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"Ideias Feitas" com Alberto Gonçalves. Hoje um bocadinho mais cedo por causa do futebol que há mais logo. Bem-vindo, Alberto. Estávamos até a falar há pouco um pouco disso aqui no "Eventos d'Hore", sobre as queixas do Ministro da Educação sobre a RTP, mas também para comentar a necessidade da RTP existir. Bem-vindo, Alberto.
Olá, Luís, boa tarde. Sim, estava a ouvir-vos no "Eventos d'Hore", portanto, não vale a pena recuperar as declarações do ministro, o que ele disse. Ele acusou a RTP de ter descontextualizado as suas palavras ao divulgar apenas um trecho das tais declarações e chamou a isso um ataque cobarde e vil. Exigiu explicações à direção da RTP sobre os critérios editoriais e pediu a tal investigação interna. Ora bem, eu acho que há aqui uma série de considerações que podem ser boas ou más, simpáticas ou antipáticas, de acordo com a maneira como pegamos nelas. Por um lado, acho positivo que até o ministro se sinta incomodado com uma decisão editorial da RTP. Por outro lado, é pena que isso só aconteça quando a vítima da decisão editorial é ele próprio. Visto noutra perspectiva, por um lado, também acho positivo que uma notícia coloque em xeque um governante, mas, por outro lado, é um desastre quando isso é feito à custa de uma deturpação um bocadinho evidente, para não dizer reles, das palavras do dito governante. E também é positivo, por um lado, que o jornalismo, seja público, seja privado, não se detenha face ao poder, mas é muito negativo que a RTP, no caso, seja bastante, não foi só a RTP também, mas no caso a RTP, seja bastante mais cautelosa quando o poder está nas mãos do Partido Socialista. Pelo menos é essa a ideia com que uma pessoa fica e acho que não é uma ideia assim tão descabida. E por fim, não sei se é positivo ou negativo que o próprio ministro tenha vindo pedir uma investigação interna, mas sei que seria altamente preferível que houvesse vários ministros a questionar não a truncagem destas declarações, mas a questionar a necessidade de sequer existir um serviço público de televisão. E obviamente não por causa disto especificamente. E não há esses ministros. Quer dizer, por muito que a oposição acuse o governo do contrário, de estar a preparar a RTP para ser privatizada, a verdade é que nada indica que isso vá acontecer, pelo menos nos tempos mais próximos. A RTP, em princípio, está para durar e eu, sinceramente, não consigo perceber por quê. Eu poderia citar aqui meia dúzia de polémicas recentes que envolveram a estação pública e que não deviam envolver uma estação pública de televisão. Algumas dessas polémicas eu referi na altura aqui no "Ideias Feitas" e que falam das discussões em volta do boicote à Eurovisão, à transmissão daqueles desenhos animados a promover a transexualidade nas crianças. Uma série de coisas que não vale a pena relembrar aqui. Preferia hoje recorrer a questões mais formais, porque há uma coisa que é o contrato de concessão do serviço público de mídia, que está em vigor, salvo erro, desde março. E nesse contrato há um conjunto de objetivos que a RTP se propõe cumprir e que, presume-se, justificam a sua existência. Um desses princípios, dizia eu, é garantir informação independente, rigorosa e plural. Ora, sem querer desenvolver o tema, basta pegar neste caso do Ministro da Educação para percebermos que a RTP não garante nada disso. Quer dizer, não quer dizer que não haja casos em que a RTP não transmite informação rigorosa, independente e plural, mas pelos vistos nem sempre acontece. Portanto, a garantia foi às malvas. Outro objetivo que está nesse contrato é: a RTP deve promover a identidade nacional, a língua portuguesa, a cultura e os valores portugueses. Ora, também ninguém sabe ao certo o que é identidade nacional e coitada da língua e da cultura e dos valores portugueses se precisam de uma televisão que os promova. Se estão dependentes disso, não vão longe. Outro objetivo é investir em produção própria, ou seja, continuar a gastar o dinheiro dos contribuintes. Mais um objetivo, acho que é o quinto. Eu tirei aqui a meia dúzia dos principais. Havia mais dois ou três que não vinham ao caso, mas outro objetivo é difundir eventos de interesse generalizado no desporto, na cultura e na educação. Ora, desporto à parte, eu desconheço que eventos realmente culturais ou educativos a RTP difunde, incluindo desporto, que não possam ser difundidos por outras vias. E por fim, contribuir para o desenvolvimento social, cultural e económico do país. Não nego que a RTP tenha tido, sem dúvida, importância social há 30, 40, 50 anos, sobretudo quando era o único canal e quando as consequências disso eram óbvias, especialmente em meios mais remotos do país e tal. A importância cultural já é mais discutível e a importância económica parece-me que sempre foi nula ou perto disso. Não acho que a economia do país mais estagnada, mais desenvolvida ou em retrocesso tenha dependido propriamente da programação da RTP. Agora, só para concluir, se a RTP continua a existir fundamentada nuns conceitos vagos que ou não se conseguem definir na prática ou não são praticados de todo. Politicamente, a existência da RTP sempre foi, para mim pelo menos, e acho que para muitos portugueses, sempre foi contraproducente no modo como é utilizada pelos governos. É verdade que mais por uns governos do que por outros, mas utilizada pelos governos. Agora, de resto, sob qualquer ponto de vista, e não só politicamente, a RTP é hoje um anacronismo, que não oferece rigorosamente nada que as demais televisões e sobretudo que as novas tecnologias, vamos pensar na internet e em tudo o que está lá, que as novas tecnologias não ofereçam numa variedade incomensuravelmente superior. Na melhor das hipóteses, a RTP é uma redundância e eu não consigo imaginar nenhuma razão para continuarmos a pagar uma redundância.
E daí o título da tua crônica de hoje: "A RTP só existe para que a possamos pagar." Alberto, amanhã tens mais ideias feitas de regresso ao horário habitual antes das 19h. Até amanhã, Alberto.
Até amanhã, Luís. Um abraço.
Abraço.
O Ideias Feitas conta com o apoio do azeite Talismã.