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Este é um podcast da Rádio Observador. Pode ouvir a rádio também em 98.7, na Grande Lisboa, e 98.4, no Grande Porto. Para já, desfazemos ideias feitas. Junta-se a nós o Alberto Gonçalves. Alberto, boa tarde e bom ano.

Boa tarde e bom ano para nós.

Obrigada.

Bom ano, Alberto. E hoje o Alberto Gonçalves quer desfazer ideias feitas sobre a condecoração de Jorge Jesus, que no Palácio de Belém recebeu a Ordem do Infante D. Henrique pelo Presidente da República.

Sim, eu gostava de começar por notar que isso aconteceu poucos dias depois de o senhor Jorge Jesus ter perdido uma final de um campeonato do mundo qualquer de futebol, de clubes, a treinar uma equipa brasileira, no caso o Flamengo, e perdeu contra o Liverpool, que é treinado por um treinador alemão chamado Jürgen Klopp. E eu não sei o que aconteceu na Alemanha em volta desse treinador. Não sei se houve desfile de carro aberto, parada militar e comendas abundantes dadas pelo governo alemão, naturalmente. Não faço a mínima ideia, até acho que sei que não houve grandes notícias nos jornais alemães e nas televisões alemãs sobre o assunto. Mas o senhor Jorge Jesus tinha perdido uma final. Antes disso, parece que tinha ganho um campeonato brasileiro e um campeonato sul-americano, também de futebol, obviamente, a Taça Libertadores. Independentemente do que aconteceu ao senhor alemão, em Portugal as coisas não se passam como nesses países assim exóticos e o senhor Jorge Jesus foi obviamente alvo da Ordem do Infante Henrique. O senhor Jorge Jesus mostrou-se muito agradecido, naturalmente, e comovido, e até deu uma demonstração de conhecimento de história e disse que conhecia perfeitamente o Infante Henrique, pois no Brasil atravessava todos os dias uma rua que tinha o nome do Infante. E disse ainda que ele não tinha descoberto o Brasil, o que foi uma revelação para alguns. O Brasil tinha sido descoberto por Álvares Cabral em 1500 e que ele não era também Dom Pedro, que tinha dado a independência ao Brasil em 1822, etc. Portanto, o senhor Jorge Jesus deu uma aula de história e o senhor Presidente da República, que lhe atribuiu a ordem em causa, deu uma aula, à sua maneira também de história ou de outra coisa qualquer, que eu me escuso de nomear, mas comparou o senhor Jorge Jesus diretamente ao Infante D. Henrique, porque ambos desbravaram qualquer coisa, não me lembro exatamente as palavras do senhor presidente, mas foi uma coisa a dar para o épico sobre a carreira, sobre os feitos e as proezas do senhor Jorge Jesus, mais ou menos comparáveis, mais ou menos equivalentes aos feitos e às proezas do Infante D. Henrique. Isto em relação ao senhor Jorge Jesus como treinador de futebol ou se tivesse outra profissão qualquer. Não tenho muito mais a dizer, nem faço grandes juízos de valor sobre o assunto. O senhor aceitou a comenda, a ordem, recebeu-a e tudo bem. Em relação ao senhor Presidente da República, isto começa a ser um pouquinho extraordinário. Já não começa, já é extraordinário há bastante tempo, aquilo a que o professor Marcelo Rebelo de Sousa reduziu o cargo de Presidente da República. Ele vive numa exaltação, num otimismo e numa efervescência patriótica permanentes. Tudo é fantástico e qualquer português que consiga um terceiro lugar num torneio de carica no Bangladesh é provavelmente alvo, no dia seguinte, dos maiores agradecimentos oficiais. É uma forma de ver o cargo e tem as suas vantagens. Acabou de vez a solenidade da função da Presidência da República. Nós podíamos gostar do General Eanes, do doutor Soares, do professor Cavaco, do doutor Sampaio, podíamos gostar mais ou gostar menos ou não gostar nada, mas apesar de tudo, havia ali uma certa gravidade inerente, uma gravitas inerente à função. A partir do professor Marcelo, a gravitas acabou por completo. O professor Marcelo vem do mesmo meio televisivo que vinha o senhor Trump, mas conseguiu aligeirar a função a um ponto que nem o senhor Trump, que até se esforça por isso, consegue. Apesar de tudo, à maneira dele, o presidente dos Estados Unidos até vai tratando de um ou outro assunto minimamente sério e importante para o país dele e às vezes até para o mundo, da melhor ou da pior maneira, isso depois cada um terá a sua opinião. O professor Marcelo não trata de absolutamente nada que tenha algum relevo para alguém. Atribui estas coisas e passado um dia, julgo que passado logo no dia seguinte à atribuição da ordem ao senhor Jorge Jesus, o professor Marcelo estava a passear no meio do nevoeiro na Ilha do Corvo, onde foi jantar com meia dúzia de pessoas lá que se dignaram comparecer e com umas dezenas largas de pessoas que ele levou aqui do chamado continente, e a dizer mais umas banalidades, que tinha que passear seis quilômetros por dia e umas coisas assim. Ou seja, não há nada que saia daquele senhor, que neste momento é o presidente da República, chefe de Estado e pelo qual temos que ter todos muito respeitinho, não há nada que saia dali que tenha o mais vago interesse, o mais vago impacto na vida do país. Pronto, e a partir de agora é possível elegermos seja quem for, sem grande preocupação com as consequências, porque o cargo de presidente desceu a isto ou subiu a isto, porque parece que as pessoas gostam. De alguma forma, há uma identificação muito grande, não digo total, mas há uma identificação muito grande da atitude e do tipo de desempenho do professor Marcelo com aquilo que o cidadão médio, digamos, espera de um presidente. E nisso ele tem sido exímio e vai ser reeleito com certeza, apesar de ele querer fazer umas reservas em relação à sua eventual recandidatura. Obviamente que se vai recandidatar, salvo alguma calamidade pessoal, que não lhe desejo. Vai se recandidatar, vai ser eleito com maior porcentagem do que a que teve, com certeza, e é um sinal de que é este tipo de presidência que o povo quer. O povo tem querido muitas coisas estranhas e tem conseguido tê-las. Se não tenho mais nada a dizer, aproveito para desejar um bom ano outra vez a toda a gente aí da Rádio Observador e, já agora, aos ouvintes.

Um bom início de ano também para o Alberto Gonçalves, hoje a desfazer ideias feitas sobre as condecorações do Presidente da República, condecorações concedidas pelo chefe de Estado e, em particular, esta da condecoração de Jorge Jesus. Foi no passado dia 30 de dezembro. Na altura, dizia Marcelo Rebelo de Sousa que Jorge Jesus contribuiu e contribui para projetar o prestígio de Portugal.

Voltamos a desfazer ideias feitas com Alberto Gonçalves amanhã, sexta-feira. Esta edição fica disponível