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Homens de uma certa idade. Homens de uma certa idade. O Borges, o Horácio e o Raminhos estão na Rádio Observador, porque já são homens de uma certa idade.
Olá a todos, sejam bem-vindos a mais um "Homens de uma Certa Idade", um podcast com homens de uma certa idade. António Raminhos, Marco Horácio e Luís Filipe Borges. António Raminhos, 45 anos, sou influencer de casas de banho públicas, faço reviews de todas as casas de banho que vocês devem visitar ou não devem visitar.
Deves estar cheio de bicharada.
Serviço público. Luís Filipe Borges, 48 anos, o único budista cinturão negro em Vale Tudo.
Uau, tanta informação. Olá, sou Marco Horácio, 51 anos, sou mimo especializado em espetáculos para invisuais.
Portanto, és um mimo auditivo. Olha, aqui agora sou eu a fingir que toco em paredes.
Exato. Como eu não percebo nada disso, os gajos pagam-me e eu estou a fazer de conta. Estou a imitar um foguetão e sou um astronauta. E estou sentado sempre na cadeira, não faço nada.
O tema de hoje está muito relacionado com isso que estás a dizer, não mimos, mas com trabalho. Tive alguma dificuldade em elaborar a questão. Aliás, eu tive dificuldade em elaborar a questão, depois tive dificuldade em decorar a questão e tive que perguntar três vezes ao Borges: "O que é que é?"
Qual era o teu tema.
Qual é que era o meu tema.
Isto é idade.
A forma da pergunta.
A forma da pergunta, porque este é um tema que todos nós já falámos e que já é um tema de velho, claramente.
Sim.
Que é aquela coisa do-- ei, Borges, não te ponhas a fumar aqui, pá!
Ó Borges.
Ó Borges!
Estás dentro do estúdio.
Tu estás dentro do estúdio. Eu vi-te pôr isso e eu juro que eu pensei: "o gato", eu estou a falar a sério, não te ponhas a fumar aqui dentro.
Ó Borges, não podes fazer isso.
Isto é tabaco aquecido.
É pra não é até mesmo-
A sério.
Logo agora que íamos conseguir patrociníos. Espetacular.
Desde que ele está solteiro. O gato perdeu os papéis, está-se a comportar como se fosse solteiro.
Eu estou a falar a sério, não metas isso na boca.
Mas desde o início. Nós fazemos isto há meses e ele sabe que não se pode fumar dentro do estúdio.
Isto é tabaco aquecido.
A maçã podes comer.
Olha, agora está...
É só tar. É sério. Nós vamos acabar isto completamente caquéticos.
Eu preciso tirar uma coisa da boca.
E carregadinhos de azia.
Espera aí.
Ó Raminhos, vamos a isso.
Bom.
Oh, meu Deus.
Voltámos?
Sim, voltámos. Estamos cá todos.
Obrigado. A questão do trabalho, que os putos hoje, a malta nova, não tem a mesma capacidade de gestão emocional e de capacidade de frustração, de aguentar a frustração, como o Borges não tem no estúdio, é lidar com o trabalho, com o dia a dia no trabalho. Então o tema é: será que ainda se trabalha como antigamente?
Bonito.
Porque a ideia que eu tenho, e não sei se vocês têm a mesma, é que nós éramos mais desenrascados no trabalho e que lidávamos com mais desaforos e que aceitávamos muito mais os desaforos do que os putos agora aceitam.
Sem dúvida nenhuma. Eu lembro-me, na minha vida, eu até aos 20 anos tive aí 14 profissões e fiz muita coisa.
Quando é que começaste a trabalhar? Qual foi o vosso primeiro trabalho?
Aos 13 anos. Pago, foi aos 13.
A fazer o quê?
A entregar pão nas portas com a minha mãe, às 05:00.
Mas tipo às portas, ias lá à porta deixar o pão?
Não, as pessoas tinham aquele saco do pão, em pano, e nós íamos correr as ruas e as pessoas tinham papel lá dentro, cinco papos secos, quatro papos secos, um pão grande, uma coisa qualquer, nós íamos deixar isso, íamos às 05:00 e acabava às 08:00 e depois às 08:00 ia pra escola. Fiz isto durante cinco anos, mas depois acumulei também outros trabalhos.
Quanto é que ganhavas?
Ganhava cinco contos por mês.
25 euros?
Não sei se são 25 euros, faz lá a conta. Era assim por mês.
Mas 25 euros naquela época são pra aí 80, 90 hoje.
Sim.
Sim. Mas trabalhava de segunda a sábado, domingo íamos receber. Costumava com a minha mãe receber.
O Borges, conhecendo os pais do Borges, o primeiro trabalho que o Borges teve foi aos 27.
A primeira coisa que eu fiz paga foram crónicas pro único semanário da região, que já não existe, que se chamava Expresso das Nove, com 17.
Olha.
Olha.
O meu irmão começou com 14.
Olha.
E começou com 14 porque eu fui mexericar a escrivaninha dele e descobri uns textos, e eu, do alto dos meus 17 anos de experiência e critério: "Isto é muito bom. E ele só tem 14 anos". Então mandei pro diretor do jornal do Expresso das Nove, no qual colaborava. E ele: "Que idade tem o teu irmão?" "14." "Pergunte a ele se ele quer." Pronto, e o meu irmão começou com 14.
E quanto é que recebeste?
Nós recebíamos 3,5 contos por texto.
Já era bom.
Bem bom. 3,5 contos.
Ganhavas mais que o Horácio a distribuir pão.
Já tinha 17. 3,5 contos dava pra comprar um CD ou um livro bom e restavam uns troquinhos pra lanche.
E tu, Raminhos, tu trabalhaste alguma vez na vida?
O meu irmão nunca gastou 1 euro. O meu irmão guardou esse dinheiro todo dos 14 aos 19 ou até aos 20, acho eu.
E depois comprou uma mota.
Pra depois ir à Itália.
Não, pra Crito. Pra ir à Itália.
Pra poder ir à Itália pagar uma viagem. Ele sempre foi muito organizado.
E foi?
Foi.
O meu primeiro eu devia ter Entre os 14 e os 16. Foi como treinador de voleibol.
E pagavam-te para isso?
Porque eu era um treinador com formação da Câmara Municipal de Lisboa. E eu dava treinos na minha antiga escola preparatória, à equipa feminina sub 14, acho eu, ou 13, já não me lembro. Eu era pouco mais velho do que as miúdas. E lembro-me que uma época recebi €600.
Ele está nos e-mails do Epstein.
€600. Que foi bem fixe. Lembro-me de passar o cheque, ter que abrir uma conta com a minha irmã. Porque eu era menor, portanto a minha irmã ficou como titular. E €600, na altura, foi fixe.
Eu também cheguei a ser monitor de basquete feminino. E as miúdas tinham entre 12 e 14 e jogavam contra os mais velhos, os de 15, 16, e davam grandes abadas. Eu era um grande treinador. Eu devia estar na NBA neste momento.
Foste treinador de basquete? Que coisa.
Tu também foste?
Eu, não. Eu fui aguadeiro de basquete.
Dos melhores do mundo a dar águas.
E eu lembro-me. E depois, quando acabei a faculdade, eu já namorava com a Catarina, nós começámos a namorar logo no início da faculdade. A Catarina trabalhou em lojas de roupa. Eu lembro dela, levava desaforos de uma patroa que era horrível a senhora. Tratava a malta como subalternos. E eu, quando acabei a faculdade, não encontrei trabalho logo num jornal e pensei: "Não posso ter que ir trabalhar". Eu tinha 21, fui para um bar na Expo 98. Já não havia a Expo, já era parte das Nações, mas fui trabalhar. Só trabalhei um mês porque entretanto arranjei trabalho no jornal, mas fui trabalhar para um bar e eu lembro-me passar tipo duas semanas de lá estar, como desenrascava bem a falar inglês, francês e era desenrascado, os caras tinham um café ao lado, um café não, um restaurante ao lado, que era do mesmo grupo, e o cara começou-me logo a dizer: "Queres vir trabalhar para o restaurante? Porque ali ganhas grandes gorjetas" e não sei mais o quê. Portanto, tive um passe, se eu não tivesse, e se calhar ganhava mais como jornalista da Capital, provavelmente.
Tu hoje trabalhavas para o Olivier.
Não, sabes o responsável de sala?
Pois.
Era responsável de sala.
Chefe de sala.
Chefe de sala.
Que maravilha!
Com um blazer.
Nós podemos fazer um programa só sobre profissões e eu garanto-vos que vou monopolizar 80% do tempo, porque eu desde vender roupa na feira a pintar casas, a pedreiro, eu fiz tudo antes de ir para o conservatório, até aos meus 19.
Respect. E tu não ficas, vocês não ficam com a ideia, o teu filho tem 19, 18?
Tem 18.
Não ficas com a ideia que os putos são menos desenrascados hoje?
São muito menos desenrascados e pior do que isso, não querem trabalhar. É que uma coisa é tu não seres desenrascado, mas tu para saberes que não és desenrascado, tens que começar a trabalhar e perceberes: "Isto não consigo, tanta pressão, não sei o quê". O problema é que eles não querem trabalhar.
Não querem trabalhar, como assim?
O trabalho para eles já lhes mete medo, ou seja, a responsabilidade de estar às 9 e estar às 16 e de servir às mesas, isto é tudo visto como trabalhos menores. E nós antigamente fazíamos tudo para ganhar dinheiro, para termos o nosso dinheiro. Mas hoje em dia, a maior parte deles tem muita dificuldade em perceber que trabalhar é uma ótima forma de preparar para o futuro e até a nível curricular.
Eu acho que a malta não quer trabalhar porque vê que isto está tudo uma bela bosta. E tipo: "Mais vale se calhar esperar pelo fim do mundo". Para quê? Olha, podes colocar aí o áudio, vamos ouvir o primeiro áudio. Eu tentei pedir áudios a amigos que tenham de alguma forma trabalho, mas responsabilidade sobre outras pessoas. Portanto, vamos ouvir o do Sérgio, o áudio do Sérgio e da Catarina.
Mas só está aqui escrito Sérgio.
É o Sérgio, mas vais ouvir a Catarina também.
Pronto, não é a tua Catarina.
Não, foi minha colega de faculdade.
Quantos colaboradores é que tem a tua empresa? Perto de 70. 70. Como é que são os miúdos mais novos que entram na empresa agora? Normalmente, agora o que eu noto é que os miúdos mais novos, quando começam no primeiro emprego, acham todos que têm mais direitos do que deveres, em versão completamente. Mas a nossa empresa é tudo com colaboradores muito jovens, alguns que são o primeiro emprego, portanto ainda não tiveram experiência nenhuma no mercado de trabalho. E temos alguns casos muito caricatos, desde colaboradores ou candidatos que vão às entrevistas com os pais, que chegam à entrevista e é o pai ou a mãe que fala por eles e que faz a introdução toda. Claro que esses, à partida, estão logo dispensados. Mas já tivemos um caso também de um colaborador que fez o que se chama agora do ghosting, que desapareceu completamente e depois a única pessoa que falava era a mãe, a mãe que respondia aos e-mails, a mãe que chegou a ir à empresa e que foi à empresa dizer que ele não voltava. E que hoje em dia ninguém está disposto a fazer horas extras nem a pagar. Por exemplo, nós temos que fazer inventários regulares nas lojas e para fazer os inventários tem que ser com as lojas fechadas, portanto, são horas de
Horas noturnas, que são devidamente pagas e que são pagas como hora noturna e como hora extra, e nem assim eles estão dispostos a fazer horas extras. Ninguém quer fazer horas extras.
Se vou fazer horas extras, como é que eu vejo a minha série da Netflix? Não tenho tempo.
E como é que eu estou com os meus amigos? E como é que eu vou pra praia? Porque isto começa já de verão. Enquanto eles estão a estudar, chega o verão e eles podiam aproveitar para trabalhar.
Mas eu acho que não é toda a gente assim. O meu sobrinho tem 26 ou 27. Se calhar já é um misto de outra geração, não sei, mas o meu sobrinho trabalha bastante e é um puto responsável. Faz uma coisa que é: está sempre a mudar de trabalho no ramo dele. Muda várias vezes de trabalho, mal lhe aparece uma oportunidade melhor, tipo: "Ok, vocês querem pagar isto? Não, então tchau".
O ramo é a prostituição.
No outro dia eu vi uma chavala, ainda tentei encontrar esse vídeo, mas não consegui. Uma miúda nas redes sociais, a falar pra câmera assim: "Malta, eu não percebo como é que as pessoas trabalham das 9:00 às 17:00. What? Como é que é possível? Vais trabalhar como se alguém mandasse em ti? Mas pra quê? Pra que tu vais trabalhar? Vais receber dinheiro pra estar lá das 9:00 às 17:00? Man, não sei como é que é possível". E ela está num banco de jardim onde deve passar a maior parte do dia.
Imagina, eu quando era mais novo, e vocês também, eu tinha sempre aquela perspectiva de: "Ok, chega o verão, vou trabalhar, vou ganhar meu dinheirinho". E depois os putos esquecem que é uma coisa espetacular quando chega o verão. Eu trabalhei sempre em bares, no verão, e em cafés. Tu tens o melhor de três mundos, porque imagina, se tu trabalhares à noite, durante o dia vais à praia, depois vais trabalhar pro bar e depois quando o bar fecha, vais pra discoteca, porque no dia podes dormir até-
E se tu trabalhas num bar, podes sacar. Tu és o tipo do bar.
Isto é a conversa dos velhos que estamos tendo, mas é verdade. O barman antigamente, hoje não sei se é bem assim, havia um poder que nós tínhamos.
Um charme.
Sim, um charme.
Eu fui barman um mês, num bar de uns amigos que já não existe em Lisboa, e gostei imenso. Se eu tivesse a ver, até seria só mesmo.
Eu adoro servir pessoas. Mas a malta hoje em dia, esta coisa da responsabilidade, ter horário. Imagina, eles trabalham das 9:00 às 17:00 e depois pensam assim: "Não tenho tempo pra nada. Então como é que eu vou gozar o verão?" Eles nem se esquecem, eles têm dois dias de férias, às vezes até têm três. Das 17:00 pra frente, eles podem fazer o que quiserem. Podem sair do trabalho e ir pra praia ainda.
Mas eu acho que é a cena. Tu saíste de casa com que idade?
19.
Tu, Borges, tu saíste aos 18, não foi? 17?
18.
Eu saí de casa com 22, 23. Porque nós conseguimos sair de casa. Eu acho que a cena de agora tu não conseguires sair de casa, também dá aquela ideia: "Pra que eu vou estar a me chatear com trabalho se eu nem sequer consigo ter a minha casa, se eu não consigo ter as minhas cenas".
Isso pra mim são desculpas de malandros, desculpa lá.
Malandro.
Não, mas é. Vou te dizer outra coisa. Essa malta esquece que tem pais em casa, que já se fartaram de trabalhar pelos poderem estudar, pelos terem que comer, pelos terem que vestir. O mínimo que podem fazer é quando têm caparro pra trabalhar, é ir trabalhar e aliviar um pouquinho as contas aos pais. Os pais não têm que sustentar esta malta até os 40 anos, eles também têm que perceber que os pais também têm o direito a ter uma vida, a ir de férias, a jantar fora. E os pais abdicam muito disso porque os filhos acham que não têm que trabalhar. Eu digo-te uma coisa, quando os filhos se dedicam nos estudos e se aplicam e tiram notas porreiras e tu vês que eles levam aquilo a sério, eu acho que aí tu podes fazer uma cedência. Imagina, se o teu filho tem média 18 ou 17, é um grande estudante, chega o verão, te diz assim: "Vai descansar, porque fartaste de estudar o ano todo". Agora, quando são calões, ainda chegam no verão, ainda querem ir.
Horácio, está me enlouquecendo.
Sim, porque é mesmo. Esta malta acha que trabalho, parece que é uma coisa contagiosa, é um vírus. É como se fosse Covid. Isto pega-se uns aos outros, não vamos fazer isto, porque isto aleija.
Respiro. Olha, vamos fazer um intervalo.
Vamos fazer intervalo, é isso.
Calma, Horácio. Respira fundo, voltamos já. Calma. Sejam bem-vindos à segunda-
E depois, ainda por cima, há putos.
Calma, deixa eu falar.
Desculpa.
Sejam bem-vindos à segunda parte do "Homens de Uma Certa Idade" sobre um tema que está a deixar Marco Horácio nauseado.
Não é nauseado.
Precisávamos tanto de-
De quê?
De uma bufa.
Uma bufa agora, não é?
A quantidade de pessoas que nos últimos dias me vieram falar da última parte do último programa.
Mas não seja por isso, que a gente de três em três episódios vamos brindá-los. Eu vi um vídeo de um italiano que foi 41 segundos.
Ah, sim.
Num programa de talento, portanto, é possível.
Dizia a profissão, lá está.
Só pra arrematar, não vou enervar mais com isto. Eu também cheguei a trabalhar num barbeiro a lavar cabeças e estive lá três dias e fui-me embora. Por quê? Porque os meus queridos amigos passavam lá todas as tardes à frente a gozar comigo por irem pra praia com a toalhinha às costas. E eu pensei assim: "Então".
Isso é muito triste.
E eu não estava a gostar do trabalho, mas passada uma semana já estava a fazer outra coisa Ou seja, com outro horário que me possibilitasse ir à praia com eles de vez em quando.
A filação brasileira ele levava pelos púbicos.
Exatamente. Como é que tu sabes? Já tinha te contado isso?
Eu fui lá foi quando a gente se conheceu.
No início do século XIX. O meu pai saiu do Alentejo com 12 anos para vir trabalhar para Lisboa. Portanto, anos 40.
E quando eu disse saiu do Alentejo, saiu literalmente a pé.
Não.
Deve ter sido a pé.
Mas deve ter demorado muito tempo na caminhonete ou quer que seja, de boleia ou o que for. Mas no início do século XIX, tu tinhas, sobretudo em Inglaterra, os limpa-chaminés que eram crianças. Geralmente, crianças com três, quatro anos. Por quê? Porque cabiam nas chaminés, órfãos. Portanto, iam buscar os putos para trabalhar. E tu tens fotografias dessa altura, há uma página no Instagram que é historic images, não me recordo do nome, mas que são retratos históricos, sobretudo vídeos ou fotos antigas. Tu veres os putos com três anos, com um adulto ao lado e os putos mascarrados de carvão da cabeça aos pés.
E metiam-nos lá para dentro.
A morrerem tipo aos 10, 12 anos, porque desde os três que têm os pulmões cheios de carvão e toda a porcaria.
E não era das 9:00 às 17:00. Era das 07:00 às 10:00.
O que me faz impressão é como é que nessa altura tu olhavas para uma criança: "Olha, este puto cabe dentro de uma chaminé". Eu não tinha trabalhadores.
Olha aqui esta oportunidade de negócio.
Esta oportunidade de negócio.
Tu sabes coser, consegues fazer este gesto de coser. Imagina, tenho estes sapatos.
É preciso uns dedinhos pequeninos. Olha que bela ideia que eu tive.
E agora vou te dizer outra coisa e vou me enervar outra vez. Antigamente, no nosso tempo, os putos trabalhavam e aquilo que ganhavam era para os pais, nem sempre era para eles. E hoje em dia, quando tu pedes ao teu filho ou uma filha para ir trabalhar, é para eles ganharem dinheiro para eles, para as coisas deles, para o telemóvel, para a roupa, para saírem à noite. Antigamente, tu tinhas que dar o teu dinheiro aos teus pais, tu tinhas que contribuir para a casa, para pagar a água, luz e essas coisas todas. Hoje em dia, tu dás esta oportunidade, porque eu digo-te uma coisa, se eu fosse dono de uma empresa e se tivesse a ver currículos e apanhasse um currículo, mesmo um gajo tivesse uma média de 15 e no currículo dele visse que ele durante quatro ou cinco verões tinha ido trabalhar, eu mais depressa contratava essa pessoa do que contratava uma pessoa com média de 18 que nunca tinha feito nada na vida.
Oh, meu. Isto que o Sérgio disse na primeira parte de-
Vários pais.
Eu já ouvi mais relatos disso, de malta que os pais mandam e-mails a dizer: "Ai, o meu filho sente muita pressão no trabalho. Ele hoje não vai trabalhar porque ele diz que você o ofende muito". Meu, eu e o Borges, quando trabalhamos na capital, no jornal, era bullying. Era bullying à hora de fecho do jornal. Eu lembro-me de estar a escrever um artigo e achar: "Isto está muito fixe", mando para o editor e depois eu tinha que ficar ao lado do editor enquanto ele corrigia o meu texto e onde dizia cenas: "Não sabes escrever português? O que é esta merda? Olha, foi para isto que estiveste ali?"
E tinhas que aguentar a bomboca.
Sim, senhor. E o gajo dizia: "Olha, tens uma hora para escrever isto outra vez, que está uma bela bosta". E eu ia.
Claro.
E tinha que ir.
Eu era o editor.
Por acaso não era o meu editor. E eu dava-me bem com esta malta. E eu não me sentia ofendido. Eu percebia: "Tenho que me esforçar mais".
E o que é que isso te fez? Ou seja, deu-te humildade.
Envolve-se uma carapaça.
Deu uma sertralina 100 mg por dia.
E também isso. Mas acima de tudo, deu-te a capacidade de aguentar zumbalhão.
Sim.
Ou seja, e não só isso. "É, não? Então espera lá que já vais ver". Esta coisa de: "Estás a dizer que eu não consigo?"
Então vou fazer melhor.
Sim.
Ouve, eu cheguei a fazer uma cena, às vezes nós picávamo-nos no trabalho, do gênero: os gajos tinham mania de dizer que a malta do desporto não era jornalista, porque é a malta do desporto, é sempre a cena de desvalorizar o desporto.
Não é bem médico, é farmacêutico.
Exato. É veterinário, dentista. Eu cheguei-me a picar com malta e a dizer: "Ah, é? Então agora o que é que tens aí para mim para eu fazer da tua secção?" E fazer tipo internacional ou fazer política ou fazer outra coisa qualquer. E um gajo sentia-se picado e fazia estas cenas.
E crias e aprendias.
Meu, e tu hoje não sentes as coisas dessa maneira. Principalmente, olha, lá está, tenho amigos meus na restauração, que a cena do ghosting é diária. Tipo, contratar malta, ir trabalhar.
Eu já vi essas histórias. Depois não aparecem.
E depois desaparecem. Vamos ouvir o Jorginho, que é um bom exemplo disso.
O Jorginho é um grande exemplo disso. Grande Jorginho. Grande jogador.
Boa tarde, povo, boa tarde, mundo. Rapidamente respondendo à pergunta que o Rami fez para este grande podcast dos velhos. Epá, eu só tenho uma coisa a dizer. Eu já sou tasqueiro há 27 anos, já sirvo mês, leite, torradas, cafés cheios, curtos, compridos e chávena fria. Uma das coisas que eu me lembro e que está aqui incutida ainda desde sempre, que graças a Deus trouxe-o para a selva da vida laboral, dia após dia, foi o facto de, epá, aos meus 17 anos, quando comecei a trabalhar, tinha que estar lá às 8h no local de trabalho, eu chegava sempre 15 a 20 minutos mais cedo. Foi incutido isto pelos meus pais. E o facto de sair
Sempre me disseram: "Nunca te preocupes com a hora de sair, preocupa-te sempre com a hora da entrada. Chega sempre antes. A hora de sair, nunca te preocupes, que um dia serás recompensado". E acredita que um dia vais ser recompensado. Ele vive isto todos os dias. Isto foi o meu combustível, o meu veículo, para dia após dia acreditar num dia melhor. 27 anos depois, orgulho-me de eu, juntamente com a Brigada, ser reflexo e consequência de tudo aquilo que aprendi no passado, que é o dedicarmo-nos a um projeto de corpo e alma e todos os dias à área laboral. Independentemente de vamos ser recompensados ou não no presente, acredito que a longo prazo seremos. E isso é que faz dia após dia acreditar que o melhor ainda está por vir.
Muito bem.
O que é a Brigada?
A Brigada é a malta do trabalho deles. O Jorginho tem um restaurante, o Turismo, em Barcelos. É um restaurante incrível. Se passarem por Barcelos, vão ao Turismo e sobretudo conheçam o Jorginho e a sua equipa. O Jorginho é um ser humano espetacular, e notas o prazer que ele tem em servir, em atender as pessoas e dizer-te a ementa. Ele tem a particularidade de dizer a ementa toda e enquanto diz a ementa, parece que está a saboreá-la. É muito engraçado, Jorginho.
Já fiquei com vontade de lá ir. Olha, falaram em Barcelos, onde é que nós vamos estar, Homens de Uma Certa Idade, ao vivo?
Nós vamos estar no dia 28 de novembro, no Azores Comedy Fest, Auditório do Ramo Grande, na minha ilha Terceira, na cidade da Praia da Vitória. Esgotou em menos de 24 horas.
Incrível, muito obrigado a todos.
Vamos ser os headliners do festival. E dia 1 de dezembro vamos estar a fazer um live, Homens de Uma Certa Idade, especial para a Liga Portuguesa contra o Cancro. Os bilhetes revertem para a Liga Portuguesa contra o Cancro, no Olga Cadaval, em Sintra, dia 1 de dezembro, às 21:00. Bilhetes na Ticketline. Venham ajudar a contribuir para uma grande causa e se calhar ajudar-nos a saber que raio de tema é que a gente vai ter nesse dia.
Que ainda estamos a discutir isso.
Ainda estamos a discutir.
Não, mas acima de tudo, fazer parte deste podcast, porque estando ao vivo, o público tem um papel fundamental.
Sim. Vai participar nas duas sessões.
E venham ver o que eu sofro sempre que gravo com estes dois.
E ver o Borges a comer ao vivo, também.
Comer ao vivo, que é sempre lindo. É quase como ir a um espetáculo de strip. Tem o mesmo efeito. Borges, estás a falar muito pouco.
Mas é que a stripper faz coisas com bolas de pingue-pongue.
Não, isso é na Tailândia, não são strippers.
Não são strippers. Quando chegam lá, são rapazes inocentes e depois saem de lá muito longe. Mas estávamos a falar de trabalho e este medo que há hoje em dia. Ninguém se iluda, quando nós começamos a trabalhar a primeira vez, é que custa, como é óbvio. O primeiro dia custa, porque estás a te habituar às coisas, esta coisa do horário e da carga de trabalho, e sobretudo quando trabalhas na restauração, eu trabalho na restauração também, e de repente, os primeiros dias custa, mas depois disso tu começas a criar uma rotina, o teu próprio corpo, a tua forma de estar cria uma rotina. E se fores inteligente, eu sempre fui muito inteligente a trabalhar na restauração, eu ganhava sempre mais em gorjetas do que em ordenada.
Por exemplo, há uma cena que a mim me faz confusão, mas eu admito que pode ser problema meu. Nós trabalhamos sobretudo numa área sem horários e sem empregador fixo. E eu, que trabalho mais do que vocês nas redes sociais, estou sempre ligado e tenho muitas coisas que eu tenho que meter ao fim de semana, que estão contratualizadas, publicidades ou vídeos ou whatever. E irrita-me que as marcas me chateiem. As marcas, não, as agências, algumas agências ou malta com quem eu trabalho, que chateiam-me a qualquer hora, mas quando chega ao fim de semana, se eu lhes ligo ou alguma cena, ninguém me atende o telefone.
Eles estão com a família, estão a viver a vida deles.
Ninguém me responde. E eu tenho uma coisa para fazer, se for preciso ligam-me às 19h, enviam-me três e-mails por dia, enviam não sei o quê. Chega a partir da sexta, uma certa hora, eu ligo: "Olha, preciso de confirmar se isto é para fazer amanhã, no sábado, não sei o quê". Nada, não há nada.
Nós artistas somos como as urgências, tens que estar sempre disponível, seja qual for o hora, tens que atender sempre ou pelo menos estar disponível.
E atenção às agências com quem eu trabalho, não são todas, só aquelas que podem ouvir isto e se sentirem: "Se calhar ele está a falar de nós". Não sei.
Está mesmo. E outra coisa que acontece também é, imagina, o meu filho quando era mais novo queria ser gamer e depois queria ser influencer.
Ele está no seu direito, eu acho bonito ele ter assumido isso. Assumiu isso junto com os pais.
Mas até para isso é preciso trabalhar.
Olha, sim.
Gamer?
Sim, gamer.
Desculpa.
O que tu percebeste? O quê? Ele está insuportável hoje.
Só ouvi a primeira sílaba.
O quê? O gay? Se ele fosse gay e trabalhasse, eu não me importava.
O problema é ser gay e não trabalhar. E o problema não é o ser gay, é o não trabalhar.
Mas olha, agora vou te dizer outra coisa. O facto de os miúdos não trabalharem e irem à entrevista de emprego com os pais, a culpa não é deles, é dos pais.
Claro, é dos pais.
E isto acontece muito quando os pais são separados e um pai quer que o filho trabalhe e o outro não quer que ele trabalhe.
Ou então quer que ele goste mais dele.
Não sei. Agora, o que eu acho é que todos os miúdos deviam passar, há umas coisas muito giras que se fazem nas férias, que é aquelas coisas para as câmaras, de apanhar o lixo nas praias e de apanhar as beatas e não sei o quê.
A Catarina fez, durante não sei quantos anos, as colónias.
Sim
Monitora das colônias sofreu com putos de quatro e cinco anos.
Mas lá está, os miúdos que trabalham quatro horas por dia, percebes? Ao menos aprendem, primeiro, a perceber que não se deve sujar as praias, nem nada disso, e aprendem o que é trabalhar. E mesmo que seja pouco dinheiro no final do mês, eles depois sabem dar valor ao dinheiro que têm. Eu comprei as minhas primeiras sapatilhas pra jogar basquete, tive que trabalhar dois meses a entregar pão às portas e depois fui comprar as minhas Reebok, que eu adorava, já não havia o meu número e eu andei uma época a jogar.
Com os dedos encarquilhados.
Sim, com o número abaixo, porque eram as sapatilhas que eu queria, mas eu esforcei-me para as ter. Hoje em dia, a malta acha que sapatilhas de € 500, de € 200 e de € 150, os pais têm que dar.
Porque são muito caras.
O que vocês fizeram com o vosso primeiro dinheirinho a sério?
Eu já não me lembro.
Eu comprei estas sapatilhas pra jogar.
Um ordenado de trabalho tempo inteiro. Logo a seguir a licenciar-me em Direito, comecei a trabalhar numa pequena produtora de televisão. E então o meu primeiro ordenado, a mínima ideia, que já não existe. O meu primeiro ordenado, comprei o meu primeiro carro.
Eu acho que também-
Tenho 23 anos e 80% do meu ordenado-
Quanto é que custou?
Deixa ver se me lembro.
Eu sei quanto é que custou o meu carro, eu lembro.
Era um Volkswagen Polo com 14 anos, que foi espetacular, durou 15 meses, que foi o tempo que eu precisava pra aprender a conduzir em Lisboa e saber os caminhos. Custou 1000, 1200 paus.
O meu custou, um Opel Corsa de 94.
Estavas a quanto?
E tive um Opel Kadett.
Eu estou a falar em 2004, 2005. Um Opel Corsa de 94, acho eu. Acho que era 94 ou 91, já não me lembro.
O meu eu comprei em 2000.
Mas custou €600.
€600.
€600 ou €800. Foi uma grande compra.
Metade do meu. Metade do meu.
Eu tinha um carro que até tinha um slogan que é: " E puts de gás não vale até, é o Corsa Kadetté".
Opel Corsa Kadett, Opel Kadett.
Sim. E uma vez fiquei na autoestrada parado e eu assim: "Pronto, o carro já está avariado". Depois é que me lembrei: "Isto tem que se pôr gasolina nisto. Sem gasolina não anda".
Os meus pais nunca souberam, por exemplo, sequer onde é que era a minha faculdade. Eu podia ir pra faculdade como podia estar a vender droga.
Fixe.
Os meus pais não sabiam.
Ai, caralho!
Os meus pais não souberam nunca onde é que era o primeiro sítio onde eu trabalhei. Eu só dizia: "Arranjei um trabalho".
E era isto pra tudo.
E antes desse trabalho do bar, sabes onde é que eu estive quase para ir trabalhar e depois não fui porque até eu falei com a minha irmã e a minha irmã disse: "Epá, não, isso é mesmo muito ao longe".
Vitor Hugo Cardinale.
Minas de Aljustrel.
Blockbuster.
Blockbuster. Eu adoraria ter trabalhado no Blockbuster.
Mas a cena do Blockbuster, eu fui à entrevista, preenchi, o cara explicou-me tudo. E o engraçado é que eu não sei se isso se passa com a malta nova agora, mas eu lembro da excitação de trabalhar.
Não, eles estão chateados, já vão amuados preencher isso.
Será?
É, vão.
Mas eu acho que não é toda a gente assim.
É, sim.
Há um amigo meu, eu trouxe quatro áudios, porque este é um tema, não é que seja mais sério, mas é mais particular. Tens o áudio aí do José Borralho.
Tenho, sim senhor.
Que também é um empregador e ele dá uma perspectiva interessante. É um áudio um bocadinho maior, mas dá uma perspectiva interessante.
Vamos ouvir. São só quatro horas.
Olha, a resposta à pergunta: será que já não se trabalha como antigamente? É tão simples de complexa que é. O mundo mudou e o trabalho mudou com ele, obviamente. Há 40 anos, a maioria das pessoas trabalhava 12, 14, 16 horas por dia. Sobretudo porque tínhamos sede de conquistar tudo muito depressa, adquirir uma casa, um carro, constituir família. Portanto, as condições eram outras e o sacrifício parecia o caminho mais natural pra qualquer um de nós. Eu acho que hoje os jovens também querem resultados, mas não estão dispostos é a pagar com a própria vida. Valorizam tempo, saúde mental, amigos, família, um propósito qualquer de vida. E, portanto, eles trabalham para viver e não vivem pra trabalhar. Além disso, eu creio que há factos muito duros. Os salários não acompanham a realidade, nem a formação que estes jovens têm agora, e eles têm a noção disso. O custo de uma casa tornou-se completamente inacessível, nem pra comprar, nem pra alugar. A maior parte dos estágios, acho que ainda continuam a ser mão de obra barata nalguns casos, e isto também por falta de uma liderança a sério na maior parte das empresas em Portugal. Além disso, com o evoluir das décadas, tens outra questão. Os pais passaram a proteger muito mais os filhos e essa proteção, obviamente, cria pessoas diferentes, com menor capacidade de risco e sacrifício. Mas isso, na minha opinião, não é apenas geracional, tem a ver com o contexto. Eu, por exemplo, nas minhas equipas, com pessoas com mais de 50 anos ou próximo disso, também os vejo hoje olhar para a vida de forma distinta. E nisso nós temos que pensar que a tecnologia, a forma como a tecnologia evoluiu, ajudou bastante a isso, porque também nos tornou mais eficientes e provou, sobretudo, que podemos fazer mais com menos desgaste. Por isso, eu creio que antes de julgarmos, vale a pena reconhecer. Não é que se trabalhe menos, o contexto é que é outro e antigamente trabalhava, sobretudo, pra sobreviver. Hoje procura-se viver melhor e, portanto, isso também é evolução.
Magnífico o áudio. O que faz o José Borralho?
O José Borralho tem várias empresas, sendo que uma delas é a Escolha do Consumidor.
Exatamente, já o conheci.
Belíssimo áudio, fez um ótimo resumo. E foi aqui aos dois lados também das trincheiras, digamos, porque sem este áudio do José Borralho, estou convencido que a Joana Amaral Dias estava a ligar ao Horácio a desafiá-lo para o ADN.
Continuando a minha senda política, eu não concordo com ele que antigamente se trabalhava para sobreviver.
Não?
Não, vou te já dizer por quê. Porque antigamente os teus pais, os pais do Borges, os meus pais, têm casa, têm carro e conseguiram isso tudo com o trabalho. Trabalhavam com um objetivo, ou seja, queriam ter uma casa, um carro, queriam ter as suas comodidades. E isso não é sobreviver, é o objetivo. O objetivo pode ser simples. Não se apostava muito na formação acadêmica, apostava-se no trabalho puro e duro. Hoje em dia, os putos não trabalham para sobreviver porque os pais é que pagam tudo, portanto eles não querem trabalhar. Portanto, a pergunta fica: o que eles querem da vida?
E fica essa pergunta para a terceira parte. O que eles querem da vida, meus amigos? O que vocês querem da vida? O que nós queremos da vida? O que vós quereis da vida?
Eu quero comer.
Foram homens de uma certa idade. Vamos continuar na terceira parte.
Vai ser mais curta, porque a minha atenção está a sair.
Vai ser mais curta, mas há aí pormenores que merecem ser ainda discutidos e com muita asneira pelo caminho.
Pois.
Até para a semana. Sejam bem-vindos então à terceira e última parte deste Homens de Uma Certa Idade dedicado ao tema: será que ainda se trabalha como antigamente? E o Horácio está muito aceso, porque é claramente um defensor. Eu vejo no Horácio aquele homem clássico, lá está, do seu tempo. O trabalho, a importância do trabalho.
O trabalho braçal está a desaparecer.
Como é que era aquela?
Mais essa.
O trabalho, como é que dizia Hitler?
Como é que dizia Hitler? Os campos de concentração tinham-
O trabalho cura, não, o trabalho salva.
O trabalho liberta.
O trabalho liberta.
Os campos de concentração tinham esta inscrição na entrada.
Exatamente, o trabalho liberta.
Particularmente sádica.
Mas há aqui uma coisa. Há uma coisa que eu não concordo. Era aquilo que o Zé estava a dizer. Tu não pensavas em muita coisa para além do trabalho como meio para garantir tudo o que terias de bom na tua vida. Ou seja, não pensavas na saúde mental, não pensavas na importância de parar, na importância de relaxar. Era tudo visto de um ponto de vista econômico e isso está muito relacionado ainda com a Revolução Industrial, essa necessidade de garantires que tudo aquilo de bom, o bom, vem do teu trabalho. E eu acho que tu hoje já percebes que as coisas, se calhar, não são bem assim. Há a importância de trabalhar, mas há a importância de saber também parar e de, se calhar, nós também podíamos ter lidado de outra maneira quando te diziam assim: "Quantas horas extra eu fiz, e que não recebi", por exemplo, ou que era suposto entrar às 15h e depois, afinal, entrava às 11h e saía à mesma hora. E eu não estrebuchava, eu lidava aquilo de forma natural.
E não fez de ti uma pessoa revoltada com o trabalho.
Não, não fez, mas se calhar é uma-
Mas há um equilíbrio.
Há um equilíbrio que é necessário, porque é aquela coisa, quando mais dás a mão e depois comem-te o braço e tudo o resto. Eu lembro, por exemplo, quando eu disse ao meu pai que ia tirar jornalismo, o meu pai ficou super ofendido: "Jornalismo? Pensei que ias para medicina". Eu que nunca tive notas sequer para essa treta, mas na cabeça do meu pai, isso é que era trabalho. Estás a ver? Medicina, sei lá, arquitetura.
Agora vou fazer uma pergunta aos dois.
Faz, Horácio.
Hoje em dia, nós os três temos a-
Não valemos um.
Não, valemos nove. Temos o privilégio de poder gerir o nosso tempo, o nosso trabalho e a quantidade de horas que temos de trabalhar ou não.
Eu não tenho.
E nós ganhamos isso à custa de quê? Tu hoje tens o estatuto para dizeres: "Não quero fazer isto, não quero fazer isto".
À custa de trabalho.
Exatamente.
Sim.
Essa base, ou seja, qualquer base da tua vida. Eu não estou a dizer que as pessoas têm que trabalhar 14, 16 horas. As pessoas têm é que aprender.
Mas têm que fazer sacrifícios.
Têm que trabalhar. E trabalhar custa.
Eu, mesmo na área da comédia, fiz muita coisa que não gostei tanto, porque eu pensei: "Ok, eu vou fazer isto, mas isto vai-me certamente abrir ou vai me permitir, se calhar, abrir outras portas ou chegar a outros sítios ou atingir outros públicos". E eu conheço cá muita malta que não faz, tipo: "Eu não vou fazer isso".
Eu quando dou os meus workshops, digo sempre às turmas, falo sempre da importância de aceitar fazer merda e fazer a merda bem feita. E digo-lhes: "Vai vos acontecer", se tiverem a felicidade de receber convites neste mercado de trabalho, "vão vos aparecer coisas que vocês não têm vontade de fazer. Não nos digam que não e façam a merda o mais bem feita que puderem fazer. Se vocês fizerem merda bem feita, um dia vai vos aparecer escolada".
Claro.
E eu, olha, eu ainda hoje faço trabalhos. Recentemente fiz um trabalho que eu já tinha feito e que já da primeira vez que eu fiz e pensei: "Ixe, isto dá um trabalho, não justifica. O desgaste que eu tenho com isto não justifica". E voltei a aceitar exatamente o mesmo trabalho, porque pensei: vai ser bem pago e eu vou precisar deste dinheiro, primeiro. Segundo: é bom manter uma boa relação Com esta empresa, de modo que possa voltar a ser convidado, eventualmente, até para outros projetos.
Claro que sim.
E saiu-me do pelo. Saiu-me do pelo o trabalho que fiz.
Mas lá está, saiu-te do pelo, porque tu sabes e tens a noção o que é trabalhar, fazer algo que te sai do pelo e que às vezes tu fazes com uma perspectiva inteligente futura. Porque nós todos precisamos trabalhar, todos precisamos de ganhar dinheiro. Antigamente havia muito aquela coisa de ter a casa, ter isto, deixar alguma coisa aos filhos e não sei que mais e trabalhar e deixar dinheiro aos filhos. Hoje em dia, ainda bem que não há essa tendência. Ou seja, nós vivemos muito mais a vida, não abdicamos de tanta coisa, porque nós também não queremos criar filhos que se encostem e que estejam à espera que a gente morra para ficarem com tudo o que é nosso para depois não terem que trabalhar mais o resto da vida.
Eu não vou deixar nada às minhas filhas, vou deixar a uma vizinha.
Deixas boa educação.
Uma vizinha já casada.
Deixas amor, deixas a tua história de trabalho que seja inspiradora para eles e que eles percebam que podemos fazer aquilo que nós gostamos, mas se queremos ser os melhores, temos sempre que trabalhar mais que os outros. E é trabalhar, não é ter mais talento que os outros, porque o talento é uma coisa que se trabalha.
Aliás, quantas pessoas tu conheces mesmo da área da comédia ou do entretenimento, que têm talento e que são gajos que tu dizes: "Este gajo tem muita graça ou muito bom e se trabalhasse, se fizesse um esforço, este gajo estava..." E vês isso. Olha no futebol, por exemplo, quantos gajos que têm pés fantásticos.
O Félix, o João Félix. Sim, mas esse num ano ganha aquilo que a gente podia ganhar em quatro.
Não se lembra, mas os pais dele ainda chegaram a mandar um fax enquanto iam falar com alguém. E às vezes saíam à noite, chegaram a ir ao Lux. Chato foi quando a mãe dele teve um pneumotórax.
O Borges.
João Félix.
Quem é que disse João Félix?
Querem terminar? Queres deixar alguma mensagem?
Eu queria, mas depois de ouvir o Borges, fiquei todo baralhado. A mensagem que eu quero dizer é tão simples quanto esta: eu já bati bem no fundo na minha vida. E se eu não tivesse adquirido esta capacidade de trabalho, de arregaçar as mangas e fazer coisas que não gosto para voltar a ter uma vida equilibrada. Então no nosso meio artístico, isto emocionalmente mexe muito conosco.
A frustração.
Sim, a frustração, teres trabalho, não teres trabalho, depois vais pra televisão, depois tens sempre outros que vão e depois tu não vais. Eu já me estou a borrifar para isso há muitos anos, mas eu bati lá no fundo e graças à minha capacidade de trabalho, sempre consegui dar a volta à minha vida. E é a única coisa que eu faço aqui um apelo aos pais, e eu que sou pai: não tenham medo de lentamente dar responsabilidades aos vossos filhos, dar-lhes a entender que nem que trabalhem três, quatro horas por dia, eles ganharem o dinheiro deles, eles saberem gerir, dar valor às coisas. As coisas que eles têm, que recebem, custam dinheiro. E esse dinheiro é fruto do trabalho dos pais. E quanto mais cedo eles trabalharem, pensarem, saberem que com o trabalho, quanto mais trabalharem, mais podem ter essas coisas. Eles vão perceber e sequer também valorizar mais o esforço que os pais fazem para lhes pagar às vezes o colégio, para a roupa, para tudo e mais alguma coisa. Não façam com que os vossos filhos tenham medo do trabalho e, por favor, não os levem a entrevistas de emprego. Eles têm que crescer e têm que aprender a levar um não e a decidir a vida deles.
Até vos digo mais, só pra acrescentar. Lembrem-se como é que vocês eram quando eram miúdos ou quando começaram a trabalhar, se os vossos pais foram convosco à entrevista, os esforços que fizeram. Muitas vezes, quando eu tenho dúvidas no que eu hei de fazer em relação às minhas filhas, penso em quando eu comecei a trabalhar ou quando comecei a ter que tomar decisões, o que eu gostava que tivessem feito. E não era levar ao trabalho.
Exatamente.
Não era levar ao trabalho.
Isto faz parte do crescimento deles, é enfrentarem a realidade, é como o Borges agora que está aqui a dormir uma sesta. Pronto, está a trabalhar, no fundo, está a trabalhar.
Mas é só na cabeça dele.
Só na cabeça dele, exatamente. Borges, tu tens sempre aquelas mensagens muito bonitas que diz às vezes no final.
Fodei-vos.
Pronto, é isto.
Bom, e vamos terminar com a banda. A música não tem tanto sentido, mas tem o nome da banda Men at Work.
Men at Work! Adoro!
"Who can it be now? Who can it be now?" Quem é que será agora?
É os pais que vão levar o filho à entrevista de emprego.
É quando os vizinhos tocam. E quando são as Testemunhas de Jeová a bater à porta.
Isso a gente já sabe.
Homens de uma certa idade. Homens de uma certa idade. O Borges, o Horácio e o Raminhos estão na Rádio Observador, porque já são homens de uma certa idade.