já via a cena dos minutos, faltam X minutos para este. E eu: "Ok, tudo bem".
Mas como? Desceste aquelas escadinhas da ponta ou não? Saltaste?
Salttei para a pista, para os carris. E por milagre, sabe Deus, Deus ficou mesmo assim: "Epá, o que caralho". E mandou dois anjos: "Segurem esse banana, que eu ainda tenho uns planos para ele. Segurem esse banana para ele não tocar em nenhuma porra de metal". E eu, pronto, ligeiramente, numa questão de segundos, cheguei ao outro lado.
Que caraças. E as pessoas?
É isso que eu ia contar. Há tipo cinco ou seis pessoas, há muito pouca gente. E eu de facto lembro-me das pessoas ficarem. Eu lembro-me de haver um ar tipo: "O que este gajo está a fazer?"
"O que estou a fazer?", sim.
Mas pronto, aquilo são literalmente segundos, eu chego ao outro lado e depois: "Ok, agora estou aqui para apanhar o metro certo". Eu acho que ia para casa do meu amigo Luís ou não sei quem. Eu quando conto ao Luís, o Luís assim: "Tu fizeste o quê?" 19 anos, como eu, mas pronto, cérebro já estava desenvolvido. "Tu fizeste o quê?" Eu: "Eu estava no sítio errado". "Tu tens noção que podias ter ficado ali?" E eu: "De repente é que me bate. Como é que tu achas que o metro funciona?" O Luís para mim: "Aquilo está eletrificado, tu tocas no..." Eu: "Ah". E portanto, isto envergonha-me tanto que estamos a contar isto agora, acho que há 48 anos.
Provavelmente nunca contaste essa, mas é claramente o Borges. Eu estou a ver o Borges, sem paciência, e o melhor de tudo é que o Borges provavelmente tinha acabado de descer. Não reparou, estava a ver que faltava um minuto para o metro chegar ou qualquer coisa.
Já percebi que se perdeu, se foi para o sítio errado. Pronto, Borges.
Não, desceu, viu: "Fogo, não vou dar esta volta toda".
Foi exatamente isso.
A primeira asneira que eu disse, literalmente, e que acabou por ser uma grande asneira, que fiquei muito mal visto na minha escola primária, foi que eu estava em casa com os meus pais e estava à janela e vi um senhor a passar na rua e o senhor vai refilar com alguém. E o senhor vai refilar com alguém e no meio da rua diz assim: " punheta".
Borges, disto tu ou digo eu?
Já contei. Já contei. É verdade. Já contei.
Eu estou a rir.
Eu lembrei-me agora.
Então vá, Marco.
Mas tenho outra. Esta não contei.
A história da batida.
Esta não contei. Foi a primeira vergonha da adolescência, que é parecida. Que estava numa aula de francês, para verem que eu também tinha a minha inocência. Dessa altura, eu não sabia o que era punheta e por isso é que fui na primária gritar para a escola, porque o meu pai dizia que era bacalhau cru com tomate. E eu fui para a escola: "Punheta!" Mas na minha adolescência, para aí com 15 anos, no 10º ou 11º ano, estou numa aula de francês. Ou de francês ou de inglês, já não me lembro. Era uma professora que eu gostava muito e ela estava a perguntar o que os nossos pais faziam. E há um colega meu que diz assim: "Diz à professora que o teu pai trabalha numa fábrica de fogões a fazer bicos". E eu, na minha inocência, porque não associei nem conhecia a expressão, disse: "Então e o teu pai onde é que trabalha?" Eu: "O meu pai trabalha numa fábrica de fogões". "Ai é? Faz o quê?" Eu: "Faz bicos". E ela faz-me uma cara e eu ri-me, porque achei piada fogões e bicos, mas não associei que aquilo tinha uma Uma conotação sexual completamente errada. E já tinha 15 anos. Por exemplo, outras coisas que eu fazia já na adolescência, que era no Alentejo, da minha casa, eu saía à noite. Como era o último filho, os meus pais estavam um bocadinho a cagar. Eu saía à noite, embebedava-me e voltava pra casa a pé, sendo que eu fazia dois quilômetros à noite, bêbado, por uma estrada nacional. E houve um cavalo que morreu assim lá.
Caracas.
Quando esse cavalo morreu, ligaram pra casa dos meus pais, na altura, telefone fixo.
Preocupados.
Preocupados, porque achavam que podia ter sido eu, mas eu por acaso ainda não tinha saído de casa, Pita, foi a maior coisa que me aconteceu.
Desculpe, como Mark Twain: "As notícias da minha morte são manifestamente exageradas".
Que bonito, agora. Finalmente, um momento eclético, bonito. Eu sou um cara de grandes asneiras.
Obviamente, demorava imenso tempo a chegar à casa, porque puto, sei lá, 18, 19, bêbado, e andar na estrada às 03:00, 04:00 da manhã, às vezes eu demorava buéda tempo, porque saía da estrada e ia pro meio do mato. Ficava parado na estrada, deitava-me na estrada a ver as estrelas. Merdas completamente idiotas, que são asneiras, não faz sentido nenhum fazer esta merda. Mas sei lá, é mesmo falta de desenvolvimento do cérebro, não sei o que é.
Por que a gente faz isso, caramba?
Por que um cara faz asneiras? Marco Horácio, por que a gente faz asneiras?
Não sei, eu acho que é um bocadinho estares te a desafiar e na altura tu não tens noção, não tens capacidade nem maturidade pra perceber o perigo em que estás.
Mas um cara já sabe o que é uma estrada. Vamos deitar no meio da estrada.
Olha, é da mesma forma como aquelas pessoas-
Desculpa, eu lembro de deitar, obviamente não era uma estrada muito movimentada, e quando mal eu via luz ao fundo da estrada, que eram em retas, não eram em curvas, levantava-me. Não estou a desculpar, porque é idiota, mas há uma noção.
Se calhar, é aquela coisa do quente do asfalto.
Sim, eu acho que nas idiotices que tu fazes, sobretudo na adolescência, há algum romantismo envolvido.
Sim, a maior parte faz é sempre por amor, ou porque estás apaixonado, qualquer coisa.
Dá asneira.
Agora eu acho que o álcool, da mesma maneira que há pessoas que acham que saem à noite, depois bebem um copo e dizem: "Estou ótimo pra conduzir". Perdem um bocado a noção.
Já fiz essas asneiras.
No estado em que estão e depois, às vezes as coisas correm mal.
Amargamente, é uma grande parvoíce. É uma grande estupidez.
Marco Horácio, eu quero ouvir as asneiras tuas.
Eu estava aqui a pensar.
Ele não acabou nem a história da matinê.
Porque ele não fez nada na matinê, foi pra matinê, foi a asneira: " Ui, eu vou pra matinê, saí à tarde. Ai, que eu sou muito grande maluca. Olha eu a sair à tarde, que devia estar a estudar e estou numa matinê a dançar um soló. Estou a dançar um soló sozinho com a minha amiga imaginária".
Olha, pelo menos eu não preciso estar a repetir as mesmas histórias pra parecer um cara interessante e pra achar que sou um cara muito audacioso e muito aventureiro.
Eu não digo que sou audacioso, mas tenho e de certeza que tu também tens.
Tenho, mas nem sempre.
Diz assim: "Tenho, mas não conto".
Grandes, grandes asneiras.
Olha, queres mais uma?
Fazer o amor sem preservativo é uma grande asneira.
É, bem dito.
E às vezes a gente perde completamente.
Eu agora já aviso o meu filho. Não me aconteceu nada, como é óbvio, nem à outra pessoa, mas sim, a gente quando somos novos, às vezes esquecemos desse-
Do preservativo.
Sim. Isso é uma grande asneira, como é óbvio.
Eu cometi essa asneira e tenho três filhas.
A tua filha Marina Rogleado está em Bruxelas.
Mas sabes que eu acho que agora, por exemplo, a Sida ser quase uma doença crônica e em muitos casos já há até casos de reversão ou de tratamento. Eu acho que há uma pastilha agora, não tenho a certeza, mas ouvi falar disso, não tenho a certeza se isto existe. Mas tenho ideia de ouvir falar disso, que há uma pastilha, imagina, tu tens relações desprotegidas e podes tomar uma espécie de retroviral, um comprimido, tipo pílula do dia seguinte, que inibe o vírus ou qualquer merda assim. Eu tenho ideia que ouvi falar disso, não sei se é verdade ou não.
Eu acho que o pessoal anda mais descuidado.
A noção de falta de perigo ou de já não haver aquela noção da Sida ser uma doença, que é ridícula também, essa perspectiva. Tu ouves imensas histórias de malta, dos putos andam a fazer sexo à maluca, sem proteção, mas o que é completamente idiota.
No meu tempo, quando eu fazia isso, é porque nessa altura ainda não se fabricavam os preservativos extra-longos.
Tu és do tempo que os preservativos eram feitos ainda com tripa de porco.
Com sacos do Ochan. Cada um fazia em casa com sacos do Ochan ou do Pingo Doce, a gente então fazia os nossos preservativos.
Vamos fechar este episódio.
Não, ainda não acabou, vamos com 10 minutos, boss.
Dois?
10.
Vamos com 10 minutos.
Mas conta com a música, não te esqueças.
Há outra coisa, há uma grande asneira que eu fiz, que foi a única vez que eu terminei com a minha mulher foi por telefone.
Sim.
E isso foi uma grande asneira, não ter tido os tomates de falar com ela.
Agora que falaste nisso, também me arrependo. Há uma pessoa a quem eu fiz o ghosting, quando eu ainda nem sequer sabia.
O que era ghosting.
O que era ghosting. Isso é uma coisa mesmo horrível. Arrependo-me muito disso. E ela não merecia. É só porque eu, na altura, era um perfeito pulha e achei que estávamos a avançar demasiado rápido e ela merecia um cara bem melhor do que eu, então deixei de lhe dizer coisas. Tristeza. Mas não fomos para a cama, ao menos tenho isso.
Mas, ao mesmo tempo, eu não estou-
O ghosting faz-me sempre lembrar alguém com lençol na cabeça, andando atrás da pessoa.
Podia ser. Mas isso era mais fetiche do que propriamente desaparecer.
Sim, nesse caso, o lençol tem três buracos.
Eu estava aqui a pensar, sim, se calhar foste um pulha, mas é aquela expressão máxima de todos nós estamos a fazer o melhor que sabemos naquele momento. E não é desculpa.
Eu tive a obrigação de saber falar com ela e dizer: "Olha, desculpa".
Está bem, mas isso tu estás a dizer hoje.
Mas eu acho que sabia naquela altura. Era mais fácil não dizer nada. E isso é muito covarde.
É, mas também ter essa perceção depois é bom. E eu acho que mais importante do que tu cometeres os erros, é teres a noção que os cometeste.
E essa pessoa é a Sónia Araújo.
Quem é a Sónia Araújo?
Aliás, foi por isso que a Sónia Araújo se tornou bailarina para esquecer o Borges, porque a dança trouxe à Sónia Araújo uma libertação do Luís Filipe Borges. Enquanto ela dançava, ela não se lembrava do Luís, não se lembrava dos Açores. A única humidade que ela sentia era nos pés e nos sapatos da dança.
Exatamente.
E de mais nada. Coitada da Sónia.
Dança, Soninha.
Eu acho que a gente vai sempre cometendo asneiras e hás de sempre, em várias fases da tua vida, cometer a primeira grande asneira. A primeira grande asneira enquanto pai, esquece. A primeira grande asneira enquanto casado. Sei lá, tu vais sempre cometendo grandes asneiras. Eu acho que a perspectiva é nós termos a noção, não na altura, porque senão não seriam asneiras, mas teres a noção de que realmente cometeste um erro e depois ter a capacidade de-
De ultrapassar
...de ultrapassar e se tiveres a oportunidade de se envolver outra pessoa, de falar com a pessoa e aceitar a decisão que ela tiver em relação a isso, mas estar tranquilo nesse sentido, de que todos nós estamos a fazer o melhor que sabemos.
Pronto, em relação à maior asneira, eu já falei nisso e ao contrário de vocês, eu achava que estava velho e não me vou repetir. Aquela que me arrependo mais foi a história do filme "Mó Má Maria". Ou seja, pus em causa toda a minha vida ao hipotecar a casa e tudo e mais alguma coisa.
Mas também foi romântico.
Sim, foi romântico, mas diz isso ao meu gestor de contas e ao meu banco e às pessoas que eu fiquei a dever dinheiro. Ainda não me esqueci que este menino que aqui está ao meu lado, Luís Filipe Borges, que meteu dinheiro no filme e nunca recuperou esse dinheiro. Portanto, Borges, eu um dia ainda te vou devolver os €250 que tu meteste neste filme.
Mas eu vou te dizer uma coisa: também não vai ser com este podcast que ele vai recuperar.
Olha, não sei, porque eu tenho boas notícias para vos dar.
Lá estás tu com as tuas coisas.
É verdade, mas não podemos falar disso.
Vamos terminar com uma música.
Vamos.
Que se chama:
Chama como?
"Mistake".
O quê? O meu bife? "Mistake"?
É esse tipo de humor.
"Mistake, you pasta!"
Das pessoas de 50 anos.
"Mistake, you pasta!"
"Mistake"! Por isso é que a gente não tem nada.
Vocês nunca receberam, nos primórdios da internet, 2000 e tal, nós recebíamos áudios no mail. Recebíamos áudios, vídeos no mail. E andava a circular um áudio de um italiano, que era a história de um italiano que falava inglês, que viajava e tinha ido aos Estados Unidos, que ele dizia: "I went to the hotel and I went to my room. There was no shit on the bed. And I went-
"I call the reception"
"I want to shit on the bed"
"You cannot shit on the bed"
"You better not shit on the bed, you son of a bitch. Son of a bitch. And I said I went to the restaurant. There was no fork. And I said I want to fuck on the table".
"You fuck on the table, there's no fork"
"You better not fuck on the table, you son of a bitch"
Não me lembro, mas agora fiquei a lembrar.
Era muito giro este áudio.
"I get fed up. I go to the airport"
"I go back to Italy"
"I go back to Italy. I bought a ticket to go back. The lady says piss on you. Piss on you too, you son of a bitch"
Vamos ficar então com "Mistake" de Fiona.
Apple.
Fiona Apple. Fazia todo sentido esta música para terminar. Muito obrigado por estarem desse lado.
Muito obrigado mais uma vez.
Lembrem-se que os erros e as asneiras fazem parte da vida, mas também faz parte da vida o reconhecimento e o seguir em frente e o procurar ser um ser humano melhor.
Obrigado, Gustavo Santos.
E ser humano melhor é só no plural.
Obrigado, Gustavo Santos, por estar aqui.
Até para a semana.
And when the day is done and I look back, and the fact is I had fun fumbling around. Oh, the advice I shunned and ran. Well, they told me not to run, but I sure had fun. So I'm gonna fuck it up again. I'm gonna do another detour. Unpave my plan. And if you wanna make sense, what you looking at me for? I'm no good at math. And when I find my way back, the fact is I just may stay or I may not. I've acquired quite a taste for a well-made mistake. I wanna make a mistake. Why can't I make a mistake? Oh. I'm always doing what I think I should. Oh, it's always doing everybody good. Why? Do I wanna do right? Of course. But do I really wanna feel I'm forced to answer you? Hell, no. I've acquired quite a taste for a well-made mistake. I wanna make a mistake. Why can't I make a mistake? Oh. I'm always doing what I think I should. Oh, it's always doing everybody good. Why? Oh.
"Homens de uma certa idade. Homens de uma certa idade. O Borges, o Horácio e o Raminhos estão na Rádio Observador, porque já são homens de uma certa idade".