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Ideias Feitas de hoje sobre o regresso das restrições e das discriminações. Boa tarde, Alberto Gonçalves. A quem queres apontar o dedo?

Naturalmente, ao governo, que é quem manda, e a um povo que obedece com demasiado voluntarismo. Amanhã voltam as restrições. São restrições mais fortes que aquelas que tínhamos no ano passado. Se bem me lembro, no ano passado, o número de mortes diárias por Covid era incomparavelmente superior ao que temos agora. É muito possível que se deva à existência de uma vacina que não existia antes, em 2020, e que existe agora. E é uma população que está praticamente toda vacinada. Neste momento, acho que são os bebês que não estão, ou pouco mais. E, no entanto, as medidas vêm aí. As medidas, as restrições, as discriminações, as segregações vão voltar em força, sem sentido nenhum. Não fazem sentido porque a situação não justifica. Neste momento, eu acho que estão a morrer em Portugal diariamente por Covid um número inferior àquele de vítimas da gripe em anos pré-Covid, ou pelo menos comparável. Não parece que seja um número particularmente diferente. Até me parece, sinceramente, que é inferior. Por um lado, a situação não justifica as medidas, e por outro lado, as medidas não fazem sentido nenhum. As medidas são feitas para que se a coisa correr bem, o governo possa dizer, especialmente agora em vésperas de eleições, que a coisa correu bem graças às nossas medidas. Se a coisa correr mal, o governo vai culpar as pessoas de não terem cumprido as medidas e vai apertá-las ainda mais, até o ponto que já não será possível também apertá-las mais. Para já, ainda é, ainda há uma margem de manobra e vontade não lhes falta. Isto para dizer que com estas coisas todas, estamos perante uma situação que fere com gravidade. E os juristas têm dito isso. Infelizmente, não temos um jurista — pelos vistos, não temos, pensávamos que tínhamos — na Presidência da República, mas há juristas que não estão na Presidência da República e que têm dito que isto é um atentado ao Estado de Direito. E que face a uma situação dessas, resta-nos pensar se devemos cumprir medidas que são atentatórias da nossa liberdade e de uma estrutura democrática que faz com que um Estado, que um país viva civilizadamente.

Mas Alberto, achas que não se justifica qualquer medida restritiva aplicada nesta altura? Faço esta pergunta também, já referiste os indicadores, e é verdade, os indicadores hoje não se podem comparar com os indicadores de há um ano, também em função da vacinação, como bem sublinhaste. Mas a verdade é que os internamentos têm vindo a aumentar de forma consecutiva há mais de 20 dias. Isto não deve fazer soar as campainhas e tentar, de alguma forma, prevenir cenários mais complicados?

Eu acho que neste momento a prevenção será tardia, em qualquer caso, porque a dificuldade em aceitarmos um número crescente de internamentos Covid prende-se com a situação do Serviço Nacional de Saúde, em geral, de uma forma muito mais profunda do que graças a uma situação meramente conjuntural. Se o Serviço Nacional de Saúde não tem condições para aguentar, acho que neste momento temos pouco mais de 100 pessoas em cuidados intensivos.

111. Ainda assim, é mais da linha vermelha dos 245.

200 e não sei quantos.

Sim, 245. Há volta de 250 internamentos em cuidados intensivos.

Exatamente. E julgo, e pelo que nos tinham dito no ano passado, não sei se a regra se mantém, dos internamentos em cuidados intensivos, apenas, já não me lembro se 20 e tal por cento, 30% é que estariam em ventiladores, os famosos ventiladores. Portanto, se o nosso Serviço Nacional de Saúde não aguenta isso e não aguenta muito mais do que isso. É preciso lembrar que a cada dia morrem 10 ou 12 pessoas de Covid, é o que tem acontecido. Nesse mesmo dia ou em cada dia, morrem mais umas 300 pessoas, uns 300 portugueses ou pessoas que vivem em Portugal, de outras doenças. O Serviço Nacional de Saúde tem que ter capacidade para muito mais do que isso e não se pode concentrar na Covid. E o facto de o ter feito até agora tem feito com que a mortalidade pelas outras doenças vá aumentando. O que eu queria dizer em relação às medidas, e que me perguntaste em relação às restrições, acho que não fazem sentido nenhum. Poderia fazer sentido alguma recomendação? Com certeza. Com certeza não devemos andar para aí a espirrar uns para os outros. Acho que isso não é uma recomendação ou um cuidado que se deva ter apenas em época de pandemia ou epidemia, que será mais o que temos agora. Acho que é uma questão de bom senso que devemos ter sempre. Em relação a estas medidas, por exemplo, o caso do certificado, para além da questão moral e que não é despicienda. A questão moral é importante, a questão de princípio. Ter que mostrar à entrada de certos estabelecimentos, ainda por cima privados, na grande maioria deles, um documento que atesta a nossa situação clínica ou a nossa situação sanitária, parece-me ofensivo. De qualquer maneira, o certificado anula por completo, e aqui está o ponto, aquele orgulho que tivemos na campanha de vacinação Porque se a campanha de vacinação correu tão bem, foi a melhor do mundo e vacinou praticamente toda a gente, é muito pouco provável que haja pessoas que não estejam vacinadas. Se não fosse obrigatório o certificado, que percentagem de pessoas não vacinadas haveria nesses locais? Não sei, 1%, 0,5%, às vezes nenhuma. Portanto, o certificado invalida o orgulho na campanha de vacinação, a exigência do certificado. E depois temos as máscaras e a testagem massiva que invalidam a crença na vacina. Aquela história de seguirmos a ciência.

E os testes negativos, que são cumulativos com o certificado de vacinação para entrar em alguns estabelecimentos, o caso das discotecas a partir da meia-noite.

Exatamente. Nesse caso, o teste anula qualquer crédito à vacina, porque se a pessoa tem o certificado de vacinação, se ainda tem de fazer o teste, é sinal que quem manda nisto não acredita na vacina. Embora continuem com a promoção da vacinação para a faixa etária X ou Y, ou a terceira dose. É um discurso altamente contraditório. Um discurso contraditório vai nitidamente implicar medidas que não só são contraditórias, como são simplesmente abusivas e patetas. Vindo de quem vem, não admira, porque não temos um historial de grandes líderes. Os líderes atuais misturam uma série de fatores terríveis para todos nós, misturam a prepotência com a ignorância e o resultado vê-se. Eles lançam umas coisas, e agora em período pré-eleitoral tinham que as lançar, acham eles, com a subscrição de praticamente todos os partidos. Eu só vejo a Iniciativa Liberal ter um discurso minimamente contrário ao oficial. De resto, ninguém tem coragem, vontade ou convicção de contrariar este estado de coisas. As únicas pessoas que me parecem contrariar isto, pelo menos com visibilidade, são os tais juristas, pessoas que se preocupam com o Estado de Direito e que o dizem publicamente e ainda vão tendo voz e alguns locais para o poder fazer. A partir desse momento em que há juristas de renome a questionar o ataque ao Estado de Direito que estas restrições e discriminações pressupõem, é de ficarmos preocupados. A preocupação é minha, pelo menos não começou hoje, começou praticamente desde o fim de março, início de abril de 2020, que ando bastante preocupado com isto. E o que se tem visto é que isto tem aumentado. Agora o governo, decretando um estado de calamidade, que ao que parece o governo não tem legitimidade para declarar da forma que o fez, segundo dizem os juristas, não sou eu. O governo tem carta-branca durante quatro meses para fazer de nós absolutamente o que quiser, com repercussões na saúde, como falámos há bocadinho, com repercussões na economia, com repercussões em tudo mais. Isto num país que está no estado que está, que está com a inflação a começar a subir, que não recuperou, nem iria recuperar tão cedo, de maneira nenhuma, das falências provocadas pelas brincadeiras dos confinamentos. A questão aqui é que as restrições são muito bonitas, caem muito bem no eleitor, porque as pessoas andam assustadíssimas, porque boa parte dos media também assustam as pessoas diariamente. E as pessoas querem isto. E como o português médio não valoriza muito a liberdade, é natural que estas medidas tenham um bom acolhimento. Agora, o problema é as repercussões que isto terá. E vai ter repercussões, incluindo nas pessoas que hoje aceitam as medidas por medo ou por acreditar piamente no doutor Costa. Não faço ideia, haverá de tudo. A verdade é que isto vai ter consequências e as consequências são muito mais graves do que a Covid ou do que esta pandemia, que neste momento é uma epidemia, ao que vemos. Convinha notar, eu sei que já não tenho tempo, as pessoas que vejam o que está a acontecer, por exemplo, na Rússia e na Ucrânia, que estavam com o recorde de casos e de repente já começaram a cair. Nalguns sítios, porque houve confinamentos, nalguns sítios caem sem haver confinamentos, sem haver as restrições que há noutros sítios, outros caem por causa das restrições, se calhar. Parece-me que não cai por causa de nada. O vírus anda por ciclos, como a gripe sempre andou por ciclos, isto é uma espécie de gripe. As pessoas crucificaram aquele senhor Bolsonaro, que realmente tem alguns motivos para ser crucificado. Mas dizer que isto é uma gripezinha é uma parvoíce. Dizer que isto é uma espécie de gripe e é uma doença do foro respiratório, parece-me factual. Nós vamos ter que, se calhar, viver com isto para sempre, com a Covid. Não podemos viver com as restrições à Covid para sempre, porque chega a um ponto que já não há sobrevivência possível.

Alberto Gonçalves, ideias feitas de hoje sobre o regresso das restrições e das discriminações, na opinião de Alberto Gonçalves, para o combate à Covid-19. Obrigada por ter ouvido este podcast. Se gostou, pode subscrevê-lo, pode partilhá-lo e também pode ouvir a Rádio Observador online em 98.7 em Lisboa e em 98.4 no Porto.