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Vamos desfazer ideias feitas com o Alberto Gonçalves e vamos olhar hoje para um episódio raro que acontece com o Presidente da República em Murça. Marcelo Rebelo de Sousa encontrou, Alberto, dois cidadãos exaltados. Olá!
Sim. Olá, Vanessa, boa tarde. Eu classificaria com outro adjetivo, talvez dignos, acordados, despertos. Seria outra palavra que eu usaria. Exaltados também, com certeza, mas não acho que seja esse o principal ponto a destacar. Entretanto, desde o programa de ontem, desde o "Ideias Feitas" de ontem, a engenheira Alexandra Reis saiu do governo, foi demitida, tecnicamente, mas levou com ela à cautela os €500.000, que já não terão retorno, pelo menos para os nossos bolsos, de certeza que não. Entretanto, conseguiu-se ou tenta conseguir, e acho que com algum sucesso, centrar as atenções deste caso todo na pessoa dessa senhora, quando este caso é obviamente mais vasto e envolve outras pessoas com iguais ou maiores culpas no cartório. A senhora fez pela vida e tratou de cuidar do seu, daquilo que poderia vir a ser seu e que, pelos vistos, vai continuar a ser seu, no caso, meio milhão de euros, que acaba por fazer jeito, parece que não. Mas há outras pessoas envolvidas nisto, pessoas como o doutor Fernando Medina, cuja mulher era diretora jurídica da TAP na altura da negociação da saída desta Alexandra Reis, o Pedro Nuno Santos, que por acaso dois atuais ministros do governo, dois ministros do governo que, fartos de saber tudo isto, foram pedir explicações à TAP e à CMVM. Entretanto, antes das explicações chegarem, já o caso estava aparentemente resolvido ou pelo menos eles esperam que esteja resolvido e provavelmente estará. Também há o doutor Costa, que garantiu que não sabia de nada. Já disse ontem isso, mas vale a pena lembrar. É estranhíssimo um primeiro-ministro não saber absolutamente nada do que se passa numa empresa com a dimensão da TAP e cuja nacionalização teve o impacto que teve. E depois soubemos, entretanto, ontem quando fiz o "Ideias Feitas", acho que ainda não sabia, que quem tratou da negociação da saída da engenheira Alexandra Reis da TAP foi justamente o gabinete de advogados, que é liderado por um irmão do professor Marcelo Rebelo de Sousa, que por acaso ou não por acaso, é presidente da República. E o professor Marcelo, sobre este caso, tinha dito já tudo e o seu contrário, sempre no intuito de defender o governo e de tentar fazer com que o caso, como é costume nele, não fosse um caso de todo. Mas uma das coisas que ele disse algures no processo foi que a senhora em questão tinha recebido €500.000 e isso era apenas um terço da verba a que teria direito. Ora, na altura, as pessoas leram aquilo e ficamos um bocadinho intrigados de onde é que vinha aquela verba de um milhão e meio de euros, porque por muitas contas que se fizessem, uma indenização com base no salário dela ou na posição que ela ocupava ou nos anos de trabalho que ela prestou à empresa, não parecia que o milhão e meio de euros fizesse muito sentido. Mas agora ficámos a saber que como era o irmão do professor Marcelo ou a sociedade de advogados do irmão do professor Marcelo a tratar do assunto, é natural que ele tivesse acesso a informações que não fossem do conhecimento público. Não é tão natural que ele não divulgasse a origem dessas informações e por que é que as tinha ou de onde é que ela surgiu. Isso é outro assunto. Outro assunto também, ou melhor, a propósito de outros assuntos ou de uma série de assuntos, é que o professor Marcelo ontem, como tu disseste, de uma forma muito rara, foi interpelado em Murça. Por acaso não foi interpelado, até acho que a propósito deste caso, embora os ânimos possam estar mais exaltados a propósito deste caso da Secretária de Estado ou da ex-Secretária de Estado do Tesouro. Mas a verdade é que foi interpelado por dois cidadãos em Murça que, por uma vez, disseram a Sua Excelência, o senhor Presidente da República, aquilo que muitos portugueses, ou pelo menos uma quantidade razoável de portugueses, infelizmente parece minoritária, gostaria de dizer ao senhor Presidente da República. Aqueles dois senhores em Murça, cuja aparatчика do governo e arredores já andam a atacar, dizendo que foram no mínimo malcriados, no máximo são militantes do Chega, coisa que aliás o professor Marcelo também insinuou após o confronto, que seriam militantes de alguma coisa mais marginal e que por isso a interpelação que lhe fizeram não seria inocente, mas seria uma coisa orquestrada. Quis dar a entender isso de alguma maneira, embora não tenha dito diretamente. Mas a verdade é que aqueles cidadãos, por um momento raríssimo na nossa vida política atual, não foram ter com o senhor Presidente da República para tirar selfies, para falar de futebol, aquelas coisas que ele gosta de fazer ou para convidá-lo para um banho na praia, também seria difícil, dado o clima que estamos a atravessar. Mas foram ter com ele para lhe dizer verdades, verdades que são incontestáveis. Acho que já toda a gente viu as filmagens, acho que os telejornais têm repetido isso bastante. Não vale a pena estar a repetir aqui os pormenores, mas a verdade é que, no essencial, o que eles disseram foi que este país, praticamente 50 anos depois do golpe de Estado de 25 de Abril ou da Revolução de Abril, consoante se queira chamar, com tantos milhares de milhões que caíram aqui, com tantos fundos, com tanto suposto progresso, com tanta democracia, o país naquilo que tem de pior continua na mesma. O país não saiu do mesmo e em alguns casos, provavelmente, entretanto já terá melhorado e já terá piorado neste processo todo. E foi isso que eles basicamente disseram. Falaram de Pedrógão, falaram da saúde, falaram das filas de espera para os centros de saúde e os hospitais, falaram da educação, etc. E em tudo o que diziam, tinham razão Tinham razão e não era uma razão que às vezes se pode perder quando as pessoas dizem isto dissolvidas ou dissimuladas numa multidão que grita slogans em uníssono. Nada disso. Eram duas pessoas isoladas, absolutamente isoladas, com coragem, numa altura em que é muito raro ver esse tipo de atitudes. No tempo do Pedro Passos Coelho, isso era absolutamente diário e aí percebíamos que era absolutamente orquestrado também, ou quase sempre era orquestrado. Neste caso, não. Foi uma coisa que dois cidadãos acharam que não aguentavam mais e como viram aquele senhor que representa uma boa parte da situação em que está o país e é responsável por ela, ou é corresponsável por ela, ou é cúmplice dela, resolveram dizer-lhe umas coisas. Só por isso, aqueles senhores que hoje os apaniguados do PS e do professor Marcelo e daquele centrão todo que domina mais ou menos o país, reputam de muito mal-criados e de inconvenientes e de pessoas que deviam ser postas na linha. Já li por aí que aquilo até podia ter existido, mas as televisões nem deviam ter passado aquilo. Já li coisas deste calibre, para imaginarmos a que nível estamos. Mas a verdade é que eles disseram e justiça lhes seja feita, as televisões passaram as imagens. Não vai servir para nada de consequente, infelizmente, mas serviu para podermos partilhar um certo alívio, um certo consolo de ver alguém dizer na cara daquele senhor, que é presidente da República, que é o chefe de Estado e que se devia comportar como tal, dizer algumas coisas que nós próprios gostaríamos de dizer e que muita gente não tem voz de maneira nenhuma ou não tem acesso aos media ou à presença física do senhor em causa para lhe poder dizer isso. Aquilo consolou um bocadinho. É um consolo fraco, com certeza, escasso, mas pelo menos é um consolo. Pode ser, e isto é uma esperança muito vaga que eu tenho, mas mesmo muito vaga, de que aquilo represente mais alguma coisa. Eu sei que haveria muito mais gente a gostar de dizer o que aquelas pessoas disseram, mas no sentido de que esse número de pessoas que gostaria de dizer o que aquelas pessoas disseram, seja o suficiente e finalmente essas pessoas se movam para poder dizer, não digo necessariamente ao professor Marcelo ou ao doutor Costa, ou dizer-lhes na cara, mas começar-se a sentir no país que há uma parte substancial do país que já não tolera mais isto. E isto que se passou na TAP com a senhora ex-secretária de Estado, etc, é mais um sinal apenas de que isto está a chegar a um ponto absolutamente insuportável e que um governo nestas condições não pode continuar. Não pode continuar nestas condições e não parece que vá continuar noutras, porque esta gente não sabe viver de outra maneira ou comportar-se de outra maneira. Portanto, é bom que tenha existido aquele momento em Murça. É pena que tenha sido só aquele momento em Murça.
Uma esperança muito vaga no final do "Ideias Feitas" de hoje, Alberto. Marcamos novo encontro amanhã. Até lá.
Até amanhã, Vanessa. Boa tarde.