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O Ideias Feitas. Ideias Feitas na Rádio Observador com o Alberto Gonçalves. Olá, Alberto, bem-vindo.

Olá, Ricardo, obrigado.

E hoje vais falar sobre o regresso quase anunciado de Pedro Passos Coelho. Estiveste a ver a entrevista ontem à noite?

Estive sim, senhor Ricardo, e queria dividir o comentário que vou fazer em três ou quatro pontos. Em primeiro lugar, a forma, não propriamente a forma da entrevista enquanto método jornalístico, mas a forma com que Pedro Passos Coelho se apresentou e uma pessoa vê o Pedro Passos Coelho a falar e parece que entrou noutra dimensão por comparação aos políticos que vieram, estou a falar de Portugal, que vieram depois dele e também por comparação à vasta maioria dos políticos que aqui antecederam. Não vale a pena citar nomes, basta pensar em qualquer primeiro-ministro, presidente ou ministro relevante das últimas duas décadas, pelo menos, e todos parecem um tanto garotos. Eu ia dizer até ridículos, mas acho que a palavra certa ou mais adequada será: parecem capazes perante Pedro Passos Coelho. Não será um Lincoln, um Churchill. Já tivemos o nosso Churchill e chegou. E por isso, por não ser um Lincoln ou um Churchill, não é assim dado a arrebatamentos líricos e também uma entrevista televisiva não seria o espaço adequado para isso. Mas ele fala com uma clareza e transmite uma impressão de seriedade que são próprias dos adultos, que a quase totalidade dos nossos estadistas deste século não são. E além de ser adulto, ele faz outra coisa raríssima num político português contemporâneo. Ele trata os cidadãos como adultos e só isso, ou seja, só a forma de se apresentar, a forma de falar, já seria suficiente para o distinguir. Mas além da forma, houve conteúdo, claro, e o conteúdo das respostas do Pedro Passos Coelho à Maria João Vilas traça um diagnóstico, é sempre uma opinião minha, claro, mas é para isso que eu aqui estou, traça um diagnóstico essencialmente impecável dos problemas e das necessidades do país. Eu não vou agora, obviamente, estar a enumerar os pontos em que ele tocou. De modo genérico, estão todos na entrevista e estarão todos, com certeza, com muito maior pormenor no estudo que ele acabou de coordenar a pedido da Associação Comercial do Porto, que será apresentado em novembro, ao que parece. Mas tudo resumido, percebe-se que ele tem uma noção firme e uma noção coerente que Portugal não sairá desta modorra sem reformas, reformas a sério e não ilusões de reformas sem tradução real ou sem consequência prática. E também nisto Pedro Passos Coelho se distingue dos senhores que têm mandado no país nas últimas décadas. E depois há o ponto mais relevante, ou pelo menos o tema que criara mais expectativas em volta da entrevista, que é a decisão dele sobre o regresso à política e só o facto de ele ter concedido a entrevista, acho que foi a primeira que ele deu a um canal televisivo desde que deixou de ser primeiro-ministro, só isso já era um indício fortíssimo da sua disponibilidade e os outros indícios foram dados na conversa com a Maria João Velez, e sem margem para equívocos, acho eu, ele está disponível para voltar a desempenhar funções políticas logo que haja as condições certas, o que ele entenda serem certas, naturalmente, para que isso aconteça. Ele não disse e não podia dizer que essas condições incluem a queda antecipada do governo, ou muito provavelmente incluem, e a convocação de eleições antecipadas e a derrota do doutor Montenegro, essas coisas todas. Mas a acreditar nas sondagens, nada disto parece excessivamente improvável, até acho que muito pelo contrário, acho que estamos mais para isso do que para outra coisa. E para como é escusado dizer, que ele tem total perceção daquilo que eu vou dizer agora, há no país dito à direita um eleitorado bastante desejoso de que o Pedro Passos Coelho regresse e tome conta do país. Eu não tenho números, acho que não há sondagens muito específicas ou atualizadas sobre isso, mas acho que é relativamente fácil sentir que há muita gente que hoje vota no Chega e a uma escala diferente vota na Iniciativa Liberal e que preferiria votar num projeto liderado pelo Pedro Passos Coelho, num projeto ou num partido. E há muita gente que vota no PSD, que está desiludida com a opção do partido por governar a imagem do doutor Costa ou gerir o dia a dia, como disse o Pedro Passos Coelho ontem. E tudo somado, não me parece demasiado arriscar prever que ele tem condições para voltar um dia ao poder, seja apenas com o PSD, por relativo esvaziamento dos demais partidos à direita do PS, ou seja, e acho que será a hipótese mais forte, será o mais plausível de acontecer à frente de um movimento comum, com alianças pré-eleitorais ou pós-eleitorais ou acordos parlamentares, o que for. Agora, só há nisso tudo um pormenor que me levanta dúvidas, porque uma coisa é haver eleitores suficientes para dar uma vitória a Pedro Passos Coelho, seja de que maneira for, porque ele é um homem sério e porque as pessoas percebem que ele é um homem sério e suscita uma confiança que os demais líderes ou candidatos a líder se calhar não suscitam ou com certeza não suscitam. Isso é uma coisa. Outra coisa é esses eleitores, ou a maioria deles, quererem para o país as reformas estruturais e necessariamente dolorosas, que o Pedro Passos Coelho evidentemente propõe. É disso que ele está a falar constantemente. Em suma, mesmo para terminar, Ricardo, até por conta da ansiedade em que imensos portugueses vivem, que foi a palavra que ele referiu ontem, há imensa gente a gostar do Pedro Passos Coelho, a preferir a segurança e a decência do Pedro Passos Coelho às alternativas disponíveis e a concordar com ele na identificação das causas até da nossa estagnação. Eu não sei é se haverá tanta gente disposta a aceitar as soluções que ele prescreve. Acho que é uma coisa diferente. Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa, como algumas pessoas dizem de forma bastante irritante, mas neste caso acho que se aplica. Acho que não sei se há mesmo os portugueses que gostam de Passos Coelho, não sei se todos esses portugueses estão dispostos a aceitar os sacrifícios que ele no fundo insinua que nos vai pedir.

Obrigado, Alberto e até amanhã.

Até amanhã, Ricardo.

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