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"Ideias Feitas", na Rádio Observador. Bem-vindo, Alberto Gonçalves.

Olá, Ricardo Conceição. Muito obrigado.

E hoje queres falar de novo do 7 de Outubro.

Não era a minha intenção, mas não resisti, porque ontem foi o 7 de Outubro de 2026 e o que não faltou ontem foram invocações do 7 de Outubro de 2023. Infelizmente, também não faltaram lamentos pelo massacre de civis israelitas que tresandaram a falso. E o método utilizado foi um método velho e foi sempre o mesmo: começar por fingir que se lamenta o massacre para logo a seguir esquecer as vítimas do massacre e acrescentar um "mas". Um "mas" que pode estar lá ou não estar sequer literalmente lá. Mas partem, a seguir a esse "mas" real ou presumido, para o que realmente lhes interessa, que é acusar Israel de cometer o tal genocídio em Gaza. Isto não chega a ser o double speak do George Orwell, que pelo menos exigia certa subtileza. Talvez seja o que se chama uma falsa concessão em termos técnicos, mas na prática todos vemos que é apenas uma absoluta ausência de vergonha. E os exemplos desta ausência de vergonha e desta falsidade moral foram ontem infelizmente abundantes. Posso dar um dos mais célebres ou virais, como se diz, e dos mais repulsivos também. Estou a falar do senhor Mandani, o senhor mayor de Nova Iorque, que escreveu nas redes sociais, e passo a citar: "Este dia profundamente doloroso para tantos nova-iorquinos marca três anos desde os horríveis crimes de guerra de 7 de Outubro. Naquele dia, o Hamas matou mais de 1100 israelitas e sequestrou outros 251. Lamentamos ao lado dos nossos amigos e vizinhos que ainda carregam essa perda impensável". E a parte dos israelitas, para o senhor Mandani, a parte dos israelitas mortos, feridos, sequestrados, torturados e violados ficou despachada nisto. E depois sobrou uma data de caracteres para o senhor Mandani, nas suas páginas nas redes sociais, poder referir o que de facto lhe importa: as críticas a Israel, as difamações de Israel, as meias-verdades sobre Israel e as mentiras sobre Israel. E prossegue o doutor Mandani, agora não vou citar literalmente, senão nunca mais saio daqui, mas fala em genocídio devastador e contínuo do governo israelita em Gaza, fala nos milhares de palestinianos mortos, no sofrimento que se intensificou a cada bomba israelita lançada sobre ambulâncias e sobre hospitais, a cada ataque de drone contra um jornalista, a cada carregamento de ajuda alimentar bloqueado na fronteira, ocupação, apartheid, crimes de guerra, etc. Portanto, o senhor Mandani aproveitou o 7 de Outubro e o que aconteceu em 2003 nessa data para dedicar quatro quintos da sua declaração de lamento a criticar Israel e a condenar Israel e a falar no tal genocídio de Israel. A mensagem dele foi mais ou menos o padrão pelo qual ontem se regeram todos os que detestam a mera existência de Israel, mas não o querem assumir. É escusado dar grande destaque a figuras menoríssimas ou figuras que não têm qualquer relevância aqui fora da fronteira, mas cá dentro deste lado da fronteira também houve exemplos. Os senhores do LIVRE, por exemplo, lembraram as vítimas do 7 de Outubro e as suas famílias e depois acrescentaram logo a seguir: "Exigimos o fim do genocídio em Gaza e que todos os responsáveis por crimes contra a humanidade sejam levados à justiça". E depois houve também coisas que eu apanhei por aí por alto, não fiz grande pesquisa, não era difícil. A doutora Alexandra Leitão, do Partido Socialista: "Faz hoje três anos do bárbaro e hediondo ataque do Hamas a Israel. O mundo mudou depois da chacina perpetrada nesse dia". Até aqui tudo bem. "E do genocídio que se lhe seguiu". Isto parece que é uma obrigação legal, praticamente, incluir a palavra genocídio sempre que se lamenta as vítimas do 7 de Outubro de 2023. E acho que, sinceramente, para derramar lágrimas de crocodilo tão óbvias, mais valia fazer como tantos habitantes da Palestina, de um lado e de outro, na Cisjordânia e em Gaza, tantos habitantes fizeram há três anos e festejar aberta e publicamente a chacina de israelitas. Aliás, ontem houve quem o fizesse em várias cidades europeias, quem festejasse mesmo esse massacre do 7 de Outubro e alguns levaram até cartazes de apoio ao Hamas e essas coisas todas. E os restantes talvez pudessem deixar lá o "mas" e assumirem que partilham os ideais do Hamas. E este meio-termo que não engana ninguém, acho que ninguém fica convencido com esta putativa equidistância. Ninguém fica convencido com isto. Isto é mais ou menos igual a uma pessoa condenar o Holocausto para imediatamente se condoer da forma como os alemães foram tratados na Segunda Guerra. É preferível que essa pessoa admita que estava do lado dos alemães e que estava do lado do Holocausto. E alguns mais sinceros hoje em dia também admitem.

Obrigado, Alberto. E até amanhã. Um abraço.

Até amanhã, Ricardo. Um grande abraço.