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"Ideias Feitas" na Rádio Observador com Alberto Gonçalves. Alberto, bem-vindo.

Olá, Ricardo. Obrigado.

E hoje queres voltar à bandeira LGBT?

Eu não sei se já falei do assunto.

Eu acho que sim, estou desconfiado que sim.

Por acaso tenho ideia que não mas é possível. Não tenho a certeza.

Deste ponto queres falar hoje? Não sei, não posso ter a certeza.

Por acaso tinha ideia que não, mas és capaz de ter razão, porque eu de certeza sou mais distraído que tu. No domingo passado, dia 17 de maio, assinalou-se o Dia Internacional contra a Homofobia e as câmaras municipais, a Câmara de Lisboa, a Câmara do Porto, hastearam a bandeira do arco-íris em frente aos respetivos edifícios e não nos próprios edifícios, porque em abril passado o Parlamento tinha aprovado uma lei que proíbe hastear bandeiras de movimentos, partidos e associações em edifícios públicos. Só podem estar as bandeiras institucionais, a de Portugal, da União Europeia e das autarquias. E se isto parece razoável, não pareceu nada razoável a uma série de pessoas que vieram criticar a lei. Por regra, essas pessoas vieram da esquerda, e vieram todas a público declarar que houve coisas inomináveis, um retrocesso nos direitos humanos, que a lei representa uma violação desses mesmos direitos, e que Portugal está a dar um péssimo exemplo. Não disseram isto, acho eu, pelo menos que eu devesse ler, ninguém disse isto tal qual eu vou dizer, mas a ideia era que Portugal começou ou voltou a discriminar a chamada comunidade homossexual e as outras variações de orientação sexual, que são cobertas pela sigla LGBT. Eu encontro aqui várias coisas esquisitas. Sempre achei esquisito que se imaginem comunidades de acordo com as preferências sexuais. Comunidade, no sentido clássico, implica, em princípio, critérios de proximidade geográfica, de relações diretas entre as pessoas, entre os membros. É isso que distingue comunidade de sociedade. Mas isso são pormenores. Outra coisa que eu acho mais esquisita e que já não é um pormenor, é fazer-se depender a aceitação social dos homossexuais do desfraldar de uma bandeira. Palpita-me ou desconfio com alguma convicção, com alguma certeza, que os críticos da tal lei das bandeiras estão mais interessados em, como se diz, marcar a agenda política do que com a situação dos homossexuais propriamente dita. Porque se eles, de facto, se interessassem pela situação dos homossexuais, em vez de protestar, notariam com satisfação que em vários rankings que se podem consultar por aí, é o ranking da ILGA Europe 2026, Portugal ocupa o 12º lugar entre 49 países europeus, com 67% de progresso nos direitos legais e nas políticas. Há outro índice, outro ranking que eu encontrei, que é o Equal, da XC Quality, e Portugal tem uma nota de 94 em 100 no que toca aos direitos legais. Também podiam notar que em Portugal o casamento entre pessoas do mesmo sexo foi aprovado em 2010, foi um dos primeiros países do mundo a aprová-lo, que a adoção por casais do mesmo sexo existe desde 2016, que há proteções fortes contra discriminação, no emprego, etc. Que Portugal pertence à maioria de países do mundo onde um cidadão que por acaso é homossexual pode levar a sua vida sem maçadas, pelo menos sem maçadas por ser homossexual, pode ter outras maçadas e terá com certeza, mas por outros motivos. Há muitos países, largas dezenas de países, infelizmente, que não são assim. Na maioria dos países do mundo, não fiz contas, mas pelo menos há muitos países do mundo ou demasiados países do mundo, em que a homossexualidade é punida. Claro que não é na maioria dos países do mundo que a homossexualidade é punida com a pena de morte. Mas há dezenas de países do mundo em que a homossexualidade é punida com a pena de morte ou, se tiverem sorte, com prisão perpétua. E nesses países, os que têm as leis mais abjetas ou os que têm as leis um bocadinho mais moderadas, mesmo sem as leis estarem em jogo, existe de qualquer modo uma altíssima rejeição social dos homossexuais, estão sujeitos à violência policial, violência popular, a chantagem, a humilhações, não dispõem de qualquer proteção. Discriminação nem vale a pena falar. E nesses países, o objetivo de um homossexual não é ver agitar-se a bandeira do arco-íris, imagino eu que seja sobreviver. E convém acrescentar que a larga maioria desses países que discriminam, para dizer o mínimo, os homossexuais, encontram-se no Médio Oriente, encontram-se em África e também nalguma Ásia, nalguma Europa de Leste. E acrescento ainda que a grande maioria desses países são muçulmanos. E eu não vejo os que fingem preocupar-se com os direitos dos homossexuais criticarem, uma vez que seja, os lugares onde os homossexuais têm realmente um estatuto sub-humano. Pelo contrário, até no caso do Médio Oriente, que é de longe o pior exemplo no que respeita ao tratamento dos homossexuais, os nossos entusiastas das bandeirinhas até costumam abominar com particular empenho o único país da região que não pratica nenhuma discriminação, não vale a pena nomeá-lo, e costumam exibir enorme simpatia pelos países restantes ou por quase todos os países restantes. Isto tudo para dizer, vou terminar, Ricardo, que a indignação da esquerda e da extrema-esquerda por causa da bandeira é só um evidente pretexto para fazer barulho e um pretexto que até me parece ofensivo para com os homossexuais, porque fingir que se defende os direitos dos homossexuais enquanto se grita por Gaza ou se deseja que o regime do Irão não perca a guerra é uma hipocrisia descomunal, é uma farsa grotesca que não convence ninguém ou, pelo menos, não devia convencer ninguém, mas há gente que acredita no que calha.

Obrigado, Alberto. Até amanhã.

Até amanhã, Ricardo.