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Gonçalves. Ideias Feitas, como é habitual a esta hora, com Alberto Gonçalves. Viva, Alberto. Hoje queres comentar o assassínio de Charlie Kirk.

Olá, Luís. Sim, quero. Porque aconteceu, em primeiro lugar, e depois porque ontem, à hora de jantar aqui em Portugal, lá no Utah são umas 19h, 20h mais cedo, o Charlie Kirk estava a fazer aquilo que o tornou conhecido, principalmente nos Estados Unidos, mas que também me fez conhecê-lo aqui em Portugal. Estava a debater assuntos de política e atualidade com alunos de uma universidade americana. Ainda no dia anterior, por acaso, mas isso não foi um acaso excecional, porque eu assistia muitas vezes aos debates dele. No dia anterior eu tinha assistido a parte de um desses debates, que costumavam e espero que continuem, embora já não vão ser inéditos, infelizmente, mas debates que costumam aparecer no Twitter ou no X. Às vezes eu discordava um bocadinho das opiniões do Charlie Kirk. Às vezes, sem discordar, não conseguia acompanhá-lo inteiramente. Ele era religioso e a questão da fé religiosa era importante, pesava nos seus argumentos. Eu não sou religioso. E na maioria das vezes eu concordava com a perspectiva dele, embora para o que aqui interessa, a minha opinião sobre o que ele pensava e dizia não é o importante. Nem era isso que me levava a gostar de o ver e de o ouvir. O mais importante nas conversas que o Charlie Kirk mantinha com pessoas que pensavam radicalmente dele, e só isso é bastante, mas o mais importante ainda era a verdadeira e autêntica abertura ao diálogo. Isso é uma questão geral, não é um slogan de plástico, mas com ele não era um slogan de plástico. O Charlie Kirk dialogava, de facto, e com quem calhava, no sentido de que aquilo que o motivava era a troca de argumentos, pura e simples. Eu nunca o vi aos berros para calar o interlocutor. Eu vi-o sempre atento às palavras daqueles que o confrontavam, para depois ele tentar, e normalmente conseguia, contrariá-los. As sessões a que ele chamava "Prove Me Wronger", "Mostre que Estou Errado", era o nome que ele dava a estas sessões nas universidades, eram acima de tudo uma extraordinária e hoje em dia infelizmente rara exibição do direito ao contraditório e da liberdade de expressão. Na sessão que estava a decorrer ontem, o Charlie Kirk vestia, não a despropósito, uma T-shirt branca com uma só palavra: freedom. E na sessão de ontem, como mais ou menos toda a gente já saberá, que se realizou num campus universitário um bocadinho a sul de Salt Lake City, o Charlie Kirk foi atingido por uma bala e morreu pouco depois. Ele tinha 31 anos, tinha mulher, tinha dois filhos, milhões de seguidores nas redes sociais, uma grande influência, sobretudo junto dos jovens conservadores ou potencialmente conservadores nos Estados Unidos. Ele era cristão e era apoiante de Trump. Mesmo descontada a particular violência do crime, é evidentemente uma tragédia que Charlie Kirk tenha sido assassinado a praticar e a respeitar a liberdade de expressão, a liberdade de opinião, a liberdade de argumentação, mas é uma tragédia ainda maior que tenha sido assassinado exatamente por causa disso. Eu não me vou pôr aqui, não tenho tempo, nem faria grande sentido pôr-me aqui a inventariar as reações de júbilo ao homicídio de Charlie Kirk, que foram e são muitas e tomaram muitas formas. Eu, por agora, vou-me limitar a notar que todos os que de alguma maneira se alegraram com sinceridade ou que cinicamente se esforçaram por justificar a morte de Charlie Kirk, são inimigos da liberdade de expressão e da própria liberdade, ou da liberdade propriamente dita. A liberdade sem mais e sem mas e sem condicionantes e sem relativizações. Porque ao contrário de Charlie Kirk, que fez dessa celebração da liberdade a sua vida e com isso, obviamente, antecipou a sua morte, os seus inimigos, agora em festa, seja essa festa assumida, seja disfarçada, não toleram o debate. É justamente isso que eles não toleram: o debate, a discórdia, a possibilidade de que haja gente a pensar e a afirmar coisas diferentes daquelas que eles autorizam e que haja gente a tentar vencer batalhas argumentativas. Isso é o supremo sacrilégio, que haja gente a tentar vencer batalhas de argumentação, batalhas essas através da força de razão. Pelo menos a razão dele, que ele jamais impôs. Ele apenas, repito, dialogava. E as pessoas que celebram a morte de Charlie Kirk não celebram apenas a morte de um homem. Celebram essa razão da força, celebram a força bruta, celebram o desconforto face à divergência, o reconhecimento de que a divergência tem de ser aniquilada, seja como for, dê por onde der. Se for preciso assassinar para calar esta dissonância, esta divergência, não há problema, assassina-se. E depois corre-se para o TikTok a gravar vídeos com berros de felicidade e depois, uns dias, volta-se a partilhar vídeos com trapalhadas e pulso de ódio. Se esta gente é doente mental? Aparentemente sim, mas seja ou não, conforme se vai provando, e ontem voltou a provar-se, sendo ou não doentes mentais, são sobretudo pessoas perigosas.

"Charlie Kirk e os Assassinos da Liberdade" é o título da crônica de hoje do Alberto Gonçalves. Alberto, estás de regresso amanhã com mais Ideias Feitas. Até amanhã.

Com certeza, Luís. Um abraço. Até amanhã.

O Ideias Feitas conta com o apoio do azeite Talismã.