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"Ideias Feitas". "Ideias Feitas" com Alberto Gonçalves. Primeira crônica desta semana e neste dia que marca os 80 anos da libertação de Auschwitz. Olá, Alberto.
Olá, Vanessa. Marca, sim senhora. Convém lembrar neste dia, já que é um dia de memória, que Auschwitz foi o lugar mais visível de todo um processo de extermínio como nunca houve na história. O Holocausto é um acontecimento único. E ainda bem que é único, quer dizer, ainda bem que não há muitos holocaustos. Há chacinas, há genocídios mais ou menos comparáveis, mas o Holocausto, na forma como foi pensado, não é exatamente único. Na forma como foi executado, é único, de certeza. É uma espécie de produção em massa de morte e por isso teve a importância que teve e a relevância que teve, e deveria estar mais presente, se calhar, na memória das pessoas. Não está. Tanto em Portugal como noutros países. Em Portugal, nem sei se fez, para ser franco, mas noutros países há inquéritos sobre o assunto e conclui-se que uma porcentagem muito pequena de jovens faz ideia do que foi o Holocausto. Muitos adultos, um em cinco adultos, um em três adultos, variando de acordo com o país, sabe muito pouco ou nada sobre o Holocausto e uma porcentagem um bocadinho demasiado elevada acha que o Holocausto até nem terá existido, ou que os números serão bastante exagerados. Não são exagerados, são números comprovados. Mais ou menos seis milhões de judeus, fora pessoas que não eram judeus, morreram no Holocausto, foram mortos pela máquina de extermínio nazi. É natural, há uma distância, o tempo passa, e há uma distância face ao acontecimento que leva a que as coisas se percam. E ao perderem-se, também se deturpam. E hoje há uma tendência também para que se chame nazi a tudo aquilo de que não se gosta. Estou parafrasear o George Orwell, que dizia isso em relação ao fascismo. Mas é um bocado isso. Hoje em dia, banalizou-se o uso da expressão nazi, desde logo fora da política, até no dia a dia. Se aquele restaurante fecha demasiado cedo ou impõe uma restrição qualquer peculiar aos clientes, o dono do restaurante é nazi. O árbitro de futebol pode ser nazi, de acordo com o seu comportamento. Mas depois, na política, isto é absolutamente diário. Qualquer política ou qualquer político de que não gostemos é nazi, ou tende a ser nazi, ou é praticamente nazi, ou é até pior do que nazi. Portanto, o termo é usado constantemente e, ao ser usado constantemente com destinatários que não merecem o termo ou que não justificam o termo, naturalmente, o termo banaliza-se. Perde força e perde adequação à realidade. E deve ser essa falta de adequação à realidade que faz com que muita gente, que usa o termo nazi desta forma leviana. Estava a pensar até no senhor Trump. O senhor Trump, a própria campanha do Partido Democrata foi mais ou menos descrevê-lo como um Hitler. O Trump era o novo Hitler, ou pior do que o Hitler, ou a reencarnação de Hitler. E isso está longe de ser caso único. E muita desta gente que usa este termo desta forma leviana e que banaliza o termo, são as mesmas pessoas que, na realidade, cometem ou pensam, pelo menos ao nível do pensamento, ou seja, nas ruas, no que dizem nas ruas, em manifestações ou no que dizem nas páginas das redes sociais, partilham com os nazis aquele que foi, no fundo, o objetivo final do nazismo, a solução final. E aquilo que define melhor o nazismo. A definição do nazismo não se esgota na tentativa de extermínio do povo judaico, mas a tentativa de extermínio do povo judaico ajuda muito a perceber o que foi o nazismo e esgota uma parte considerável do conceito de nazismo. E muita dessa gente que hoje usa o termo nazi como a encarnação do mal, quando estão muito zangados com alguém, ou com um político, ou com outra pessoa qualquer, chamam-lhe nazi porque é o pior que lhe podem chamar. Mas essas pessoas é que, no fundo, estão a ter práticas que poderemos achar, aí sim, que têm coisas em comum com os nazis. São as pessoas que saem à rua e às redes sociais a gritar, a berrar pela extinção de Israel e do povo judaico. Acredito que muitos não têm isso na cabeça, a ideia de erradicação dos judeus até o último, mas no fundo, é isso que eles estão a pedir. Pode haver aqui ignorância. É ignorância mesmo, não há muitos sinônimos a usar. Mas essas pessoas é que estão a desenvolver em teoria, estão a aliviar-se de um pensamento que corresponde àquilo que os nazistas, de fato, os verdadeiros nazistas defendiam. E ao fazer isso, é evidente que isso contribui ainda mais. Já não é para esquecer o Holocausto, para que o Holocausto nos saia da memória e deixe de ser o exemplo daquilo que não deve acontecer. Não, há uma distorção, há uma deturpação absoluta daquilo que foi o Holocausto. E isso não é bom. Não é bom porque mostra que o ódio aos judeus não nasceu com os nazis. O ódio aos judeus é uma coisa antiga. O nazismo apenas traduziu de uma forma massiva e tecnológica até, esse ódio aos judeus. E vemos que esse ódio continua a existir hoje. E a esse ódio nunca lhe chamamos nazi, ou nunca lhe chamamos proto-nazi, ou que parecem nazis, ou que parecem o Hitler, ou que são piores que o Hitler. Mas, na realidade, em muitos casos, tirando os tais casos radicais de ignorância, que também não desculpa tudo, em muitos casos são parecidos com os nazis, são parecidos com o Hitler, fazem lembrar o Hitler, mas não vou chegar ao ponto de dizer que são piores que o Hitler, isso é difícil. Mas a verdade é que aquilo que motivou os nazistas, aquilo que levou os nazistas a fazerem o que fizeram e que, no caso de Auschwitz, acabou há 80 anos, isso não morreu, isso não desapareceu, isso continua presente. E devia ser ao contrário. Isso é que já não devia estar presente, e a memória do que aconteceu no Holocausto, um momento horrível da história da humanidade, isso é que devia estar mais presente. Infelizmente, as coisas passam-se ao contrário e é com isso que temos que lidar.
A memória atual do Holocausto, tema deste "Ideias Feitas", sempre com a assinatura do Alberto Gonçalves. Estás de volta amanhã, Alberto. Até amanhã.
Com certeza, Vanessa. Até amanhã.