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Desfazemos ideias feitas com o Alberto Gonçalves e hoje de olho aqui, Alberto, no PSD. Olá.

Olá, Vanessa. Sim, até porque no Ideias Feitas de anteontem, pelos vistos de eu entender algumas pessoas, erradamente, mas venho aqui corrigir, que eu estava a criticar o PSD por não ter votado favoravelmente a moção de censura apresentada pelo Chega. Ora bem, se eu disse isso, acho que não disse, mas se eu disse isso foi certamente um equívoco. Acho que o PSD não tem que votar favoravelmente nenhuma moção de censura apresentada pelo Chega ou não tem necessariamente que o fazer. O PSD teria que apresentar, não necessariamente anteontem, mas faria bem em apresentar, acho eu, uma moção de censura ao governo. Um governo que é censurável sob muitos aspectos e que, pelos vistos, o PSD não acha assim. O que se passa é que o PSD parece concordar genericamente com esta forma de governação ou com estas políticas ou com as consequências destas políticas, que é o mais importante. E, portanto, nunca apresentou desde que o Dr. Rio chegou à liderança do partido, e agora com o Dr. Montenegro, o PSD nunca apresentou uma moção de censura. Para além das moções de censura, também nunca arranjou outra forma completa, nunca disse claramente que este governo já não podia continuar. Isso disse, isso escapou-me, ou disse durante um momento muito específico e cinco minutos depois já se tinha esquecido. Ou seja, o PSD acha mais ou menos, ou parece achar mais ou menos natural que o PS continue a governar e que só não acha natural ou não aprecia tanto que o PS não chame mais o PSD para discutir assuntos e para combinar medidas e políticas, como esta questão agora do IRS, por exemplo. O PSD tornou-se um partido subalterno ou, como se diz por aí, continua a apostar no eleitorado do centro, seja lá o que isso for, e seja lá o que o centro for em Portugal, sobretudo. É um centro bastante inclinado para a esquerda, mas é o tipo de estratégia, pelos vistos, que o PSD decidiu assumir. Essa estratégia tem dado resultado? A meu ver, nem por isso. E no entender das sondagens, também parece que não. Saiu hoje, salvo erro, mais uma sondagem, e o PSD, com esta governação socialista toda, ou com todas as consequências da governação socialista, insisto, o PSD está abaixo do PS nas sondagens. Ou seja, em qualquer país, em qualquer regime democrático normal, um partido que governasse como governa o PS estaria praticamente, não digo que teria sido erradicado, embora nalguns casos isso não seria totalmente de pôr de parte, mas era um partido que estava neste momento nas sondagens com percentagens absolutamente a rondar um dígito, provavelmente. Em Portugal isso não acontece, e não acontece só porque não é que os portugueses sejam particularmente tapadinhos e privilegiem a governação do PS, embora haja portugueses que realmente beneficiam da governação do PS e outros que não entendem, provavelmente, o que a governação do PS simboliza. Agora, o problema é que também não tem alternativa, porque a alternativa óbvia, aquela alternativa que o tem sido no último meio século em termos de governo, de poder, da alternância de poder, que é o PSD. O PSD não quer ser alternativa ao PS. O PSD quer ser uma espécie de muleta, de apoio, este PSD, ao PS e, portanto, os resultados notam-se e notam-se também nas sondagens, em que o PSD está igual ao PS, porque o PSD quer ser igual ao PS. Não querendo ser diferente, seria difícil que as sondagens mostrassem resultados propriamente diferentes e que mostrassem o PSD lançado no primeiro lugar. Com base em quê? Nunca saberíamos. Não há nenhum motivo para realmente as pessoas acorrerem em massa ao PSD a votar ou a dizerem que votam em massa no PSD, dado que o PSD não apresenta nenhuma diferença significativa ou de maior face ao PS. Portanto, é muito natural que as sondagens mostrem os resultados que mostram. Agora, para terminar, há aqui uma outra questão que de vez em quando vem à baila, que é a questão do Pedro Passos Coelho, que toda gente sempre percebeu que o Rui Rio era um líder provisório do PSD, toda gente percebe ou intui que o doutor Montenegro é um líder provisório do PSD. Ninguém vê um líder definitivo do PSD na fila, a não ser, hipoteticamente, e se ele decidir regressar à política ativa, o Pedro Passos Coelho. Ninguém faz ideia, presumo que o próprio faça, mas de resto que eu saiba, ninguém faz ideia se ele vai voltar ou se não vai voltar. A questão começa a ser ele voltar para onde? Voltar para que partido? Será que este partido de cuja liderança ele saiu já há seis, sete anos, será que este partido ainda é o mesmo partido do qual ele foi líder por volta de 2012, 2013, 2014, quando ele foi primeiro-ministro? Será que é o mesmo partido? Será que faz sentido que ele volte a este partido? Será que ele voltando a este partido, o partido quer acolhê-lo como o líder que uma pessoa imagina que acolheria? Até agora era mais ou menos expectável que o PSD receberia o Pedro Passos Coelho de pé e com aplausos e rendido ao regresso dele. É possível que isso aconteça, porque as massas e mesmo as massas partidárias são bastante volúveis Um partido que tem tido as atitudes políticas que tem tido o PSD ao longo dos últimos meia dúzia de anos, é difícil de imaginar o Pedro Passos Coelho a ser líder deste exato partido. Um partido que não quer separar-se, não quer distinguir-se do socialismo, do que ele chama o centro. Não é a social-democracia, não é centro nenhum. É o socialismo, o marxismo muitas vezes explícito do Partido Socialista, de forma um bocadinho mais mitigada, mais moderada aqui ou ali, mas na realidade é isso. Será que faz sentido aquela coisa do regresso de Pedro Passos Coelho, que para muitos portugueses seria mais ou menos a salvação da direita e seria uma forma de dar uma clareza à vida política portuguesa. Será que isso ainda faz sentido? Não por culpa do Pedro Passos Coelho, mas por culpa do partido ao qual ele ainda, suponho, pertence. Esse partido começa a não fazer sentido para acolher o Pedro Passos Coelho. Não estou a ver também um outro partido em que faça sentido o regresso dele, não é isso que eu estou a dizer. Mas enquanto líder do PSD, começa a ser difícil reconhecer este PSD no PSD clássico, não num sentido especialmente positivo ou negativo do termo, mas num partido que ao longo de décadas se distinguiu do Partido Socialista por combater o socialismo. Naquelas histórias que o Sá Carneiro preconizou o PSD enquanto um partido socialista ou inclinado à esquerda, dependia do contexto da época. Toda gente sabe que o Sá Carneiro estava muito longe de ser um socialista, tal como o professor Cavaco nunca foi um socialista, tal como Pedro Passos Coelho não é um socialista. Pelos vistos, os atuais líderes ou os recentes líderes do PSD parecem andar próximos do socialismo, ou pelo menos não se importarem que o socialismo tome conta do país, com os resultados que se conhecem. Os resultados que se conhecem são maus para o país e esta atitude do PSD é má para o PSD e esse seria o menor desta história toda. O maior mal é o mal que isto provoca ao país. Quanto ao Pedro Passos Coelho, começa a ser difícil imaginá-lo neste partido, mas os partidos dão muitas cambalhotas e muitas voltas, portanto nunca se sabe o dia de amanhã. Vamos ver.

E é por isso que fazes esta pergunta, Alberto Gonçalves, no título que escolheste para o "Ideias Feitas": Passos Coelho ainda tem partido para onde voltar? E nós voltamos amanhã, Alberto. Até amanhã.

Até amanhã, Vanessa.

Rádio Observador