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Do Alberto Gonçalves. Ideias Feitas, crônica do Alberto Gonçalves, que hoje quer abordar uma notícia, tem como tema desta crônica uma notícia que já esteve em manchete hoje no Observador: os milhões gastos pelas autarquias em espetáculos de variedades. Título desta crônica: "As cantorias que as câmaras oferecem e nós, Alberto, pagamos."

É verdade, Miguel. Olá, boa tarde. Sim, foi através desse artigo no Observador, artigo assinado por Miguel Pereira Santos, que eu e muito mais pessoas ficamos a saber dos gastos das câmaras municipais em espetáculos de variedades e cantorias em geral. Nos últimos três meses foram 18 milhões de euros. Parece que Oeiras, em primeiro lugar, depois Lisboa, depois Loures, lideram este ranking de dinheiro estrafragado em espetáculos, mas há outros municípios que também estão bem colocados na tabela: Loulé, Seixal, Matosinhos, Vila Nova de Gaia, não ficam muito longe, pelos vistos, no que toca à despesa. Quanto a artistas, os maiores beneficiários destas políticas culturais, deve ser assim que as câmaras designam, são um tal Nininho Vaz Maia, que eu fico ceguinho se alguma vez ouvi o senhor. Ceguinho e surdo seria mais apropriado. Mas há uns tais Calema, também que não sei quem são, e há Os Anjos, os mesmos que se imortalizaram recentemente através de uma interpretação, acho que não foi tão recente, mas isto tem sido falado agora, de uma interpretação do Hino Nacional e que receberam €30 mil por cada um dos dois concertos patrocinados pelas câmaras de Chamusca e de Amarante. E é extraordinário, pelo menos depois de ter visto a interpretação do Hino, que os Anjos recebam por cantar. Num mundo ideal, os Anjos teriam de pagar para que alguém os ouvisse e pagar bem.

Estás a pôr-te a jeito, Alberto Gonçalves.

É verdade.

Sentaste no banco dos réus.

Não dava jeito agora interromper o verão para ir para um tribunal, mas pronto os advogados dos Anjos são assim um bocadinho ariscos, é verdade. Mas dizia eu que se o mundo fosse um lugar ideal, não se discutiria sequer que o empenho das câmaras em torrar estas verbas com estes farrapos, com estas festas, que isto acontece por estarmos próximos de eleições autárquicas. Num mundo ideal ou num Portugal ideal, as pessoas não venderiam os seus votos a troco de concertos que elas próprias pagaram com os seus impostos. Infelizmente, nem o mundo é ideal, nem o país é ideal e por isso temos uma população que, em larga medida, fica agradecida aos senhores e às senhoras da Câmara e que não apenas não repara que é aliviada de uma percentagem choruda dos seus salários para pagar subprodutos musicais, como ainda por cima, uma parte dessa população vai assistir toda contente aos subprodutos e dança ao som dos subprodutos e no fim reforça a opinião de que a autarquia está, para usar o jargão que se usa nestas ocasiões, com uma dinâmica imparável. A dinâmica só seria mais imparável se as autarquias rebentassem literalmente com o dinheiro dos contribuintes. E o pior é que rebentam, não há concelho nenhum do país ou freguesia nenhuma que não estoure várias vezes por ano dezenas ou centenas de milhares de euros em fogo de artifício. A única vantagem é que o som do foguetório, para mim pelo menos, é preferível aos sons que saem das gargantas de 95% dos artistas que costumam animar estas festas. No resto, é igualmente uma ofensa aos cidadãos, que os cidadãos entendem como uma oferta, como uma dádiva, como uma prenda, e que depois retribuem com o voto. Ou seja, quanto mais uma autarquia desperdiça dinheiros públicos, mais os munícipes tendem a apreciar os respetivos autarcas, quando o bom senso aconselharia, digo eu, que fosse o contrário, porque se houvesse bom senso, as pessoas não achariam grande piada. Isto parece razoavelmente básico. As pessoas não achariam grande piada a que lhes retirassem rendimentos do seu trabalho para financiar festanças que elas não pediram e que boa parte delas nem frequenta. E autarca gastador seria um autarca condenado à derrota nas eleições. Por azar, o que sucede é exatamente o inverso. E isto na cultura, vamos chamar assim, e no que calha, é no fundo o truque por detrás do sucesso do Estado contemporâneo, seja central ou seja local. O Estado empobrece as pessoas materialmente, depois consola-as simbolicamente. E o fato de haver gente que se consola simbolicamente com os diversos membros da família Carreiro ou com os chutes e pontapés é para mim um mistério que acho que nunca ninguém conseguirá solucionar. Eu pelo menos não conseguirei. Agora, para terminar, o único verdadeiro consolo que poderia haver nesta história é que o dinheiro que as câmaras gastam em artistas de variedades, pelo menos podemos ter o consolo de pensar que não seria gasto em novas rotundas ou centros interpretativos ou feiras medievais ou essas coisas que andam agora por aí. Mas o dinheiro dos contribuintes parece chegar mais ou menos para tudo, ou seja, dá para os concertos, dá para as feiras medievais, dá para os centros interpretativos, dá para as rotundas e para os viadutos, só não dá é para os contribuintes.

Os gastos das autarquias em espetáculos de variedades é o tema do Ideias Feitas de hoje. As cantorias que as câmaras oferecem e nós pagamos, o título desta crônica que vai poder ouvir já daqui a instantes em podcast no site do Observador: observador.pt. Alberto Gonçalves, marcamos novo encontro para amanhã à hora do costume ou um bocadinho antes, assim das 18h30. Boa tarde e até amanhã, Alberto.

Um abraço, Miguel. Obrigado.

O Ideias Feitas conta com o apoio do azeite Talismã.