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Este é um podcast da Rádio Observador. Pode ouvir a rádio também em 98.7, na Grande Lisboa, e 98.4, no Grande Porto. Hoje um pouco mais tarde, é certo também devido ao mau tempo. Estivemos a acompanhar toda a situação, mas para já então desfazemos ideias feitas. Junta-se a nós o Alberto Gonçalves. Boa tarde, Alberto.
Olá, boa tarde.
Olá, Alberto Gonçalves. Hoje um pouco mais tarde do que o habitual. A situação meteorológica assim o obriga. Mas hoje o Alberto quer desfazer ideias feitas sobre o frenesi em volta do impeachment, o processo de destituição do presidente norte-americano Donald Trump.
É verdade. Uma pessoa espreita os jornais e as televisões e pensa que há alguma possibilidade de o senhor Trump ser destituído. E é verdade, a possibilidade teórica é claro que existe, mas ele não vai ser destituído. Para começar, eu gostaria só de lembrar que em toda a história dos Estados Unidos, houve apenas três presidentes, incluindo o senhor Trump, que enfrentaram um processo destes, enfrentaram até as últimas consequências, um processo de impeachment. Foi o Andrew Johnson, que foi o sucessor do Lincoln, depois foi o senhor Bill Clinton, já muito mais recentemente, e agora, como disse, o senhor Trump. O Richard Nixon acabou por se demitir antes do processo ser levado às últimas instâncias. E dito isto, perpostas últimas instâncias, o que se passa é o seguinte: o processo de impeachment acusa, neste caso, o presidente, podem ser outros representantes de algumas soberanias, mas neste caso acusa o presidente de determinados crimes. No caso do senhor Trump, o Congresso já aprovou o impeachment, é um facto, porque a maioria do Congresso é democrata. É tão simples quanto isso. E a maioria do Senado, para onde tem que ir o processo de impeachment, ainda não se sabe exatamente em que data, fala-se em janeiro, mas a senhora Nancy Pelosi parece que não quer se comprometer com uma data específica, pelo menos que eu saiba. O processo terá que ir até o Senado e no Senado é que terá que ser aprovado ou não. Enquanto na Câmara Baixa, nos representantes, basta uma maioria para aprovar o impeachment, no Senado a maioria tem que ser de dois terços. Ainda por cima, o Senado, ao contrário dos representantes, tem maioria republicana. Ou seja, a menos que os senhores senadores sofram uma apoplexia coletiva qualquer, não estou a ver maneira de uma maioria de dois terços do Senado votar a favor da destituição do senhor Trump. Por isso, parece-me que toda esta excitação em volta do assunto, eu percebo, é uma notícia, claro que sim, como na altura, em volta de outra questão que eu achava totalmente ridícula quando foi na altura do senhor Clinton. Também se tentou fazer o mesmo e também foi notícia, etc. Mas agora a questão em relação ao senhor Trump parece criar no espectador desatento ou no leitor desatento dos jornais, a ideia de que ele pode eventualmente até ser destituído. E de facto, para efeitos práticos, não pode, não há nenhuma hipótese disso acontecer. Se há razão ou não no processo, eu sinceramente não sei. Não sei se ele deu 250 milhões de dólares ao atual presidente da Ucrânia para obter informações sobre um adversário político. O que eu sei é que isto está de tal forma dividido, as opiniões em relação a este processo de impeachment nos Estados Unidos estão de tal forma divididas, de acordo com os dois grandes partidos, que me parece muito pouco provável que isto seja um assunto a sério. Parece-me uma arma de arremesso contra um presidente que os democratas não toleram que tenha sido eleito. Como escreveu há dias o comentador Mark Stein, um sujeito que eu aprecio, por acaso, escreveu que o crime do senhor Trump, o senhor Trump obviamente sabotou as eleições porque foi eleito. E do ponto de vista dos democratas e das pessoas que não gostam do senhor Trump, que não gostam mesmo nada do senhor Trump, eu também não morro de amores por ele, mas dos seus inimigos, e ele tem bastantes, pelos vistos, a partir do momento que ele foi eleito, eles tomaram esta eleição como impossível de aceitar, como uma eleição fraudulenta à partida, quando não há assim indício nenhum firme que a eleição o tenha sido. Eu acho que este entusiasmo em volta do suposto e do alegado ou do imaginário impeachment do senhor Trump, da sua destituição do cargo de facto, devia reverter, em vez de ser no caso dos Estados Unidos, que não parece que seja um país que esteja a atravessar grandes flagelos, devia reverter para chefes de Estado o interesse, devia reverter para chefes de Estado que realmente são soberanos em países que estão obviamente mal. Eu estou a pensar em casos como Cuba ou Venezuela, esses países que nós sabemos sempre e cujos presidentes estejam nas condições que estejam, são sempre totalmente legítimos. O presidente americano, por definição, raramente é legítimo deste lado do oceano, e então em Portugal muito poucas vezes o é. O Barack Obama foi mais ou menos uma exceção e o Bill Clinton um bocadinho menos. No caso dos presidentes republicanos, obviamente, eles nunca deveriam ter sido eleitos e nunca merecem estar no poder. No caso do senhor Trump, que de facto é um presidente republicano um bocadinho peculiar, é óbvio que aquilo tem que haver manipulação, tem que haver fraude, tem que haver qualquer coisa que o possa tirar de lá. Vamos a ver. Não o vão tirar de lá por este processo e duvido que o pudessem tirar de outra maneira.
Obrigado, Alberto Gonçalves. Hoje o Alberto Gonçalves a desfazer ideias feitas sobre as notícias que vêm dos Estados Unidos, onde a Câmara dos Representantes aprovou ontem, já durante a madrugada, os dois artigos de destituição contra Donald Trump, levando assim a que este processo de destituição, o impeachment, suba até ao Senado, a Câmara Alta do Congresso norte-americano, e é por lá que vão passar todas estas decisões a poucos meses das eleições norte-americanas.
Voltamos a desfazer ideias feitas com Alberto Gonçalves amanhã. Esta edição fica disponível já a seguir em podcast nas plataformas habituais. Observador